O Sertanejo/I/XVII

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O Sertanejo por José de Alencar
Primeira Parte, Capítulo XVII: A jura

A JURA.

     Absorto como estava, o sertanejo afastou-se machinalmente da casa, na direcção da serra.

     Não tinha consciencia do que se passava em tôrno de si ; não via os objectos que o rodeavam, nem ouvia os rumores da solidão ; mas guiava-o através da floresta o admiravel instincto do filho das brenhas ; esse sentido delicadissimo que vela sempre e adverte ao vaqueano da aproximação do perigo, antes que os outros orgãos possam denuncia-lo.

     Apezar de inteiramente alheio á si, o mancebo caminhava com extrema cautella por entre o mato, como quem, receioso da batida ordenada pelo capitão-mór, tratava de escapar-lhe.

     Da mesma sorte que os authomatos, obedecendo á pressão da mola que os põe em movimento, executam evoluções regulares ; o corpo dos homens de tempera vigorosa tem a propriedade de reter em si os impulsos da vontade e dirigir-se por essa norma, ainda quando a alma entra em repouso e abandona por assim dizer o involucro de sua materialidade.

     Ao passo que o mancebo vagava por entre a espessura, seu espirito debatia-se no turbilhão de sensações que o assaltara. De balde tentou destacar uma idéia desse cahos e refletir sobre o acontecimento, que lhe subvertera a existencia. Como uma folha convolta pelo remoinho de vento, sua mente era arrastada por um tropel de impressões a que não podia subtrahir-se.

     Foi quando serenou esse primeiro alvoroto, que seu pensamento desprendeu-se, mas ainda confuso e desordenado. Tinha elle parado em frente de um arbusto morto e olhava-o com expressão compassiva.

     — Eu era como esse angelim, que nasceu no outro inverno. Quando elle crescia e copava, não sabia que a secca havia de chegar e despi-lo das folhas, matando-lhe a raiz. Como elle, eu não vi a desventura que vinha roubar-me toda a minha alegria !...

     « Cego que eu fui !... Pensei que este doce engano havia de durar sempre, sempre !...

     « Ao redor de mim tudo mudava. Os grelos que brotaram quando vim ao mundo, já estão arvores da matta. Os garrotes de meu tempo ficaram touros e morreram de velhice. Os poldrinhos com que eu brincava em menino cansaram de campear.

     « As beserrinhas do anno em que sahi a vaquejar com meu pai tornaram-se novilhas e dellas nasceram outras, que produziram todo gado novo.

     « As ramas do maracujá que rebentam com as primeiras aguas cobrem-se de flores ; das flores saem os fructos que espalham na terra as sementes e das sementes brotam novas ramas, que por sua vez cobrem-se de flores até que murcham e seccam.

     « Tudo muda. Passam os annos e levam a vida. Mas ella, Flor, eu acreditava que havia de ser sempre a mesma, sempre solitaria e sempre donzella, como a lua no céo, como a Virgem em seu altar. Eu a adoraria eternamente assim, no seu resplendor ; e não queria outra felicidade sinão essa de viver de sua imagem. Nenhum homem a possuiria jámais. Deus não a chamava a si, e a deixava no mundo unicamente para mim.

     Um riso amargurado cortou-lhe a meditação.

     — E de repente apagou-se o encanto ! Flor tem dezenove annos. Sua mãi casou-se dessa idade, e hade estar pensando no enxoval da filha. Noivos não faltam. Já appareceu o primeiro, esse capitão Marcos Fragoso. E' moço, bem parecido, rico e fidalgo, póde agradar-lhe, e...

     Arnaldo estremeceu ante o pensamento que despontava, e arredou o espírito dessa idéia que incutia-lhe horror.

     — Já uma vez, prosseguiu elle, tinha-me enganado. Quando brincavamos juntos, cuidava que haviamos de ser meninos toda a vida ; que eu poderia sempre carrega-la em meus braços ; e ella nunca me veria triste, que não me abraçasse. E um dia ficou moça ; e eu, que era seu camarada, não fui mais sinão um aggregado da fazenda !...

     « Mas então ninguem veio rouba-la á casa onde nasceu, e á esstes campos que nos viram crescer juntos. Eu a via á todas as horas e podia adora-la de longe, como a santa da minha alma. Agora ?... Vai casar-se ; um homem será seu marido ! E ella deixará de existir para mim ! E eu não verei mais o anjo do céo que me consolava !

     Arnaldo retrahiu-se como quem concentra as forças para solta-las de arremesso.

     — Não ! exclamou elle com um gesto energico. Flor não pertencerá á nenhum homem na terra. Ainda que seja á custa de minha salvação eterna !

     Proferida esta surda exclamação, arrojou-se pelo mato e momentos depois surdia na entrada da caverna, para onde quatro dias antes havia transportado o velho Job.

     Sentado em uma saliencia do rochedo, com o corpo immovel e hirto, com as pernas dobradas e estreitamente unidas ao peito, com os cotovellos fincados nos joelhos e a cabeça inserida entre os dois braços ; o ancião parecia uma mumia indigena arrancada a seu camocim e ali esquecida.

     Entretanto seu espirito andava longe, lá fóra da caverna, perscrutando o que se passava. Nenhum rumor soava na floresta, que seu ouvido atento não distinguisse para determinar-lhe a causa e conhecer, se era a quéda de um fructo, a passagem de um animal, ou o farfalhar da brisa.

     Elle percebera aos primeiros ruidos a approximação do sertanejo, e o reconhecera antes que penetrasse na caverna. De um relance leu na phisionomia do mancebo, sem que suas pupillas extaticas se movessem nas orbitas.

     Arnaldo parou na entrada, com os olhos fitos no velho : seu gesto denunciava uma hesitação rara em tão decidido caracter. Job esperava que elle falasse.

     — Vieste confiar-me um segredo, filho ; eu escuto ; disse afinal o velho.

     — Vim para ver-te, Job... respondeu o mancebo com uma reticencia.

     — Eu conheço os pensamentos dos homens, como tu, filho, conheces as manhas do gado barbatão. Teu passo era de quem vinha impaciente de chegar ; e o motivo que te trazia assim pressuroso está ahi dentro, e tu o escondes. Já duas vezes te veio aos lábios.

     Não surpreendeu á Arnaldo essa admiravel sagacidade á que estava habituado, pois ao velho devia elle em grande parte a perspicacia de que era dotado.

     — Queres saber o que me trouxe ? Eu te digo.

     Arnaldo aproximou-se do velho e poz-lhe a mão no hombro :

     — Tu que viveste longos annos, e conheces todos os segredos dos homens, deves saber tambem o que eu desejo.

     — Falla ; tudo quanto a desgraça ensina ao peccador, eu o sei.

     — Se um homem quiser roubar-me o bem que me pertence, e que faz toda a minha felicidade, posso mata-lo, sem tornar-me assassino ?

     O velho Job ergueu-se de chofre, e completamente transfigurado. As cans erriçaram-se no craneo e os olhos saltaram-lhe das orbitas.

     — Por ouro, filho, não derrames nem uma gota de sangue de teu irmão ; porque essa gota basta para manchar todo o thesouro e torna-lo maldito.

     Travando das mãos do mancebo e conchegando-o á si, o velho prosseguiu :

     — Não sabes o que é o ouro, filho ? Oh ! eu sei, que m'o ensinou o demonio da cobiça. E' o sangue derramado pelo punhal do sicario, que vae esconder-se nas entranhas da terra e coalhar-se em ouro. Ao calor do corpo, esse coalho derrete-se, e o sangue tinge as mãos do homem. Por isso os alquimistas para fazer ouro ferviam sangue numa caldeira ; mas elles não o tinham bastante, porque é preciso muito, muito sangue, para dar um queijo de ouro !...

     Job soltou uma risada alvar e continuou a desarrazoar ; mas as palavras rompiam-lhe dos labios roucas e desconnexas, de modo que já não era possivel distingui-las, nem compreender-lhes o sentido.

     Arnaldo estava affeito á estes accessos, pois não mostrou o menor abalo ; e acompanhando os gestos do velho com um olhar de comiseração, esperou que findasse o desordenado e soturno monologo.

     Effectivamente foi Job serenando e tornou á posição anterior ; mas para sossobrar no abysmo de recordações, que se abrira nas profundezas de sua alma.

