O Tronco do Ipê/II/VIII

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O Tronco do Ipê por José de Alencar
A Merenda

O almoço fora tarde naquele dia. A ceia do Natal acabara pela madrugada; e depois tinha-se brincado e dançado até que a luz do sol entrando pelas janelas desmaiou a claridade das velas.

Os convidados sentaram-se à mesa quase que por mera formalidade, tão próximos ainda estavam da ceia; mas o Sr. Domingos Pais julgando-se obrigado na sua qualidade de “compadre da casa”, a fazer as honras da cozinha do barão, desempenhou conscienciosamente esse dever começando por um prato monumental de sarrabulho de porco e terminando com uma enorme palangana de chocolate. A quantidade de sólidos e líquidos que entraram na confecção desse almoço jiboico ou titânico, não direi, porque é uma cousa inverossímil, apesar de sucedida. Há verdades assim, condenadas por sua natureza a passarem por mentiras. O Sr. Domingos Pais, homem sisudo se já o houve, tinha esse caiporismo: ninguém o tomava a sério; nem mesmo o Martinho.

Ao erguer-se da mesa, enquanto se tiravam os pratos, o compadre devorou uma salva de cavacos e biscoutos – para enxugar o estômago, dizia ele.

As pessoas da casa e os convidados entregaram-se conforme seu gosto às diferentes distrações e passatempos; uns saíram a passeio; outros jogavam a bagatela ou o víspora; a baronesa travou-se com o Sr. Domingos Pais no gamão, a mil réis a ganga, pagos pelo barão, que no fim de contas era o caixa de ambos.

— Senas para começar, Senhor Domingos Pais, não viu? disse a baronesa cobrindo os dados.

— Não vi, mas é o mesmo. V. Ex.a o diz!

— Nada; assim não quero; jogo outra vez.

— Mas agora me lembro que vi.

— Está bem certo?

— Assim estivesse eu de tirar a sorte grande.

— Então veja como se jogam umas senas em regra, observou o vigário que estava peruando a baronesa.

— É capote com certeza!

— É pena que venha tão tarde, já não serve para a missa do galo, disse a baronesa a rir.

— Pois fez sua falta; o galo esta noite me pareceu endefluxado.

— V. Reverendíssima não entende disso, retorquiu o Senhor Domingos Pais formalizando-se.

Fídias, traçando a túnica para dizer ao crítico sapateiro o famoso Ne sutor ultra crepidam não tinha por certo um ar de tão sobranceiro desdém, como o do nosso compadre olhando o vigário por cima do ombro.

O reverendo julgou prudente erguer-se; e foi então que chegando à janela viu Adélia e Alice que saíam a passeio; e comparou-as ao cravo e alecrim passeando entre as flores. A musa estava fresca e lhe acudia sem que fosse preciso dar na testa a clássica palmada; para aproveitar a inspiração, procurou o vigário a sombra de umas jaqueiras e aí peripateticamente, à maneira dos pastores da Arcádia, começou o imbróglio poético donde devia sair alguma cousa, que se chamasse madrigal.

Com o polegar da mão esquerda escandindo as sílabas pelos outros dedos; com a destra suspensa a bater no ar a cadência do verso que saía da forja; os olhos no Parnaso; a mente acesa, as faces afogueadas e o toutiço em bicas, o discípulo de Caldas, era naquele momento uma caldeira poética no mais alto grau de fervura.

Enquanto o reverendo assim entrega-se às influições da musa, as outras pessoas encurtavam as horas da sesta conversando na varanda.

Em um grupo que se ajuntara junto do barão, a conversa rolava sobre Mário.

— Que me dizem do nosso novo doutor? perguntou o fazendeiro com certa bonanchice que animava a franqueza.

— Ah! O parisiense! disse com um sorriso de ironia o Conselheiro Lopes.

— Como o acha?

— Como todos os nossos moços que vão a Paris, respondeu Lopes com manifesto desdém. As viagens à Europa, é minha opinião, só podem aproveitar a homens de experiência, capazes de observar. Como nós, barão.

— Eu sempre disse! acudiu D. Alina.

— Assim julga que Mário perdeu seu tempo?

