O Tronco do Ipê/I/VIII

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O Tronco do Ipê por José de Alencar
Mãe-D'água

Descendo-se da cabana pela vereda tortuosa que serpejava entre as pedras, dava-se em um pequeno lago, alimentado pelas águas do rio.

As margens cobertas de plantas aquáticas eram cingidas pelos alcantis do rochedo, que derramavam sobre as águas profundas uma sombra espessa. À superfície do lago lastravam as ninfeias abrindo os brilhantes cálices brancos, azuis e escarlates.

O hálito da brisa frisava, achamalotando, o azul das águas, que pareciam ter como as vagas do mar um fluxo e refluxo, porém muito mais brando. Junto ao rochedo onde estava a cabana, em um seio que formava o lago, a água parecia adormecida e completamente imóvel. Aí o sopro da aragem embaciava o espelho sempre liso e brilhante; apenas, a não ser ilusão da vista, percebia-se uma leve ondulação concêntrica.

A extrema velocidade desse movimento esférico era justamente o que produzia a ilusão. Quem não observasse o fenômeno com bastante atenção, afirmaria sem dúvida que ali era, não o eixo do turbilhão, mas o remanso das águas, o seu regaço, onde vinham adormecer as ondinhas da margem.

Às vezes a face do lago se arredondava suavemente, e abria uma covinha mimosa, semelhante à que forma o sorriso no rosto de uma moça bonita. Mísero de quem, descuidoso, prendesse os olhos às carícias que borbulhavam ali.

A onda, que Shakespeare comparou à mulher na constante volubilidade, ainda se parecia com ela na voragem daquele sorriso. Se na borbulha d'água se aninhava a morte como um aljôfar gracioso, que estava namorando os olhos, também assim a alma do homem se embebendo na covinha de uma face gentil, é submergida pelo abismo infindo, onde o tragam as decepções cruéis.

De um lado da bacia notava-se uma grande pedra quadrada em forma de laje, com uma borda levantada à guisa de parapeito, e uma saliência encostada ao rochedo, figurando um divã. Era obra da natureza, mas aperfeiçoada outrora pela arte que talvez aproveitasse o lugar para ponto de recreio.

A essa pedra chamavam na fazenda, a Lapa. Ela ficava exatamente na base do mais alto e mais áspero dos rochedos, o qual prolongava sobre o lago uma ponta ab-rupta semelhante a uma crista. Esse dossel de granito, com suas franjas verdes de parasitas e orquídeas, tornava ainda mais umbroso o rebojo do lago, que só naquelas horas da sesta recebia diretamente alguns raios do sol.

Aí na Lapa ia dar a vereda tortuosa que descia do terreiro da cabana; e continuava enredando-se nas moitas que vestiam as margens da lagoa. Na direção da várzea podiam-se ver ainda os vestígios de algumas pilastras de alvenaria, que denotavam ter ali existido em outro tempo alguma construção ligeira.

Tal era o sítio que uma tradição de família cercava de tão supersticioso terror. Seu aspecto, embora ressumbrasse doce melancolia, era tão sereno e plácido, que estava bem longe de justificar a má reputação.

Desde muito tempo Alice, curiosa como toda a criança, desejava ardentemente ver esse lugar que parecia-lhe prender-se estreitamente à existência de sua família; pois embora de ordinário se evitasse falar do Boqueirão, o fato é que estava sua lembrança viva sempre no espírito das pessoas que a rodeavam.

Por diversas vezes, vindo à casa de sua vovó preta, a menina cogitara meios de esquivar-se furtivamente e satisfazer sua curiosidade. Ela induzira de certas palavras ouvidas casualmente, que da cabana havia uma passagem, por onde Benedito descia à lagoa para “banzar sobre a morte de seu senhor moço”. Assim dizia a Chica. Anteriormente, brincando no terreiro de sua vovó preta, a menina tinha reparado na abertura da rocha.

Naquele dia pareceu-lhe favorável o ensejo. A tia Chica estava presa à cama e não podia como costumava segui-la por toda a parte; Benedito saíra com Mário e finalmente a presença de Adélia e de sua mucama Felícia distraíam a atenção das outras pessoas.

Se perdesse essa ocasião, nunca mais alcançaria o que tanto desejava.

Obter a realização desse desejo da condescendência das que a acompanhavam, era cousa em que nem pensava. Conhecia as ordens severas de seu pai; e sabia como eram respeitadas e obedecidas.

A história da mãe-d’água ainda mais exaltou a imaginação infantil de Alice. Desapareceram as hesitações; sob pretexto de ver sua galinha, ganhou o terreiro, e desceu pela vereda tortuosa até à Lapa.

O receio de que a surpreendessem e o respeito supersticioso que lhe infundia aquele sítio, faziam palpitar com força o lindo seio, desmaiando e acendendo alternativamente as duas rosas da face.

Aproximando-se sutilmente da Lapa, a menina se debruçou no parapeito de pedra, para ver a lagoa, porém especialmente a mãe-d'água. Seus olhos, depois de vagarem algum tempo pelas margens da bacia, fitaram-se com dobrada atenção no tanque formado pelo rochedo.

A princípio ela só viu o espelho cristalino, onde sua imagem se refletia, como o rosto diáfano de alguma náiade. Pouco depois teve um ligeiro sobressalto e, estendendo o colo, murmurou sorrindo:

— Lá está!

