O Tronco do Ipê/I/XII

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O Tronco do Ipê por José de Alencar
O Conselheiro

À hora em que os meninos chegavam à cabana, estavam reunidas na varanda da Casa Grande várias pessoas.

Ao redor de um mesa de junco no centro da sala, conversavam três senhoras vestidas com muito apuro e elegância. A mais alta era a baronesa, mãe de Alice, senhora de muita formosura, embora fria e sem expressão. À direita ficava-lhe D. Luíza, mãe de Adélia, uma das estrelas do Cassino naquela época. À esquerda movia-se na poltrona com uma volubilidade nervosa, o talhe delgado de D. Alina, cuja magreza extrema desaparecia sob uma nuvem espessa de fitas, babados e filós.

A baronesa abanava-se com um rico leque de madrepérola; D. Luíza arranjava em ramalhete as violetas espalhadas sobre um lenço de fina cambraia. D. Alina gesticulava.

A alguma distância deste grupo, junto à janela, estava sentada uma senhora desfeita e pálida, vestida de preto e com extrema simplicidade. Era D. Francisca, viúva de José Figueira e mãe de Mário; trabalhava em malhas de lã; e constantemente volvia os olhos à janela, alongando-os pela encosta da colina, onde se desdobravam até à margem do rio, o jardim, a horta, o pomar e a várzea. Naturalmente seu pensamento acompanhava o filho no passeio.

— Não sei o que me vai acontecer! Tenho um aperto de coração! murmuravam seus lábios descorados.

Numa das extremidades da varanda passeava distraído um homem de boa presença, alto e robusto. A cabeça, que ele às vezes erguia por um esforço, ia a pouco e pouco insensivelmente descaindo sobre o peito.

Era o barão.

Tinha uma sobrecasaca, de casimira escura, abotoada, no peito da qual metia a mão direita. Este hábito, contraíra ele desde muitos anos para disfarçar o aleijão da mão direita. Outrora vaidoso de sua bonita mão, sentia agora desgosto profundo por causa desse defeito; e diversas vezes pensara em sujeitar-se a uma operação para amputar aquele membro inútil e ridículo. Mas cousa singular, ele, de coragem provada, tinha medo!

— Estou arrependida depois que deixei Adélia ir a esse passeio, dizia D. Luíza lançando um olhar para a janela. O sol já está tão quente!

— A senhora também tem tantos cuidados com sua filha, D. Luíza; é demais, acudiu D. Alina.

— Eu não sou assim com Alice, quero-lhe muito bem, mas deixo-a brincar a seu gosto, observou a baronesa.

— Pois olhe, baronesa; pelo meu gosto, Adélia não ia a parte alguma sem mim. Olhos de mãe sempre veem mais!... Felizmente minha filha é muito boa menina; não podia ser melhor; conta-me tudo. Não é capaz de fazer a menor cousa sem minha licença; nem mesmo comer uma bala.

— Isto é o que a senhora pensa!

— Pode acreditar, D. Alina.

— Mas o que você ganha com isso, D. Luíza? Afligir-se à toa por qualquer cousinha de nada. Se Adélia voltasse agora e lhe dissesse — “mamãe, eu comi uma fruta quente!” Ai! minha filha vai adoecer! E no fim de contas não passava do susto.

— Mais assustada fico eu, não sabendo o que ela faz.

— Eu penso como a baronesa. O meu Lúcio tem bastante juízo; e entretanto eu não estou a cada momento a ralhar com ele e a atormentá-lo.

— Nem eu com Adélia!...

A discussão prometia prolongar-se. O assunto não podia ser mais vasto e importante. O verdadeiro sistema de educação é um problema muito estudado, mas ainda não resolvido de uma maneira satisfatória.

D. Luíza e a baronesa sustentavam cada uma a opinião mais conforme com sua índole; não indagavam se essa opinião era a melhor para formar o coração e espírito da filha; bastava que fosse a mais cômoda e agradável à mãe.

D. Luíza, espírito curioso, natureza vivaz, que precisava de um elemento para sua atividade incessante, tinha necessidade de ocupar com a filha todo o tempo que lhe deixavam os bailes e teatros. Ela obedecia assim no mesmo tempo ao estímulo do amor materno, e a uma condição de seu organismo.

A baronesa ao contrário, espírito indiferente, natureza inerte, não tinha energia bastante para animar sua própria existência, quanto mais para desperdiçar em desvelos incessantes pela filha, que sem isso crescia bonita e sempre alegre. Ela amava a Alice como se ama na idade do egoísmo, sem extremos, com uma igualdade calma e inalterável.

Quanto a D. Alina, não tinha opinião sobre este, como sobre qualquer outro assunto. Aquela mulherzinha mirrada e titilante não passava de um cartão para amostras de rendas e fitas; fora disso só sabia intrigar. Adotou a opinião da baronesa, porque era a da dona da casa, onde ela acabava de chegar com intenção de passar algumas semanas. Três dias depois, talvez já não fosse capaz daquela fineza.