— Não digo isso; acredito que ele estudou suas matemáticas, e obteve realmente a carta de doutor que outros vão lá comprar. Mas também não se pode negar que na nossa Escola Militar essa carta custaria menos tempo e menos dinheiro.

— Lá isso é o menos! atalhou o barão com indiferença.

— Concordo com o senhor conselheiro, disse um lavrador abastado. Filho meu não põe o pé em Paris; o que eles vão lá aprender é a gastar dinheiro e não fazer caso dos pais.

— Isso é verdade!

— Eu bem vi um dos filhos aqui do Borges, quando chegou; fumava no nariz do pai; e na sala tinha o atrevimento de espichar-se em um sofá, deixando o velho de pé e embasbacado!

— Pois eu, observou o Comendador Matos lançando um olhar ao barão, faço tenção de mandar o meu Frederico passear lá por essas terras da estranja, mas depois que estiver casado!

— Isso é outra cousa! disse D. Luíza com um sorriso açucarado.

— Nada; é preciso primeiro cortar as asas do franguinho, antes de soltá-lo do poleiro!

E o comendador acompanhou o seu gracejo com a surdina de um riso grosso e gutural.

— Se ele tivera a fortuna de achar uma moça bem educada, com hábitos de sociedade... ia dizendo D. Alina.

— Pois eu penso diversamente dos senhores, atalhou o barão; entendo que o homem moço ou velho sempre lucra em ver países mais adiantados do que o seu. É verdade que alguns rapazes por lá ficam perdidos; e o mesmo acontece também aos velhuscos e até aos conselheiros, que vão ruços e voltam escuros... Mas isso não é razão; há muito fazendeiro que se arruína sem que por isso os outros deixem de ir por diante.

— Não há analogia! tornou Lopes.

— Em tudo há o bom e o mau. Quanto ao nosso Mário, penso que ele aproveitou e muito. Uma cousa logo observei nele; e foi que não tinha essas afetações na roupa, nem os trejeitos e mongangos, que todos os rapazes costumam trazer de lá. Prova de que se ocupou do que era sério, e deixou essas frioleiras para os cata-ventos.

— Ora, senhor barão, mas é uma cousa tão bonita, um moço elegante, que se veste bem. Veja o Lúcio! Eu queria ter um filho assim.

— Não é por me gabar, disse D. Alina com desvanecimento. Mas nesse ponto não tenho inveja de ninguém!

— O Lúcio é um belo moço! observou o conselheiro avisado pelo movimento sutil do cotovelo da mulher.

— Gosto muito dele; mas acho que devia esquecer-se mais do bigodinho e da gravata redarguiu o barão com um sorriso benévolo.

— Esses talentos da minuciosidade são muito aproveitáveis na diplomacia. O Lúcio há de fazer uma carreira brilhante.

— E Mário? exclamou o barão com um entusiasmo que se desvendou no olhar brilhante, como se lobrigasse entre as névoas do futuro, os triunfos que estavam reservados ao mancebo.

Mas retraindo-se naquela expressão involuntária, o barão disfarçou com um sorriso o seu pensamento, e afastou-se.

— As cousas se embrulham! cochichou D. Alina no ouvido de D. Luíza. O conselheiro que abra os olhos!

— Que há de ele fazer?

— Se pudéssemos conversar, que não ouvissem; porque a gente aqui anda espiada por todos os cantos.

O barão se dirigira ao outro lado da varanda para ver o jogo da baronesa, que batia as tábulas do gamão com visível mau humor.

O Sr. Domingos Pais estava em brasas; a fortuna o perseguia com uma impiedade cruel; as parelhas caíam-lhe do copo em chorrilho; e ele, que tanto desejava perder para divertir a excelentíssima comadre, ele, que fazia uns sobre outros os maiores estrupícios, ansioso de levar uma série de capotes, estava com uma veia de felicidade insultante. Já não havia mais tentos para marcar as gangas.

Nunca o modelo dos compadres se vira em tão crítica posição. O seu nariz, barômetro d'alma, passava do verde ao escarlate e ao cor de terra. De vez em quando o pescoço fazia aquele nó que dão os gansos quando comem; eram os bagos vermelhos que o homem engolia a um e um para diminuir a conta dos tentos ganhos.

A baronesa fazia os maiores esforços para conter o despeito; mas o riso sarcástico esgarçado entre os lábios e o gesto nervoso com que chocalhava os dados no copo de marfim, arrepiavam o parceiro.

— Então quem ganha? perguntou o barão.

— Ora, quem há de ser!

O Sr. Domingos Pais levantou para o barão uns olhos de mártir.

— A Excelentíssima está jogando o perde-ganha, balbuciou ele.

— Arre! exclamou a baronesa indignada com um último lance. Assim até esta cadeira ganha.

Livre daquele suplício, o Domingos Pais esgueirou-se até à sala de jantar, onde estavam de prosa a Felícia, a Eufrosina, o Martinho e a Vicência, enquanto a última preparava a merenda de frutas e refrescos.

Mário era também ali naquele parlatório da copa, a ordem do dia.

— Pois gentes! Eu cá torno a dizer. O Mário não chega ao Lúcio. Este sim, é moço papa-fina!

— Sai daí, sirigaita! disse o Martinho.

— Psiu! Mais respeito, moleque!

— Martinho!... disse a Vicência.

— Quem atura essas bobagens! resmungou o moleque.

— Olhe que você se arrepende! Eu não gosto de fazer enredos a sinhá!

— Vai, vai depressa, vai contar; eu também hei de dizer a nhanhã D. Alice que você chama a moço branco, assim como se chama um moleque: Mário!

— Está vendo, minha gente, como se levanta um falso testemunho. Cruzes!

— Deixa este tição! acudiu a Eufrosina. Como ganhou molhadura pela chegada do nhonhô Mário, que não devia ganhar...

— Tição!... tição é seu pai de você, negro cambaio e bichento que veio lá d'Angola... Cada beiço assim! hi! hi!

A Eufrosina, cega de raiva atirou-se ao pajem, que fugia-lhe correndo ao redor da mesa e exasperando a mucama com as caretas que lhe fazia:

— Cada beiço, assim, como orelha de porco... Tapuru era mato... chegava a sair pelos olhos.

— Eu te esgano; só se não te pegar.

A entrada do Sr. Domingos Pais suspendeu as hostilidades, não porque a sua presença inspirasse respeito, mas porque um sinal do compadre indicara a aproximação dos donos da casa.

Com efeito passaram o barão e a baronesa conversando.

— Então não há hoje um copinho de cerveja! Está um calor!

— Ah! Senhor Domingos Pais, agora mesmo almoçou; e comeu uma ruma de biscoutos para enxugar o estômago.

— É por isso mesmo, Martinho. Enxuguei demais; preciso molhar.

— A merenda já vai p'ra a mesa! disse a Vicência.

Com essa esperança consoladora, o Sr. Domingos Pais foi esperar a cerveja, em uma janela do oitão, roendo as nozes e amêndoas de que enchera as algibeiras do rodaque de merinó cor de garrafa. Distraído, estremecendo ainda ao lembrar-se do gamão, atirava as cascas nas folhas das jaqueiras próximas, quando uma voz irada o chamou a si:

— O senhor parece-me que está hoje fora de seus eixos, Sr. Domingos Pais!

Uma casca de noz tinha caído em cheio na unha do reverendo índice, que batia a cadência de um verso magnífico, ainda quente da forja. A dor, porém mais o susto, causados com aquele incidente, alvoroçaram por tal forma os espíritos do árcade, que o verso varreu-se-lhe da memória completamente.

— Queira desculpar, Reverendíssimo! Não vi!... Pois eu era capaz?

— Perder uma inspiração destas! E o consoante que me deu tanto trabalho!... É realmente insuportável este homem; não sei o barão como o atura.

O Domingos Pais estava acabrunhado com a série de caiporismos que lhe sucediam nesse dia aziago; e procurando a causa dessa fatalidade, lembrou-se que na véspera tinha visto uma tesoura voando em cruz por cima dele. Pelo sim, pelo não, o homem benzeu-se para exorcizar o agouro.

Finalmente a sineta da sala de jantar deu sinal da merenda, derramando uma consolação n’alma atribulada do compadre.