O talisman

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O talisman
por Desconhecido
Conto agrupado posteriormente e publicado em Contos para a infancia por Guerra Junqueiro.
Obra com ortografia atualizada disponível em O talismã.


Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria, mas com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negocios com uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção da sua casa.

«Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu collega, qual é a razão porque a sorte nos trata de um modo tão differente? Vendemos as mesmas mercadorias, a minha loja está tão bem situada como a tua, e apezar d'isso, emquanto tu ganhas, eu não faço senão perder. E não é porque eu seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado algumas vezes se não terás tu por acaso algum precioso talisman.»

«Effectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pae um talisman de uma virtude incomparavel. Trago-o ao pescoço, e ando assim com elle todo o dia por toda a casa, do celleiro para a adega, e da adega para o celleiro. E o caso é que tudo me corre perfeitamente.» «Olé meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa reliquia preciosa de que tanto necessito; pódes ter a certeza de que t'a restituo.»

«Pois vem buscal-a ámanhã de manhã.»

Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente, apresentou-lhe este uma avellã, através da qual tinha tinha passado um fio de seda.

O nosso homem pòl-a immediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a casa com o talisman. Observou então a completa desordem que por toda a parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na cozinha o pão, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos cavallos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal escripturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remedio, comprehendendo que o dono da casa nunca póde ser substituido por terceira pessoa na direcção dos seus negocios.

Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman, agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado.