O Sertanejo/I/IX

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O Sertanejo por José de Alencar
Primeira Parte, Capítulo IX: Puxão de orelha

PUXÃO D'ORELHA.

     Enquanto o Moirão esconjurava o espírito maligno, que via deante de si, na figura do rapaz, Arnaldo recolheu-se um instante.

     Depois de curta reflexão tornou ao camarada com uma expresão affectuosa, que disfarçava a severidade do olhar:

     — A gratidão é depois da honra a primeira virtude. Foi ella que o illudiu na simplicidade de seu coração, Aleixo Vargas; por isso já lhe perdoei.

     — A gratidão?... repetiu Moirão com sorpresa inquiridora.

     — Antes de vir para Oiticica, você era aggregado do coronel Fragoso na fazenda das Araras. Um dia o velho frenetico deu-lhe dois berros; você azoou e respondeu rijo. Acode a gente, e lá ia o meu Aleixo Vargas para a golilha, quando felizmente appareceu o moço, filho do coronel, que o pediu por seu aggregado e livrou-o da gargantilha de ferro e do resto. Mas o velho era emperrado e não consentiu que ficasse mais um instante em suas terras o atrevido que levantara a voz deante delle. Foi então que você apareceu na Oiticica sem dizer d'onde vinha, e entrou no serviço do capitão-mór.

     — De quem soube isto, Arnaldo ? perguntou o colono cuja sorpresa augmentava.

     — Amigo Aleixo, nascí e criei-me nestes geraes : as arvores das serras e das varzeas são minhas irmans de leite;  o que eu não vejo, ellas me contam. Sei tudo quanto se passa embaixo dêste céo até onde chega o casco de meu campeão.

     O sertanejo observou a impressão que deixavam suas palavras no semblante de Moirão, que não oppoz a minima denegação ou duvida á extranha asseveração. Ao contrario, pareceu afirmar com uma inclinação da cabeça a crença em que estava de achar-se conversando com o diabo em pessoa.

     Arnaldo prosseguiu :

     — No Recife, oito dias depois de chegado, seguia você pelo aterro dos Affogados, quando tomou-lhe o caminho um luzido cavalheiro. Era o capitão Marcos Fragoso, filho do velho coronel, o mesmo que tinha livrado da golilha á seu antigo accostado. Vinha elle de passar na Rua Nova pela casa do capitão-mór, onde vira ao balcão da janella D. Flor, cuja belleza o captivara. Sabendo que Aleixo era da casa, encommendou-lhe que nessa mesma tarde fosse ao Carmo, onde elle morava, para levar á donzella uma prenda com seus recados de amor.

     Os olhos de Moirão, não tendo mais que abrir, começaram a esbugalhar.

     — Que podia recusar Aleixo ao homem que o livrara da infamia e talvez da morte ?

     — Da infamia, atalhou Moirão vivamente, que a morte é uma topada : trás-zaz e está numa pessoa descançada.

     — Quanto era seu, Aleixo Vargas, podia e devia dal-o ao capitão Marcos Fragoso, si o exigisse ; mas não aquillo que não lhe pertencia. Era assoldadado do capitão-mór Campello; seus serviços pertenciam á elle, e so á elle, que lhe pagava. Não tinha licença de empregar-se às ordens de outro e para faltar com o respeito á filha donzella de seu patrão.

     Moirão ficou um momento aturdido com estas palavras e acabou fincando um murro conciencioso no meio da testa.

     — Pascacio !

     — Foi seu bom coração que o arrastou ; mas arrependeu-se á tempo e quis salval-o. Você procurou o capitão Fragoso em sua morada e recebeu delle a prenda com o recado. Em chegando á casa faltou-lhe o animo ; e não se admire que eu o atirasse ao chão, quando uma fraca menina o fazia tremer de maleita, á você, Aleixo, a quem chamam Moirão, e que nunca pestanejou na boca de um bacamarte.

     — Isso de mulher, não sei o que tem que dá arripios na gente.

     — Enquanto o capitão-mór se demorou no Recife, por mais que lhe pedisse o Fragoso o que você prometesse, não se animou. Tenho certeza, porque não o perdi de vista. Nunca reparou n'um grillo que o acompanhava para toda a parte ? Era eu.

     Proferiu o sertanejo estas palavras com um riso sarcastico, apontando para a arvore, junto da qual se achava o companheiro :

     — Eil-o ahi !

     Voltando-se, o minhoto deu um salto prodigioso para fugir do grillo, que saltara de seu lado. Uma aventesma, que lhe surgisse ali, diante dos olhos, envolta em sua mortalha e com a competente cara de caveira, não lhe incutiria tão profundo terror.

     Um tanto corrido do seu panico, o Aleixo, vendo o grillo sumir-se entre a folhagem, disse ao sertanejo :

     — Acabe de uma vez !

