Os Dois Amores/XIII

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Os Dois Amores por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XIII: O Velho


Mas antes de acompanharmos os habitantes do "Céu cor-de-rosa" em sua visita ao "Purgatório-trigueiro", justo é relatar uma cena ocorrida na mesma tarde, e talvez ao mesmo tempo em que sucedia a que acabamos de referir. Era a hora da sesta.

Pouco mais ou menos como acontecera a Cândido, que viu mostrar-se além da porta do seu velho sótão uma cabeça branca e dois olhos verdes, assim também Celina, que na hora da sesta se achava sentada junto do seu piano e começava a deleitar-se no estudo de suas músicas, viu aparecer uma cabeça branca e brilhar o olhar malicioso do velho guarda-portão.

Mas é verdade que ainda não se tem idéia nem se fez conhecimento com o velho guarda-portão.

Também poucas palavras serão de sobejo para que se faça uma idéia perfeita desse personagem.

A índole humana e piedosa de Anacleto, tinha dois ou três meses antes do começo desta história, chamado para o "Céu cor-de-rosa" um homem pobre e velho; e para que menos pesasse a este o benefício que recebia, Anacleto o envolveu sob a capa de um emprego, que em sua casa lhe dava. O velho Rodrigues foi pois ali reconhecido como — guarda-portão, — e estabelecendo o seu quartel-general no alpendre do "Céu cor-de-rosa", via amanhecer e anoitecer em completa inação.

O guarda-portão da casa de Anacleto era portanto um criado sem exercício, uma praça-morta pouco mais ou menos. Passava os dias retirado em um dos ângulos do alpendre, e só às noites, em que claro luar e doce frescor de aragem sucediam a algum calmoso dia, deixava o pobre homem seu eterno posto por algumas horas, e sentando-se à porta do alpendre, cantarolava por entre os dentes algumas anti­gas baladas.

Era o velho Rodrigues um homem de cerca de sessenta anos, alto e de formas musculares; tinha os olhos pequenos, mas espertos, e o nariz aquilino. Os cabelos, que estavam já muito brancos, deviam ter sido de cor castanho escuros no tempo da mocidade, e corredios como eram, desciam então até quase encontrar-se com as sobrancelhas, que se mostravam espessas e cerradas; de ordinário apresentava-se este homem vestido de calças de brim escuro sem presilhas, e com bolsos aos lados de jaqueta do mesmo pano, e algumas vazes com um quimono de baeta preta sobre esta.

E, ou porque o velho Rodrigues fosse homem de poucas conversas, e dificilmente acessível para certa qualidade de gente, ou porque muitos notassem no seu hábito de resguar­dar-se de dia em um canto do alpendre e de só aparecer em algumas noites à porta deste, assentaram os garotos das circunvizinhanças de chamá-lo por acinte — o Coruja; — de modo que, quando em suas noites de escolha o velho se mos­trava, e começava de cantar suas antigas baladas, era às vezes interrompido pelos gritos de — Coruja! coruja! — que lhe soavam ora de um, ora de outro lado da rua, acompanhados de risotas e motejos.

Mas tão pouco se dava disso o guarda-portão, que começava e concluía sem se interromper um velho solau, passava por uma balada, depois para outra e outra, até não poder mais de cansado, enquanto os garotos riam-se desmedida­mente daquelas desusadas cantigas.

Pelo mesmo tempo, porém, em que começou esta história, sofreram também os hábitos do velho Rodrigues uma pequena modificação. Foi ela devida ao amor que dedicava à música.

Era costume do velho Anacleto e de sua filha sestear algum tempo depois do jantar; e a "Bela Órfã", então mais que nunca em liberdade, ia sentar-se ao piano e estudar suas músicas. Em uma dessas horas de estudo, a moça, sentindo ruído e olhando para a porta, viu a cabeça branca do velho Rodrigues, que a escutava.

— Que faz aí, sr. Rodrigues? perguntou ela docemente.

— Escuto, respondeu o velho.

— Pois então é melhor ouvir de perto; entre.

O velho abriu a porta e entrou.

— Sente-se.

Rodrigues sentou-se junto do piano.

— Gosta de música? perguntou a moça.

— Oh! muito! muito!

— Sim: é verdade... também eu lhe tenho ouvido cantar à porta do alpendre.

