O malmequer (ortografia original)

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O malmequer
por Guerra Junqueiro
Conto agrupado posteriormente e publicado em Contos para a infancia (1877) por Guerra Junqueiro.
Obra com ortografia atualizada disponível em O malmequer.


Ouvi com attenção esta pequenina historia!

No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que deveis ter visto muitas vezes. Ha na frente um jardimsinho com flores, rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do vallado, no meio da herva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a olhos vistos, graças ao sol, que repartia egualmente a sua luz tanto por elle como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bella manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes, parecia um sol em miniatura circumdado dos seus raios. Pouco se lhe dava que o vissem no meio da herva e não fizessem caso d'elle, pobre florinha insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.

N'esse dia o pequeno malmequer, apesar de ser n'uma segunda feira, sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Emquanto as creanças sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, elle, sentado na haste verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo o que sentia mysteriosamente, em silencio, julgava ouvil-o traduzido com admiravel nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso poz-se a olhar com uma especie de respeito, mas sem inveja, para essa avesinha feliz que cantava e voava.

«Eu vejo e oiço, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento acaricia-me. Oh! não tenho rasão de me queixar.»

Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocraticas; quanto menos aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dalias inchavam-se para parecerem maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa. As tulipas brilhavam pela belleza das suas côres, pavoneando-se pretenciosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o pequeno malmequer, emquanto que o pobresinho admirava-as, exclamando: «como são ricas e bonitas! A cotovia irá certamente visital-as. Graças a Deus, poderei assistir a este bello espectaculo.» E no mesmo instante a cotovia dirigiu o seu vôo, não para as dalias e tulipas, mas para a relva, junto do pobre malmequer, que morto d'alegria não sabia o que havia de pensar.

O passarinho poz-se a saltitar à roda d'elle, cantando: «Como a herva é macia! oh! que encantadora florinha, com um coração d'oiro, vestida de prata!»

Não se póde fazer idéa da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com o bico, cantou outra vez diante d'elle, e perdeu-se depois no azul do firmamento. Durante mais d'um quarto d'hora não pôde o malmequer reprimir a sua commoção. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e ponteagada manifestava o despeito. As dalias tinham a cabeça toda inchada. Se ellas podessem fallar, teriam dito coisas bem desagradaveis ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.

Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as uma a uma.

«Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrivel; foram-se todas.»

E emquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrára-se por ser simplesmente uma pequenina flor no meio da herva. Apreciando reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas, adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.

No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao ar e á luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste, muitissimo triste. A pobre cotovia tinha boas rasões para se affligir: haviam-n'a agarrado e mettido n'uma gaiola, suspensa entre uma janella aberta. Cantava a alegria da liberdade, a belleza dos campos e as suas antigas viagens atravez do espaço illimitado.

O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era difficil. A compaixão pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe cer inteiramente as bellezas que o cercavam, o doce calor do sol e a alvura resplandecente das suas proprias folhas.

N'isto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mão uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia comprehender o que desejavam.

«Podemos arrancar d'aqui um pedaço de relva para a cotovia, disse um dos rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha.

— «Arranca a flor, disse o outro.»

A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-n'o era morrer; e nunca tinha abençoado tanto a existencia, como no momento em que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.

«Não; deixemol-a, disse o mais velho. Está ahi muito bem.»

Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.

O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu captiveiro, batia com as azas nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.

Passou-se assim toda a manhã.

«Já não tenho agua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me deixarem ao menos uma gota d'agua. A garganta queima-me, tenho uma febre terrivel, sinto-me abafada! Ai! Não ha remedio senão morrer, longe do sol explendido, longe da fresca verdura e de todas as magnificencias da creação!» Depois enterrou o bico na relva humida para se refrescar um pouco. Viu então o malmequer; fez-lhe um signal de cabeça amigavel, e disse-lhe, afagando-o: «Tambem tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo inteiro, que eu tinha á minha disposição, deram-me um pedacito de relva, e a ti só por unica companhia. Cada pésinho de relva substitue para mim uma arvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorifera. Ah! como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!

— Se eu podesse consolal-a! pensava o malmequer, incapaz de fazer o minimo movimento.

Comtudo o perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume; a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a arrancar a herva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na flor.

Caiu a noite; não estava ali ninguem, para trazer uma gotta d'agua á desditosa cotovia; Estendeu então as suas bellas azas, sacudindo-as convulsivamente, e poz-se a cantar uma cançãosinha melancolica; a sua cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e d'angustias cessou de bater. Vendo este triste espectaculo, o malmequer não pôde como na vespera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se para o chão, doente de tristeza.

Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto, rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram o cadaver dentro d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro de principe, e cobriram o tumulo com folhas de rosas. Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava, esqueceram-se d'elle e deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de morto é que o choraram e lhe fizeram honrarias pomposissimas.

A relva e o malmequer lançaram-as para a poeira da estrada; d'aquelle que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou.