O Piolho Viajante/XXXIX

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O Piolho Viajante por Policarpo da Silva
Carapuça XXXIX


Cheguei a uma cabeça de juízo e de descanso mas pouco tempo durou a minha felicidade. Agora verão os meus Leitores que o meu espírito não é de contradição e que, se até agora tenho dito mal, é porque tenho de que o dizer. Sou piolho, mas o meu espírito é verdadeiro. Não sou capaz de lisonjear e também incapaz sou de levantar testemunhos. Sou um verdadeiro e hábil retratista. Não sei bem meter as cores mas os semblantes tiro-os à risca. Cheguei a uma cabeça que devo louvar. Não me custa dizer bem, não faço nenhum esforço, antes estou contente por esta ocasião de mostrar a minha boa índole. Pois que eu receio muito de que na minha vida torne a alguma cabeça de que possa dizer bem. Mas, quem sabe? Ainda estou moço e com bastante experiência do que são cabeças e do que são unhas. Pode ser que escape, o que estimarei porque, na verdade, a minha balda é viajar e saber das vidas alheias, não para o contar (vossas mercês bem podem julgar que não é esse o meu génio) mas para escrevê-lo e dá-lo ao prelo. Não é por outra coisa. Tomara eu que depois da minha morte fosse esta minha obra parar à mão de algum piolho do meu génio para que a continuasse. Pois que já que na minha casta não tem havido quem escreva, queria eu ter a glória de que o mundo soubesse que eu tinha sido o motor dela e que a literatura piolhesca era devida a mim. Desejava que os meus semelhantes mostrassem que assim como os outros animais são susceptíveis de adquirir conhecimentos e prendas, os piolhos não são de menor qualidade. A sábia natureza repartiu igualmente com todos. Não cuidem, pois, os que estão acima de mim que são mais do que eu. Todos somos animais e sabe Deus se eu tenho pesar de ser piolho. Melhor raciocino do que muitos mas, porque estão mais nas vistas e nas modas, julgam-se de melhor condição. Pobres tolos! Quantas vezes me estou eu rindo deles por os ver... Mas não vale dizer mal já que estou numa cabeça de que hei-de dizer bem.

Uma formosa menina dotada de todas as perfeições da natureza, acompanhada da mais bela educação e unindo a isto tudo o mais excelente coração, é a cabeça que me vai servir de morada e de quem eu vou fazer os devidos elogios. Era formosa sem se olhar e discreta sem se ouvir. Era cheia de virtude e o fundo da sua alma o mais sublime. Tinha muito pouca idade, mas estava inteirada dos seus deveres. Possuía um coração terno mas sabia muito bem conduzi-lo. Quando eu lhe fui à cabeça, amava extremosamente um rapaz de belíssimas qualidades. E lembra-me que logo na primeira noite, depois de recolhida ao seu quarto, estando tudo em silêncio, tirou ela de um papel que leu e dizia assim:

Não meu bem, tu não amas! Tu não fazes senão nutrir e iludir a minha paixão! Até estou capacitado de que me aborreces! Que te espreguiças nos meus desgostos! Vês-me louco de amor e não me remedeias. Enquanto eu, desesperado, rasgo o coração a ver se te encontro, tu vives sossegada. Peço-te um só momento de poder estar contigo e tu, ingrata, não mo concedes!

Basta, disse ela, rasgando o papel. — Eis aqui em que funda este amante a sua felicidade. Diz que ama e quer roubar a virtude que me adorna, sendo esta a única causa por que devo ser amada. Como os homens estão depravados! Nós, infelizes mulheres, devemos ter por guia a religião e vós, monstros, o prazer e o interesse? Não, ingrato, tu não me amas. Se me amasses não quererias que eu fizesse uma acção contra o meu decoro. Meus pais consentem que eu te veja e que te fale na sua presença. Mas tu, que te não contentas disto, queres-me iludir porque eles não me enganam. Eu amo-te, é verdade, é verdade que o meu coração é teu. Se ele quiser exigir do meu amor mais do que a honra deve consentir a um amante... Então esta ajuizada e galante menina se levantou furiosa, deu alguns passos até que se chegou a uma banca onde estava um tinteiro e papel, assentou-se e escreveu estas poucas palavras:

Sim, querido, quero conceder-te quanto dizes. Eu me espreguiço nas tuas desgraças, mas antes eu o faça nas tuas que tu nas minhas, pois que estas não teriam remédio e as tuas, se é que o são, são momentâneas. Sabes porque ainda te escrevo estas últimas regras? É porque me obriga amor que a razão há muito me diz que não. Se eu fora capaz de envilecer-me, que merecimento teria esta desgraça diante dos teus olhos e que esperaria eu que os outros me fizessem? Ingrato. E dizes que amas! E tens valor para exprimires com palavras tão vivas tão claras mentiras, dizendo-me que só pretendes falar-me! Que mais posso eu expressar-te? Já te disse que te amava. Assaz fiz bastante. Se me amasses outro tanto, com quem tinhas agora que falar era com os meus Pais (tristes pais, quanto eles se enganam contigo!). A eles é que devias dirigir-te porque eu jamais fugirei da sua obediência e vontade. Eles amam-me e eu faço as delícias do seu coração. Ah, sim, eles não duvidam deste amor e eu tenho sido uma má filha. Tenho escondido da minha mãe os teus enganos. Mas mais não triunfarás de mim. Amanhã me lançarei a seus pés, contar-lhe-ei as minhas fraquezas e, se for repreendida, não serei enganada.