— Que cantar! que canto eu?... cantigas tão velhas como eu, ou de- certo mais velhas ainda; que as aprendi no colo de minha mãe quando ela me fazia adormecer ouvindo-as.

— E que, portanto, devem ser bem caras ao seu coração.

— Decerto; mas só ao meu coração.

— Também não é assim, sr. Rodrigues, porque, pelo menos eu, tenho muitas vezes ficado esquecidamente à janela, ouvindo suas cantigas melancólicas e ternas.

— Está zombando de mim, senhora?

— Oh não! não! e tanto que lhe proponho o ensinar-me algum de seus velhos romances.

— Hoje ninguém mais gosta disso.

— Gosto eu, e lhe peço que nos ensine.

Depois de um teimoso recusar da parte do velho Rodrigues, conseguiu enfim a "Bela Órfã" o que pedia. E desde então, em todas as horas de sesta, o guarda-portão lhe ia cantar um solau ou uma balada, e em troco Celina fazia ouvir suas mais belas peças.

E havia beleza nesse cantar do velho.

Rodrigues, com seu trêmulo barítono, com sua coroa de neve na cabeça, e sua melancolia do declinar da vida, parecia ainda mais próprio para a execução daqueles cantos do passado.

E havia também, apesar de tudo, muito interesse nesses mesmos cantos do passado.

A balada, o solau, o romance nacional é o canto do coração e da natureza. Não é seu único mérito o ter sido com eles que outrora nossas mães nos embalavam no berço e nos adormeciam no colo. É principalmente porque há neles a música, a cor e o falar da pátria; é porque eles cantam o caro que se passou na terra que nos viu nascer; porque enfim a balada, o solau, o romance nacional é como nós filho de uma só terra, é nosso irmão.

Celina tinha de tal modo tomado gosto por esse gênero de música, que a presença do guarda-portão em seus estudos da tarde já era para ela uma necessidade. Por isso, foi com vivo movimento de prazer que ela viu mostrar-se à porta da sala a cabeça branca e o olhar malicioso do velho Rodrigues.

— Ah! exclamou; entre, entre, meu bom mestre de baladas; então, que teremos hoje?...

— Quase que já esgotei tudo quanto sabia, respondeu o velho.

— Pois então repitamos tudo quanto já ouvimos.

— Esses pobres cantos ouvidos mais de uma vez perdem talvez todo interesse que podiam ter merecido.

— Não; não. Vamos, sr. Rodrigues. Escolhamos um dos que já foram mesmo mais cantados. Por exemplo — Lindóia.

— Esse não...

— A Tamoia feita escrava?...

— Também não...

— O Sino do Colégio?...

— Cantei-o já três vezes.

— Escolha então o senhor um outro.

— Pois bem, senhora, cantarei — o Sonho da Virgem.

— Oh! esse ainda não o ouvi eu.

— É um romance moderno, feito ao molde dos antigos.

— Pois bem; vamos a ele.

O velho começou com voz pausada e melancólica a cantar assim:

Era um dia um mancebo que ardente
Pobre vida esquecido vivia,
E uma virgem formosa inocente,
Que outra igual não se viu, não se via.
Quem separa o ardor da beleza?...
Um abismo fatal: — a pobreza.

O mancebo a donzela adorava?...
Quem o sabe?... ninguém dele ouviu.
Em seu peito esse amor sepultava,
Se o amor em seu peito nutriu,
E se amava, era triste esse amar;
Era um mudo e terrível penar.

E se amava, quem disso curou?
Quem ouvira do pobre o gemido?...
Se o seu peito um ai só desatou,
Foi um ai no deserto perdido.
E podia alta e nobre donzela
Ver um pobre chorando por ela?...

O que é feito da virgem, do pobre?...
Quando o dia voltar to direi.
Negro manto da noite nos cobre.
Ela dorme... mas ele... não sei.
É na terra das trevas o véu;
Vagam sonhos... misteriosos do céu.

Eis a virgem... num vale formoso,
De tapete de relva coberto,
Assentada em outeiro mimoso
Vendo um lago, que mora ali perto:
Cobre-a teto de mil trepadeiras,
Há dois montes, que c’roam palmeiras.

Vêm dos montes meninos amores,
Em seus braços cestinhas trazendo;
Tiram delas e espargem mil flores
Sobre a virgem, que os olha tremendo;
E os amores seus jogos seguindo
Vão brincando, dançando, e se rindo.

