O Uraguay/V

Wikisource, a biblioteca livre
< O Uraguay
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
 

CANTO QUINTO

 

Na vaſta[1] e curva abobeda pintára
A deſtra mão de artifice famoſo,
Em breve eſpaço, e Vilas, e Cidades,
E Províncias e Reinos. No alto ſolio

Eſtava dando leis ao mundo inteiro
A Companhia. Os Scetros, e as Coroas,
E as Tyaras, e as Purpuras em torno
Semeadas no chão. Tinha de um lado
Dadivas corruptoras: do outro lado
Sobre os brancos altares ſuſpendidos
Agudos ferros, que gotejão ſangue.
Por eſta mão ao pé dos altos muros
Hum dos Henriques perde[2] a vida e o Reino.
E cahe por eſta mão, oh céus! debalde
Rodeado dos ſeus o outro Henrique.[3]

Delicia do ſeu povo e dos humanos.
Príncipes, o ſeu ſangue é voſſa offenſa.
Novos crimes[4] prepara o horrendo monſtro.
Armai o braço vingador: deſcreva
Seus tortos ſucos o luzente arado
Sobre o ſeu trono[5]; nem aos tardos netos
O lugar, em que foi, moſtrar-ſe poſſa.
Vião-ſe ao longe errantes e eſpalhados
Pelo mundo os ſeus filhos ir lançando
Os fundamentos do eſperado Imperio
De dous em dous: ou ſobre os coroados

Montes do Téjo; ou nas remotas praias,
Que habitão as pintadas Amazonas,
Por onde o rei das aguas eſcumando
Foge da eſtreita terra e inſulta os mares.
Ou no Ganges ſagrado; ou nas eſcuras
Nunca de humanos pés trilhadas ſerras
Aonde o Nilo tem, ſe é que tem, fonte.
Com hum géſto inocente aos pés do throno
Via-ſe a Liberdade Americana,
Que arraſtando enormiſſimas cadeias
Suſpira, e os olhos e a inclinada teſta

Nem levanta, de humilde e de medroſa.

Tem diante riquíſſimo tributo,
Brilhante pedraria, e prata, e ouro,
Funeſto preço por que compra os ferros.
Ao longe o mar azul e as brancas velas
Com eſtranhas diviſas nas bandeiras
Denotão que aſpirava ao ſenhorio,
E da navegação e do comércio.
Outro tempo, outro clima, outros coſtumes.

Mais além tão diverſa de ſi meſma,
Veſtida em larga roupa flutuante

Que diſtinguem barbáricos lavores,
Reſpira no ar chinês o mole faſto
De aſiática pompa; e grave e lenta
Permite aos bonzos, apeſar de Roma,
Do ſeu Legiſlador o indigno culto.
Aqui entrando no Japão fomenta
Doméſticas diſcórdias. Lá paſſeia
No meio dos eſtragos, oſtentando

Orvalhadas de ſangue as negras roupas.
Cá deſterrada enfim dos ricos portos,

Voltando a viſta às terras que perdera,
Quer piſar temerária e criminoſa...
Oh céus! Que negro horror! Tinha ficado
Imperfeita a pintura, e envolta em ſombras.
Tremeu a mão do artífice ao fingi-la,
E deſmaiarão no pincel as cores.
Da parte opoſta, nas ſoberbas praias
Da rica Londres trágica e funeſta,
Enſangüentado o Tâmega eſmorece.

Vendo a conjuração pérfida e negra
Que ſe prepara ao crime; e intenta e eſpera

Erguer aos céus nos inflamados ombros
E eſpalhar pelas nuvens denegridos
Todos os grandes e a famoſa ſala.
Por entre os troncos de umas plantas negras,
Por obra ſua, viam-ſe arraſtados
Às ardentes areias africanas
O valor e alta glória portugueſa.
Ai mal aconſelhado quanto forte,
Generoſo Mancebo! eternos lutos

Preparas à choroſa Luſitânia.

Deſejado dos teus, a incertos climas
Vás mendigar a morte e a ſepultura.
Já satiſfeitos do fatal deſígnio,
Por mão de um dos Filippes affogavão
Nos abysmos do mar, e emudecião
Queixosas línguas, e ſagradas bocas,
Em que ainda se ouvia a voz da Patria.
Crescia o seu poder e se firmava
Entre surdas vinganças. Ao mar largo
Lança do profanado occulto ſeio
O irado Téjo os frios nadadores.

