Oitavas canto agora por preceito

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Ao mesmo secretario de estado Bernado Vieyra pedindo humas oitavas ao poeta, em tempo, em que fazia annos convalescendo de huma grave doença.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsHomens de Bem

1Oitavas canto agora por preceito,
Sem que na oitava possa diligente
Louvar as excelências de um sujeito,
Que pode ser em tudo o melhor Lente:
Mas como em mim não pode ser perfeito
O canto, ficará menos cadente
A música de Apolo, e de Talia,
Que não há cantar bem sem melodia.

2Se do tempo perfeito o meu compasso
A compasso cantara neste canto,
Não faltara à garganta agora o passo,
E em passos de garganta fora espanto:
Porém se em canto nunca da mão passo
Como posso afinar no canto tanto,
Que me atreva a cantar vossa ciência,
Sem que falte ao compasso na cadência.

3Canora a voz tomara, e tão suave,
Que em passos largos, e ecos repetidos
Sonora requintasse aquela clave,
Em que fossem meus ecos esparcidos:
Porém se o vosso nome o canto grave
Eleva suspendendo os mais sentidos,
Com a voz, que formar o meu alento
Chegar posso tarnbém ao Firmamento.

4Discutindo esse globo de ciências
No mapa desta esfera Americana,
Acho um todo formado de excelências
Maravilha fatal em forma humana:
De modo se une, e formam as essências
Que o natural as graças vos germana:
Mas que muito se vós no largo mundo
Sois da graça, e ciências tão fecundo.

5Se emulações tiraram Luzimentos,
Que soube a natureza vincular-vos,
Apolo não perdera os pensamentos,
Temendo-se na empresa de louvar-vos:
Suspende a admiração os vãos intentos
Ao discurso, que emprende realçar-vos,
Que a Musa enfraquecida, a pena leve
Nunca diz, o que sente, no que escreve.

6Deixem-se os Gregos já do seu Eliano,
Condenam a silêncio um Xenofonte,
Não louve Alexandria Herodiano,
Que na Bahia tem Timocreonte:
O qual pode ensinar Quintiliano,
Camões, Terêncio, Ênio, Anacreonte,
Platões, Anaximandros, e Musés,
Acusilaus, Priscianos, e a Timéus.

7Nos anos climatéricos glorioso
Vosso nome será tão dilatado,
Que suba, onde o decrépito invejoso
O veja nas estrelas colocado:
Sereis novo Planeta luminoso,
E Sol em nova esfera sublimado,
Que, a quem o mundo singular aclama,
Só descansa no céu com ele a fama.

8Separar vossas partes, e Louvores
Absurdo fora certo, e averiguado,
Que à grandeza dos orbes superiores
Ninguém pode pôr termo limitado:
Receba o infinito por maiores,
Quem foi por singular ao mundo dado,
Com que as partes publica deste modo,
Quem de todo admirado admira o todo.

9Cesse pois em louvar-vos minha pena,
Que impossível será, que sem engano
Presuma, que fazendo esta novena
Vos possa ponderar em todo um ano:
Este novo, e felice, que hoje ordena
O Céu, lograi, Senhor, sem tanto dano,
Porque sejam em vós os mais gloriosos
Aqueles, que vos faltam de invejosos.