Obras completas de Luis de Camões/Prefação

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Obras completas de Luis de Camões
por José Victorino Barreto Feio e José Gomes Monteiro
Prefação

Os que são versados na historia terão feito esta observação, que em todos os povos que no mundo tem figurado, as armas precedêrão sempre ás letras. Para haver Homeros, necessario foi que houvesse primeiro Achilles. O amor da patria e da liberdade, e aquelle innato desejo, que mais ou menos violento segundo as diversas indoles, arde no coração de todo homem, de se elevar acima de seus iguaes por meio de acções grandiosas e sublimes, excitárão as almas nobres a tentar grandes empresas; e as façanhas dos heroes impellirão depois os bons engenhos a transmitti-las aos vindouros, elegantemente escrevendo em prosa ou verso. E nunca vimos que prosperassem muito as letras n’um povo indigno de historia. Assim que bem se póde dizer que sempre a penna dos Escritores foi aparada pela espada dos Guerreiros: testimunhas Grecia e Roma.

Portugal, des de o berço educado para as armas e endurecido na guerra, a todas as nações modernas se avantajou em gloria militar. Com poucas forças e meios não somente sustentou longas e terriveis guerras, mas não contente de reconquistar e manter gloriosamente a sua independencia, emprehendeo mores cousas: devassou mares virgens, descobrio novas regiões, venceo e sujeitou a seu jugo muitos e mui poderosos Reis e povos; e tendo estendido o seu imperio até aos ultimos confins da terra, excitando a admiração das gentes com nunca vistos prodigios de industria, de valor, e de constancia por espaço de quasi cinco seculos, longo tempo se manteve no apice da grandeza e gloria humana: até que o ultimo Henrique, dessemelhante em tudo do primeiro, preparada ja nos dous antecedentes reinados a encosta por onde a illustre nação devia descer da altura a que subira; reunindo em si o Bago e o Sceptro e manchando as mãos sagradas nas cousas temporaes, a despenhou no abysmo, donde até hoje não ha podido mais levantar-se.

Tendo, pois, florescido tanto nas armas, razão era que florescesse tambem nas letras. E com effeito, despertados os engenhos com o estrondo dos feitos militares, um pouco mais tarde começárão ellas de nascer, e achando o chão propicio, pouco a pouco se forão arraigando de maneira, que ja no decimo terceiro seculo, reinando ElRei Dom Denis, desabrochárão suas primeiras flores; tendo aquelle grande Rei a gloria de lhes haver dado o primeiro impulso, escrevendo elle mesmo com summa elegancia para o tempo algumas obras, como um Tratado entitulado Dos principaes deveres da Milicia, e dous Cancioneiros, um dos quaes appareceo em Roma, reinando em Portugal João III. E no decimo quarto produzírão ja um tão sazonado fructo, como o Amadis de Gaula, obra de Vasco de Lobeira, que traduzida por Bernardo Tasso, pae do Epico Italiano, tamanho brado deo na Italia, e da qual o mesmo Epico diz (Defens. di Goffredo): Per giudizio di molti e mio particularmente è la più bella che si legga fra quelle di queste genere.... Perche nell'affetto e nei costumi se lascia addietro tutte l'altre, e nella varietá de gli accidenti non cede ad alcuna, che dapoi nè daprima fosse stato scritta. E como tal a exceptuou Miguel de Cervantes na revista que fez o Cura dos livros de Dom Quixote, dizendo: Este livro fué el primero de Caballarías que se escrevió en España, y todos los demas han tenido principio y origen deste.... Es el mijor de todos los que deste genero se han compuesto.

No decimo quarto se escreveo a Chronica do Condestavel e grande capitão Dom Nuno Alvares Pereira (primeiro ensaio historico de que temos noticia) que se imprimio em Lisboa em 1520.

No decimo quinto escreveo ElRei Dom Duarte O Leal Conselheiro, que se conserva na bibliotheca Real de París, e dous tratados entitulados, um Da Misericordia, outro Do Regimento da justiça e Officiaes della etc. Seu irmão o Infante Dom Pedro, Duque de Coimbra, que veio a ser depois Regente do Reino durante a menoridade de Affonso 5.º, tambem escreveo algumas obras politicas e moraes em prosa e verso, algumas das quaes se imprimírão em Leiria 6 annos depois da invenção da imprensa, e traduzio do Latim e dedicou a seu irmão Dom Duarte Cicero de Officiis, e Vegetius de re militari. Ayres Telles de Menezes, que por esse mesmo tempo floresceo, foi elegante poeta; e delle nos conservou Rezende no seu Cancioneiro algumas poesias; e para que se veja a que estado de cultura e perfeição havia ja então chegado a nossa bella lingua, transcreveremos aqui a seguinte


O D E.

  De pungentes estimulos ferido
O Regedor dos ceos e humilde terra,
Sôbre ti manda, desastrada Lysia,
        Effeitos da sua íra.

  A peste armada destruir teu povo
A um seu leve aceno vôa logo:
Estraga, fere, mata sanguinosa,
        Despiedada e crua.

  Despenhada no abysmo da ruina,
Fugir pretendes aos accesos raios,
Qual horrida phantasma, porém logo
        Desfallecida cahes.

  O açoute do Ceo lamenta, ó Lysia,
Mas inda muito mais os teus errores
Que provocar fizerão contra ti
        Contagião mortal.

  Dos Ceos apagar cuida a justa sanha
Da penitencia com as bastas ágoas,
Ja que revel e surda te mostraste

        A seus mudos avisos.
  Então verás ornada a nobre frente,
Como nos priscos tempos que passárão,
De esclarecidos louros, sinal certo
        De teus almos triumphos.


Por esse mesmo tempo Fernão Lopes, Duarte Galvão, Gomes Eanes de Zurara começárão a encommendar á memoria as façanhas dos Portuguezes, escrevendo regularmente as Chronicas dos nossos Reis des de a fundação da monarchia.

No principio do decimo sexto seculo Bernardim Ribeiro e Gil Vicente introduzírão, aquelle o estilo bucolico, este as representações theatraes. Francisco de Moraes escreveo o seu excellente Romance de Cavalleria, O Palmeirim de Inglaterra, do qual o mesmo Cervantes (que erradamente o attribue a ElRei Dom Duarte) faz o seguinte elogio: Esta palma de Inglaterra se guarde y se conserve, como cosa unica; y se haga para ella otra caja de oro como la que halló Alejandro en los despojos de Dario, que la diputó para guardar en ella las obras del poeta Homero. Este libro, Señor compadre, tiene autoridad por dos cosas; la una porque él por si es muy bueno, y la otra porque es fama que le compuso un Rey de Portugal. Todas las aventuras del castillo de Miraguarda son bonisimas y de grande arteficio, las razones cortesanas y claras, que guardan y miran el decoro dei que habla con mucho entendimiento. Digo pues.... que este y Amadis de Gaula queden libres del fuego; y todos los demas, sin hacer mas cala ni cata, perescan. Fernão Lopes de Castanheda e João de Barros, cognominado o Livio Portuguez, escrevêrão a historia das nossas descobertas e conquistas d'Asia. Sá de Miranda introduzio a verdadeira Comedia e a Satyra dos costumes, em que sobretudo he insigne. E finalmente, quando ja Portugal se avizinhava á fatal epocha da sua decadencia, veio tambem a produzir, como Roma, o seu Virgilio, dando ás letras um Camões; genio criador e sublime, que nascido para ser grande em tudo, se com soberano alento embocou a trombeta heroica, não pulsou com menor destreza a lyra, nem tirou da frauta sons menos harmoniosos e suaves.

Do seu Poema Epico ja n'outro lugar dissemos, não o que poderiamos dizer, mas o que julgámos bastante. Diremos tambem agora alguma cousa de suas poesias lyricas. E começaremos por observar que se nenhum escritor foi mais desprezado e perseguido de seus compatriotas, tambem nenhuma nação ha sido tão castigada, como a Portugueza das perseguições e desprezos, que soffreo este grande homem, não della, mas do seu governo, e dos grandes e poderosos, de cujos crimes he quasi sempre o povo quem vem a pagar as penas. Porque não lhe tendo sido possivel, pela miseria em que viveo, dar á luz as suas poesias sôltas, não as polio nem limou, nem deixou collecção dellas; e assim as mais se perdêrão, e as outras, espalhadas por mãos de muitos, se forão corrompendo nas copias, de sorte que inda as que menos damno soffrêrão, andão hoje nas impressões mui diversas do que erão, quando sahírão da penna de seu autor. E assim veio esta culpa de alguns a ter para nós as mesmas consequencias, que teve a de Adam para a humanidade; isto he, cahir dos culpados sôbre os innocentes e estender-se a todas as gerações. E se não foi mais amplo este castigo, a Fernão Rodrigues Lobo Surrupita o devemos. Este, com incansavel diligencia juntando algumas obras varias, que pôde alcançar, as deo pela primeira vez á luz no anno de 1595, assim desfiguradas como as achou: com o que não só evitou perderem-se estas, mas com o seu exemplo instigou outros a proseguir na mesma diligencia: e assim se forão descobrindo mais algumas, que pelo tempo adiante se forão dando ao prelo.

De modo que podemos dizer que em todos os estilos nos ficou do nosso poeta apenas uma pequena amostra, para que pelo dedo se conhecesse o gigante. Porém de tal quilate he o ouro, que essas pequenas reliquias bástão para elevar o cume do nosso Parnaso a tal altura, que lhe não fique superior o de nenhuma outra nação estranha.

Porque nos Sonetos he eminente o nosso poeta; e para lhe obter a palma sôbre quantos neste genero de composição se tem exercido, bastaria, quando outros muitos não tivesse de igual belleza, só este, que he o 72:

S O N E T O.


  Quando de minhas mágoas a comprida
Maginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquella alma me apparece,
Que para mim foi sonho nesta vida.

  Lá n'uma soidade, onde estendida
A vista pelo campo desfallece,
Corro apos ella; e ella então parece
Que de mim mais se alonga, compellida.

  Brado: Não me fujais, sombra benina.
Ella, os olhos em mim co'um brando pejo
Como quem diz que ja não pode ser,

  Torna a fugir-me: tórno a bradar: Dina...
E antes que diga mene, acordo, e vejo
Que nem um breve engano posso ter.

Diante deste desapparece toda a caterva de Sonetos que tem inundado Italia e Hespanha. Impossivel parece que com palavras tão vulgares se podesse pintar tão bella imagem, exprimir tal sentimento. Da outra banda do Lethes, confinando com os Elysios, descortinou a imaginação de Virgilio umas dilatadas campinas, a que na sua Lingua Latina chamou Lugentes campi, que o nosso Franco Barreto traduzio: Campos sem luz, e nós diremos: Campos da Saudade. Nestes campos e pela mesma Saudade parece que foi ditado este maravilhoso Soneto, que em nossa fraca opinião inda não foi igualado, nem será nunca excedido. E como este puderamos citar muitos.

Nas Canções deixou a perder de vista a Petrarca, Bembo, e a quantos a este genero de composição se tem dado: o que melhor poderá ver quem quizer comparar umas com outras.

Nas Odes, como em todo outro genero de poesia, todos sabem que ha diversos estilos para os diversos assumptos. O que a cada um destes convem, a mesma natureza delle o indica; e tanto erraria o que descrevesse um prado florido, um ribeiro socegado, as graças de uma pastora, ou Diana exercendo as dansas e choreas de suas nymphas pelos cabeços do monte Cynthio, no mesmo estilo em que se deve descrever o mar impetuoso, o combate dos Athletas, ou Jove fulminando os gigantes, como vice versa.

Pindaro, Anacreonte, e Horacio são os tres poetas que neste genero se nos propõe por modelos. Mas que differença de estilo entre Horacio, Anacreonte, e Pindaro! Certamente não he menor que a que vai do bucolico ao lyrico, ou do lyrico ao epico. O nosso Camões, profundo conhecedor da natureza, e mestre em todos os estilos, habilmente soube escolher aquelle que mais convinha ás materias que tratava, sempre natural e facil, sempre elegante e florido, e muitas vezes sublime. E as suas Odes, ainda que não tenhão o requisito, que hoje se tem por essencial, de serem inintelligiveis, são pelos entendedores summamente louvadas, e até não falta quem as prefira ás Canções; mas desta opinião não somos, ainda que pensamos com Faria e Sousa, que a 4.ª, 6.ª, 9.ª e 10.ª tarde serão excedidas; e o mesmo diriamos da 1.ª se não andára viciada.

No estilo bucolico, de que o poeta parece mais se aprazia, e em que des de a puericia exerceo a sua Musa, he onde alguns lhe querem negar a palma, para a concederem a Bernardes. Verdade he que Bernardes, depois da morte de Camões, appareceo em publico mui bem ataviado; mas os que lhe conhecião os cabedaes, admirados de o verem tão ricamente vestido, logo disserão uns para os outros: Donde vem a Pedro fallar gallego? e Manoel de Faria e Sousa o chamou a juizo, e convencendo-o de furto, o condemnou a despir na praça e restituir a seu dono parte dos vestidos roubados; sendo justo e de razão que quem o alheio veste, na praça o dispa. Mas deixando a Bernardes para outro processo, que intentamos fazer-lhe sobre estes mesmos roubos, passemos a examinar se he ou não exacto o juizo, que Luis de Camões se não mostrára tão grande poeta no genero pastoril, como no lyrico e heroico.

Surropita no seu prologo á primeira edição das Rimas foi o primeiro que emittio esta opinião desfavoravel ao poeta, quanto ao estilo bucolico, dizendo, depois de o louvar devidamente nos mais: Oxalá pudera humilhar a grandeza do seu engenho, conformando-se mais com o estilo bucolico! Da mesma sorte o julgou Faria e Sousa, a quem seguírão depois o Padre Thomaz de Aquino e outros, que sem se darem ao trabalho de profundar as cousas, querem decidir de tudo, sem appellação nem aggravo. Vejamos se tem razão.

Assenta este juizo principalmente sobre a Egloga 1.ª, que o poeta reputava pela melhor de quantas havia feito, e sobre a 6.ª, que elle de certo não tinha pela peor. E este voto do mesmo autor, que era tão grande homem, e no julgar de suas proprias obras nenhum interesse podia ter em exaltar umas para abater outras, ja he de algum momento. Porque, sendo a poesia, como a pintura, uma imitação da natureza, segue-se necessariamente que os melhores poetas e pintores são os mais profundos observadores e conhecedores da natureza, porque ninguem a póde perfeitamente imitar, sem que profundamente a conheça. Grandes imitadores, e portanto profundos conhecedores da natureza forão na poesia Homero, Virgilio, Camões etc., e na pintura Apelles, Raphael e Miguel Angelo; e mais val o voto de qualquer destes poetas ou pintores, que o de muitos milhões de versejadores ou borradores. Disse Camões que a sua Egloga de Umbrano e Frondelio, que Surropita e Faria tachárão de lavantada no estilo mais do que convinha ao genero bucolico, lhe parecia a elle a melhor de quantas fizera, isto he, que nella estava melhor imitada a natureza, que em todas as mais; e nós (se tambem nos he permittido interpor nossa humilde opinião) a temos não só pela melhor de quantas o poeta escreveo, mas de quantas havemos lido. E diremos o porque.

Preceito he, ditado pela mesma natureza, que tenha cada genero de poesia seu estilo particular, e que o som da frauta se não confunda com o da lyra ou da trombeta; mas tambem he preceito da natureza que, pois a choça e o throno estão igualmente sujeitos aos revezes da fortuna, e na vida pastoril pódem occorrer varios casos que dem assumpto ao poeta; se levante ou abaixe o estilo segundo for mais ou menos alto o assumpto, e que se o pastor se propõe louvar o Consul se tornem as florestas dignas delle.

