O Sertanejo/I/XVI

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O Sertanejo por José de Alencar
Primeira Parte, Capítulo XVI: O vizinho

O VISINHO.

     Um tropel de animais que resoou perto de casa tirou as duas meninas de sua distração.

     Ambas, impellidas por egual movimento de curiosidade, debruçaram-se á janela e retrahiram-se tomadas de sorpreza pelo que viram.

     Luzida quadrilha de cavalheiros acompanhados de seus pagens acabava de parar no terreiro. Eram todos mancebos, bem parecidos e trajados com o apuro e gala que então usavam, ainda mesmo no sertão, as pessoas de grandes posses.

     O Agrela, que fora prevenido da approximação dos forasteiros desde que de longe os tinham avistado, sahira á recebe-los.

     — Olhe, Alina, aquelle mais alto, que tem a casaca de seda açafroada. Sabe quem é ?

     — O Fragoso, de quem você fallava pouco há ?

     — Elle mesmo.

     — E' um galante fidalgo.

     Nesse momento o mancebo avistando as moças fez com o chapéo profunda saudação á D. Flor, que respondeu confusa e recolhendo-se da janella.

     — Que virá elle fazer à Oiticica ? perguntou ingenuamente a filha do fazendeiro á sua camarada.

     — Não adivinha, Flor ? disse Alina sorrindo.

     — Eu não, menina.

     — Dil-lo a cantiga :

Saudades que me deixaste,
Saudades me levarão.
Aonde foram-se os olhos,
Vai apoz meu coração.

     D. Flor ouvindo a copla que Alina cantarolou á meia voz com ar malicioso, correu a ella para fazer-lhe cocegas, e retribuindo-lhe a amiga, desataram ambas á rir da mutua travessura.

     Entretanto o capitão-mór Campello, sahindo ao patamar, convidava os hospedes á entrarem. Adiantou-se o mancebo, que vestia casaca de seda côr de açafrão, e saudou o fazendeiro com estas palavras :

     — O capitão Marcos Fragoso, de jornada para sua fazenda do Bargado com estes amigos que lhe fizeram o obsequio de sua companhia, não podia, passando a primeira vez pela Oiticica, faltar á cortesia de saudar o sr. capitão-mór Gonçalo Pires Campello, como vizinho, e ainda mais como filho de um velho amigo seu, o coronel Fragoso.

     — O capitão Marcos Fragoso e seus amigos serão sempre bem vindos á nossa casa, e nos darão praser se quizerem receber o agasalho que lhe offerecemos de bôa vontade.

     — Era nossa intenção pedil-o, para refrescar da calma ; depois do que seguiremos para o Bargado, onde já deve estar a nossa comitiva, da qual nos separamos pouco ha na encruzilhada.

     Entrados na sala, o Marcos Fragoso designou ao capitão-mór seus amigos cada um por seu nome e indicações :

     — Este amigo é o capitão João Corrêa, do terço do Recife ; est'outro é o licenciado Manuel da Ailva Ourem, de Lisboa, que veio visitar e conhecer nossos sertões ; aquelle é o alferes Daniel Ferro, filho do dono das Flechas nos Inhamuns, ambos meus parentes e visinhos.

     — Estão todos em sua casa ; disse o capitão-mór, convidando-os á sentarem-se.

     Depois de alguns cumprimentos dos recem-chegados e encarecimentos das excellencias da Oiticica, por sua posição aprazivel, grangeio das terras e bôa casaria, o capitão-mór disse, retribuindo a cortesia :

     — Vão os senhores ver tambem a fazenda do Bargado que é das mais bellas deste Quixeramobim. No tempo em que ali morava o finado coronel Fragoso, poucas podiam competir com ella ; mas depois que elle morreu tem estado ao desamparo. O Sr. capitão Marcos não quiz ser nosso vizinho como foi seu pai ; os mancebos gostam mais da praça ; não ha que estranhar.

     — Costumo demorar-me no Recife, é certo, senhor capitão-mór ; mas tenho minha casa nas Araras, onde fico mais perto de meus parentes, que são todos de Inhamuns. Meu pai gostava mais do Bargado.

     — E tinha rasão.

     — Não digo o contrario ; foi elle de natural reconcentrado e amigo da solidão.

     — Isso era. Em tantos anos que tivemos de visinhança receberiamos delle tres visitas, si tantas ; observou Campello.