— Venha decidir a questão, senhor conselheiro! exclamou D. Alina para uma pessoa que entrava.

Era um homem que orçava pelos cinquenta anos, baixo e calvo, de rosto largo e feições grosseiras, mas não vulgares. A fronte proeminente e espaçosa parecia debuxada no chinó frisado que lhe cobria o crânio despido. De vez em quando um riso mordaz perpassando-lhe nos lábios aprofundava os dois sulcos das bochechas, e derramava em seu rosto a expressão desse frio ceticismo, que atira o homem na materialidade para crer e sentir alguma cousa.

Gozava Lopes da reputação de um dos mais brilhantes talentos políticos daquela época, o que lhe valera o título de conselheiro, então menos relaxado do que atualmente. Seus amigos acreditavam que na primeira organização lhe seria confiada uma pasta, e das mais importantes. Quando se falava nisso, o futuro ministro regurgitava de importância, e derramava em torno um ar de proteção. Nesse tempo ainda não tinham os políticos adquirido o sestro das loureiras, que mostram desdém pelo que mais cobiçam.

A amizade íntima que existia entre o conselheiro e o barão datava de muitos anos e nascera de uma circunstância curiosa, que naturalmente foi revelada pelo ministro de que trata a anedota. Há tanto ministro leviano hoje em dia, que não admira já existisse a semente naqueles tempos mais atrasados.

Quando o barão pretendeu o título, pensou que o seu rasgo de filantropia, embora não servisse para alcançar-lhe o despacho, somente devido aos doze contos de réis, dava-lhe contudo direito a escolher a denominação do baronato. Por isso escrevera ao correspondente incumbido de efetuar a transação, recomendando-lhe com instância que obtivesse o título de Barão do Socorro.

O correspondente cumpriu fielmente a recomendação; mas surdiram dificuldades que obstaram à conclusão do negócio. Foi então que no gabinete do ministro se passou esta cena:

A Excelência preparava a pasta para o despacho da noite. Lopes, que era íntimo do ministro e mediante 500$000 mensais pagos pelas despesas secretas o defendia na imprensa em artigos bombásticos, fumava recostado familiarmente em uma cadeira de balanço.

— Eis aqui um negócio que me está dando que fazer!... disse a Excelência voltando-se para mostrar certo papel.

— Alguma complicação? perguntou Lopes quebrando na ponta do botim a cinza do charuto.

— Um fazendeiro do sul da província, o Joaquim Freitas, que deseja ser barão...

— Hanh!...

— Conhece-o?

— De nome apenas.

— É a primeira influência eleitoral do colégio; além disso deu doze contos de réis para as obras do Hospício. Mas o homem embirrou! A princípio não queria dar mais do que uma comenda; por fim, como já se tinha recebido o dinheiro e podia haver um escândalo, consentiu no baronato; porém não aparece nome que sirva. Já corremos todos os santos da folhinha, e todos os rios da província... O Freitas insiste por Barão do Socorro; mas eu já me contentava em fazê-lo barão de qualquer cousa. Há dois meses que estou nesta lida.

— Tive agora uma ideia, Excelentíssimo. Proponha Barão da Espera, disse Lopes com um sorriso prismático.

— Da Espera... Por quê?

— O Freitas mora pelas margens do Paraíba; e como nos rios sempre há uns pontos chamados esperas, onde as canoas se abrigam enquanto passa a força d'água...

Ergueu-se discretamente um canto do reposteiro, e o correio participou achar-se na sala o Senador X, parlamentar muito distinto, que mudava de partido regularmente duas vezes no ano; ao abrir-se a sessão declarava-se oposicionista e pouco antes de encerrar-se dava sua adesão ao governo.

O ministro saiu prontamente para não fazer esperar tão importante personagem, que pertencia a uma classe de homens políticos muito apreciada em São Cristóvão, A mão que fabrica os títeres do teatrinho parlamentar, tem razão de preferir essas criaturas de cera, que o menor calor derrete, às almas de têmpera que o fogo enrija em vez de embrandecer.

No dia seguinte publicou-se o despacho do Barão da Espera.

O ministro, apenas avistou Lopes nos corredores da Câmara, correu a ele pressuroso:

— Que boa ideia!... Parece que deu-lhe no goto; e não estava em dia de indulgência; ao contrário.

Nos lábios do Conselheiro Lopes perpassou o mesmo sorriso prismático da véspera, mas dessa vez o raio da ironia era mais cintilante.

— Excelentíssimo, disse ele sentenciosamente; os ministros fazem programas, e os reis epigramas.

— Como assim?

Lopes cochichou ao ouvido da Excelência que a princípio enfureceu-se; mas, tomando a cousa em ar de chalaça, desabotoou o sobrolho em uma gargalhada.

Lendo o CONSTA-NOS do Jornal do Comércio, Freitas ficara desesperado; e veio à Corte resolvido a renunciar ao título e reclamar seu dinheiro. Afinal pôde obter uma audiência do ministro, e expor-lhe sua pretensão de ver corrigido o engano, ou desfeito o trato e restituído o preço.