Si canimus sylvas, sylvae sint Consule dignae.

Assim o entendeo e fez Virgilio, assim o entendeo e fez Camões, e assim o estabeleceo depois em preceito o judicioso Boileau na sua arte poetica.

L'Églogue quelquefois
Rend dignes du Consul la campagne et les bois.

E contra estas autoridades e a razão em que se ellas fundão mal podem sustentar-se em campo os que pretendem que neste genero de poesia se não possa tratar senão assumptos de lana caprina na lingoagem dos trivios.

Na sua Egloga 1.ª lamenta o nosso poeta as mortes de Dom Antonio de Noronha e do Principe Dom João, que profundamente sentio, aquella como verdadeiro amigo, esta como optimo cidadão, que ja de longe previa as consequencias de tão desastrado acontecimento. E como o forte sentir produz o forte e elevado pensar, algumas vezes se eleva, assim na sentença como na dicção, até tocar as raias prescriptas a esta especie de poesia, mas não as transcende nunca; nem as figuras e imagens de que se serve, as estranha o estilo bucolico; e muito mais n'uma lingua, em que essas mesmas imagens e figuras de tal sorte estão recebidas, que até os mais rudos camponezes rara vez se exprimem sem ellas. Mas inda quando fossem alheias da linguagem vulgar, quem as estranharia na poesia, que de sua natureza se deve levantar do uso commum de fallar? Permitte-se a Virgilio dizer n'uma Egloga:

Ipsae te, Tityre, pinus,
Ipsae te fontes, ipsae haec arbusta vocabant.

  Estes pinheiros, Tityro, estas fontes,
  Estes mesmos arbustos te chamavão.

e não se hade consentir a Camões dizer:

  Canta agora, pastor, que o gado pasce
  Entre as humidas hervas socegado,
  E lá nas altas serras onde nasce,
  O sacro Tejo á sombra recostado
  Com seus olhos no chão, a mão na face,
  Está para te ouvir apparelhado;
  E com silencio triste estão as Nymphas
  Dos olhos destillando claras lymphas?

Emfim nesta admiravel Egloga nada falta da parte do poeta; se alguma cousa faltar, será da parte do leitor. Passemos agora á 6.ª

Nesta Egloga mistura o poeta o estilo pastoril e o piscatorio, de que elle foi entre nós o primeiro introductor, e que levou a tal perfeição, que desanimou os que depois se seguírão a ponto, que ficou quasi de todo esquecido. He o seu argumento uma contenda entre um pastor e um pescador sobre qual dos estilos deve ter a preferencia, cantando cada um a belleza da sua amada. E ja daqui se vê que um e outro deve levantar o estilo quanto puder, e pôr nesta porfia todo o seu cabedal, para não ficar vencido. Esta Egloga he onde Faria mais se funda para dizer que o poeta se não podia domar na força do seu enthusiasmo. Mas tão longe está de justificar este juizo, que della mesma nos queremos servir para mostrar a pasmosa facilidade, com que o poeta sabia variar de tom e passar de um estilo a outro. E sem gastar mais palavras, passemos a analysar cada uma de suas Estancias, porque a verdade he facil de ver-se, e por si mesma saltará aos olhos.

Dá o pastor princípio á contenda, invocando as divindades campestres deste modo:

Agrario.


  Vós, semicapros deoses do alto monte,
Faunos longevos, Satyros, Sylvanos;
E vós, deosas do bosque e clara fonte,
E dos troncos que vivem largos anos;
Se tendes prompta um pouco a sacra fronte
A nossos versos rusticos e humanos,
Ou me dai ja a capella de loureiro,
Ou penda a minha lyra d'um pinheiro.

Sublime e admiravel invocação! Mas ouçamos agora o pescador

Alicuto.