     — Job ! disse Arnaldo com imperio.

     O velho ergueu a cabeça, e fitou no mancebo a pupilla baça, como um homem que emergiu das trévas.

     — Job ! Queres ouvir ?

     — Falla.

     — Não é ouro, nem riquezas, que eu receio perder; é outro bem e mais precioso.

     — A tua alma ? perguntou o velho cravando os olhos no mancebo.

     — A minha alma, sim.

     — Peccaste, filho ?

     — Não ; minha mão está pura, mas duas vezes hoje ella escapou de manchar-se no sangue de meu semelhante. Uma vez foi para deffender a vida do capitão-mór ; devia ferir ?

     — Devias, filho. Quem com ferro fere, com ferro será ferido.

     — A outra vez foi para defender-me a mim.

     — Ameaçaram tua vida ?

     — Quiseram roubar-me o que mais amo neste mundo.

     — Tua mãi ?

     — Não.

     — Uma mulher ?

     — Sim.

     — Os antigos cavalheiros tinham por timbre disputar a dama de seus pensamentos nos torneios e desafios, e o vencedor recebia em premio a mão da mais formosa. Esses tempos vão longe ; agora não é mais com a espada e a lança que se rendem as donzellas.

     — Em meu caso, tu que farias, Jó ?

     — Já não sou deste mundo.

     — Mas outr'ora ? Foste moço um dia : teu coração ha de ter amado uma mulher ; nesse tempo de tua mocidade, que farias ?

     — Não me perguntes, filho, que não me lembro mais do que fui : pergunta á teu coração, que é moço, e vive ; o meu está morto.

     — Já perguntei ; e elle respondeu-me.

     — O que, filho ?

     — Não te direi, não ; nem a mim mesmo eu tenho coragem de repeti-lo.

     — Pensa em tua alma, Arnaldo.

     — O que é minha alma sem a sua adoração, Job ?

     Arnaldo demorou-se na caverna até a tarde, quando despediu-se do velho e ganhou a matta.

     A' essa hora já os acostados da fazenda que o capitão-mór enviara á sua procura, desenganados de encontrá-lo, ou tinham voltado á casa ou andavam longe á bater o mato. Não obstante, elle applicou o sentido, para verificar si não havia cousa suspeita.

     Percebeu então um rumor cadente que se aproximava como o som rijo e breve da pata de um animal no solo duro. Arnaldo conheceu quem era que o procurava e atinou com o motivo :

     — E' a mãi que soube e affligiu-se.

     Tinha parado á espera. Com pouco surdiu dentre a ramagem a comadre, que chegando perto de seu filho de leite, levantou a pata dianteira para acaricia-lo ; depois do que fitando nelle os olhos, voltou a cabeça para traz na direção donde viera.

     — Já sei, respondeu o rapaz affagando o pescoço da cabra ; foi sua comadre que mandou chamar-me e ahi vem. Não é ?

     Fazendo um aceno ao intelligente animal, Arnaldo foi ao encontro da mãi ; esta que vinha perto correu a abraça-lo, apenas o avistou.

     — Jesus ! Filho de minha alma ! Que foi isto com o sr. capitão-mór, meu Deus ? Uma cousa que nunca, nunca succedeu, em dias de minha vida, nem de teu pai, havia de succeder agora comtigo, por minha desgraça ! Tu perdeste o teu bentinho ? Não, aquí está. Então foi por que te esqueceste de resar ?

     — Quando menos se espera, vem os dias maos, sem que se offenda á Deus. Nós viviamos felizes ha tanto tempo, mãi !

     Arnaldo proferiu as últimas palavras com a voz commovida, e apoiou a fronte na face da cabreira, que lhe tinha lançado os braços ao pescoço para conchega-lo a si.

     — Graças á Virgem Santissima, ainda se hade remediar tudo. Tenho fé na minha Senhora da Penha, ella que sempre me tem valido.

     Ergueu Arnaldo a cabeça com gesto brusco e arrancou-se dos braços da mãi, para applicar toda attenção ao estrepido que lhe ferira o ouvido. A mãi sorriu com disfarce.

     — Flor ? interrogou o sertanejo em tom submisso.

     Justa afirmou com a cabeça.