O Sertanejo/I/VI

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O Sertanejo por José de Alencar
Primeira Parte, Capítulo VI: A malhada

A MALHADA.

     Nos ultimos ramos, lá no tope do jacarandá, havia o sertanejo armado a rede, em que se emballava.

     Devia de achar-se mais de cem pes acima da terra ; e nessa grande altura, suspenso por duas finas cordas de algodão trançado, estava mais tranquillo do que si pousasse no chão, onde o poderiam incomodar a má companhia dos reptis e a visita de alguma fera.

     Ali, em seu pavilhão de verdura, grimpado nos ares, não tinha outros visinhos alem de uma jurity, que fabricara o ninho no proximo galho, e acabava de ruflar as azas à sua chegada para dar-lhe a boa-noite.

     Atravez do rendilhado da folhagem, como por entre os bambolins de fina escossia de uma recamera, o sertanejo recostado no punho da rede, que oscilava ao frouxo balanço, descortinava toda a devesa que se estendia das encostas da serra pelos taboleiros, até onde a vista alcançava.

     A' meia distancia ficavam as casas da fazenda, que elle via do alto como um mappa desenhado na superficie da terra.

     Neste momento o pateo interior se illuminava de muitos fachos. Ao clarão que fazia, Arnaldo reclinado para ver melhor, avistou gente á mover-se e divisou o airoso vulto de D. Flor.

     Transportava-se o capitão-mór á capela com sua familia para assistir ao terço, e todo o povo da fazenda concorria á devoção que nessa noite de chegada tinha uma intenção especial e solenidade maior que de costume.

     Cessaram os repiques do sino ; o sertanejo adevinhando que estavam na reza ajoelhou tambem num ramo da arvore, e com sincero fervor acompanhou de longe no seu nicho agreste a oração que lá se estava elevando ao Senhor pela boa volta e feliz chegada dos donos da Oiticica.

     Começou a ladainha cantada.

     O côro religioso, derramando-se pela floresta, impregnava-se dos ruidos e murmurios da ramagem afflada pela brisa, o que lhe dava um timbre grave e sombroso.

     Ainda que não se eximisse de todo ao mistico sentimento de que se repassava essa melopéa christan no seio da profunda solidão, o sentido do mancebo estava especialmente concentrado no esforço de abstrair do côro uma voz, para escutal-a, á ella somente.

     Ou porque em verdade sua residencia errante e aventureira no deserto lhe houvesse exercido as faculdades ao mais alto gráo, dando lhe admirável força de percepção ; ou porque se deixasse enlevar de uma grata illusão, o certo é que Arnaldo distinguia naquelle concerto unissono uma melodia radiante, de uma limpida suavidade, que entretecia o canto sonoro como fio de ouro urdido em tela de seda.

     De principio o ouvido do sertanejo experimentou a mesma sensação dos olhos quando os fere a luz : houve uma fascinação que não lhe deixava descernir as vozes, mas logo apoz começou á destacar o timbre mavioso de D. Flor, com tamanho vigor que já não escutava elle sinão esse hymno celeste, surdo para toda outra cantoria.

     Terminou o terço ; sumiu-se o clarão dos fachos; naturalmente a familia passava á meza da ceia. Pouco depois apagaram-se os fogos e apenas ficou por algum tempo a lampada da casa de jantar, que era costume deixar até de todo concluir-se a tarefa diaria.

     Em quanto bruxoleou ao longe, no seio das trevas, a luz solitaria, Arnaldo esteve embevecido á contempla-la, como si a tremula irradiação lhe desenhasse formoso painel.

     Era assim todas as noites em que malhava ali, na sua pousada, quando as correrias da vida erratica do sertanejo não o levavam pelo mundo sem destino.

     Essa luminaria, elle a amava como sua estrella. As almas que vivem no campo, ao relento, sob um firmamento cravejado das mais brilhantes constellações, todas tem um astro de sua particular devoção, um amigo no céo, com quem se entretem e conversam nos serões das noites ermas.

     Para Arnaldo todas essas meigas virgens do céo lhe eram irmãns ; conhecia-as pela scintilação, como se conhece pelos olhos a menina faceira que se embuçou na sua mantilha azul. A' cada uma saudava pelo nome, não o que inventaram os sabios, e sim o que lhe dera sua fantasia de filho do deserto.

     Mas esquecia-as o ingrato, quando brilhava a outra, a estrella da terra, porque esta lhe fallava de D. Flor e seus raios eram como os olhos castos da formosa donzella que vinham misteriosamente, no segredo da noite, affagar-lhe os seios d'alma.

     Afinal também apagou-se a luz.

     Recostara-se o sertanejo outra vez á rede, quando a ramagem cascalhou perto e os galhos do jacarandá estremeceram abalados por alguma forte percussão.

     Arnaldo poz a cabeça fora da rede, e perscrutando a folhagem descobriu duas tochas accesas no meio das trevas, mas de uma luz baça e sulfurea.

     Os mais intrepidos caçadores do sertão, curtidos para todo o perigo, não se podem eximir de um subito arrepio, quando lhes chamejam no escuro da mata esses olhos vidrentos cujos lumes gazeos fervilham dentro n'alma.

     Ha um quer que seja de satanico na pupilla da onça, como na de toda a raça felina ; e é por essa affinidade que nas antigas lendas o principe das trevas apparece mais frequentemente sob a figura de um gato negro, miniatura do tigre.

     Dahi provem talvez o supersticioso terror que inspira a phosporescencia desses olhos ao mais valente sertanejo, ao teméro ao que jámais pestanejou em face da morte, e nem se abala com o medonho rugido da féra.

     Não produziram, porém, igual effeito em Arnaldo as duas tochas que brilhavam entre o negrume da noite, alguns pés abaixo do lugar onde se achava :

     — Bem apparecido, camarada, disse o mancebo á gracejar.

     A onça espasmou a cauda rebatendo as ancas, e d'entre as belfas tumidas escapou-lhe um rosnar manso e crebro como rir de contentamento.

     — Sim, senhor, entendo. Quer saber como cheguei ? Bom, para o servir, muito obrigado. E o amigo, como lhe foi por cá estes tempos que não nos vimos ? A secca tem sido grande, e os garrotes estão pela espinha, não é assim ? Paciencia, meu rico, ahi vem o inverno e com elle rezes gordas e carniça á farta. A chuva não tarda ; esta manhã vi passar o thesoureiro.

     Em tanto o tigre continuava á grunhir o seu riso de féra com uns agachos de rafeiro, que lhes espreguiçavam o torso mosqueado.

     — E da dona, que novas me dá ? continuou o sertanejo no mesmo desenfado. Está guardando a casa ? E o senhor anda ao monte ? Pois boa caça, amigo, e cortejos á sua dama.

     Com esta despedida Arnaldo, que se debruçara ao punho da rede para conversar com a onça, recolheu o corpo, disposto á acomodar-se.

     Levantou-se, porém, um rumor de garranchos que estalavam. Era a onça que saltára á um galho superior, com impetos de galgar o cimo da arvore ; mas hesitava, receiosa de que os ramos altos e menos validos se partissem com o pezo de seu corpo e o choque do arremesso.

     — Nada, camarada, dispenso as suas ternuras por esta noite. Cheguei da viagem, e estou cansado. Póde continuar seu passeio. Boa noite.

     E o sertanejo, alongando a perna, enxotou a importuna com um pontapé atirado ao tufo da folhagem que ficava por debaixo da rede.

     Aquietou-se a onça e o rapaz deitou-se mui sossegado, sem mais importar-se com a presença do terrivel hospede, que lhe estava á uma braça de distancia. Este curto espaço, porém, a féra não ousava transpo-lo com receio de precipitar-se.

     Os sertanejos escoteiros que ainda agora em jornada na Bahia ou Pernambuco, sem outro companheiro mais do que seu cavallo, percorrem aquellas solidões, tambem por mim viajadas outrora ainda no alvorecer da existencia ; esses destemidos roteadores do deserto costumam pernoitar na grimpa das arvores, onde armam a rede e ahi ficam ao abrigo das onças que não pódem trepar pelos troncos delgados, nem pinchar-se á fragil galhada.

     Não somente por esta razão estava Arnaldo seguro de si ; mas tambem pela confiança em sua superioridade, já mais de uma vez provada pela féra. Assim, pois esqueceu-se della, para engolfar-se de novo nas scismas que lhe estavam affagando a mente.

     Nesse enlevo d’alma, a arrebata-o com a pujança que ella costuma adquirir nos ermos, em communicação com o infinito que a envolve e a concebe no seio immenso que se chama a natureza. Comprehendem-se os extazes dos anachoretas nas solidões da Thebaida. Como não se exaltarem ao céo, essas almas tão desprendidas da humanidade, que desparzem nos ares a fragrancia de sua flor ?

     O corpo de Arnaldo estava ali  mas seu pensamento descorria além, e nesse instante revia D. Flôr, melhor do que se a tivesse diante dos olhos ; pois não lhe embaciava a sua limpida visão o dislumbre que a presença da gentil donzella causava-lhe sempre, depois de certa epocha.

     A moça caminhava diante delle com o passo airoso e modulado que era della e só della, pois nunca o mancebo vira outra mulher andar assim. Quando elle caçava lá para as bandas da Junça, demorava-se á ver as garças reais passeando pelas margens da lagôa ; porque ellas tinham o pisar altivo e sereno de D. Flôr.

     Vagueava a menina pelo campo, arfando-lhe docemente o talhe gracil com a ondulação da marcha  ; e elle, Arnaldo, a seguia, respirando-a com a aragem que agitava-lhe os folhos do vestido, e que folgava nos crespos dos cabellos castanhos.

     Esses cabellos eram os seus enlevos. Quando a menina sentia-se fatigada, reclinava ao hombro delle, que, então criança como ella, a carregava e sentia as tranças macias e perfumadas cobrirem-lhe o rosto acariciando-o como as azas de um rola.

     Neste ponto de seu meigo sonho, o mancebo inclinava a fronte sobre uma touça da ramagem e roçava timidamente o rosto pelas folhas, anediando-as com a mão, na cisma de serem as madeixas, que tanto amava. Puerilidades do coração, sempre menino, ainda sob as cans do ancião.

     Si a brisa vinha bafejar-lhe as faces, impregnada da fragancia dos campos, elle entreabria os labios para beber-lhe as emanações, que se afiguravam á sua imaginação o halito perfumado de D. Flor, ao voltar-se para fallar-lhe.

     Si a jurity arrulhava no ninho, respondia-lhe Arnaldo docemente, com um querulo gorjeio. A rola arrufava-se de prazer escutando os ternos requebros que lembravam-lhe a companheira. E elle cuidava-se á conversar com a menina, e á responder-lhe as perguntas curiosas.

     Estes sonhos de todas as noites ali passadas ao relento eram talvez recordos, em que sua alma se revivia no passado, e que a esperança entrelaçava de fagueiras illusões.

     No meio dos devaneios que lhe embalavam a mente, o sertanejo adormeceu.

     A onça que se agachara entre a ramagem, desenganada da espera, esgueirou-se pelo mato, e foi-se ao faro de alguma novilha desgarrada.