Com efeito distinguia-se no fundo do lago, mas vagamente, o busto gracioso de uma moça, com longos cabelos anelados que lhe caíam pelas espáduas. A ondulação das águas não deixava bem distinguir os contornos, e produzia na vista uma oscilação contínua.

Seria a sua própria imagem que mudara de lugar com seu movimento? Além de aparecer o busto de mulher muito distante, tinha a cabeça voltada em sentido oposto.

Alice quedou-se, com os olhos fixos e imóveis para não perder o menor movimento da fada. Às vezes sentia uma vacilação rápida na fronte; mas era uma impressão fugitiva; passava logo.

Pouco a pouco a figura da mãe-d’água, de sombra que era, foi se debuxando a seus olhos. Era moça de formosura arrebatadora; tinha os cabelos verdes, os olhos celestes, e um sorriso que enchia a alma de contentamento; um sorriso que dava à menina vontade de comê-lo de beijos.

Alice viu a moça acenar-lhe docemente com a fronte, como se a chamasse. A princípio não quis acreditar; tomou por uma ilusão, mas tantas vezes o movimento se repetiu, tantas vezes a moça lhe acenou graciosamente com a cabeça, que não pôde mais duvidar.

A mãe-d’água a chamava; e ela teve desejos de atirar-se em seus braços. Mas a fada estava no fundo do lago; sua mãe podia chorar; as outras pessoas sabendo ficariam com medo. Ela não, não tinha medo. A moça lhe sorria com tanta doçura e bondade!...

Em vez de querer-lhe mal, havia de fazer-lhe tantos carinhos, contar-lhe cousas muito bonitas do reino das fadas e dar-lhe talvez algum condão, que a protegesse, que obrigasse Mário a lhe querer bem e a não ser mau para ela.

Nesse momento chegou-lhe trazido pela brisa o eco das vozes que a chamavam. Pareceu-lhe que a puxavam docemente e iam arrancá-la ao encanto daquela miragem. Mas resistiu apoiando fortemente os braços sobre a pedra.

Não ouvia mais nada, nem se apercebia do lugar em que estava. O lago, o rochedo, as plantas, tudo desaparecera, ou antes se transformara em um palácio resplandecente de pedrarias. No centro elevava-se um trono que tinha a forma de um nenúfar do lago; mas era de nácar e ouro. Aí sentada em coxins de seda, a moça abria os braços para apertá-la ao seio.

A menina teve um estremecimento de prazer. Hesitou contudo por um melindre de pejo; mas o vulto de Mário perpassou nos longes daquela miragem arrebatadora; e a moça do lago outra vez sorriu-lhe, através daquela imagem querida. Então, Alice, atraída pelo encanto, foi se embeber naquele sorriso como uma folha de rosa banhando-se no cálice do lírio que a noite enchera de orvalho.

Ouviu-se um soluço da onda, e um ai sentido. O soluço expirou ali mesmo, sopitado pela voragem que se abria. O gemido repercutido pelas fragas foi derramar a aflição na cabana.

Na desgraça que acabava de suceder, nada havia de sobrenatural. A menina fora vítima da atração que exerce o abismo sobre o espírito humano.

Aquele seio profundo, que parecia o remanso do lago, era ao contrário o vórtice de um profundo remoinho das águas, que se engolfando por algum abismo cavado na rocha, giravam sobre si mesmas com uma velocidade espantosa.

A abóbada da caverna onde as águas se precipitavam, era naturalmente o cimo do penhasco onde estava a cabana, porque só nesse ponto se escutava bem o surdo fragor da catadupa. À margem do lago muitas vezes nada se ouvia, e outras distinguia-se apenas um ligeiro sussurro, como o da brisa ramalhando entre as folhas dos pinheiros.

Alice, debruçada sobre o parapeito de pedra, não percebera que fronteira a ela havia na rocha uma face côncava coberta de cristalizações que espelhavam o seu busto gracioso, do qual só a parte superior se refletia diretamente nas águas.

Esse busto refrangido pela rocha, e reproduzido pela tona do lago, apresentou aos olhos de Alice a sombra ainda vaga da mãe-d’água. Depois, quando uma réstia de sol esfrolou-se em espuma de luz sobre a fronte límpida da menina, e um raio mais vivo cintilando nas largas folhas úmidas da taioba, lançou as reverberações da esmeralda sobre os louros cabelos, o busto se debuxou e coloriu.

Tudo o mais foi efeito da vertigem causada pela fascinação. O torvelinho das águas produz na vista uma trepidação que imediatamente se comunica ao cérebro. O espírito se alucina e sente a irresistível atração que o arrasta fatalmente. É o magnetismo do abismo; o ímã do infinito que atrai a criatura, como o polo da alma humana.

Se Alice não tivesse uma natureza forte e vivace, se a vida no campo, ao ar livre, não lhe dessem firmeza ao caráter e seiva ao coração, houvera sem dúvida cedido ao primeiro atordoamento, e recuaria a tempo de evitar a catástrofe.

Chegando ao terreiro, Benedito galgou de um salto a escarpa da rocha que se levantava do lado da lagoa. Abaixando os olhos para o remoinho não viu mais do que uma faixa azul que cintilou a seus olhos como um relâmpago e sumiu-se. Era o vestido de Alice.

— Ah!...

O peito largo do africano respirou profundamente, como se lhe houvessem tirado de cima um rochedo.

A onda, que abrira a fauce para tragar sua vítima, fechou-a de novo, e alisou-se plácida e fria como a lápide de um túmulo.