Os Dois Amores/III

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Os Dois Amores por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo III: A tia de Celina


Celina acabava de entrar na sala para entregar-se a seus estudos de música, que ela amava sobretudo, quando sua tia veio correndo para ela, e com uma explosão de alegria infantil exclamou abraçando-a:

— Celina! eu sou feliz... imensamente feliz!.

A "Bela Órfã" deixou-se levar por Mariana até o sofá, onde se sentaram juntas a sobrinha muito admirada, e a tia rutilante de júbilo.

Mariana era uma dessas mulheres que ainda são moças aos quarenta anos. Contava ela então trinta e seis, dizia que tinha trinta, e julgá-la-iam com vinte e cinco. Era um verda­deiro tipo de beleza dos trópicos; tinha os cabelos longos e negros como o azeviche, os olhos grandes, pretos e tão brilhantes como o sol do Brasil; o rosto perfeitamente bem ta­lhado e de uma cor morena muito pronunciada. O nariz era bem feito, e suas narinas cedendo às vezes a um ardor natural, se dilatavam com força; tinha lábios eróticos, e ri­quíssimos dentes; a boca um pouco grande, mas engraçada; abaixo de seu pescoço garboso e acima de seus seios pequenos e palpitantes, nem de leve se desenhavam suas clavículas; cintura delgada, braços grossos com perfeição torneados, mãos lindíssimas e pés de brasileira completavam os encan­tos dessa mulher.

Começando ela então a engordar, nada porém havia perdido da elegância de suas formas; ao contrário estava mais elegante ainda. Alta e graciosa, cada posição que seu corpo tomava tinha um encanto particular, cada um de seus movimentos acendia um desejo perigoso; seu olhar era às vezes um desafio, uma provocação; seu sorrir quase sempre uma magia poderosa, sua voz uma harmonia que ficava no coração para se ouvir sempre, ainda mesmo ausente dela: a voluptuosidade e o ardor estavam derramados em toda essa mulher, que deveria ter sido e era ainda objeto de cultos perigosos.

Sobretudo, Mariana sabia que era bela, e se ufanava de sê-lo. Quando um homem chegava-se a ela, havia de pagar­-lhe por força o seu tributo de admiração, porque Mariana lho pedia com a provocação de seus olhos; e se o homem resistia, lho ordenava com a magia de seu sorrir, e enfim lho impunha com a harmonia de sua voz.

Viúva há três anos, julgara com sua vaidade de bela, que as vestes de luto não faziam sobressair seus encantos; e um simples lencinho preto que às vezes lhe ornava o colo, era menos um sinal de viuvez, do que um enfeite que a tornava dobradamente interessante. Aquele lencinho preto parecia estar dizendo "sou livre... podem dizer que me amam".

Mariana era finalmente a menina dos olhos de seu velho pai, e a amiga e companheira da "Bela Órfã".

— Celina, eu sou feliz!... imensamente feliz!... tinha ela já três vezes exclamado depois que se sentara no sofá ao lado de sua sobrinha.

— Mas por quê?... o que há então minha tia?

Ficou Mariana pensando alguns instantes, depois abraçou, e repetidas vezes beijou a "Bela Órfã", e disse:

— Olha... por isto; porque muitas vezes nós precisamos abrir o nosso coração a alguém que juntamente conosco chore nossos pesares, e frua nossos prazeres, é que te eu tenho dito mil vezes que nós nos devemos amar como duas amigas, ou melhor ainda, como duas irmãs que se amem muito. Para que estes nomes de tia e sobrinha?... chama-me Mariana, como eu te chamo Celina.

— Senhora...

— Sim... fiquemos nisto, continuou Mariana beijando de novo Celina; eu nunca mais te hei de responder quando me chamares como até agora — minha tia. — És muito mais mo­ça do que eu, mas também podes olhar-me, não sou nenhu­ma velha, e somos ambas bonitas.

— Pois sim; eu prometo.

— E agora o que é que queres saber?...

— Por que se julga minha tia tão feliz.

— Não respondo.

— Ah!... perdão!...

— Pois pergunta de novo, disse a viúva rindo-se.

— Por que te crês tão feliz, Mariana?...

— Escuta: para responder-te daqui a um instante, eu preciso perguntar-te uma coisa: juras falar-me de coração?...

— Sem dúvida.

— Pois bem, Celina, sabes o que é amar... amar um homem que não é nosso pai, nem nosso irmão?...

A "Bela Órfã" corou até a raiz dos cabelos, e sua perturbação aumentou-se quando viu que Mariana se estava rindo de vê-la assim.

