O Tronco do Ipê/I/III

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O Tronco do Ipê por José de Alencar
Espinho de Rosa

Alice, sob pretexto de mostrar certa rosa muito bonita a Adélia, fizera uma volta com disfarce para aproximar-se de Mário, que se isolara do grupo.

A menina conhecia o companheiro e sabia que se não se reunissem a ele, deixando passar desapercebido o incidente, Mário com certeza abandonaria o passeio projetado, e sumir-se-ia pelo resto do dia.

— Olha, Adélia! Não é tão bonita?

— Muito! Parece uma flor de cetim!

A flor que as duas meninas admiravam com tanto entusiasmo, era uma variedade da rosa-musgo, que ou por capricho da natureza, ou por um processo de jardinagem, reunia o aveludado das folhas da camélia ao gracioso das pétalas crespas e fragrantes da outra espécie.

— Onde ficará melhor, no cabelo ou no seio? perguntou Adélia.

— No seio, iaiá, é mais da moda! acudiu a Felícia, como quem na matéria falava de cadeira.

— Quero uma!

Tendo manifestado o seu desejo, Adélia voltou-se para Mário, com certo modo senhoril. O menino compreendeu; quebrou o talo de uma das rosas mais bonitas, e lha deu; não como ato de galanteria, mas simplesmente como uma fria condescendência.

— Ai! Tem tanto espinho! gritou Alice retirando a mão que tentara colher outra rosa.

Mário ficou impassível.

— Tire uma para Alice, disse Adélia.

— Denguices! murmurou o menino.

— Denguices!... Veja!

E Alice mostrou queixosa a ponta mimosa do dedo, onde borbulhava uma gota vermelha.

— Aí está o que nhanhã queria, era isso mesmo.

— Não é nada, Eufrosina. Um bocadinho d’água, disse o pajem correndo para o repuxo.

Mário tinha tirado uma segunda rosa, mas não se resolvia a dá-la a Alice; foi preciso que esta entre um sorriso e um receio lha tirasse da mão tímida. O menino ficara imóvel e pálido, com os olhos fitos na gota vermelha que borbulhava no dedo de sua companheira. De repente apoderando-se da mãozinha mimosa com um gesto arrebatado, sugou o sangue até estancá-lo como fazíamos nós em criança quando nos feríamos em alguma travessura.

Alice olhava-o sorrindo e já esquecida da dor. Encontrando o olhar da menina, Mário com o mesmo arrebatamento largou-lhe a mão ; e envergonhado, quase arrependido do que fizera, continuou a fustigar os arbustos, aplicando também por diversão uma cipoada nas canelas do Martinho.

A menina trançando a rosa nos cabelos, disparou em nova corrida.

— Nhanhã Alice, onde vai? Olhe o que já sucedeu!

— É escusado, disse Mário. Não se emenda. Quanto mais você gritar, mais ela corre.

— Gosto de correr! Que tem isso agora? exclamou Alice voltando-se.

As crianças deixaram o jardim, atravessaram a horta, e entraram no vasto e sombrio pomar.

Seriam dez horas da manhã; fazia um belo dia de sol, mas bafejado por fresca viração. As águas do rio tinham a cor e o brilho da esmeralda; o céu estava acolchoado desse azul diáfano e macio, onde o olhar repousa deliciosamente, como em coxins de seda.

Um enxame de passarinhos de diversas cores esvoaçava chilreando entre as laranjeiras; e no meio desse concerto harmonioso, destacava como a rutilação do diamante entre as cintilações do cristal, a nota opulenta e sonora do sabiá; longe, formando o sombreado da esplêndida melodia, ressoava a endeixa plangente da juriti.

As crianças, e mais ainda os escravos, conservaram-se completamente indiferentes à beleza desse quadro, que a natureza tropical coloria ao mesmo tempo de luz e harmonia.

Naquela idade, e naquela condição, de ordinário o sentido preponderante é o do paladar; por isso de todas as magnificências da vegetação vigorosa, o que eles viram e admiraram, foi o dourado das belas laranjas seletas; o roxo dos figos e abacates; o vermelho dos bagos da romã; o amarelo das goiabas e araçás; o preto das uvas e jabuticabas temporãs; e o louro acerejado das mangas, que recendiam.

Alice quis por força trepar em uma goiabeira para colher um cacho de uvas da alta parreira. Houve porém desta vez uma oposição geral à travessura.

— Nhanhã, isto são modos? Tomara que sinhá saiba, exclamou a Eufrosina.

— Onde já se viu uma menina trepar nas árvores? No Rio de Janeiro, só quem faz isso, é menina à toa! observou a Felícia.

O pajem também saiu-se:

— Eu tiro, nhanhã; diga o que quer, que eu tiro. Uma moça faceira tem seu pajem para servir a ela.

— Não trepe, Alice; não é bonito; estraga as mãos e pode romper seu vestido, disse Adélia.

Mário limitou-se à sua habitual ironia:

— Ora!... Deixe trepar, não faz mal! É filha de barão... não cai... tem muito dinheiro!...

Alice foi obrigada a renunciar a seu projeto e resignou-se a comer as uvas tiradas pelo pajem, o que as tornou muito menos gostosa.

Há nada para uma criança que se compare ao prazer de saborear uma fruta adubada com o sainete da travessura?

A travessura é a pimenta-do-reino, que os meninos deitam em seu melão, esse pepino doce, essa indigestão natural que a terra, mãe carinhosa, tem o cuidado de preparar para os estômagos desejosos de emoções fortes.

Eu comparo o estômago que digere um melão, ao Hércules da mitologia esmagando a hidra de Lerna; ao célebre caçador goiano que estrangulou um tigre com as mãos; e a meu patrício Capitão-Mor Filgueiras, esse herói das lendas cearenses, que abatia um touro com um murro: trazia um canhão por bacamarte, e finalmente suspendia o seu possante cavalo agarrando-se a um galho de gameleira com os pés traçados por baixo da barriga da animal.

Era justamente um melão que Alice lobrigara longe, no meio da folhagem. Lançar fora as uvas, correr para a fruta e trazê-la, foi movimento tão rápido que os outros só o perceberam, quando a viram de volta abraçada com o melão.

— Nhanhã, para que este melão?

— Para comer, Eufrosina! Que pergunta!

— Eu vou chamar sinhá; porque só ela pode com nhanhã.

Entretanto Alice procurava abrir o melão, batendo contra a ponta de um ramo quebrado.

— Uma menina, Felícia, que não pode tocar em fruta, que não adoeça; Vai logo comer melão!

Adélia, apesar de sua delicadeza de menina cortesã, não pôde esquivar-se à tentação das belas frutas. Quando o pajem Martinho lhe trazia alguma goiaba ou figo, ela segurando-a na pontinha dos dedos enluvados, voltava-se para a mucama:

— Fará mal, Felícia?

— Deixe ver, iaiá.

A Felícia tomava então a fruta, que cheirava e abria ao meio; comendo uma banda dava a outra a Adélia:

— Pode comer, iaiá! Está muito gostosa.

Naturalmente a Felícia alguma vez, escutando à porta da sala, ouvira dizer que o médico dos soberanos tinha por encargo do ofício provar as régias iguarias antes de serem servidas a seu amo. Na sua qualidade de mucama, incumbida de velar sobre a formosura e o bem-estar da menina, ela considerava-se obrigada a partilhar com a iaiá todas as guloseimas.

A respeito dos presentes de festa, o encargo da mucama era ainda mais pesado: ela tinha como dever, comer o mais depressa possível os confeitos e amêndoas, para esvaziar as caixinhas, que Adélia destinava às roupas das bonecas.

— Quer um pedacinho, Adélia? perguntou Alice devorando o melão.

— Não, respondeu a amiguinha com um gesto de espanto.

De repente ouviu-se uma voz gritar do alto:

— Quem quer jambo? Lá vai!

Surpresos, só então perceberam todos que Mário se havia sumido.

Tendo discorrido um momento pelo pomar, mirando as frutas e visitando com o olhar os ninhos seus conhecidos, o menino sacudiu o corpo com um movimento semelhante ao do cisne ou outro pássaro aquático, que depois de mergulhar, arrufa as penas para expelir as gotas d'água.

Então com um gesto rápido atirou sobre a relva o chapéu de feltro escuro e o jaleco de brim; deu um salto para agarrar um ramo; e grimpou pelos galhos das árvores com a ligeireza do macaco.

Depois de muitas evoluções arriscadas pelos mais altos ramos, o menino passara da copa de uma jaqueira para o cimo de um jambeiro, caminhando sobre um galho quase horizontal, sem procurar o menor apoio com as mãos, que ele estendera para manter o equilíbrio.

Advertidas pelo grito, as meninas descobriram o companheiro suspenso nas grimpas do jambeiro, quarenta palmos acima do chão.

— Hum!... Aquele quando começa, tem que se lhe diga! resmungou o pajem.