  Vós, humidas deidades deste pégo,
Tritões ceruleos, Próteo, com Palemo;

Vós, Nereidas do sal em que navego,
Por quem do vento a furia pouco temo;
Se a vossas sacras aras nunca nego
O congro nadador na pá do remo,
Não consintais que a musica marinha
Vencida seja aqui na lyra minha.

Que terão que dizer esses Senhores a estas duas Estancias? Dirão que são demasiado sublimes, e que estão fóra do natural, porque a este simples, a este natural, a este sublime não podem elles chegar. Mas não lhes demos ouvidos, e continuemos a prestar attenção aos nossos contendores. Vejamos com que despejo entrão na lide.

Agrario.


  Pastor se fez um tempo o moço louro
Que do pae as carretas move e guia;
Ouvio o rio Amphryso a lyra d'ouro,
Que o seu claro inventor alli tangia.
Io foi vacca, Jupiter foi touro
Mansas ovelhas junto d'ágoa fria
Guardou formoso Adonis, e tornado
Em bezerro Neptuno foi ja achado.

A esta formosa Estancia em louvor da vida campestre oppõe o pescador a seguinte, exaltando a sua profissão.

Alicuto.


  Pescador ja foi Glauco, e deos agora
He do mar, e Protêo phocas guarda;

Nasceo no pégo a deosa, qu'he senhora
Do amoroso prazer, que sempre tarda.
Se foi bezerro o deos que cá se adora,
Tambem ja foi delphim. Se se resguarda,
Vê-se que os moços pescadores erão,
Que o escuro enigma ao primo vate derão.

Agora passa o vaqueiro a queixar-se da frieza com que a sua pastora recebe as suas finezas.

Agrario.


  Formosa Dinamene, se dos ninhos
Os implumes penhores ja furtei
Á doce philomela, e dos murtinhos
Para ti (fera!) as flores apanhei;
E se os crespos madronhos nos raminhos
Com tanto gosto ja te presentei,
Porque não dás a Agrario desditoso
Um só revolver d'olhos piedoso?

Responde-lhe o seu adversario com uma Estancia do mesmo genero, segundo os preceitos do canto amebeo, ou alternado.

Alicuto.


  Para quem trago d'ágoa em vaso cavo
Os curvos camarões vivos saltando?
Para quem as conchinhas ruivas cavo
Na praia, os brancos buzios apanhando?
Para quem de mergulho no mar bravo
Os ramos de coral vou arrancando,
Senão para a formosa Lemnoria,
Que co'um só riso a vida me daria?

Agora vão descrever, um as furias do ciume, outro as da desesperação de ver galardoado o seu amor. Vejamos como sahem da empresa.


Agrario.


  Quem vio o desgrenhado e crespo Inverno,
D'átras nuvens vestido, horrido e feio,
Ennegrecendo á vista o ceo superno,
Quando os troncos arranca o rio cheio;
Raios, chuvas, trovões, um triste inferno
Que ao mundo mostra um pallido receio:
Tal o amor he cioso a quem suspeita
Que outrem de seu trabalho se aproveita.

Alicuto


  Se alguem vê, se alguem ouve o sibilante
Furor lançando flammas e bramidos,
Quando as pasmosas serras traz diante,
Horrido aos olhos, horrido aos ouvidos;
A braços derribando o ja nutante
Mundo co'os elementos destruidos;
Assim me representa a phantasia
A desesperação de ver um dia.

