O Senhor João Teixeira

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Ao capitão João Teyxeira de Mendonça querendo fugur com a fazenda dos defuntos, e ausentes, de que era thesoureiro e foy prezo.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsEspada e Espadilha

 
1O Senhor João Teixeira
Mendonça de quando em quando
na cadeia está purgando
humores de ladroeira:
a Putaina, que era herdeira
universal dos defuntos,
perdeu já redoma, e untos,
e está já desenganada,
que o ladrão mata a porcada,
e o Fisco come os presuntos.
  
2Tinha o Fidalgo tostado
(como ladrão tão astuto)
os bens em lugar enxuto,
mas mal acondicionado:
estava o barco ancorado,
e nisto esteve a ruína,
porque a carga era rapina,
e deu-nos espanto, e mágoa,
de que pela veia d'água
se desse naquela mina.
  
3As Almas do Purgatório,
como os fardos eram seus,
estavam pedindo a Deus
cada qual seu envoltório:
ouviu Deus o peditório,
e com ter tão forte mão
em qualquer execução,
vendo-as perder por instantes,
se ajudou de uns Ajudantes
para fazer a prisão.
  
4Foram eles à setia,
e dizem, que se prendera,
porque tão sôfrego era,
que furtava, e não partia:
o Tesoureiro esse dia
fazia conta de se ir,
e a tardança o fez cair
e então se lhe ouviu dizer,
furtava para esconder,
porém não para partir.
  
5Ladrão como mentecapto
no profundo do porão,
passado como ladrão,
e fino como mulato:
deram-lhe muito mau trato
em o trazer amarrado,
sendo que andou como honrado
em seguir aquela via,
que eu não vi na fidalguia
Mendonça sem ter Furtado.
  
6A parentela se ria,
que é gente, que aqui negreja,
porque lhe causava inveja
ver, que lhe dava honraria:
alvoroçou-se a Bahia
entre admiração, e gozo,
porque era caso espantoso,
que tomasse sem ser Saulo
o caminho de São Paulo
um ladrão facinoroso.
  
7Ficou no porto a setia,
e o Tesoureiro selvagem
chegou, sem fazer viagem
a salvamento a enxovia:
diz o povo, que fugia
por de todo estar quebrado;
mas o povo está enganado,
porque eu vi o Tesoureiro
na cadeia mui inteiro,
e mui desavergonhado.
  
8Já dizem as profecias
dos homens exp'rimentados,
que a quatro dias andados,
ou daqui a quatro dias,
todas as tesourarias
adrede lhas hão de dar,
por ser homem singular,
que guarda a rigor da lei
tanto a fazenda d'EI-Rei,
que El-Rei a não pode achar.
  
9E se a justiça lhe deu
no rasto por tantas calmas,
já disse, que foram almas,
que choraram pelo seu:
aos Santos (sempre ouvi eu)
era seguro o furtar,
porque não podem falar;
mas d'almas não há fiar-se,
que se não podem queixar-se,
contudo podem rezar.
  
10Toda a cidade notou,
que este Tesoureiro alvar
é tão destro no embolsar,
que a si mesmo se embolsou:
na cadeia se encaixou,
que é bolsa dos maus ladrões,
e se os doutos cabeções
fazem crime de ausentar-se,
hei medo, que há de chegar-se
do verdugo aos calções.