O Tronco do Ipê/I/II

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O Tronco do Ipê por José de Alencar
O Passeio

Na manhã de 15 de janeiro de 1850, saía da Casa Grande, na Fazenda de Nossa Senhora do Boqueirão, um grupo de três crianças, acompanhadas por duas mucamas e um pajem agaloado.

Eram duas meninas de onze a doze anos, e um menino de quinze.

— Vem, Adélia, disse uma das meninas convidando a outra a acompanhá-la na corrida.

— Não gosto de correr!

— Nhanhã Alice, olhe o que sinhá recomendou! disse por desencargo de consciência uma das mucamas, que se deixou ficar bem tranquila.

— Ela não faz caso!... murmurou com indiferença o menino observando a corrida de Alice.

— Você bem viu, nhonhô Mário, quando sinhá recomendou que não corresse. Não foi? Depois... Ai! Eufrosina é que teve a culpa.

— Iaiá Adélia é que não gosta destas cousas, acudiu outra mucama. Lá de uma polca ou de um galope, no baile, isso sim; não é iaiá?

Adélia suspirou:

— Ah! O meu querido Rio de Janeiro!

— Ali é que se pode viver, tornou a mucama.

O pajem que vinha se requebrando com desejo de encartar sua palavrinha, disse:

— A última vez que estive lá com meu senhor barão, nos divertimos muito.

— Sai-te daqui, Martinho! Quem conta com moleque, disse a Eufrosina; e depois de infligir essa correção ao pajem, voltou-se para a colega, mucama de Adélia. Mas Felícia, isso de baile sempre, sempre, também cansa.

— A mim, não cansa, respondeu Adélia com uma voz cheia de melodias.

— Pois a mim, aborrece-me! asseverou Mário com ar importante.

— É porque ainda não viu!

— O barão tem dado muitos, ainda ultimamente nos anos de...

O menino parou como se o lábio lhe recusasse a palavra; e com um meneio da fronte designou a direção em que sumira-se a outra menina.

— Nos anos de nhanhã Alice! acudiu Eufrosina completando o pensamento.

— Mas... acudiu Felícia hesitando; e trocou um olhar com Adélia.

Mário surpreendeu esse olhar:

— Entendo...

— Meu padrinho é muito rico, atalhou Adélia; mas o baile do Cassino!...

— É verdade, o baile do Cassino! repetiu a mucama como um eco.

— Entendo, continuou Mário, há mais luxo, mais riqueza; e portanto mais impostura e mentira.

A mucama deu um muxoxo, que obrigou o menino a medi-la de alto à baixo.

Adélia chegou-se a Mário; e pousando-lhe a mão no braço, disse com um sorriso encantador:

— Deixe estar que ainda havemos de dançar uma contradança no Cassino? Quer ser meu par?

É escusado advertir que nem Adélia, nem Felícia, tinham assistido ao Cassino; mas como a mãe da menina frequentava essa sociedade, e elas a viam muitas vezes preparada para o baile, falavam como quem tivesse perfeito conhecimento da cousa.

Nesse momento Alice aproximava-se de volta da corrida, e ouvira as últimas palavras da amiguinha:

— Mário não dança.

O menino lançou-lhe um olhar frio:

— Com certas pessoas!

— Comigo, não é?

— Principalmente.

— Muito obrigada, respondeu Alice com um sorriso.

— Não tem de que; não me deve nada.

— Está bom; não vão brigar, acudiu Adélia com meiguice.

— Não tenha susto, Adélia! Eu não me zango com ele.

— Não vale a pena!

Não se pode exprimir a amarga ironia com que Mário pronunciou estas últimas palavras. Sua mão crispada por um movimento de cólera, caiu sobre o tronco de um arbusto e espedaçou-o.

Alice afastou-se com timidez, enlaçando o braço pela cintura de Adélia.

— O homem está zangado, mesmo devera! observou o pajem.

— Deixa-o! disse a Eufrosina.

— Estes meninos da roça são mesmo assim. Está que na corte a gente não vê destas cousas. Meninos tão bem ensinadinhos, que é um gosto!

Esta profunda observação à respeito da educação dos meninos fluminenses partiu, como já se presume, da Felícia, crioula carioca, das mais pernósticas e sacudidas, como dizia o Martinho, pajem do barão.

Mário não ouviu estes comentos à respeito da sua zanga repentina e inexplicável. Desviando-se da aleia do jardim, por onde seguiam os outros, isolou-se do grupo; e por algum tempo não fez outra cousa, senão fustigar as folhas e flores, com um pedaço do arbusto que lhe ficara nas mãos. Parecia deleitar-se com essa destruição; à medida que as rosas mais lindas juncavam o chão desfolhadas, a fisionomia do travesso rapaz adquiria a fria placidez, que era sua expressão ordinária.

