O Sertanejo/I/IV

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O Sertanejo por José de Alencar
Primeira Parte, Capítulo IV: A herdade

A HERDADE.


     A morada da Oiticica assentava á meio lançante em uma das encostas da serra.

     Erguia-se do centro de um terrado revestido de marachões de pedra solta. Por deante, além do terreiro, descia a rampa com suave ondulação até á planice ; atraz da habitação, remontava-se ao dorso de uma eminencia donde cahia abrupta sobre um vale profundo que a separava do corpo da montanha.

     Na frente elevava-se no terreiro, á algumas braças da estrada, a frondosa oiticica, donde viera o nome á fazenda. Era um gigante da antiga matta virgem, que outrora cobria aquelle sitio.

     Na occazião da derrubada, sua majestosa belleza moveu o fasendeiro a respeital-a, destinando-a á ser como que o lar indigena da nova habitação fundada ahi nesses ermos.

     As casas da opulenta morada eram todas construidas com solidez e dispostas por maneira que se prestariam sendo preciso, não somente á deffeza contra um assalto, como á resistencia em caso do sitio.

     Occupava a maior area do terreiro um edificio de vastas proporções que prolongava duas azas para o fundo, flanqueando um pateo interior, bastante espaçoso para conter horto e pomar.

     Á' extremidade de cada uma dessas azas prendiam-se outros edificios menores, alguns já trepados sôbre os pincaros alpestres, porém ligados entre si por massiços de rochedos que formavam uma muralha formidavel.

     A tapeçaria e alfaias da casa eram de uma sumptuosidade que se não encontra hoje igual, não só em toda a provincia, mas quiçá em nenhuma vivenda rural do imperio.

     Naquella epocha, porem, os fasendeiros tinham por timbre fazer ostentação de sua opulencia e cercar-se de um luxo régio, supprimindo assim em torno de si o deserto que os cercava.

     Havia fasendeiro, e o capitão-mór Campello era um delles, que não comia senão em baixella de ouro, e que trazia na libré de seus criados e escravos, bem como nos jaezes de seus cavallos, brocados, velludos e telas de maior custo e primor do que usavam nos paços reaes de Lisbôa os fidalgos lusitanos.

     Datava do começo do seculo dezesete a primeira fundação da herdade ou fasenda, como já então se entrava a chamar esses novos solares que os fidalgos de fortuna iam assentando nas terras de conquista, como outrora o haviam feito no reino outros aventureiros, tambem ennobrecidos pelo valor e pelas façanhas.

     Naturalmente lembraram-se nossos avoengos de pôr esse nome ás granjas de maior trafego pela rasão de representarem os grossos cabedaes e grandes posses de seus donos. Dahi veio a designação no norte aos cazaes de criação, como no sul aos predios de lavoura.

     O gado de varias especies, que os primeiros povoadores tinham introduzido na capitania do Ceará, se propagara de um modo prodigioso por todo o sertão, coberto de ricas pastagens.

     Succedera o mesmo que nos pampas do sul ; as raças se tornaram silvestres, e manadas de gado amontado, que ainda hoje na provincia chama-se barbatão, vagavam pelos campos e enchiam as mattas.

     Chegando a noticia desta riqueza ás capitanias visinhas, muitos de seus habitantes, ja abastados, víeram estabelecer-se nos sertões do Ceará ; e ali fundaram grandes herdades, obtendo as terras por sesmaria.

     Nessa ocupação do solo, a cobiça de envolta com o orgulho gerou as lutas acerrimas e encarniçadas que durante o seculo desoito assolaram a nascente colonia.

     Entre todas, avulta a guerra de exterminio das duas poderosas familias dos Montes e Feitosas, que se acabou pelo anniquilamento da primeira. Desta barbara contenda ficou sinistra memoria não só na chronica da provincia, como no escholio de sua topographia.

     Com outros sesmeiros, veio de Pernambuco o velho Campello, que tinha fundado a herdade, e a transmittira por successão havia já vinte annos ao filho, o actual capitão-mór.

     No tempo da fundação da fazenda ainda o formoso e ameno sertão de Quixeramobim, que os primeiros povoadores haviam denominado Campo maior por causa da extensão, achava-se quase inhabitado.

     Apenas se encontravam alguns ranchos onde se acolhia uma população vagabunda de aventureiros, que percorriam o sertão, vivendo das rapinas e dos recursos que lhes offerecia a fartura da terra.

     Só em 1755 fundou-se sob a invocação do Santo Antonio de Padua a primeira freguezia, a qual mais tarde foi criada villa pela carta régia de 13 de Junho de 1789, que a separou do termo de Aracaty.

     Sob o dominio do actual dono, a fazenda continuou á prosperar e com o volver dos annos adquiriu novas pertenças, com que mais se excedia ; não lhe faltando nenhuma das commodidades e recreios que pedia um viver á lei da grandeza.

     Tal era a herdade á que chegara o capitão-mór nessa tarde de 10 dezembro de 1764.

     Tornava elle do Recife, aonde á volta de cada tres annos costumava fazer uma viagem. Desta vez levara a familia para mostrar a capital do Pernambuco á D. Flor, que ainda não a tinha visto ; pois só para visitar a avó em Russas ou para assistir aos officios da semana santa no Icó, havia a donzella alguma rara vez deixado a Oiticica onde nascêra.