Querido, ainda pela última vez assim to chamo. Se me amas, se não me queres perder, ou amanhã serei tua ou nunca mais o serei.

Acabou de escrever, abriu uma janela, atirou com o escrito ao amante, que debaixo esperava a hora do colóquio e que por mais que lhe pedisse com mil carinhos que se demorasse um só instante, ela não lhe ouviu uma só palavra. Fechou outra vez a janela e deitou-se a dormir com aquele sossego que só tem o que dorme sem crimes.

Eu estava como fora de mim vendo um tal procedimento. Cheguei a dar dois passos para me desenganar se dormia ou estava acordada. Será isto possível?, dizia eu comigo mesmo. Será então caso novo! Uma rapariga de tão pouca idade e neste século, ter valor para responder assim a um rapaz que ama. Ah, que se fosse igual a educação e o carácter das raparigas, quanto elas não seriam mais felizes! Não haveria tanto celibatário e as nações seriam mais populosas e mais sadias e eu teria mais cabeças e melhor sangue para meu sustento. Os homens não fariam tão pouco caso das mulheres. A sua linguagem não seria sempre a mesma e eles mais amariam um sexo que faz a paz e o sossego dos homens.

Lembra-me um célebre caso que sucedeu a um piolho meu amigo que namorava uma lêndea moradora no alto da cabeça de uma adela e lhe pedia que, em sendo meia-noite, lhe viesse dar uma palavra atrás da orelha esquerda que era onde ele assistia. A lêndea nunca caiu no ópio, até que, por fim, casaram e foram ambos viver para uma cabeça onde eu então assistia e da qual adiante falarei. Fui convidado para a boda que se fez a horas em que o dono da cabeça dormia, o qual acordou a um solo que um piolho lhe bailava num cabelo. Mas tornou logo a pegar no sono porque o tal amigo tinha visco por todo o corpo que pegava a cada passo, principalmente nos olhos e, além do visco, não se lavava senão de mês a mês. Vamos, porém, ao que serve e ao tal passo galante que observei à ceia e que foi dizer o piolho à lêndea: — Olha, minha amiga, fizeste bem em não condescenderes com o que eu te pedia, em vires falar-me fora de horas. Eu queria-te experimentar e, se tu o fizesses, eu não estava agora casado contigo.

A lêndea respondeu-lhe com toda a sinceridade: — Olha, não caísse eu! Não, que eu já estava escaldada.

O piolho ficou tão triste e tão envergonhado da resposta que nessa mesma noite desapareceu e a mulher, dali a dias, foi procurar vida. Disseram-me que se pôs a vender couves. Ah, raparigas, raparigas, tomai juízo e sereis mais felizes, sereis mais respeitadas e não ficareis tantas para tias.

Pela manhã muito cedo veio uma criada chamar a menina porque lhe mandava dizer sua mãe que se vestisse, que tinha que lhe falar. Ficou assustada, mas a criada disse-lhe, a rir: — Não se aflija que o caso é de gosto.

— Pois que é? Dize-me, Tomásia (que assim se chamava a criada). A criada tornou a rir e tornou-lhe a dizer: — Não é causa de cuidado, minha Senhora. É o seu amante que teve medo que vossa mercê fugisse esta madrugada, porque veio antes do amanhecer pedi-Ia a seu Pai. Chamou este sua mãe e concordaram que sim. Falta só a sua aprovação, para o que a mandam chamar. E eu estive quase dizendo-lhes que não precisavam chamarem-na porque sabia a sua boa vontade.

— Agora sim, agora sei que me ama, disse ternamente a menina. Vestiu-se com pressa. Comia-lhe a cabeça, que não fazia senão coçar-se. E eu dizia: — Não sei que diabo têm comigo os casamentos que sempre os contraentes me saltam em cima. Pois não! Em esta casando, apesar de estar bem acomodado, ponho-me ao fresco.

Apareceu a menina toda vermelhinha. Propuseram-lhe o caso que aprovou com os olhos e com o coração. E disse de boca que ela estava por tudo que seus Pais determinassem. Mas a mãe disse: — Não minha filha, é preciso que tu digas sem constrangimento a tua vontade.

Então a pobre e virtuosa menina, botando-se-lhe aos pés, confessou o seu amor e o noivo também confessou que ela tinha feito bem em não cair no que ele, com tantas instâncias, lhe tinha pedido. Esta, porém, não teve que responder que já estava escaldada. Ajustou-se o casamento para se celebrar daí a dias e eu logo me pus à espreita para onde havia de passar, pois lá em cabeça de noivos, nunca mais. É certo que tinha pena de largar uma cabeça que tudo quanto fazia era com acerto e sossego. Mas a minha sorte era sempre andar em mudanças. Na véspera do noivado, penteou-a a criada. E eu, que até ali não tinha achado outra cabeça, fui para a da criada e agora verão a guapa carapuça que faz o número de XL.