Estas Estancias diz Faria que as estranha o estilo bucolico. Mas se as estranha necessariamente ha de ser ou pelos pensamentos ou pela dicção. Pelos pensamentos seguramente não he, porque ninguem dirá que está fóra do alcance de um pastor ou de um pescador o sentir a semelhança que tem as furias do ciume, ou da desesperação com as tempestades do inverno, ou com o mar agitado pelos ventos. Pela dicção tambem não, porque se o pensamento não he estranho, tambem esta o não póde ser, quando tão perfeitamente se lhe accommoda e ajusta, como aqui se observa; e muito mais quando as mesmas figuras e imagens de que o poeta aqui usa, andão na boca do povo de sorte, que nada he mais ordinario que ouvir dizer a um camponez que o ceo está toldado de negras nuvens etc., ou a um marinheiro ou pescador que o vento traz todo o mar em serras diante de si; que parece querer destruir a terra etc. A differença está em que onde o pastor diria coberto ou toldado, diz o poeta vestido, e onde o marinheiro diria abalado, diz o poeta nutante, para se levantar um pouco do uso commum de fallar. E portanto não ha aqui impropriedade alguma; antes summa conveniencia de pensamentos e palavras. E desta mutua conveniencia e propriedade resulta esta viveza de pintura, esta sublimidade, de que se espanta Faria. Porém sem razão se espanta, porque fóra do natural não ha sublime, e o que he natural não se estranha. Nem se persuada ninguem que se o poeta aqui se elevou, foi porque não podia domar-se; que mui de proposito o fez, por assim julgar que o devia fazer. Porque não ha poeta, que melhor soubesse variar de tom, pintar os objectos com propriedade e viveza, e seguir com a phrase o pensamento. Senão veja-se nas Estancias logo seguintes como ja serpeia manso regato o que inda ha pouco era rio caudaloso.


Agrario.


  Minha alva Dinamene, a primavera
Que os deleitosos campos pinta e veste,
E rindo-se uma côr aos olhos gera,
Que em terra lhes faz ver o Arco celeste;
As aves, as boninas, a verde hera,
E toda a formosura amena agreste
Não he para os meus olhos tão formosa,
Como a tua, que abate o lirio e rosa.
 

Alicuto.


  As conchinhas da praia, que presentão
A côr das nuvens, quando nasce o dia;
O canto das Sirenas, que adormentão;
A tinta que no murice se cria;
O navegar por ondas, que se assentão
Co'o brando bafo, com que o sol s'enfria,
Não podem, Nympha minha, assi aprazer-me,
Como o ver-te, se em tanto chego a ver-me.
 

Agrario.


  A deosa, que na Lybica lagôa
Em fórma virginal appareceo,
Cujo nome tomou, que tanto sôa,
Os olhos bellos tẽe da côr do ceo:
Garços os tem; mas uma, que a corôa
Das formosas do campo mereceo,

Da côr do campo os mostra graciosos.
Quem não diz que são estes os formosos?
 

Alicuto.


  Perdoem-me as deidades, mas tu diva
Que no liquido marmore es gerada,
A luz dos olhos teus, celeste e viva,
Tens por vicio amoroso atravessada:
Nós petos lhe chamâmos: mas quem priva
De luz o dia, baixa e socegada
Traz a dos seus nos meus, qu'eu o não nego,
E com toda esta luz sempre estou cego.

Agora diga quem nasceo para sentir as bellezas da natureza, se ha em Theocrito ou Virgilio, ou algum outro poeta antigo ou moderno, um desafio igual a este, ou se póde chegar a mais a perfeição humana. E eis-aqui as duas Eglogas com que alguns individuos, que tendo olhos e tempo para ler muito, os não tiverão para observar a natureza, e conhecer com que ampliações ou restricções se devem entender e applicar os preceitos de Aristoteles e Horacio, pretendêrão provar que o nosso poeta não possuia o estilo bucolico. Certo que não ha na republica das Letras sevandijas mais nojentas, que certos homens de espirito acanhado, que enfatuados com graos de Doutores e titulos de Academicos, sem nunca terem produzido nem serem capazes de produzir cousa alguma, se arrogão o direito de taxar o merecimento e preço das obras dos grandes homens.