— Oh! não te perturbes, não cores tanto. Lembra-te que estamos sós, e que somos como duas irmãs que se amam muito. Responde francamente: amas já alguém?...

— Não, Mariana.

— Falas verdade, Celina?...

— Falo verdade, respondeu a moça com os olhos no chão.

— Mas com dezesseis anos, tão bonita e tão viva que és, tu já deves ter pensado nesse sentimento de fogo, que mais cedo ou mais tarde sempre experimentamos; fazes já idéia do que seja amar um homem?...

— Não sei... talvez... tenho lido.

— E então?...

— Mas eu tinha perguntado por que te julgavas feliz, Mariana!

— É porque amo, Celina.

— Eu o supunha.

— Tu o supunhas?... e a quem acreditavas que eu amava?...

Celina hesitou.

— Fala, disse Mariana.

— O sr. Salustiano.

Mariana fez um movimento de horror.

— Oh!... nunca! exclamou.

— Como!... pois não é?

— Eu o detesto... eu o aborreço, como se aborrece um malvado.

— É possível?

— Pobre menina!... tu ainda não sabes o que é o mundo. Vês-me rir para esse homem, vês como ambos conversamos e mutuamente nos festejamos, e como com outras pessoas, pensas que o amo e sou por ele amada. Pois bem: eu detesto esse homem, e ele sabe que eu o detesto.

Uma nuvem de imensa tristeza passou pelo rosto de Mariana há pouco expandido pelo prazer. Ela ficou muda e pensativa, até que Celina arrependida do que tinha dito, tomou-lhe uma das mãos entre as suas, e falou-lhe docemente:

— Está bem, Mariana, esqueçamos esse vaidoso mancebo, de quem também não gosto, e falemos sobre aquele que te é caro.

— Oh! sim! falemos!... exclamou, como despertando de um sonho, a bela viúva, em cujo semblante radiou de novo o prazer.

— Eu o conheço?...

— Creio que não.

— Muito moço, não é assim?...

— Trinta e dois anos.

— Bonito?...

— Oh! pelo menos eu o julgo tal.

— És amada?...

— Era, disse Mariana soltando um suspiro.

— Desde quando?...

— Há seis anos.

Celina tornou-se pela segunda vez muito corada, e sem poder ocultar um movimento de desgosto, disse:

— Eras casada nesse tempo, Mariana.

— É verdade, respondeu a viúva. Escuta o que eu precisava dizer a uma amiga, , ara que ela ficasse conhecendo meu coração, e depois falasse muitas vezes comigo sobre o meu amor.

Celina fitou os olhos em Mariana, que começou logo a falar.

— A história da minha vida, Celina, se assemelha à de um número imenso de moças. Não te cansarei, pois, alongando-a. Aos quatorze anos já o meu espelho me tinha dito que era bela, e desde que o soube, sonhei, como todas nós sonhamos aos quatorze anos, sonhei como tu sonhas aos dezesseis, com um mancebo formoso e interessante, que o céu por força deveria ter formado de propósito para mim; que seria meu esposo, que me amaria com ardor indizível em meu pri­meiro dia de noivado, e que daí a cem anos, ele e eu, moços sempre, ele sempre com seus vinte anos, e eu sempre com meus quatorze anos, belos e felizes nos amaríamos com o mesmo ardor indizível do primeiro dia de noivado. Fui amada, requestada, e às vezes feliz. Recebi cem proposições de casamento. De seu lado meu pai rejeitou cinqüenta, que eram feitas por mancebos gentis, namorados, bailistas; e que, segundo dizia meu pai, sabiam tudo, tudo, menos trabalhar. Por minha parte rejeitei as outras cinqüenta que me eram dirigidas por nobres e ricos senhores de cabelos grisalhos e elegantes carruagens, que, em minha opinião, mereciam tudo, tudo, menos o meu amor. Enfim cheguei aos meus vinte e quatro anos... oh Celina! eu tive medo, quando um dia me lembrei que tinha já vinte e quatro anos e estava ainda solteira!...

Celina notando no tom sério com que Mariana pronunciou aquelas últimas palavras, não pôde deixar de sorrir-se.

— É porque tu não sabes, Celina, o que se passou então dentro de mim. Nas sociedades parecia-me ouvir dizer — coitada! — quando eu passava perto de um círculo de cava­lheiros; eu julgava-me ofendida no meu orgulho, rebaixada na convicção que eu tinha de ser bela; bela sim, e mais bela que as outras, quando eu via entrar na sala pelo braço de seus maridos minhas companheiras de colégio, algumas mais moças que eu e nenhuma tão bonita como eu mesma me supunha!... Oh Celina!... eu sentia que o sangue me estava subindo à cabeça naqueles terríveis momentos; concebia desejos de matar-me, e às vezes fugia para o toilette, e chorava como chora uma criança em desespero!...