     — No meio do caminho apertou-lhe a tentação, e d'ahi veio a mofina que o afflige. Lembre-se, porém, que você a procurou por suas mãos.

     — Conte como foi ! disse Moirão, com arrebatamento.

     — Já não se recorda ? perguntou Arnaldo estudando-lhe a phisionomia.

     — Quero ouvir !

     — É melhor esquecer.

     — Não : diga o que sabe. Tambem viu ?

     — Tudo.

     — Pois então repita, disse Moirão com a pertinacia de um mulo.

     Os caracteres vingativos, quando soffrem alguma offensa, em vez de affastarem o pensamento dessa recordação dolorosa, ao contrario revolvem-se nella e saturam-se de fel, como para exacerbar a propria ira e prelibar o prazer da vingança.

     Era este o sentimento que dominava Moirão naquella circunstancia, animado ainda pelo desejo de verificar as particularidades de um facto que fluctuava confusamente em seu espirito.

     Arnaldo suspeitou do que movia o minhoto á insistencia.

     — Vou fazer-lhe a vontade, Aleixo. Foi uma tarde ao escurecer. A familia tinha chegado ao rancho; você incumbiu-se de levar o escabello de apear á D. Flor, e quando ella descia o ultimo degráo, offereceu-lhe a prenda do capitão Fragoso, dizendo-lhe que a mandava um cavalheiro, seu namorado. É isto ?

     — Até ahi vae direito.

     — Dona Flor, que segurava as dobras de seu roupão de montar, com a ponta do pé afastou a prenda, e, chamando pelo capitão-mór, disse-lhe vivamente : « Meu pai, este homem faltou-me ao respeito ». Então ?... O resto não carece.

     — Diga, Arnaldo ! bufou o colosso.

     — Então o capitão-mór aproximou-se e, segurando-o pela orelha direita, o levantou do chão onde você estava de joelhos, até que o poz em pé.

     — E m'a teria arrancado com certeza, si não me erguesse na ponta dos pés. Um insulto como este, Arnaldo, só a morte o apaga. Eu queria te-lo aqui diante de mim, neste momento, para mostrar-lhe o que é um homem. Dizem que é um brutamonte ; pois venha para cá.

     Deixou Arnaldo que amainasse a cholera dos Moirão.

     — Sou seu amigo, Aleixo ; já lh'o disse, e avalio quanto custa á um homem de brio não desaffrontar sua honra. Mas eu não consinto que ninguem neste mundo offenda ao capitão-mór e sua familia ; portanto, se você não abandonar seu projeto, tenha a certeza de que me hade encontrar pela frente.

     — Com você não brigo ; isto é decidido. De brincadeira como hoje, sim ; mas á valer, não.

     — Então desiste ?

     — De que ?

     — Da vingança.

     — Isso nunca !

     — Neste caso você sabe o que se faz d'uma arvore que ameaça cahir-nos em cima ?

     — Corta-se.

     — É o que eu farei, sinão houver outro meio de arreda-lo. O mesmo direito tem você, Aleixo ; e como a sorte é varia, si for eu que venha á morrer, desde já lhe perdôo. Affiançou-lhe que, apezar de tudo, havemos de ser amigos no outro mundo como fomos neste.

     O mancebo estendeu cordialmente a mão ao companheiro, que a sumiu em sua manopla :

     — A' estas mãos, Arnaldo, não póde morrer nunca. Minha honra, você não a póde atacar, que é um amigo, e para poupar minha vida não atacarei nunca a daquelle que a salvou uma vez.

     — Do mesmo modo procederia eu, Aleixo, se fosse de minha vida que se tratasse. Mas é do repouso, da felicidade e da vida dos entes mais queridos que tenho neste mundo ; porque o capitão-mór serviu-me de pai e sua mulher D. Genoveva muitas vezes, quando eu era criança, me acalentou ao peito como seu filho.

     Moirão enfronhou-se em uma carranca, sinal de profunda cogitação. Afinal, reconhecendo-se incapaz de resolver a terrivel collisão, deu segundo murro na testa, e arrancou pelo mato fóra.

     Era este um meio phisico de atenuar a difficuldade de sua posição, subtraihndo-se por emquanto ao dilemma fatal em que se achava collocado entre a honra e a amizade.

     O sertanejo, quando o viu desapparecer atravez da ramada, tomou a mesma direcção, seguindo-lhe a pista, mas de longe e á esmo. Certo de não poder perder o rumo e de acompanha-o como á sua sombra por entre a espessura do matto, elle demorava-se á examinar a copa das arvores, os rastos dos animaes, as moitas de ervas e todos os accidentes do caminho.

     O homem da cidade não comprehende esse habito silvestre. Para elle a matta é uma continuação de arvores, mais ou menos espessa ; assim como as arvores não passam de uma multidão de folhas verdes. Lá se destaca apenas um tronco secular, ou outro objecto menos commum, como um rio e um penhasco, que excita-lhe a attenção e quebra a monotonia da scena.

     Para o sertanejo a floresta é um mundo, e cada arvore um amigo ou um conhecido a quem saúda passando. A' seu olhar perspicaz as clareiras, as brenhas, as corôas de mato, distinguem-se melhor do que as praças e ruas com seus letreiros e numeros.

     Arnaldo estivera ausente daquelles sitios algum tempo. Ao passar por elles observava sua phisionomia, tão intelligente e franca para elle, sinão mais do que a face do homem ; e lia nesse diario aberto da natureza a chronica da floresta. Uma folha, um rasto, um galho partido, um desvio da ramagem, eram á seus olhos vaqueanos os capitulos de uma historia, ou as ephemerides do deserto.

     A observação do sertanejo foi interrompida por vago rumor que, apeszar de remoto, não lhe escapou. Conhecida a causa, deixou-se ficar onde estava.

     Com pouco ouviu-se um vozear de pratica animada, e cinco homens, trajados como usava a gente do povo n'aquelle tempo, de braga, vestia e gibão, surdiram do mato. Estavam armados com um arcabuz ao hombro e uma parnahiba á bandoleira.

     O da frente era Manuel Abreu, feitor da Oiticica ; os outros, serviçais da fazenda.

     — Oh ! cá está quem sabe do diabo do velho ! exclamou o feitor, dirigindo-se á Arnaldo. Bem apparecido !

     — Quer alguma cousa de mim, sr. Manoel Abreu ? perguntou o sertanejo.

     — O senhor capitão-mór mandou-me procurar o velho Job que deitou fogo no mato da fazenda.

     — Procure-o ; disse Arnaldo laconicamente.

     — Não está má a encomenda ! Que temos feito desde o romper do dia ? Mas o renegado do bruxo abandonou a toca e sumiu-se.

     — Cá para mim é trabalho perdido. O velho está nas profundas. Tinha-lhe chegado a hora e elle estourou. O fogo foi pegado pelo enxofre que elle tinha no corpo, o canalha do bruxo.

     — Deixe-se dessas historias de feitiçaria agora, João Coité, que arripiam os cabellos da gente ; ponderou o feitor.

     — É mesmo : fica um homem com as pernas bambas, como se tivesse no bucho uma vez de cachaça.

     — Uma não terá você, Burity ; mas duas, com certeza.

     — Pois é isso, homem. O primeiro trago é que põe a gente banana ; o outro concerta.

     — Que é que está bolindo ali no mato ? Não ouviram gemer ?

     — Hade ser o caipora ; respondeu um mais desabusado.      — Nicacio ! Não brinque com estas cousas.

     Entretanto Arnaldo seguia adeante sem preocupar-se com os outros. Nesse momento havia parado, com os olhos fitos em uma moita de mimosas, plantas á que o povo dá o nome de malicia de mulher por descobrir no subito fechar das folhas de leve tocadas uma semelhança com as esquivanças das meninas sonsas.

     O arbusto, exposto aos raios do sol, tinha em geral os folíolos abertos ; mas justamente do lado do nascente um olhar atilado notaria certa flacidez dos peciolos, que todavia não bastava ainda para murchar as ramas.

     — Chuva !

     Arnaldo proferiu esta palavra, dirigindo-se á Nicacio que estava á seu lado ; possuido do vivo prazer que a vinda do inverno desperta sempre no homem do sertão, sua alma expandiu-se para dar aos outros as alviçaras dessa alegria.

     — Deus a traga ! disse Nicacio.

     — Esta noite ! tornou o mancebo mostrando ao longe no horizonte um nimbo, tão pequeno, que parecia antes um gavião pairando.

     — Porisso eu vi esta manhã uma formiga de azas ; acodiu o Burity.

     — Mas então, amigo Arnaldo, que nos diz ? Sabe ou não sabe onde está o diabo do velho ?

     Voltou-se o mancebo com um modo frio :

     — Quando o senhor capitão-mór Campello m'o perguntar, eu lhe responderei.

     — Ah ! É isto ? Pois tenha paciência, que lhe vamos na colla. Não o largo enquanto não me der conta da carcassa do Job, que a leve o demo logo d'uma feita.

     Arnaldo encolheu os ombros e continuou a andar mui descansado e indifferente por entre as arvores. O feitor e seus acolytos iam-lhe no encalço, quando subito o perderam de vista. Correram-lhe sus, bateram o mato ; mas nem sombra lobrigaram mais do mancebo.

     — É atôa ! disse o João Coité. Si o deabo do surrão velho já o embruxou tambem.