O desleixo latino-americano

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O desleixo latino-americano
por Ruy Barbosa
Publicado em A Imprensa, em 4 de maio de 1899


Animados pelas reminiscências da sua emancipação, os povos latino-americanos, com a fatuidade, a imprevidência e a imaginação próprias da raça, cuidaram ter assegurado a sua independência para a eternidade. Tendo lutado então com duas nacionalidades em decadência profunda, apoiados nas simpatias e no concurso da que já empunhara então o cetro dos mares, ficaram na ilusão de que haviam dado à Europa uma lição inolvidável, de que o naufrágio de Espanha e Portugal desanimariam no mundo antigo as tentações de imitação, e de que esta, se porventura surdisse, teria de nós, com a mesma facilidade e a mesma estrela, fácil e imediata repulsa. “Cobrou corpo, no ânimo público, a idéia de que só em cérebros de pessimistas existia o perigo de perecer por absorção. O mito de que nossas qualidades guerreiras, as quebradas de nossas mon­tanhas, o clima tórrido, seus insetos, suas pestes bastariam, para dar conta do invasor serenou, nos espíritos, os sobressaltos, e ao sussurro das nossas tradições de glória adormecemos no torpor de um fatalismo oriental, corruptor e ignaro.”

Vimos a ciência mudar a face da guerra, facilitar a travessia dos oceanos, revolucionar a navegação, criar a marinha moderna com suas tremendas esquadras, nulificar pelos seus inventos prodigiosos as defesas naturais dos estados, substituir, nos exércitos, as qualidades naturais pelas qualidades adquiridas, a intrepidez pela precisão, a alma pelo armamento, pela máquina, pelo material, impor à vitória na luta uma preparação longa, difícil, caríssima na paz. Vimos as nações, de cuja opressão nos libertáramos, cederem o domínio da terra a potências formidáveis, reservadas pela sua grandeza, pela sua opulência, pelo seu vigor, pela sua ambição a destinos cujo horizonte dia a dia se desmede. Vimos a população européia transbordar as suas praias, e a miséria, o socialismo, o tributo militar impelirem as sobras humanas do mundo antigo a transpor as imensidades marinhas, e vir disputar à gente esparsa destas dependências emancipadas o solo virgem, a riqueza pronta, o futuro certo. Vimos as teorias positivas da origem das espécies e da descendência do homem, com o princípio da seleção dos mais aptos e da eliminação dos inferiores, dos irresistentes, dos inúteis, subverter, assim na vida individual como nas relações coletivas, as antigas concepções do direito, filosóficas, idealistas, cristãs, onde se aprendia o respeito dos fracos, e se ensinava a moderação aos fortes. Vimos a política de colonização alucinar os povos mais sedentários, e a Ásia, a África, a Oceânia desaparecerem sob as garras da Europa. Vimos, em suma, praticamente a lei das nações traduzir-se na lei do canhão, e sucessivamente se sumirem do mapa dos estados independentes todos os que não tinham uma razão de existência na sua própria força, ou no interesse comum dos outros.

Assistimos a todos esses avisos divinos, e deixamo-nos quedar no sentimento néscio de que só a área de Colombo se subtrairia à aluvião universal, de que a avidez desencadeada recuaria ante os laços abstratos de fraternidade no seio da mesma civilização. Noções vagas, de outros tempos, de outras situações, inteiramente modificadas pelo aspecto atual do mundo, pelo atual regímen das suas forças, vão-nos embalando numa confiança inalterável em nossos privilégios naturais de indígenas contra a imprudência da incursão estrangeira. Parece-nos que os fados de Bonaparte na Espanha e na Rússia têm de ser necessariamente os de todas as invasões sitiadas por um movimento nacional. Não se reflete na diferença entre o desafio solitário de Napoleão à Europa inteira e a coligação geral das potências européias na política absorvente de hoje. Não se nota que com essa liga dos fortes contra os fracos acabam de contrair, em prejuízo do resto da América, alianças inevitáveis os Estados Unidos. Não se leva em conta a instantaneidade dos golpes de morte na guerra contemporânea, e o poder mágico de aniquilamento exercido pelas esquadras e pelos bloqueios sobre­ os países de vasto litoral indefeso, nenhuma produção interior, população heterogênea e amplas regiões entregues por uma imigra­ção não assimilada aos empreendimentos da rapacidade estrangeira.­

Entretanto, não vai longe a época, em que se via na China uma ameaça ao Ocidente. A sua espantosa massa humana figurava uma avalanche impendente à Europa. A própria muralha eslava não era garantia, que tranqüilizasse o mundo cristão. Não haveria barreiras que contivessem o peso, a enormidade daquela inundação, quando ela, numa oscilação providencial da sua inércia, transpusesse os seus diques imemoriais. E que resta desse prestígio? desse assombro? desse medo? Nada: o desencanto, o desprezo, um montão infinito de despojos, onde cada potência elege o seu tesoiro. Bastou, para esse resultado, que todas elas se entendessem perante a debilidade monstruosa do colosso, a sua indolência, a sua improvidência, a sua inconsciência. “Formidável é a China”, diz o escritor, que nos vai sugerindo estas reflexões. “Com só marchar para o Ocidente, seus quatrocentos e cinqüenta milhões de habitantes o aniquilariam. Rivalidades anglo-russas pareciam resguardar a integridade do seu Hinterland, e seu poder de resistência, que era uma incógnita misteriosa, mantinha-a na sua coesão de polvo. Bastou, porém, que o Japão expusesse à vergonha a debilidade chinesa, para que a Europa, em sós quatro anos, aplainasse o acervo de dificuldades opostas à repartição do Celeste Império, e o repartisse entre si em alguns meses.”

Bem conclui o Sr. Zumeta:

“Estes países são vorazes.

Sejamos previdentes nós outros.”