O moço loiro/III

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O moço loiro por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo III: Brás-mimoso


Brás chamava-se o homem que havia acabado de entrar; tinha talvez a mesma idade de Venâncio, mas era tal o seu parecer e o seu trajar, o seu viver e o seu praticar, que em toda a parte se fazia conhecer pelo nome de Brás-mimoso. Tudo nele era com efeito mimoso: estatura muito menos que ordinária, pequeninos pés, delicadas mãos... pisar subtil... e até juízo curto. Com o melhor gênio do mundo, vivia, contudo, em guerra declarada com a natureza, e, se não lhe era possível vencê-la, ao menos escondia os triunfos que ela sobre ele obtinha.

Assim, o peso dos anos tinha conseguido começar a dobrar-lhe o corpo, pois Brás-mimoso comprou um espartilho, e se pôs teso, direito e gracioso, como uma palmeira.

Os cabelos lhe foram pouco a pouco caindo; Brás-mimoso usou logo de cabeleira.

Os dentes se lhe cariaram e se perderam; Brás-mimoso apelou para uma dentadura postiça.

Com o crescer da idade conheceu que se ia tornando pesado, Brás-mimoso não perdeu mais em sarau alguma ocasião de dançar a valsa de corrupio, e por último fez-se mestre nos sapateados da polca.

Lembrou-se que poderia ir ficando rabugento e frio; Brás-mimoso não deixou mais a companhia das moças, tornou-se namorado; como nunca, recita versos, canta modinhas e escreve cartas de amor.

Também não lhe falta tempo para nada disso. Oficial reformado no posto de capitão, ele passa vida de anjo: almoça, janta e ceia sempre, e muitas vezes dorme em casa dos amigos, de manhã vai para os botequins ler periódicos; se é tempo de legislatura, às dez horas guarda-se no melhor lugar de uma das galerias e ouve, e decora para repetir nos círculos que freqüenta, os mais fortes discursos da oposição; se as câmaras estão fechadas, passeia, ou lê romances, nas quintas-feiras vai ao museu, de tarde ao passeio público, e à noite às assembléias, ou ao teatro no camarote de algum conhecido. Freqüenta muito a Rua do Ouvidor, sabe de modas e de vestidos, como M.me Godin, de flores como M.me Finot, de cosméticos e pomadas como Mr. Desmarais. Possui uma lista de todas as moças bonitas do Rio de Janeiro com a nota das suas moradas, tem a modéstia de se crer amado por quase todas, conhece meio mundo, vai a toda a parte, come, bebe, e fala, como... só ele.

Nós o vamos encontrar almoçando com a família de Venâncio; estão à mesa cinco pessoas.

Venâncio, que almoça com boa vontade de quem sabe que a mesa é o único prazer que lhe resta no mundo.

Tomásia, que, devorando quanto vê diante dos olhos, assegura a todos os momentos que nunca tem fome, mas que se vê obrigada a alimentar-se por causa da sua querida filhinha, que deseja amamentar com os seus próprios seios, medrosa dos inconvenientes do leite mercenário.

Félix, moço de vinte e seis anos, de estatura ordinária, magro, pálido, com as mãos muito brancas e bem-feitas, desconfiado e melancólico de natureza, mas com tais qualidades modificadas pela freqüência das sociedades, vestia calças e colete branco e uma sobrecasaca, que magnificamente lhe assentava; tinha ao pescoço uma gravata de cor, muito baixa, e bordada com igualdade matemática por uma estreitíssima dobra do colarinho; sobrinho de Tomásia, freqüentava ele com admirável assiduidade a casa da titia; comendo com a rapidez e boa vontade de um caixeiro, de cada vez que levava o bocado à boca, Félix lançava uma olhadura fulminante sobre a prima Rosinha.

Rosa é a mocinha, a quem já conhecemos do teatro; com os seus dezesseis para dezessete anos, é ela uma menina dessas moreninhas capazes de fazer andar com a cabeça à roda a mais de meia dúzia de rapazes a um tempo; pouco alta, esbelta, com lindos e vivos olhos pretos, com pequeninas mãos, proporcionados pezinhos, Rosa, que se vê ao espelho mais de trezentas vezes por dia, gosta muito de si mesma, e, animada pela perigosa educação com que foi criada, é sem mais nem menos conquistadora, travessa e espertinha demais; como tem às suas ordens a chave da despensa, e o dia inteiro por seu, ela come menos que um passarinho diante dos hóspedes, e serve o chá tomando as taças com as pontas dos dedos, mostrando assim um rico anel de brilhante que nunca deixa.

