Os Dois Amores/I

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Os Dois Amores por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo I: O "Céu cor-de-rosa"


Ninguém há na cidade do Rio de Janeiro, que não conheça perfeitamente o largo da Lapa do Desterro.

Sobretudo, ele se faz notável pelas missas, que de madrugada se dizem em seu pequeno convento; por suas belas festas do Espírito-Santo com seu império sempre cheio de oferendas, e seus grandes fogos de artifício; e enfim, pela multidão imensa de povo, e pelos carros, ônibus e gôndolas, que incessantemente por aí transitam, indo ou vindo desses bairros aristocráticos, que ficam além do cais da Glória.

E, como para compensar esse ruído constante e essa concorrência de que falamos, o largo da Lapa tem por vizinhas algumas ruas pequenas, mas bonitas, que se podem chamar solitárias em comparação dele.

No ano de 1846, porém, os habitantes de uma dessas ruas, de cujo nome agora não nos podemos ou não nos queremos lembrar, mas que será fácil conhecê-la pelo que dela dire­mos, começaram a notar que ela se ia tornando muito freqüentada a certas horas do dia.

De tarde, quando já o sol não incomodava e a sombra e o frescor convidavam as moças a chegar à janela, viam-se passar primeira e segunda vez pela rua de... numerosos mancebos, que trajavam com elegância e gosto, e que por seus modos e ademãs mostravam pertencer ao círculo feliz, que atualmente se conhece pelo nome do — bom-tom.

Deu isto muito que pensar aos sossegados habitantes da rua de.... até que finalmente certo dia um homem que ali morava, e que se chamava Jacó, apontando para uma casa, que ficava defronte da sua, disse em tom confidencial a al­guns de seus vizinhos: — a causa é aquilo.

Também Jacó era a pessoa mais capaz de descobrir qualquer mistério. Pelo sim, pelo não, diremos já, em duas pa­lavras, quem era ele.

Jacó tinha sido escrivão, e apenas há três anos havendo perdido o seu lugar por motivos que ele a ninguém dizia, mas que o fizeram viver na cadeia durante alguns meses, re­tirou-se do centro da cidade, onde habitava, e veio com sua mulher e uma escrava morar na rua de...

A casa de Jacó era térrea, e constava de uma porta e duas janelas de vidraça cobertas com cortinas brancas: a porta abria-se para um corredor ao lado direito do qual outra dava entrada para a sala.

Sem ter nada em que se ocupasse, Jacó vivia do fruto de seus antigos trabalhos, e sua mulher, para ajudá-lo nas des­pesas da casa, fazia um pequeno comércio de balas e confeitos, que a escrava vendia em um tabuleiro à porta do corredor.

Um homem baixo, um pouco gordo e um pouco calvo, com os cabelos que lhe restavam, já meio grisalhos, com olhos pequenos e vivos, tendo sempre no semblante uma ale­gria fingida, tomando rapé, e trajando constantemente um fraque roxo, abotoado até em cima, calças pretas, e botins de cordovão de lustro — era Jacó.

Uma mulher alta, gorda, com poucos cabelos, olhos pardos, rosto, e principalmente o nariz, que não era pequeno, muito vermelhos, com pés imensamente grandes, com voz fi­na, retumbante, e falando de contínuo — era a sra. Helena, a mulher de Jacó.

Este par vivia na mais estreita união, e tendo pouco ou nada em que cuidar, gastava o tempo em descobrir mistérios.

Jacó tinha o seu posto de dia, sentado junto de uma das janelas, e só o deixava se supunha conveniente seguir a al­guém; dali ele observava e adivinhava tudo: seu olhar vivo penetrava no interior da casa alheia, e seu ouvido apurado ouvia, apesar das paredes, o que se falava na dos vizinhos; se saía, apanhava e lia o pequeno escrito, que desprezado rolava no chão; e de noite, escondido atrás da cortina da janela, devassava as ruas, e escutava o que diziam aqueles que passeavam conversando.

Helena ajudava excelentemente seu marido nesse inocente passatempo: ela conhecia os escravos de todas as casas, praticava com eles, e dava conta a seu esposo das questões domésticas, dos segredos e das mais miúdas circunstâncias da vida alheia: o papel em que vinha da venda embrulhado o açúcar, era lido e estudado; e durante a noite uma das cortinas das janelas pertencia aos cuidados de Helena.

A intriga, a maledicência e mesmo a calúnia alimentavam este homem e esta mulher, que se tinham encontrado no mundo tão iguais, tão dignos um do outro.

Não era pois acreditável que a causa dos passeios desses mancebos por aquela rua, dantes tão pouco freqüentada, escapasse a Jacó e sua mulher.

Um dia Jacó disse: — a causa é aquilo.

E aquilo era uma casa de bela aparência, que ficava defronte da dele: casa muito conhecida, mesmo muito amada pelos habitantes da rua de.... ou melhor pelos habitantes e freqüentadores do bairro da Lapa do Desterro.

Era essa casa assobradada e sobremontada por um sótão, ou, se quiserem, por um meio sobrado com três janelas de peitoril, tendo o andar inferior cinco, todas porém igualmente de peitoril: do lado esquerdo dava entrada para ela um humilde alpendre, que levava, os que por ele praticavam, a uma escadinha de quatro degraus, pelos quais se subia ao primeiro andar: pela parte direita, e na extensão de três braças, erguia-se um muro, que ocultava aos olhos dos curiosos pequeno e gracioso jardim, e breve se terminava confinando com uma velha casinha. Nada portanto mais simples, nada menos romanesco do que o aspecto dessa casa; mas porque sua frontaria fosse toda pintada de uma bela cor-de-rosa, excetuando-se a cimalha e os caixilhos das vidraças, que eram brancos, os habitantes e freqüentadores do bairro da Lapa do Desterro deram-lhe o nome e teimavam em chamá-la com o título muitíssimo poético de "Céu cor-de-rosa."

Seria, porém, a cor da frontaria da casa, de que tratamos, a verdadeira causa de sua denominação quase sacrílega?... certo que não. O instinto do coração de um homem adivi­nha, para logo, que aí deve habitar uma mulher, provavelmente muito bela; porque esse nome de "Céu cor-de-rosa" tem em si alguma coisa de poético; e neste mundo tão por demais enganador e falso, e nesta vida tão por demais estéril e trabalhosa, o homem só encontra poesia e encanto onde respira a mulher. Por conseqüência, a cor da frontaria era o meio; a existência de uma mulher nessa casa, era a causa única de seu belo nome.

Com efeito uma moça, que a ser julgada pelo que dela apregoava a fama, era tão linda como nova, tão rica de en­cantos como pobre de anos, embelecia, tornava cheia de in­teresse a modesta habitação: centro para onde convergiam mil simpatias, tinha ela seu nome abençoado, sua vida mergulhada em uma atmosfera toda poética, seus hábitos e costumes, suas ações, sua casa, e quanto com ela estava em relação gozando honras romanescas, graças à imaginação fervorosa de um público idólatra.

Assim, já vimos com que nome tão altivo era conhecida a morada da feliz moça, e fez o povo mais ainda: para com uma antítese tornar dobradamente notável a conta em que tinha o "Céu cor-de-rosa", aproveitou-se da existência da pobre casa, que junto do muro do jardim da primeira se via; e em castigo de sua miséria, pois que muito baixa, só havia nela de mais um sótão, que nem mesmo lançava janelas para a rua, e toda se mostrava já meio arruinada pela força dos anos, e bastante intrigueirada pelas desfeitas do tempo, deu-lhe o epíteto afrontoso de — "Purgatório-trigueiro".

Tendo por essa maneira feito notar a casa da moça que­rida com um nome sagrado, e a que lhe ficava contígua com uma alcunha de maldição, os entusiastas foram por diante com a sua antítese. Entenderam que o nome batismal da moça, não exprimindo nenhum dos sentimentos que por ela nutriam, não lhes podia servir para fazê-la designar; e então acertaram de chamá-la — "Bela Órfã"; — porque assim a tornavam por dois modos interessante: interessante aos olhos pela beleza e ao coração pelo estado; e enfim, chegou a vez da antítese cruel, e a uma pobre mulher setuagenária, que morava no "Purgatório-trigueiro", foi lançado o insultuoso apelido de — "Velha bruxa".

Depois, como para dar os últimos toques à apoteose da feliz senhora, eles estudaram os hábitos, observaram as ações e os passos da "Bela Órfã", e interpretações e explicações tão poéticas como esse nome vieram completar o romance que a imaginação popular criava. Por exemplo: a moça tinha desde os mais tenros anos contraído o hábito de despertar com a aurora para passar a primeira hora da manhã no pe­queno jardim do "Céu cor-de-rosa"; a explicação não tar­dou. "Há, diziam-se sorrindo uns aos outros os entusiastas, há uma paixão, e a mais decidida correspondência amorosa entre a "Bela Órfã", e o sol; de ajuste despertam ambos à mesma hora para, livres de testemunhas, se irem namorar de manhã cedo, ele do alto dos céus, e ela do meio das flores".

Pensamos haver dito bastante para que se compreenda, com que excesso era amada essa moça: e como não pretendemos fazer coro com a multidão, que a incensava com lisonjas tão exageradas, e pouca importância damos a esses exaltamentos populares, que, tantas vezes, basta um leve sopro para de todo apagar, ou mesmo dar-lhe direção absolutamente oposta: vamos dizer o que era ela em realidade, e do que com justiça se lhe devia; e se, no correr desta história, usarmos repetidamente de alguns desses epítetos mencionados, será porque o povo à força de repetir os nomes de sua esco­lha acabou por generalizá-los, de tal modo, que só por eles eram bem conhecidos os objetos que nomeavam.

Deus legou aos homens pensamentos grandes, importantes e sagrados, em sua passagem, de padecimentos para ele e de salvação para nós; em sua passagem por este mundo, dizemos, cada passo que deu, cada ação que fez, cada palavra que pronunciou, foi uma lição de virtude angélica, uma amostra do caminho do céu, um pensamento de santidade; e o cumprimento de cada um desses pensamentos é o em­blema, o mote de cada classe da sociedade; entre eles, se fosse possível dar-se mais beleza a uma do que a outras idéias do Espírito Divino, seria um dos mais sublimes e difíceis — a caridade. — E os missionários dessa virtude angélica, são especialmente os médicos. A medicina é o sacerdócio da caridade.

O negociante de receitas, aquele que, mercê de seu título, anda por aí curando, se pode, os seus doentes, tendo em mira somente o pobre interesse; que só presta o seu conse­lho a troco de ouro; que morde nos outros médicos, como em concorrentes que lhe diminuem o ganho; esse, que não compreende o gemer da alma da humanidade; que não sabe o que é o sofrimento mal gemido, as angústias abafadas do homem pobre; esse, que enquanto receita com a mão direita, tem já a esquerda estendida para receber dinheiro; esse, que define a medicina — somente um meio de vida; — esse, que não entende que a religião de Jesus Cristo, a nobreza de sua ciência, e a honra do coração marcam-lhe o posto ao pé de quem geme, e não unicamente ao pé de quem paga; esse... é apenas um mercador de receitas.

Mas aquele que, no exercício da medicina, não faz distin­ção entre rico e pobre, e só vê indivíduos que de seus cui­dados carecem; aquele que combate as enfermidades, dispu­tando contra a morte dia por dia, hora por hora, instante por instante, o campo da vida; que invade corajoso a atmosfera da peste; que se expõe com marcial bravura ao contágio mortífero, respirando aqui ar miasmático e envenenado, banhando-se ali em suor fétido e peçonhento, para caridoso levar socorros a infelizes, de quem sabe não receberá um ceitil; aquele que nem mesmo desanima, nesse viver trabalhoso, ante o monstro que tantas mil vezes fere o coração do médico — a ingratidão; — que paciente se amolda à im­pertinência da infância, ao capricho da velhice e ao pudor da virgindade; que não conhece no homem só os padecimen­tos da matéria; que entende e fala também o idioma da sen­sibilidade, o eloqüente dizer da alma; aquele que tem na cabeça a medicina para curar, nas mãos metade do ouro que recebeu do rico para espalhar sobre a miséria da pobreza; nos lábios consolações salutíferas para com elas abrandar os tormentos do infeliz; e no coração uma sepultura para eternamente encerrar os segredos das famílias; esse sim... esse é médico.

E se acaso se orgulha de sê-lo, tem, de sobra, razão para orgulhar-se.

Nobre, alta, importante, solene missão é essa!... e essa missão tinha sido cumprida à risca pelo dr. Paulo Ângelo.

A vida de Paulo Ângelo fora uma longa história de filantropia e caridade: compreendendo perfeitamente o ministé­rio do médico, não se arredara nunca em nenhum de seus passos da linha de proceder que lhe cumpria seguir. Dias e noites gastara ele em fazer bem ou em preparar-se para fazê-lo a seus semelhantes, porque de dia eram suas horas votadas à observação e ao cuidado de seus enfermos; e de noite estudava, estudava sempre, pois que jamais pensava ser suficientemente sábio. Havia reconhecido que, assim como o homem moral, o homem físico é também um livro imenso, em que sempre se acham segredos novos para interpretar; e que lendo-se mesmo de contínuo até à última hora da vida, ainda assim não se tem lido bastante, ou antes nun­ca se chega à sua página derradeira.

Moço ainda, desposara ele uma mulher virtuosa e amável; e o céu abençoando sua união lhe fez presente de uma filha, que deveria fazer o encanto de sua velhice. Ocupou-se desvelado em sua educação: possível e muito, lhe fora preparar-lhe uma herança elevada porque, médico hábil e afamado, exercia uma clínica vasta e rendosa; quase sempre, porém, metade do estipêndio do rico ficava debaixo do travesseiro do pobre.

No entanto, se seus cofres permaneciam vazios, as bênçãos do povo choviam sobre Paulo Ângelo e sua família, pois que sua esposa, obedecendo à própria índole, e seguindo os exemplos que ele lhe dava, cumpria também a santa virtude da caridade, com essa graça no bem-fazer, com esse segredo de ser beneficente quase brincando, de que somente são capazes as mulheres; e sua pequena filha amamentada com o leite da virtude, embalada no berço da beneficência, era um galante querubim, de quem Deus modelara o coração, e o amor o rosto.

Ia indo Paulo Ângelo em seu viver sossegado e ditoso, quando no começo do ano de 1844 foi vítima de seu próprio ministério: contraindo uma enfermidade contagiosa, trouxe o germe da morte para o centro de sua família, e em um mesmo dia os sinos da capital gemeram com seu dobre lú­gubre por ele e por sua esposa.

Era um espetáculo bem triste ver famílias inteiras, de quem ele havia sido o benfeitor, acompanhar chorando seu carro fúnebre!... era uma cena despedaçadora vê-las ao derredor de seu féretro misturando lamentos e soluços com os hinos funerais dos sacerdotes.

E havia, com tudo isso, um objeto ainda mais triste, ainda mais lamentável do que todo esse espetáculo: havia uma órfã de quatorze anos.

Aos quatorze anos, pois, ficou quase só no mundo a filha de Paulo Ângelo. É verdade que um nobre e respeitável an­cião, seu avô paterno, encarregou-se de sua tutela; que ela achou em uma bela e interessante senhora, filha de seu avô, e portanto sua tia, uma companheira e amiga. É certo, que firmes e não ingratos se mostraram alguns dos muitos antigos amigos de seu pai; por sem dúvida, que herdou ela toda a idolatria que votava a classe necessitada ao médico ben­feitor. É verdade tudo isso, mas não será verdade, também, que ainda mesmo no centro da multidão está quase num ermo, que ainda mesmo no meio de mil riquezas está mais pobre que o último mendigo, aquele que perde de improvi­so o que mais ama no mundo? pois que sentimento há aí, que preencher possa o vazio deixado no coração pelo amor filial?... um só talvez, a saudade do que se perdeu: é ainda o mesmo sentimento modificado pela dor, e crisma­do com novo nome.

E pois essa interessante pombinha ficara só e ainda mal emplumada no ninho, onde não poderão jamais voltar os pais, apanhados tão de súbito pela morte. E pois essa criança de quatorze anos, fora cedo tocada pelo dedo pesado do infortúnio e escrevera seu nome na lista dessas criaturas infelizes e sagradas, que no mundo se chamam — órfãos; — sim, infelizes, porque têm perdido aquilo que a natureza pede incessantemente dentro do coração; sagradas, também, porque um órfão deve ser um objeto respeitado, como a alma de um vivo e o cadáver de um morto.

E como profundamente ressentida desse golpe inesperado que a viera ferir no tempo mesmo em que começava de bem compreender o que era, o que valia o amor dos pais, a filha de Paulo Ângelo, semelhante a essas flores que, açoitadas pela tempestade ao desabrochar, não morrem mas se desen­volvem abatidas e tristes, ia passando seus belos dias da idade da inocência alquebrada pela dor e pela saudade. Mesmo depois de passado seu ano de luto, quando já o bálsamo do tempo tinha cicatrizado a ferida profunda de seu coração, ela teimava em viver uma vida de retiro e de esquecimento. Apenas uma ou outra vez podiam na manhã de algum domingo admirar a graça de sua figura ou adivinhar a beleza de seu rosto encoberto pelo véu com que se ornava, indo ao templo do Senhor; apenas, e raramente, uma ou outra vez podiam vê-la, para fugir logo, depois aparecer ao lado de sua tia em alguma das janelas do "Céu cor-de-rosa"; apenas, e ainda mais raramente, era uma ou outra vez enfim arrastada por seu avô e sua tia a essas sociedades brilhantes e embria­gadoras, que fazem o delírio das moças, e que são, a um só tempo, o altar em que se elas adoram, e o labirinto em que um se elas perdem. Era seu viver como esse viajar etéreo de formosa lua melancólica, por noite nublada e feia, que surge por curtos instantes dentre nuvens carregadas, e logo depois novamente se mergulha, deixando apenas ressumbrar seus raios através dos véus de fumo do firmamento.

Não era por índole triste assim a filha de Paulo Ângelo; tinha, ao contrário, gênio brincador e alegre; mas a prema­tura morte de seus pais lhe embutira um ponto negro, uma recordação lúgubre na vida, e mil vezes, ou quase sempre no fervor de uma festa, ou no sonhar de lisonjeiras fantasias, o ponto negro lhe surgia, a recordação lúgubre vinha abismá-la. Por isso, notava-se de ordinário em seu rosto essa me­lancolia tocante que, como já disse alguém, é, até certo pon­to, uma graça na dor.

Ela ficara pobre de bens; fora sua única herança o "Céu cor-de-rosa"; e, portanto, não podendo, como dantes, derramar benefícios e esmolas sobre aqueles tantos pobres, que seus pais chamavam — filhos, — e ela se habituara a chamar — irmãos; — achava em tal mais um motivo para ocultar-se, como já inútil; e às vezes escapava-lhe uma lágrima, pensando que poderia ser pesada.

Mas essa mesma vida de retiro e sossego, essa vida quase de mistério, redobrava o interesse que pela órfã se mostrava.

E ao mesmo tempo que ela, ao amanhecer cuidando de suas flores, durante o dia de suas músicas e trabalhos, e de noite triste e docemente refletindo, se supunha esquecida de todos, se acreditava, ao muito, objeto só de alguma terna saudade como a que se tem de um bom amigo de muito tempo perdido, os velhos protegidos de seu pai, os filhos da caridade de Paulo Ângelo, a fantasia romanesca do povo entusiasta celebravam a apoteose da interessante moça, crian­do para ela o "Céu cor-de-rosa"; dando-lhe o nome de "Bela Órfã", inventando um "Purgatório-trigueiro"; fazendo ha­bitante deste uma velha bruxa, e até enfim forjando uma pai­xão miraculosa entre a "Bela Órfã" e o astro do dia.

Ora, como é natural, a fama da beleza e das virtudes da "Bela Órfã" não se deixou ficar no bairro da Lapa do Desterro, e correndo por toda cidade, chegou também aos ouvidos dos senhores do bom-tom, que, começando por isso a fre­qüentar a rua de.. e conhecendo que no "Céu cor-de-rosa" não era a "Bela Órfã" a única beleza que havia, fizeram dessa rua o seu passeio de escolha, e desafiaram assim a curio­sidade dos sossegados habitantes dela.

Como dissemos, essa curiosidade estava já satisfeita, o mis­tério tinha sido facilmente explicado. Jacó havia apontado para o "Céu cor-de-rosa", e dito:

— A causa é aquilo.

Agora, desviando-nos um pouco da porta do "Céu", con­vém que entremos diretamente no "Purgatório".