     — Eu que ali me criei nunca vim á Oiticica, porque elle não gostava de trato e communicações que o tirassem de seus habitos sertanejos.

     — E como consumia o tempo neste deserto ? perguntou o licenciado Ourem.

     — Quanto á isto não falta em que ocupar-se um homem activo ; acodiu o Daniel Ferro.

     — Basta a labutação da fazenda ; accrescentou o capitão Fragoso. Se não acredita, Ourem, eu o emprazo para Bargado.

     Voltando-se depois para o capitão-mór prosseguiu :

     — Sabendo do desamparo em que vae a minha fazenda resolvi passar ahi o inverno e vim com estes amigos assistir ás vaquejadas. Durante a minha estada conto prover o necessario, para tornar o Bargado ao estado prospero em que o deixou meu pai, que não é de rasão se perca tão rica herdade.

     Na continuação da pratica veio á fallar-se do Recife e das festas que houve pela chegada do Conde de Villa Flor :

     — Nunca mais se descobriu quem foi aquelle embuçado que se intrometteu no jogo da argolinha ? perguntou o capitão-mór.

     — Oh ! Elle terá o cuidado de sumir-se de minha vista, pois sabe quanto lhe sahiria cara a graça ! redarguiu Marcos Fragoso com arrogancia de voz que mal encobria o vexame produzido pela allusão.

     — Aquilo foi uma surpresa vil ; acudiu o Ourem em abono do amigo. Se não fosse o imprevisto do ataque, nunca lograria o intruso arrebatar o argolão ao nosso Marcos Fragoso, que é campeão para maiores façanhas.

     — Todos nos sabemos que é ; mas tambem que o outro, o embuçado, não lhe fica apoz, disso não ha quem possa duvidar. O mesmo repente do assalto, como elle o praticou, surdindo n'um relance não se sabe d'onde, e arremetendo como um raio, não é proeza para qualquer.

     Esta observação partiu do alferes Daniel Ferro, que apesar de amigo e parente, não deixava de ter sua ponta de rivalidade com o Marcos Fragoso.

     — Todos os dias a estão fazendo nossos vaqueiros, Daniel Ferro, sem que lhe mereçam nota, quanto mais os gabos que lhe dá agora.

     — E que pensa, Fragoso, que nossos vaqueiros não seriam homens para medir peças em jogos de destreza aos mais esforçados paladinos de outras eras ? Por mim tenho que nunca Roldão, Lançarote, ou algum outro dos doze pares de França, estacou na ponta de sua lança um cavalheiro á disparada com tanta bizarria, como tenho visto topar um touro bravo na ponta da aguilhada.

     — Lá isso é verdade ; acudiu o João Corrêa.

     — Certo que é ; mas não se medem proezas de cavalheiros com agilidades de peôes ; tornou o Fragoso, e continuou voltando-se para o capitão-mór com ar prazenteiro. O atrevimento do villão não causou nenhum mal em suma, pois restituiu a prenda a pessoa á quem a destinei desde o principio da cavalhada ; e não foi sinão o mêdo do castigo que o moveu á amparar-se com a bôa sombra da Sra. D. Flor, que mais santa guarda não podia dar-lhe sua estrella.

     Marcos Fragoso ao entrar na sala, relanceara disfarçadamente a vista para as portas interiores, com o sentido de surprehender por alguma fresta os olhos curiosos que por ventura d'ali estivessem espreitando.

     Havia no fundo da sala, entre as portas do serviço, duas janellas gradeadas como o locutorio dos conventos, e de que ainda se encontraram amostras nas casas construidas pela gente abastada até principios deste seculo.

     Esse crivo miudissimo, tecido de rotulas delgadas, servia para esclarecer o corredor de passagem, vedando ao olhar curioso do hospede a vista do interior ; mas permitindo às pessoas da casa esmerilhar o que ia pela sala.

     Nem é de admirar se encontrasse na morada de nossos antepassados essa semelhança com os conventos, quando o teor da vida intima tanto se parecia com a regra monastica, e as mulheres tinham no seio da familia o mesmo recato das freiras.

     Pareceu a Marcos Fragoso que por detraz da primeira das rotulas se haviam condensado umas sombras vagas, as quais ao proferir elle as ultimas palavras se agitaram para logo dissiparem-se.

     Suspeitara o mancebo que uma daquelas sombras era de D. Flor e por isso lhe dirigira com um olhar o galanteio, que afugentou por momentos o vulto curioso.

     Não se enganara Marcos Fragoso. Eram effectivamente D. Flor e Alina que tinham vindo espreitar os hospedes pela rotula, não só trazidas de impulso proprio, como tambem á recado de D. Genoveva, que as mandara escutar quem eram os forasteiros e qual o motivo os trazia á Oiticica.

     Era costume de casa, e não só desta como de todas as grandes fazendas, não deixar partir os hospedes sem os regalar ; e isso usavam os ricaços, não tanto por obséquio e satisfação dos estranhos, como principalmente por ostentação do fausto com que se tratavam.

     Não perdiam ocasião de fazer alarde da suntuosa baixela de ouro e prata, de que especialmente se ufanavam, e na qual fundiam tal quantidade de metal precioso que chegaria em nossos tempos para levantar um palacio.

     Logo que o capitão-mór saíu á receber com mostras corteses os hospedes, D. Genoveva ordenou os aprestos necessarios para regalo, o qual em poucos instantes, e como por arte magica, estava servido sobre uma mesa coberta de tão ricas alfaias que lembravam os banquetes das Mil e uma noites.

     — Chama o sr. capitão-mór ; disse D. Genoveva a um creado.

     Este foi á porta da sala, abriu-a de par em par, e disse perfilando-se :

     — Está na meza.

     O capitão-mór fez com a cabeça um gesto affirmativo que significava estar ciente, e voltou-se para os hospedes :

     — O senhor capitão Marcos Fragoso e seus amigos sem duvida dão-nos o gosto de jantar na Oiticica ; mas enquanto não chega a hora, vamos tomar algum refresco.

     — Se nos dá licença, ficamos de jantar no Bargado onde nos esperam ; tornou o capitão Fragoso, que não queria abusar da hospitalidade, talvez para melhor usar della mais tarde.

     — Como queiram ; não deixarão, porém, nossa casa sem bebermos um copo em honra da visita com que nos obsequiaram.

     — Certamente que não faltaremos á tão grato dever.

     A' mesa não appareceram nem D. Genoveva, nem as duas moças. O capitão-mór unicamente, acompanahdo de seu ajudante Agrela e de seu capellão, padre Telles, fez as honras do banquete.

     Era meio-dia, quando os viajantes despediram-se do capitão-mór Campello, depois de agradecerem a fidalga hospitalidade que tinham recebido. Montando á cavalo partiram, seguidos pelos pagens.

     Quando transpunham o terreiro, ao capitão Fragoso voltou-se de chofre e logrou seu intuito surprehendendo na janella as duas moças que estavam á espiar a cavalgada. O mancebo inclinou-se, cortejando-as com o chapéo.

     Enquanto D. Flor respondia ao cortejo com polido recato, Alina, que se esquivara vergonhosa, avistou de repente entre a ramagem das arvores, o vulto de Arnaldo, cujas feições tinham nesse momento sinistra expressão.

     O sertanejo, do logar sobranceiro em que se achava, de pé sobre a carcaça de um velho angico derrubado, fitava o olhar cheio de ameaças no capitão Marcos Fragoso. Quando o raio desse olhar perpassou pela janella, a moça estremeceu de terror, e não póde conter um debil grito, que rompeu-lhe do seio.

     — Que é ? perguntou D. Flor voltando-se.

     — Não é nada. Um susto á toa.

     — De que ?

     — Nem eu sei. Ali no mato...

     — Alguma onça, como esta manhâ ?

     — Sim : creio que foi.

     Entretanto a cavalgada descia a encosta e desaparecia na volta do caminho.

     Arnaldo viu-a passar immovel, mas abalado por ardente emoção. Depois que perdeu de vista os cavalheiros, aplicou o ouvido aos rumores que ia levantando pelo caminho o tropel dos animais. Sua alma arrastada por uma cadeia misteriosa acompanhava aquelle homem que viera perturbar-lhe a existencia, e não podia desprender-se do élo á que estava soldada para sempre.

     Quando afinal apagou-se o ultimo ruido da cavalgada, Arnaldo vergou a cabeça ao peito e assim permaneceu longo trato, imerso em tristeza profunda e acabrunhado por uma dôr immensa, como nunca sentira.