O Vaqueano/XXIII

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O Vaqueano por Apolinário Porto-Alegre
Capítulo XXIII: A cabeça de um anjo


A noite reuniram-se na bodega do Bino Capenga, homem que seguia o exército com negócio.

Moisés convidara seus amigos para uma patuscada, donde excluiu a dança, porque desde certo tempo lhe votava singular ojeriza.

Havia com que molhar a palavra, cartas e violas. Bastava.

Avençal, como sempre, triste.

As violas tangiam.

- Lá vai verso, disse um guasca, tipo de cheripá, calças franjadas e chapéu de barbicacho.

Era um belo moço que aborrecia a estada em Santa Catarina, a ponto de sofrer de terrível nostalgia.

Começou:

Já não ando enrabichado,
Não arrasto o meu cambão!
Aos bamburrais da tristeza
Foi-se o pobre coração.

Que de saudades que sinto
Das cochilhas lá do sul,
Dos campos onde escarceia
Meu parelheiro taful!

Ai vida longe dos pagos,
Vida tirana, por Deus!
Quem não gosta da querência,
Da querência que é dos seus?

Abombado, cabisbaixo
Ando nas terras de cá,
Deixo as bolas, deixo o laço,
Deixo o pingo, tudo já.

Boi xucro que vai de tropa,
Não chora o que eu já chorei;
Ai saudades de meu peito,
Saudades do que deixei!

Vem-me tudo na memória:
As tronqueiras e o curral,
A estância com seus potreiros,
O vargedo e o macegal!

Vem-me a casa da Marucas,
junto ao cerro do Baú,
Marucas, a morenita,
Sem parelha no tatu.

Ó tempos que eu roseteava
Com Marucas no sertão,
Chilenas finas de prata
Repenicando no chão!

Adeus, barrigas-verdes,
já vou a monarquiar,
mosto mais do meu churrasco
Que desses bagres do mar.

Dos campos do meu Rio Grande
Muito quero e até demais;
Eu como dos seus rodeios
E bebo dos seus ervais.

Volto à cancha dos amores,
A cancha do meu viver,
Que só lá posso chibante
Estar com meu bem-querer.

Eh! muchacha, se me viras,
Juraras que não sou eu,
Pois vou-me desbarrigado
Como quase quem morreu.

E juraras por teu rosto,
Encarnadinho como uva,
Que fiquei sem pelego
E tornei-me boitatá?...

Heu! Heu! o meu cavalo
Epuxa! que vou partir! ...
Risca a raia e teu relincho
Novamente faz ouvir.

Salta sangas e Porteiras
Que depressa já me vou
Pouco rodar e planchar-me
A campeiro como sou...

Retovei as boleadeiras,
Nova ínhapa o laço tem.
Heu! Heu! a toda a rédea
Prisco a prisco rompe além ...

Vamos, pingo, terra fora,
Feia terra que pisei!
Ai saudades, ai saudades,
Saudades do que deixei!

Terminou.

Os aplausos choveram sobre o trovador, cujas pálpebras umedeciam de pranto.

- Isto sim é botar versos! Senti cá por dentro não sei quê! Parece que o coração também me chorou...

- A quem toca?

- A mim.

E assim prosseguiram nos descontes, acabando pelo hino a Bento Gonçalves, cuja primeira estrofe é a seguinte:

Bento Gonçalves da Silva
Da liberdade é o guia
É herói porque detesta
A infame tirania.

Todos o entoaram, exceto Avençal.

Enquanto uns jogavam a primeira, o trinta-e-um e a manilha, outros estalavam a língua nos sorvos da aguardente que chamavam a patrícia, e do vinho do reino, e alguns outros dedilhavam nos instrumentos os clássicos Anum, Tirana, Chimarrita e Tatu, além dos improvisos, toadas e canções da época, ele em seus pensamentos, isolado da reunião, ia longe refestelar o espírito numa imagem pura e santa, aurora que nos primeiros anos lhe sorrira com tanta volúpia, que ele pudera esquecer em muito tempo de adversidade e esquecimento de si próprio, mas que ao tornar a vê-Ia, fazia como reviver todo o passado risonho, toda uma paixão nascida para ser logo sufocada nos braços da consciência.

Na atmosfera de tristeza e infortúnio onde respirava, cria entrever uma luz... miragem do náufrago no meio do oceano! O mundo não tinha mais um raio para fecundar a esterilidade de um semelhante coração. A alma humana exposta a um longo período de angústia suprema, queda como o rochedo do mar batido pelo vagalhão. Aquela não tem mais germe de crenças fundas, e como este não tem mais germes de vegetação, a não ser pelas fendas uma ou outra radícula moribunda.

Um guaicanã entrou. Entregou ao caçador uma caixa, dizendo:

- Irmão, trouxeram.

- Quem? - perguntou Moisés.

- Não sabe o guerreiro. Entregou a caixa uma mão estranha, que desapareceu ligeira como a nhandu do campo.

- Vamos abri-la.

Todos, salvo Avençal, rodearam, açulados pela curiosidade.

Mal o tampo ligado com uma corda de imbé cedeu à mão de Moisés, um grito de terror partiu de todos os peitos, os cabelos ouriçaram em cada fronte.

Havia uma cabeça de mulher.

Era a de Rosita.

O vaqueano despertou da cisma, ergueu-se e veio ao grupo.

Ficou estátua.

- André Capinchos! - vociferou Moisés, quase branco de fula que estava.

- E não o mataste, quando hoje o podias, amigo! - E voltando-se para o índio:

- Os guaicanã sigam o inimigo, tragam-no vivo... Caramba! Hei de fazer o que ele me ensinou uma vez.

E para os outros companheiros da tasca: - A cavalo, patrícios! Temos rebentona.

- A cavalo, patrícios! Temos rebentona. armas à cinta.

A sala esvaziou-se. Só José Avençal ficara.

- Pobre Rosita!

E o moço estreitou com veneração aquela cabeça ainda mais bela depois de morta, pálida como um busto de lioz com os cílios entreabertos como faria ainda uma vez ver o amante, com os lábios que pareciam nas inflexões em que congelaram estar pronunciando um só verbo: Avençal.

Ele beijou-a em delírio.

- Vítima de meu infortúnio, perdoa-me, perdoa-me...

Breve serei contigo.

E chorava, chorava o pobre moço.