Soa um canto dormente, mavioso,
Que entoado no céu parecia,
Já das flores ao bafo oloroso,
E perfumes o ar rescendia:
E a donzela, que tanto sentiu,
Entre eflúvios e cantos dormiu.

E um menino com seta afiada
Rasga o peito da virgem então,
E com hábil mãozinha apressada
Rouba o puro, feliz coração.
E a ferida nem sangue jorrou,
Nem doeu, antes logo sarou.

Despertou a donzela assombrada
Com os clamores do bando loução.
E a chorar desatou desolada
Vendo o roubo do seu coração.
E o cruel, o fatal roubador
Foi na terra plantá-lo, qual flor.

A donzela chorava... chorava...
E os meninos as mãos ajuntaram.
E correndo pra onde ela estava,
Nas mãozinhas seu pranto apararam;
E vão todos com gesto apressado
A regar, o que estava plantado.

E nasceu um arbusto mimoso...
E do céu um anjinho baixou,
Que fiel, vigilante, piedoso
Pela virgem constante velou.
E esse anjinho amoroso, que vela,
Tem o rosto da mãe da donzela...

Já o pranto da virgem secou,
E o arbusto nascido cresceu;
De folhinhas mimosas se ornou;
O seu caule de espinhos se encheu.
Coração de uma jovem formosa
Brotou linda roseira viçosa.

Os meninos fugiram pra o monte,
Três botões a roseira brotou,
Dois aos lados um doutro defronte,
E o terceiro superno ficou.
Estava ali no envoltório da flor
Um segredo, um mistério de amor.

Veio então pelo lago descendo
Um batel, que em riquezas primava,
Tudo quanto ia nele se vendo
De tão rico e brilhante ofuscava;
Té que em terra seu dono saltou;
E a donzela, que o viu... trepidou.

Era rico; mas torvo no olhar,
E feroz, no sorrir causa susto;
Veio vindo... e enfim té parar
Mesmo junto do flórido arbusto;
E a donzela pra o seu anjo olhando,
Soluçou; porque o viu soluçando.

O seu braço monstruoso estendeu
Pra roseira o opulento senhor;
Dos botões o da esquerda colheu...
Soa um grito de susto, e de dor;
E o tirano sem nada escutar
O colhido botão vai beijar.

Porém pára espantado... sentido...
Frio... pálido espectro ficando,
Que o botão encantado, colhido
Vai-se todo mirrando... mirrando...
Esvaiu-se... mais forma não tem,

E o batel e seu dono também.
Veio então pelo lago chegando
Belo carro de prata formado,
E rinchando, bufando, nadando
Os ginetes, que o trazem puxado,
Té que em terra seu dono saltou,

E a donzela, que o viu... trepidou.
Era rico; mas velho e cansado
Todo em rugas o rosto mostrou;
Veio vindo a um bastão arrimado,
Té que junto do arbusto parou.
E a donzela pra o seu anjo olhando,

Soluçou, porque o viu soluçando.
O seu trêmulo braço estendeu
Pra roseira o tão velho senhor,
O botão da direita colheu...
Soa um grito de susto e de dor,
E o tirano sem nada escutar

O colhido botão vai beijar.
Porém pára espantado... sentido...
Frio... pálido espectro ficando;
Que o botão encantado, colhido
Vai-se em linda avezinha tornando...
Bate as asas... pra o céu já fugiu;

Velho, e carro... quem foi que os sumiu?...
Veio enfim pelo lago descendo,
Não um carro, nem rico batel.
Nem riquezas, nem luxo trazendo
Vasos d’ouro repletos de fel;
Mas somente uma cesta de flores,

Que teceram benignos amores.
Já o ar outra vez rescendia,
E outra vez doce canto se ouviu;
Entre eflúvios e a terna harmonia.
A donzela porém não dormiu.
Belo jovem em terra saltou;

Por que a virgem não mais trepidou?...
Era lindo o donzel... tão formoso...
Seu sorrir tem feitiços de amor;
Veio vindo... e parou cobiçoso
Como em êxtase olhando pra flor:
E a donzela pra o seu anjo olhando,
Suspirou, porque o viu suspirando.