Entretanto as duas meninas atravessavam o jardim. Alice, a mais esbelta das duas, tinha certa vivacidade e petulância que revelavam a flor agreste, cheia de seiva, e habituada a se embalar ao sopro da brisa, ou a beber a luz esplêndida do sol. Seus cabelos de um louro cendrado, encrespando em opulentos anéis, voavam-lhe pelas espáduas, e às vezes com a mobilidade da gentil cabeça escondiam-lhe o rosto como um véu. Nessas ocasiões, com um simples e gracioso meneio da fronte ela atirava sobre os ombros a nuvem fragrante que lhe sombreava o rosado das faces.

Quem lhe via os grandes olhos velutados de azul, sempre límpidos e serenos, e os lábios mimosos sempre em flor, comparava naturalmente essa alma pura a um lago sereno engastado em um berço de boninas e cuja onda límpida é apenas frisada pela asa diáfana do silfo, pela pétala da flor, ou pelo suspiro da aragem.

Seu passo era ágil, rápido e sutil como o passarinho, de que tinha a volubilidade e a gentileza. Ela desferia de si ao mesmo tempo três movimentos: cantava, corria e dançava.

Adélia, de talhe menos delgado, parecia contudo mais elegante; suas formas harmoniosas tinham a graça da rosa nascente. Havia em sua beleza um certo ar de languidez, que se nota nas flores dos jardins, assim como nas moças criadas sob a atmosfera enervadora da cidade.

Ao contrário da amiguinha, ela trazia os cabelos negros presos em uma rede de fios de ouro, e toucados com certo esmero. Se algum anel se escapava para brincar-lhe na face, a mãozinha mimosa calçada por fresca luva cor de pinhão, movia-se com um gesto mavioso de infinita graça, e restituía o cativo rebelde à sua doce prisão.

Os lábios não sorriam à miúdo; ao contrário pareciam preferir a seriedade, que punha em relevo a extrema perfeição da boca, e davam-lhe certo ar de faceira gravidade, encantador naquelas feições de doze anos. Quando porém o sorriso lhe enflorava os lábios, era como se uma auréola de graça e esplendor lhe cingisse a fronte.

A mesma diferença se notava nos trajos das duas meninas, embora fossem feitos na Corte, da melhor fazenda, e pela mesma modista. O vestido de popelina azul da primeira era como o hímen que fecha o botão e não o deixa abrir-se em flor. O vestido da outra, de sarja verde com enfeites de veludo castanho, era ao contrário o cálix delicado da flor que se expandia em toda a louçania.

Adélia trazia um mimoso chapelinho de sol da mesma cor do vestido, e um leque de aspas de marfim; seu pezinho, calçado com uma botina de duraque, pisava a relva ou as folhas com tanta delicadeza como se roçara pelo mais fino tapete.

Alice, essa não tinha nem umbela nem leque; seu rosto afrontava os raios do sol, como o seu coturno de cordovão calcava as asperezas do caminho. Para abrigar-se do sol ela trazia apenas um chapéu de palha de abas largas, mas em vez de pô-lo à cabeça, tinha-o suspenso ao braço esquerdo pelas fitas, transformando-o assim em uma espécie de açafate, destinado a receber flores, frutos, cocos, besouros, pedrinhas, e toda a mais abundante colheita do passeio.

Quem visse as duas meninas, acharia sem dúvida mais bonita Adélia, porém gostaria muito mais de Alice.

Mário, esse não era bonito, sobretudo para sua idade. Tinha uns olhos pardos muito grandes e profundos; nariz aquilino e boca sempre ligeiramente frisada por um impertinente desdém. O talhe era bem conformado; e seria elegante se não fossem o andar rijo e os movimentos bruscos.

Quando se observava aquele menino e via-se o meneio altivo com que ele atirava a cabeça sobre a espádua, o gesto frio e compassado, a ruga precoce que lhe sulcava o sobrolho e a expressão desdenhosa do lábio crespo, não se podia o observador eximir a um sentimento de repulsa. Parecia que essa criança de quinze anos já se julgava com direito de desprezar o mundo, que nem conhecia, e os homens de que ele era apenas um projeto.

Entretanto, com a continuação do exame aquele sentimento de repulsa diminuía. Havia nessa fisionomia um quer que seja que atraía mau grado; adivinhava-se na fronte larga uma inteligência vigorosa; e vinha como um vago pressentimento, de que a expressão estranha de seu rosto não era outra cousa senão o confrangimento dessa alma superior.

O trajo do menino, embora novo e asseado, indicava logo de primeira vista, pelo corte como pela fazenda, que havia entre ele e as duas companheiras de passeio muita diferença de posição e fortuna.