Entendia Freitas e com boa razão, que tendo oferecido doze contos de réis à vista pelo título de Barão do Socorro, e não por outro qualquer, o governo devia dar-lhe o objeto comprado, ou declarar que não podia aceitar a oferta, fazendo de sua parte contraproposta.

Assim costumava o fazendeiro tratar a venda dos cafés ou a compra de escravos; e supondo que a base das transações mercantis, quer se façam na praça do comércio, quer no gabinete do ministro, é a boa fé, não duvidou um instante da justiça de sua reclamação.

O ministro porém provou-lhe que ele estava muito atrasado em política.

— Meu caro Senhor Freitas, como seu amigo que me prezo de ser devo usar de toda a franqueza. O senhor labora em um engano, quando supõe que o governo vende títulos, e que pelo fato de dar doze contos de réis, qualquer tem direito a ser barão.

— Mas, senhor conselheiro, foi o que me disseram!

— Iludiram-no. Dando doze contos de réis o cidadão presta um serviço e fica habilitado a ser remunerado com uma graça. Essa graça pode ser um hábito, uma comenda ou um título, do nome que aprouver ao governo, o qual não recebe condições. O senhor desejava ser Barão do Socorro: Sua Majestade entendeu em sua sabedoria que devia fazê-lo Barão da Espera. Tome o meu conselho; vá agradecer-lhe, e não se ocupe mais com isso. Não é bom reviver certas cousas!...

O ministro concluiu com um sorriso misterioso, apertando a mão do Freitas:

— Entende-me?

— Não, Excelentíssimo, não entendo!

— Ora?... Conhece o Conselheiro Lopes? Ele falou-me em certos boatos... calúnias bem sei! Mas em todo o caso o melhor é deixar esquecer estas cousas.

O novo barão saiu lívido de cólera sem dúvida ou de indignação; mas não deu andamento à sua reclamação.

Dias depois um amigo a seu pedido o apresentou ao Conselheiro Lopes; e tal simpatia sentiram mutuamente, que se tornaram íntimos, e se uniram espiritualmente pelos laços de um mútuo compadresco.

O conselheiro foi padrinho de uma primeira menina que o barão perdera, e não tendo outro modo de retribuir a fineza, convidou o amigo para crismar Adélia, sua filha única.

Com o conselheiro entraram na varanda várias pessoas, hóspedes do barão, que tinham ido depois do almoço dar uma volta pela fazenda. Notavam-se entre outras, a volumosa e repolhuda reverência do Padre Carneiro, vigário da freguesia; a exígua estatura do Capitão Tibúrcio, subdelegado vitalício no domínio conservador; e finalmente a figura, esguia e exótica, do Sr. Domingos Pais, inserida em umas calças de lila preto e brochada com um fraque justo cor de rapé.

O conselheiro que se dirigia a uma cadeira de balanço, voltara-se ouvindo a voz de D. Alina.

— Qual é a questão, minha senhora, respondeu aproximando-se da mesa.

— Meu marido?... Há de ser contra mim, não tem que ver!

— Se não tiver razão, Luizinha.

— Ainda que tenha!

— A questão é esta, disse a baronesa, e expôs a matéria.

O conselheiro brincando com os berloques do relógio, gesto sóbrio e modesto que preludiava seus discursos na câmara, exprimiu-se nestes termos:

— Não sou o mais competente sem dúvida para decidir em matéria tão delicada. A respeito de educação, tenho para mim que o coração da mãe mesmo ignorante tem mais talento do que a cabeça do homem, embora de elevada inteligência. Entretanto sempre direi minha opinião. Eu entendo que uma menina é uma flor, com uma diferença, que o perfume desta é alma naquela. Ora, se a flor silvestre é mais forte e vivaz, não tem decerto a perfeição e a graça da flor cultivada. Creio pois que para se obter uma moça que reúna as virtudes das duas flores, sem os seus defeitos, é necessário dar-lhe ao mesmo tempo liberdade e cultivo, sol e sombra, ar e abrigo. Eis como eu penso; portanto ambas têm razão, a senhora baronesa e minha mulher; com uma ligeira modificação, o sistema de educação de cada uma me parece o melhor.

O conselheiro era realmente um talento notável; e as esperanças de seus amigos não podiam ser mais bem fundadas. Um deputado capaz de provar ao governo e à oposição que ambos se acham de perfeito acordo, estava talhado para ministro.

O vigário apoiara gravemente com a papada; o subdelegado se erguera nas pontinhas dos pés, arrebatado como um balão pela eloquência do deputado. Quanto ao Sr. Domingos Pais, consultara previamente a fisionomia da baronesa, e ficara impassível; era um homem consciencioso; os seus aplausos, como os seus serviços, pertenciam de direito a quem o sustentava; foi sempre sua regra. Que excelente massa para um deputado governista!