     Ao cabo de sua jornada, já em terras da fazenda, fora o capitão-mór atalhado pelo fogo, que afinal conseguira extinguir com sua gente.

     Concluido o serviço, encaminhara-se para a casa e acabava de parar no terreiro, embaixo da oiticica.

     A's acclamações com que o acolheu toda a gente da fazenda pressurosa ao seu encontro, respondeu com um aceno repetido da mão esquerda ; e apeou-se afinal sem esforço, mas guardada a pausa e medida de que jámais se desairava.

     Ali deu audiencia de chegada á todas as pessoas, que uma apoz outra, desde o capellão e o feitor até o ultimo dos escravos, vieram sauda-lo dando-lhe boa-vinda ; a cada um escutava com paciencia, examinando-lhe as feições para notar a mudança que por ventura fizera, e dirigindo-lhe alguma breve pergunta.

     Depois que passou o último da turma, volveu o capitão-mór os olhos para o seu feitor.

     — Falta um !

     — Com licença de vossa senhoria ; parece-me que estão todos.

     — E o Arnaldo ?

     — Esse não se conta ; desde o dia em que o sr. capitão-mór sahiu de jornada, que elle tambem desappareceu da fazenda.

     — Ah ! Então é que pediu-nos licença, e nós lh'a concedemos.

     — Com certeza que hade-tel-la pedido ; accrescentou o Agrella.

     Descarregou o capitão-mór no feitor um olhar que o aturdiu:

     — Manoel Abreu, chegamos e vimos achar o fogo nas mattas da Oiticica á meia legoa de nossa casa ; e ninguem na fazenda soube, nem acodiu em tempo. Como foi isto, Manuel Abreu ?

     — Com licença do sr. capitão-mór, saberá vossa senhoria que eu não sei. Ainda não estou em mim com um caso destes !

     — Pois amanhã hade estar averiguado quem foi o causador do incendio, para lhe ser lançado conforme a culpa.

     Dirigiu-se o fazendeiro ao portico da casa, cujos degráos subiu, para entrar na sala pintada de florões a fresco pelo tecto e pelas paredes, e guarnecida de moveis de jacarandá forrados de moscovia com taxas de prata.

     Ali estavam ainda D. Genoveva e a filha que se levantaram para recebel-o.

     Então, só então, quando todos os deveres de dono da propriedade estavam cumpridos, consentiu o capitão-mór que afinal pulsasse o seu coração de pai.

     Cingindo com o braço o talhe de D. Flor, cerrou-a ao peito ; no desusado alvoroto que perpassou-lhe a phisionomia sempre calma e serena, se reconhecia que a alma fora profundamente percussa.

     Depois que abraçou a filha, sem arroubos, solene mas prolongadamente, o capitão-mór levou-a para o sofá e sentando-a defronte de si esqueceu-se á fita-la, como se não a tivesse visto por largo trato e se quizesse recuperar dessa privação de sua imagem.

     Este pormenor mostrava o relevo do homem que era o capitão-mór. Formalista severo, adicto às regras e cerimonias, que se esmerava em observar escrupulosamente, imbuido de uma gravidade que tinha por essencial ao decoro de uma pessoa de sua cathegoria e posição, sujeitava todos os affetos como todos os interesses á essa rigorosa disciplina das maneiras.

     Não era, porém, esse modo do Campello a affetação ridicula de meneios em que se requinta a fatuidade ; e sim uma temperança de gesto e de palavra, que se comediam pelo receio de descahirem em vulgaridades.

     Nascia tal resguardo do nobre estimulo de manter o estado que lhe havia criado a fortuna. Campello provinha de sangue limpo, mas plebeo ; e almejando um pergaminho de nobresa, que enfim alcançara, elle queria merecel-o por seus dotes, e ser primeiro fidalgo na pessoa, do que no brasão.

     Assentava bem esse temperamento do gesto no porte avantajado do capitão-mór e imprimia-lhe ao aspecto muita dignidade.

     Sua compleição robusta ostentava-se na plenitude do vigor aos toques dessa moderação inabalavel ; e a fisionomia cheia, placida e seria, impunha a quantos lhe fallavam, um irresistivel acatamento.

     Emquanto o capitão-mór comprazia-se em contemplar a filha, D. Genoveva referia ao marido o perigo á que havia por milagre escapado a donzella ; e no meio da sua narrativa não deixou de insinuar uma doce exprobação à fleugma que o marido conservara quando ella lhe communicara seus terrores.

     — Eu tinha fé em Deos que nos havia de conservar nossa filha, D. Genoveva ; respondeu serenamente Campello.

     Já de todo cahira a tarde ; e as sombras da noite se desdobravam pelas encostas da serra.

     Os viajantes recolheram aos seus aposentos, enquanto não chegava a hora do terço de Nossa Senhora, que antes da ceia se devia rezar na capella, em louvor e graça pela chegada dos donos da casa.

     A campa tangida vivamente soltava os repiques argentinos, sombreados pela surdina dos longos pios das aves noturnas, e dos ulos da brisa nas grotas da serra.