A "Bela Órfã" começava a ouvir com interesse a relação daqueles segredos íntimos de um coração de mulher.

— Em outras ocasiões, prosseguiu Mariana, conversava-se familiarmente em uma roda de moças; passava-se da discussão sobre o último sarau a falar-se acerca de vestidos e modas, e enfim se sucedia cair a conversação a respeito de idades, era para mim um suplício acerbo obrigarem-me a dizer a minha. Eu mentia, Celina, eu dizia que tinha dezoito anos, e dentro de mim sofria horríveis torturas, vendo como aquelas que me conheciam, sorriam-se e beliscavam-se ouvindo-me mentir diante delas!

— Uma vez, continuou a viúva, era em um brilhante sa­rau; Matilde, a minha melhor amiga, passeava conversando comigo; de repente parou, e como inspirada por um demônio, disse-me: — Ah! é verdade, Mariana, é preciso cuidares de casar-te; estás te fazendo velha!... — Oh!... então eu tive vontade de matar a minha melhor amiga. Fugi daquele sarau... disse que estava doente; meu pai trouxe-me para casa cheio de cuidados; eu corri a esconder-me no meu quarto, e passei a noite inteira chorando. No outro dia (foi certamente o meu destino, Celina) meu pai mandou-me chamar à sala; estava com ele um homem que eu havia encontrado algumas vezes mas que nenhuma atenção me merecera: esse homem vinha pedir a minha mão; meu pai deu-me a liberdade de responder, e eu, sem perguntar quem ele era, qual o seu nome e o emprego que na sociedade exercia, disse-lhe que — sim! — e passado um mês eu era mulher de um ho­mem que não amava, e de quem podia ser filha.

— Mas foi uma loucura!... exclamou Celina.

— Oh! sim, foi, e caro tive eu de pagá-la. Eu tinha feito, sem o pensar, o sacrifício de minha vida; não me era porém então doloroso, porque meu coração estava livre... eu não amava. Mas parece que Deus quis castigar-me de pronto; porque Deus, Celina, não abençoa a união daqueles que se não amam. Logo na noite de nossas núpcias, meu marido me apresentou um mancebo de nome Henrique, e me con­vidou a abraçar nele o seu primeiro amigo; e nessa mesma noite, portanto, vi um homem que preferi a meu marido. E daí por diante todos os dias sempre esse mancebo belo, nobre, ardente, de olhos tão lindos, e um sorrir tão meigo, se apresentava diante de mim, ao pé de meu marido pálido, abatido, com os cabelos começando a embranquecer, sem espírito para compreender a mulher que desposara, e sem poder ser amado por ela!

— Oh! devia ser horrível!... murmurou a "Bela Órfã".

— Como chorei então a minha vida de solteira!... Sim, eu estava passando novos tormentos, tormentos dobradamen­te dolorosos. Dantes era a minha vaidade que me perse­guia, mas que eu poderia vencer, e rir-me dela se tivesse sido menos louca; então era um poder mais forte, era o meu co­ração que se tornara meu inimigo, que me pedia o que eu não podia dar-lhe, e que, a pesar meu, a despeito de meus esforços para subjugá-lo, mesmo junto de meu marido e principalmente a seu lado, ele me bradava — amo Henrique!...

— E esse segredo terrível... ia perguntando Celina.

— Este amor funesto e invencível, continuou Mariana sem atendê-la, eu o sentia ir crescendo mais e mais todos os dias; para cúmulo de minha desdita, para tornar-se mais iminente o perigo em que eu me achava, Henrique amou-me perdidamente. Oh! e nos momentos em que eu contemplava esse nobre mancebo a hesitar quando me falava; a lançar-me a furto olhares ardentes, a tremer quando me dava o braço, a suspirar involuntariamente se a meu lado se sentava, e tão forte e tão grande, e tão fiel a seu amigo, que nunca achava uma frase terna para me dizer, e que sempre tantos elogios tinha para fazer a meu marido; eu amaldiçoava os laços que me prendiam, concebia outra vez desejos de matar-me, e outra vez escondida no meu quarto, chorava como chora uma criança em desespero!...

— Oh! devia ser horrível! repetiu Celina.