O seu braço gracioso estendeu
Pra roseira o dileto de amor,
O terceiro botão já colheu...
Não se ouviu mais o grito de dor.
E o mancebo com fogo, e paixão
Vai beijar o colhido botão.

Porém pára... enlevado... perdido...
O presente de amor contemplando,
Que com tanta ventura colhido
Pouco a pouco se vai desfechando,
E oferece, em lugar de botão,
Da donzela o feliz coração...

Bate as asas o anjo contente,
E primeiro baixando o adejo,
Da donzela tão pura, inocente,
Vai nos lábios deixar santo beijo.
E saudoso alça então vôo seu
Para sua morada... no céu.

E o mancebo feliz... belo... ardente
Corre à virgem com vivo fervor,
E sem ver, que ela é toda inocente,
Quer também dar-lhe um beijo de amor,
Mas a virgem tremeu... não ousou...
E um grito soltando... acordou.



O que é sonho?... é verdade ou quimera!...
O que é sonho?... é a alma que vela,
Que vagando por mais alta esfera
Do porvir os arcanos revela?...
O que é sonho?... futuro sem véu?...
O que é sonho?... — mistério do céu.

Mas que é feito da virgem, do pobre?...
Já o dia voltou — Vou dizer:
Seu amor denso véu inda cobre;
Que ele ama não posso esconder;
Porém teme... receia... não diz;
Porque é pobre, por isso infeliz.

E a donzela formosa, inocente,
Inda livre, inda isenta de amor,
A ninguém ganhar dela consente
De seu sonho um botão,., uma flor;
Pois no rubro virgíneo botão,
Julga ver seu feliz coração.

E o mancebo, que tinha tentado
A paixão, que nascia, abafar,
Hoje a ela de todo curvado
Está com os olhos no céu a clamar:
"Quem não fora nascido; — ou então
"Quem colhera o terceiro botão!..."

Longo tinha sido o cantar do velho, e durante todo ele mil e diversas sensações havia experimentado a "Bela Órfã".

Um segredo de seus mais belos dias, o primeiro romance de sua alma de moça estava revelado.

Quem o revelara?

E sobretudo havia ali naqueles versos a expressão e a confissão de um amor profundo mas temeroso... era o poeta que amava a bela.

O primeiro pensamento de Celina foi perguntar ao velho Rodrigues o nome do autor daquele romance; corando porém diante de sua consciência de virgem hesitou...

O velho estava em pé diante dela com seus olhos pequenos, porém penetrantes, fitos em seu rosto, e obrigando-a a abaixar a cabeça.

Enfim, Rodrigues rompeu o silêncio.

— Está triste, senhora?...

— Não! respondeu ela.

— Mas também ninguém a julgará alegre.

— Também não estou alegre.

— Ah!... está pensativa.

Celina olhou para o velho guarda-portão, e o achou sorrindo maliciosamente.

— De que se está rindo assim? perguntou.

— É porque estou adivinhando o pensamento que a ocupa.

— E qual é?...

— Deseja saber a história do meu romance, o nome da virgem inocente e do mancebo pobre, não é assim?

— É verdade, respondeu Celina hesitando.

— Pois eu vou satisfazê-la.

A "Bela Órfã" corou,

— Não sei o nome da virgem, disse o velho.

— E o do mancebo?... perguntou Celina respirando.

— Esse eu o sei. É um jovem modesto e cheio de mérito, porém pobre; ele ama apaixonadamente, ama como nenhum outro poderá amar mais do que ele; mas o seu amor mor­reria no silêncio de seu quarto se uma generosa e traidora mão não roubasse nesse romance a confissão dele tão extremosa e tão pura...

— Mas quem é ele?...

A bela queria conhecer o seu poeta.

O velho Rodrigues estendeu a mão para o lado do "Purgatório-trigueiro", e apontando com seu longo e trêmulo dedo, disse:

— É o sr. Cândido.

E como se tivera concluído uma comissão importante, de que se encarregara, saiu da sala com passos vagarosos.

A "Bela Órfã" ficou pensando muito tempo no mesmo lugar, e quando se levantou disse como falando consigo mesma:

Deveria ter adivinhado... anteontem à noite, quando eu meditava, ele também meditou... e cantou depois, sem dú­vida, este mesmo romance; porque eu me lembro de ter ou­vido distintamente dizer a sua voz:

— Quem colhera o terceiro botão!...