Mas inda quando fosse verdade que da frauta se não podesse tirar mais que um som unico, e a respeito destas Eglogas a razão da parte delles, e não da nossa estivesse, ousarião esses Aristarchos dizer que em todas as mais, e com especialidade na 8.ª, 9.ª, 10.ª, 11.ª, 13.ª, 14.ª se não encontra o verdadeiro estilo bucolico, e em tal perfeição que nenhuma inveja podemos ter a Theocrito ou Virgilio? E se estes dous poetas que neste genero se recommendão como modelos, julgárão não offender os preceitos d'arte, aquelle em levantar o estilo a ponto de poder celebrar na humilde avena os louvores de Ptolomeo Philadelpho e alguns dos trabalhos de Hercules, que parecião mais proprio assumpto para uma Ode Pindarica, este de tornar a selvas dignas do Consul, sem que por isso deixassem de ser olhados como oraculos; por que lei ou com que autoridade pretendem esses guarda-portões do Parnaso expulsar o nosso poeta do lugar que ao lado desses primeiros mestres, lhe assinou o mesmo Apollo.

Doze Elegias temos do nosso poeta, (porque as que nas edições posteriores á de Faria se forão introduzindo, assim como os tres Cantos da Criação do homem e alguns Sonetos, que atéqui andavão com o titulo de Obras Attribuidas, evidentemente não são delle, e por isso os rejeitamos nesta edição) e ainda que destas doze apenas quatro ou cinco se podem propriamente chamar Elegias; dellas se vê que tambem neste estilo era excellente.

Temos tambem tres Comedias suas, a de ElRei Seleuco, que he um pequeno Drama, daquelles a que os nossos antigos chamavão Autos, a dos Amphytriões, que não he, como diz Severim de Faria, uma traducção de Plauto, mas sim uma composição sua, e a de Filodemo, ambas em cinco actos: as quaes se não podem appresentar-se como modelos de verdadeira Comedia, todavia he preciso confessar que ha nellas muito que admirar. E muito mais se considerarmos que forão escritas nos seus primeiros annos, antes de sahir do Reino, e não para se representarem em Theatro publico, que nesse tempo não havia, mas para divertimento particular.

E se nos versos maiores deixou a perder de vista todos os mais poetas peninsulares, tambem nas Redondilhas e outras composições de verso menor (nas que de impulso proprio escreveo; que muitas andão impressas, que elle, se fosse vivo, não dera á luz) se lhes avantajou muito. E assim por consenso universal lhe foi conferido o titulo de Principe dos poetas heroicos e lyricos de Hespanha. Emfim poucas nações se podem gloriar de haverem produzido um homem como Luis de Camões; raras vezes se vírão reunidos n'um só sujeito tantos talentos e dotes da natureza, tão vasta erudição e doutrina , tanta facilidade em exprimir seus pensamentos. Igualmente versado nas artes da paz e da guerra, Achilles e ao mesmo tempo Homero, com a espada e com a penna toda a vida trabalhou por illustrar a sua patria: e se a Fortuna lhe impedio igualar a fama dos grandes capitães, não lhe pôde estorvar (porque nas obras de engenho não tem imperio a Fortuna) igualar a dos summos escritores, e levar a nossa gloria literaria a ponto de hombrear com a militar.

Porém desgraçadamente, quando uma ia emparelhando com a outra, confundio tudo a Fortuna, que a seu arbitrio dispõe das cousas humanas; e ambas desapparecêrão com a nossa liberdade e independencia. Se nenhuma nação subio mais alto, tambem nenhuma deo maior quéda. Cumprida está a primeira parte da prophecia do fundador da monarchia: resta cumprir-se a segunda; que tambem se ha de cumprir. Quando expurgados os vicios que nos ficárão da antiga prosperidade, e reformados nossos costumes na frágoa da desgraça, tiver renascido no coração de todos os Portuguezes aquelle amor de patria, que tanto distinguio nossos maiores, brilharemos outra vez nas armas, brilharemos nas letras; tornaremos a ser o que ja fomos. E para isso nada póde tanto contribuir, como a contínua e reflectida lição das obras do nosso immortal Camões, que, se foi grande escritor, inda foi melhor cidadão. Por isso com tanto cuidado as estamos alimpando dos muitos erros e vicios das primeiras edições, para que melhor sejão entendidas e gostadas: na esperança de que o seu poema dos Lusiadas virá a ser uma trombeta, que assim mesmo enrouquecida como está pela abominavel Censura, fara um dia resurgir os mortos.