Finalmente Manduca, com quem igualmente já tomamos conhecimento no teatro, era o predileto de Tomásia, rapaz apaixonadíssimo por pão com manteiga, com a qual já tinha emplastrado três partes do seu escarpado rosto.

Tomando a última gota de chá, Venâncio levantou-se, como quem se supunha demais naquela roda, e retirou-se.

Apenas acabava de sair o velho marido, Brás-mimoso voltou-se para a dona da casa, e disse:

— Devo confessar-lhe, Sr.ª D. Tomásia, que tenho dado tratos ao pensamento para penetrar aquele mistério, do qual me falou ontem à noite.

— Mas... não me recordo.

— Ora... quando me perguntou se eu conhecia o moço da gravata azul-celeste.

— Veja só!... pois ainda se lembra disso? estou pensando que só para fazer-me essa pergunta veio dar-nos o prazer de almoçar conosco; vês, Rosinha, nós as mulheres somos exclusivamente as curiosas...

— Mas como me tinha prometido a decifração do mistério...

— Sim... sim... porém, eu disse isso somente para acender algum ciumezinho no coração do meu Venâncio... bem sabe que o ciúme é o adubo do amor... eu por mim sou ciumenta como o mouro de Veneza.

— Bravo, minha mãe!... bravo!... exclamou o interessante Manduca.

— Cala-te, Manuelzinho, diz Tomásia, não é bonito interromperes tua mãe.

— Apesar de toda a sua modéstia, tornou Brás-mimoso, eu juro pelos olhos da Sr.ª D. Rosa que não é de um ciúme; porém, de uma conquista de que se tratava no teatro.

— Muito bem! disse Rosa, então jura pelos meus olhos?...

— Pois não, minha senhora, sempre se jura por algum objeto sagrado.

— Ora...

— Deixemos isso, acudiu Tomásia, mas já que o Sr. Brás levantou a ponta do véu, é melhor que o rasguemos todo.

— Minha mãe, disse Rosa em segredo, olhe meu primo...

— Que tem?... ouça, meu sobrinho, Rosa tem medo que se fale em sua presença... dir-se-ia que tu e ele são dois apaixonados.

— Aparências, minha tia, aparências...

— Também o que se vai dizer não é mais que um desses casos de todos os dias...

— Um desses casos que sucedem a minha prima todos os dias?... perguntou o tal primo Félix.

— Há de ser pouco mais ou menos isso, respondeu a moça ressentida.

— Estavam ontem à noite num camarote, disse Tomásia dirigindo-se a Brás-mimoso, duas senhoras; uma casada, e outra solteira; um moço, que se achava na superior, gastou a noite inteira em prestar-lhe a mais obsequiosa atenção; esse moço trajava-se elegantemente; trazia um rico relógio, um excelente alfinete de brilhantes, gravata azul-celeste, luvas de pelica cor-de-carne, enfim, vestia com o último apuro do bom gosto. Daqui tiram-se três conclusões: primeira — o moço gostou de uma das senhoras; segunda — o moço parece não ser pobre; terceira — o moço é adepto ao culto do bom gosto.

— Eu tenho reparado, disse o primo Félix, que minha tia é lógica até à ponta dos cabelos; a prima Rosinha deverá aproveitar muito, pois mostra grande capacidade.

— Ora, prosseguiu Tomásia, o casamento é o negócio da mulher; casar é ganhar sempre; mas casar bem é ganhar trezentos por cento; pois se a senhora casada, que estava nesse camarote, podia logo esquecer o moço ao voltar-lhe as costas, não sucede o mesmo à moça solteira; provavelmente ela desejará saber qual é o estado desse homem: se é casado, passe muito bem; mas, se está livre, não se perde nada em trazê-lo para perto... estudá-lo... observá-lo, e, se for conveniente, deitar o anzol no mar, a ver se cai o peixinho.

— Agora, minha tia, esperamos pelas conseqüências.

— A conseqüência é esta: o Sr. Brás, que é amigo da família, e que se não o fora, não me ouviria falar com tanta liberdade, conhece esse moço; dir-nos-á se é solteiro ou casado, e há de fazer-nos o obséquio de oferecer-lhe um convite para assistir ao sarau que tencionamos dar no dia do batizado de minha filha.

— Pois, minha senhora, disse Brás-mimoso, pode contar com o moço da gravata azul-celeste, que é sem mais nem menos o meu amigo Otávio.

— Otávio!... exclamou Félix.

— Também o conheces?...

— Perfeitamente.

— Então, podes dizer-nos...

— Sem dúvida, tudo quanto minha tia quiser; bem entendido, se o Sr. Brás der licença, e minha prima Rosa se ameigar um pouco.

— Pois anda, sobrinho, dize-nos o que sabes.

— Sei que o Sr. Otávio vai completar trinta anos.

— Pois quê! é quase da minha idade?... perguntou Tomásia, não deixando passar aquele ensejo de caçoar com o tempo.

— Pouco mais ou menos, prosseguiu Félix rindo-se; vai, como disse, fazer trinta anos, posto que mais novo pareça; é rapaz de ótimas qualidades, de muito bom gosto, e, ainda mais, negociante rico.

— Mas como é possível que nós não o conhecêssemos?... eu então, eu que conheço todos os homens solteiros e ricos, desde que a minha Rosinha completou quatorze anos, como? como me escapou este?...

— Facilmente, minha tia; Otávio era, ainda há cinco anos, guarda-livros de seu pai; não tinha licença para freqüentar nem saraus, nem assembléias; não contava amigos, eu era o único que o podia visitar e ser por ele visitado; há cinco anos morreu-lhe o pai, e depois...

— E depois?...

— Teve de embarcar para arranjar certos negócios... enfim, para facilitar o comércio de certas fazendas, que não pagam direito na alfândega, porque desembarcam em praias desertas, e...

— Entendo... entendo...

— Tem sido por isso obrigado a repetir a miúdo as suas viagens, e apenas chegou ontem; eis o que lhe posso dizer, minha tia; o resto pertence à prima Rosinha.

— Vamos lá...

— Prima, Otávio é solteiro... bonito... bem-feito... rico... sensível... e provavelmente não poderá resistir aos seus olhos pretos.

— Otimamente! disse Tomásia, será um convite de conseqüências!

— Mas espere, minha tia! continuou Félix, posto que devamos contar muito com o poder dos olhos da prima Rosa, contudo...

— Contudo o quê?...

— Quem é a madrinha da menina?...

— Pois não disse já que era D. Lucrécia?!...

Félix soltou uma risada.

— De que te ris, Félix?

— De uma coincidência, minha tia.

— E qual?...

— Paciência, prima Rosa; mas a madrinha de sua mana é há dois dias a dama dos pensamentos de Otávio.

— É possível?...

— Tão possível como a minha prima tirar-lhe o lance.

— Ora... quem diria?!... mas, enfim, Sr. Brás, não se perde nada em trazê-lo para perto de nós.

— Sua comadre, minha tia, há de agradecer-lhe muito.

Tomásia arrastou a sua cadeira para perto da de Brás-mimoso, e com ele travou uma conversação cerrada, e em tom de quem não queria ser ouvida.

Félix escondia debaixo da sua fingida jovialidade uma dose de ciúme, que já muito cruelmente o incomodava; Rosa afetava ter tomado pouco interesse no que dissera sua mãe, e Manduca continuava a devorar pão com manteiga.

Rosa aproveitou aquele momento e dirigiu-se a Félix, falando-lhe também em tom baixo.

— Mas não tem razão, meu primo, que culpa tenho eu em que me achem bonita?

— Não você tem razão, minha prima, eu ainda não a acusei de nenhuma falta.

— Sempre lhe conheci ciumento.

— Ora... quando se ama uma moça tão firme como minha prima...

— Senhor!... basta de ironias!

— Senhora! eu estou falando como Salomão, com o coração na mão.

— Eu não desço da minha dignidade para fazer caso do que o senhor diz.

— Bravo, mana Rosa! bravo! exclamou Manduca com a boca cheia.

— Então que é isso? perguntou Tomásia.

— Era uma história que eu contava, respondeu Félix!

— É verdade, minha mãe, era uma história que ele contava à minha mana.

— Pois, se era uma história, nós todos queremos ouvi-la.

— Agora, meu primo! exclamou outra vez Manduca, conte lá a história à minha mãe.