E deixa o barco e foge para a praia

O peſcador que atônito recolhe
Na longa rede o pálido cadáver
Privado de ſepulcro. Enquanto os noſſos
Apaſcentão a viſta na pintura,
Nova empreſa e outro gênero de guerra
Em ſi reſolve o General famoſo.
Apenas eſperou que ao ſol brilhante
Deſſe as coſtas de todo a opaca terra,
Precipitou a marcha e no outro povo

Foi ſorprender os índios. O Cruzeiro,
Conſtelação dos europeus não viſta,

As horas declinando lhe aſſinala.
A corada manhã ſerena e pura
Começava a bordar nos horizontes
O céu de brancas nuvens povoado
Quando, abertas as portas, ſe deſcobrem
Em trajes de caminho ambos os padres,
Que manſamente do lugar fugiam,
Deſamparando os miſeráveis índios
Depois de expoſtos ao furor das armas.

Lobo voraz que vai na ſombra eſcura
Meditando traições ao manſo gado,

Perſeguido dos cães, e deſcoberto
Não arde em tanta cólera, como ardem
Balda e Tedeu. A ſoldadeſca alegre
Cerca em roda o fleumático Patuſca,
Que próvido de longe os acompanha
E mal ſe move no jumento tardo.
Pendem-ſe dos arções de um lado e de outro
Os paios ſaboroſos e os vermelhos
Preſuntos europeus; e a tiracolo,
Inſeparável companheira antiga
De ſeus caminhos, a borracha pende.
Entra no povo e ao templo ſe encaminha
O invicto Andrade; e generoſo, entanto,
Reprime a militar licença, e a todos
Co’a grande ſombra ampara: alegre e brando

No meio da vitória. Em roda o cercam
(Nem ſe enganarão ) procurando abrigo

Choroſas mãis, e filhos innocentes,
E curvos pais e tímidas donzellas.
Soſſegado o tumulto e conhecidas
As vis aſtucias de Tedeo, e Balda,
Cahe a infame Republica por terra.
Aos pés do General as toſcas armas
Já tem depoſto o rude Americano,
Que reconhece as ordens e ſe humilha,
E a imagem do ſeu rei proſtrado adora.


Serás lido, Uraguai. Cubra os meus olhos
Embora um dia a eſcura noite eterna.
Tu vive e goza a luz ſerena e pura.
Vai aos boſques de Arcadia: e não receies
Chegar deſconhecido áquela arêa.
Alli de freſco entre as ſombrias murtas

Urna triſte a Mirêo não todo enſerra.
Leva de eſtranho Ceo, ſobre ela eſpalha

Co’a peregrina mão bárbaras flores.
E buſca o ſuceſſor, que te encaminhe
Ao teu lugar, que há muito que te eſpera.


Fim do Canto Quinto

Notas[editar]

  1. Na vaſta. As façanhas dos Jeſuitas não eſtavão ſepultadas ſó no Uraguay. Quem ſe admirar da puntura deſte Templo, consſidere attentamente a que elles tem na Igreja do ſeu Collegio Romano, e na Caſa Profeſſa, que com eſtar cubertas de maſcara da Religião, não deixão de ſer ainda mais ſoberbas, e inſultantes.
  2. Hum dos Henriques. Henrique III aſſaſſinado por Fr. Jacques Clemente. Quem ha que ignore quanta parte tiveram nisso os Jeſuitas? He público o proceſſo do Pe. Guignard, e quanto a Companhia defende ainda hoje eſte seu digno filho. Vejãm-ſe os ſeus Authores, e por todo o Jovency.
  3. O outro Henrique. Na morte de Henrique IV ſoube-ſe eſconder melhor a mão Jeſuitica; mas não ſe ſoube eſconder nas duas occaſiões antecedentes, em que ſe tinha intentado o meſmo parricidio. O Padre Varade, Superior da Companhia em Paris, foi quem deſencaminhou ao miſeravel Barriere: levou-o ao ſeu cubiculo, deitou-lhe a ſua benção, confeſſou-o, deu-lhe depois a comunhão, &c. Os Jeſuitas no Colegio de Clermont, e na ſua Igreja de Santo Antonio, por meio de praticas, conferencias, meditações, e exercicios eſpirituaes corrompêram o eſpirito de Chatel.
  4. Novos crimes. Tagão-ſe á memória a tarde de 5 de Janeiro, e a noite de 3 de Setembro tão funeſtas para França, e Portugal, e que podiam cobrir de luto eſtas duas Monarquias.
  5. O ſeu throno. O throno da Companhia eſtá em Roma. Lá é o centro do ſeu poder. Alli recebe o ſeu Geral os aviſos do que ſe paſſa em todas as partes do Mundo: e dalli com o maior deſpotiſmo envia as suas ordens ao fim da terra. Exterminalla das outras Provincias he fazer-lhe guerra pela rama: he neceſſario cortar-lhe a raiz. Ora os teſouros das duas Indias ajudavão muito a ſuſtentar o credito dos Jeſuitas em Roma. Affortunadamente as presentes diſpoſições todas annuncião a proxima total extinção daquelle Corpo.