Adélia sentiu uma vertigem de ver o menino em tão grande altura. Alice ao contrário bateu palmas àquela travessura, que ela não poderia fazer, mas aplaudia nos outros. Soltando gritozinhos de prazer, começou a pular sobre a relva, apanhando os jambos que Mário atirava.

— Gente! Este mocinho é doudo! murmurou a Felícia.

— Desça, eu lhe peço! disse Adélia, cobrindo os olhos com a mão.

— Quem é que pode com aquele menino?...

— Nem sua mãe dele!

— Nem o pai, se fosse vivo! Olhe, Felícia, ninguém imagina, não... Você já viu assim um cabritinho, que está amarrado todo o dia e se solta de tarde... Lá vai, prum, prum, prum, saltando, que ninguém mais lhe põe a mão em cima... Pois olhe, é mesmo como o bichinho... Oh!...

Esta vigorosa interjeição, com que a Eufrosina acabou dramaticamente a sua comparação poética do cabrito, foi arrancada por uma jaca madura, que esborrachando-se na cabeça, cobrira-lhe toda a cara, pescoço e ombros, de bagos amarelos.

— É para te adoçar a língua! disse a voz sarcástica de Mário.

— Ih! Que marmelada! gritou o pajem.

O menino ouvira as palavras da mucama, e ali mesmo, ao alcance da mão, achara a sua vingança.

A figura de Eufrosina, coberta de bagos de jaca, era a mais grotesca possível. Assim Alice não se conteve; as volatas de sua risada argentina repercutiram pelo pomar e se casaram ao canto dos passarinhos.

— Ora vejam só! dizia a mucama, se isto não é mesmo para a gente fazer uma... Depois, ai! que Eufrosina é má. Deixe estar, Senhor Mário, que chegando em casa, sinhá D. Francisca há de saber. Oh! se há de!

Quando a parda falava, os bagos de jaca escorregando-lhe entravam pelos olhos e pela boca, sem contar as moscas, atraídas pelo mel da fruta; daí uma série de caretas, cada qual mais esquisita.

— É pomada para alisar o pixaim! gritou Mário.

O riso é contagioso. Ninguém pôde resistir. O Martinho apertava as ilhargas e trinava como um frango:

— Qui-qui-qui! Pomada de jaca!... Qui-qui!... Para alisar o pixaim.

Adélia e a colega de Eufrosina, a mucama cortesã, riam-se conforme a moda, com esses ritornelos, que tornam a gargalhada da gente do tom uma espécie de peça musical, uma cavatina ou valsa. Elas tinham imitado essa prenda de D. Luíza, a mãe de Adélia.

Diante da fuzilaria de risadas, a Eufrosina bateu em retirada.

— Desaforo! Vou fazer queixa a Sinhá! Eu sou sua mucama dela, sua mucama de estimação; não é para ser tratada assim. Se não presto mais, então me vendam!... Depois é que hão de ver! Ai, a Eufrosina, aquilo sim, era uma boa rapariga! Coitada! Aonde andará ela?... Ora bem descansada de minha vida! Senhor bom é o que não falta!

Assim resmungando lá se foi a parda, tangida pelas risadas das meninas e pelos assobios estridentes de Mário, com quem o pajem Martinho fazia duo, embora sentisse já de antemão lhe arderem as orelhas, com os arrepelões que a mãe não lhe deixaria de aplicar, a pedido da mucama.


Logo que se desvaneceu a lembrança do cômico incidente, a Felícia perguntou:

— Então a gente vai indo, ou espera aqui pela Eufrosina.

— Vamos! exclamou Alice.

— Esperar, qual o que! acudiu o pajem. Acompanhe você sua iaiá; eu cá tomo conta de nhanhã D. Alice. — Mas, observou Adélia, onde é mesmo este passeio? Ainda fica muito longe?

— Não! Muito perto; é ali, no fim do pomar.

— É que o sol já está ficando muito quente! objetou a Felícia.

— Tem sombra muita até lá! respondeu Martinho.

— Mário, você não vem? gritou Alice para o menino.

— Caminham com meus pés?

— Ora assim não tem graça!...

— Ah!...

Adélia soltou esta exclamação vendo o menino atirar o corpo, suspender-se ao galho pelas mãos, e balançar-se como um fruto ao sopro do vento.

— Jesus! Que estripulias!

— Eu lhe peço, Mário, não faça isto! Desça! disse Adélia suplicante.

O menino começou a cantarolar.