— Pois então lá vai, disse Félix sem hesitar; é uma história muito verdadeira, e acontecida há pouco tempo: ia ontem para S. Cristovão no ônibus das cinco horas da tarde, quando chegamos à ponte do aterrado vimos vir um homem que, montado em um vivo cavalo, todavia acompanhava a custo uma jovem que cavalgava branco palafrém, boleado, ardido e fogoso; nem eu, nem nenhum dos que vinha no ônibus se importou mais com o cavaleiro que a seguia; os nossos olhos ficaram embebidos na jovem cavaleira.

— Isso é muito natural, disse Brás-mimoso.

— O vestido da moça era verde-escuro; nada mais engraçado que a sua cinturinha delicada, do que o justo corpinho do seu vestido, que desenhava as mais encantadoras e voluptuosas formas; trazia na cabeça um simples boné preto que, muito pequeno para esconder os seus cabelos, deixava cair uma imensa multidão de lindos anéis de madeixas negras, que voavam pelos ares na impetuosidade da carreira que trazia o cavalo! oh!... ela passou junto do ônibus!...

— E então?...

— Oh! minha tia, é cruel; mas, enfim, os anjos devem passar assim, rápidos e brilhantes como o relâmpago!...

— Portanto, não sabes se é bonita ou feia?...

— Sei, sei muito bem; nesse curto instante nós admiramos, desprendendo um leve chicotinho, uma pequena mão de querubim.

— Mas o rosto?... o rosto?...

— O rosto talvez seja pálido; mas a agitação lhe acendia o rubor nas faces... meigo sorriso estava deslizado em belos lábios cor de nácar... os seus olhos grandes... negros... ardentes... brilhavam como o sol no mais claro dia. Oh!... palavra de honra, minha tia, é o rosto mais bonito que tenho visto!

Rosa soltou uma gargalhada, e disse:

— Continue a sua história, meu primo, na verdade está muito bonita.

— Essa moça causou-nos, como era de esperar, a mais viva impressão, e um jovem poeta que ia conosco, exclamou: eis o tipo romântico! e em toda a viagem não falamos senão na moça romântica.

— E depois?...

— Voltando de S. Cristovão para a cidade, achei a notícia de que meu amo, o Sr. Hugo de Mendonça, havia chegado e partido logo para Niterói, onde tinha mandado alugar uma quinta. Fui imediatamente vê-lo, e quem o diria?... o homem que seguia a jovem cavaleira e de quem desviei os olhos, para só empregá-los nela, era meu amo!

— E a jovem cavaleira?...

— A jovem cavaleira é a filha dele, a quem não conheci, sem dúvida, pela grande rapidez com que passou junto do ônibus.

— Pois bem, e como a achou?...

— Desgraçadamente não a pude ver; estava descansando.

— Foi na verdade uma desgraça enorme!... disse Rosa.

— Certamente, acudiu Félix; mas foi uma desgraça da qual eu espero que minha tia tome o cuidado de vingar-me.

— Como?...

— Já que minha tia não se poupa a oferecer convites para o seu sarau a pessoas a quem não conhece, eu lhe rogo que me encarregue de levar uma carta ao Sr. Hugo de Mendonça, meu amo.

— Eu sei... mas...

— Não o deve fazer, minha mãe, disse Rosa.

— Oh, minha prima! não se perde assim uma moça bonita, quando se trata de um sarau.

— Temos muitas, e muitas bonitas!

— Sim, minha mãe!... há de convidar a moça romântica, quero dançar com ela.

— Eu entendo que deve produzir efeito, disse Brás-mimoso; sempre é uma novidade...

— Não ceda, minha mãe!...

— Ora... dir-se-ia que minha prima tem medo da concorrência.

— Com efeito!... meu primo está hoje insuportável...

— Por que, minha bela prima?... por falar na concorrência?... não, eu tenho a certeza de que minha prima não tem medo.

— Eu vou mostrar-lhe que não tenho medo!... minha mãe, mande convidar essa gente que veio do campo!

— Pois sim, convidar-se-á.

— Bravo, minha mãe!... gritou Manduca.

— Estou louco pelo sarau, disse Brás-mimoso.

Os dois primos estavam exasperados um contra o outro; Tomásia quis vê-los fazer as pazes.

— Vamos, meninos, parecem crianças! andem, preparem-se para dançar a primeira contradança.

— Não posso, minha mãe, disse Rosa.

— É impossível, minha tia, acudiu Félix.

— Oh! e por quê?...

— Porque quero dançar a primeira contradança com o Sr. Otávio.

— E eu fiz votos de dançar a primeira contradança com a moça romântica.

— Que loucuras!... exclamou Tomásia.