— Uma vida como essa não podia ser por muito tempo carregada. Eu via Henrique ir definhando pouco a pouco, como um arbusto que vai morrendo com suas folhas já murchas, e suas flores caindo. Tive mil vezes vontade de lançar-me a seus pés, e lhe pedir que vivesse; veio-me mil vezes aos lábios a confissão do amor que lhe votava; mas, bendito seja o amor do homem virtuoso! aquele nobre silêncio do mancebo, aquele santo respeito com que ele me tratava, aquela fidelidade que ele tinha a meu marido, me sustiveram na posição de esposa honesta. Enfim, Henrique teve também medo de si, e fugiu-nos...

— Fugiu?...

— Sim, há três anos; seis meses antes da morte de meu ma­rido, Henrique partiu para França. O que se passou no dia em que ele nos deixou, não posso bem descrever; sei que eu estava só quando Henrique veio despedir-se; sei que ne­nhum de nós pronunciou uma única palavra que não pu­desse ser proferida em alta voz e diante de todos; mas sei também que apesar disso, ele levou a certeza de meu amor, deixou-me a certeza do seu; e lembro-me enfim, que nesse mesmo dia meu pai me pediu de joelhos, de joelhos, Celina, que eu tivesse piedade de meu marido, de seus cansados anos!...

— E agora?...

— Agora, Celina, tu mo perguntas?... exclamou Mariana com novo arrebatamento de prazer. Agora eu o amo como dantes, ou mais ainda; eu quero ser dele; eu o amo, ouviste, eu o amo!

— Compreendo; mas...

— Mas o quê?...

— É que o teu prazer, Mariana, se mostra hoje tão grande como a distância que te separa de Henrique.

— Oh! não! graças a Deus, Celina, ele chegou... desembarcou ontem, e hoje escreveu a meu pai, pedindo licença para visitar-nos. Vê... lê comigo a sua carta.

Mariana tirou do seio um bilhete todo perfumado, e três vezes o leu a Celina.

— Portanto, hoje mesmo devo torná-lo a ver! Ah! Celina, se eu pudesse fazer-me mil vezes mais bela!... porque eu amo... muito... muito... tanto, que seria capaz de dar a vida por ele, e capaz de matar a mulher que se atrevesse a amá-lo!

A "Bela Órfã", ingênua, inocente, sem ter jamais experimentado esses sentimentos desabridos e perigosos, que fazem falar com a veemência com que falava Mariana, olhava para esta, atônita e sem se atrever a pronunciar uma só palavra.

E também a viúva aprazia-se daquele silêncio. Quem ama e fala do seu amor, estima não ser interrompido, gosta de discorrer horas inteiras repetindo mesmo o que já disse mil vezes, e começando de novo a história que exatamente acaba de contar.

Finalmente Mariana sentiu que já tinha .o coração mais leve, ergueu-se, e abraçando ainda Celina exclamava:

— Eu sou feliz! imensamente feliz!...

Quando um escravo apareceu à porta da sala, e anunciou o sr. Henrique, Mariana deixou-se cair de novo no sofá; e foi só depois de alguns instantes que disse com voz muito trêmula e comovida:

— Que entre.

Levantou-se a custo para receber o antigo amante.

Era um homem alto e belo; seus olhos pretos lançavam olhares brandos que condiziam perfeitamente com o sorrir meigo e um pouco melancólico de seus lábios. Tudo nele era nobre e sério; tudo nele desafiava simpatia: bem feito, trajando com gosto, mas sem extremar-se em modas; era enfim um belo, homem; um cavalheiro completo.

Entrou perturbado e trêmulo, como estava Mariana.

Depois dos primeiros cumprimentos, disse com visível comoção:

— Cheguei ontem, senhora, e meu primeiro cuidado foi correr a depositar meus respeitos aos pés da viúva do meu melhor amigo.

— Obrigada, senhor, respondeu Mariana a tremer; é muito lisonjeiro para mim, que me coubesse aqui o seu primeiro cuidado. Vejo que se não esqueceu de nós...

— Oh!... nunca!... exclamou o mancebo animando-se.

— E também nós, senhor, nunca!...

Sem se poder explicar a razão, Celina sentou-se por seu turno perturbada, começou a corar muito e conheceu que não podia ficar ali mais tempo.

Aquela cena de amor como que ofendia sua inocência de virgem. Ela ergueu-se e disse a Mariana:

— Devo mandar participar a meu avô a visita do senhor?...

— Sim, murmurou a viúva.

Celina deixou a sala.

Henrique e Mariana ficaram a sós por cinco minutos. Mariana não era mais uma senhora casada.

Quando, no fim dos cinco minutos, entrou na sala o avô da "Bela Órfã", Mariana já sabia que três anos de ausência não tinham podido arrefecer a paixão ardente que lhe vo­tava Henrique.

Era um amor que recomeçava.