Os Dois Amores/XIV

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Os Dois Amores por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XIV: O moço e a moça


Aproxima-se a hora encantada do crepúsculo vespertino.

À calma abrasadora de um dos primeiros dias de dezembro, sucedera uma dessas tardes frescas e belas, que fazem as delícias dos países tropicais.

Uma multidão imensa pejava as alamedas, os dois peque­nos largos, e o terraço do Passeio Público da boa cidade do Rio de Janeiro. Era como uma tarde de festa.

Entre os novos concorrentes que a todo o instante formi­gavam, quatro vieram enfim que atraíram a atenção de mui­ta gente. Eram um homem e uma mulher velha; e um ho­mem e uma mulher moça.

Vinham os dois últimos adiante, e seguidos pelos velhos. Tão facilmente se lia a serenidade no semblante destes, como a perturbação no dos primeiros.

Estava a moça muito corada, e quase ansiosa; e o moço pelo contrário, muito pálido, e como que abatido. Traziam ambos os olhos no chão, e não se diziam palavra. Eram porém ambos bonitos; a moça principalmente era muito bela.

Vinha ela de vestido de escomilha cor-de-rosa e em corpinho, com os cabelos à napolitana; não trazia nem brincos, nem adereço, nem pulseiras, mas sim lindíssimos braços nus, pois que o vestido era de mangas curtas, e ao mesmo tempo tão comprido, que apenas às vezes se descobria a ponta envernizada de suas pequeninas botinas. Uma fita azul, larga de dois dedos, e enlaçada na cintura, era ao demais o seu único ornato.

O moço vestia sobrecasaca e calças de merinó preto, gravata de mesma cor, e colete de fustão branco lavrado. Tinha fechando-lhe o peito da camisa, um simples botão de ouro pequenino e liso; trazia os cabelos muito curtos, chapéu de castor preto, e botins de couro de bezerro.

A velha estava vestida toda de preto, e tinha na cabeça um chapelinho da mesma cor, mas de palha, com enfeites de fi­tas roxas.

O ancião enfim, vinha de sobrecasaca de pano cor de rapé, gravata preta, colete e calças brancas, trazia uma grossa corrente de ouro, muito fora da moda, prendendo o relógio, e pendendo de uma fita negra, sua grande luneta de aros de prata. Tinha na cabeça um chapéu de patente, e calçava sapatos ingleses.

Seguiram estas quatro personagens a rua, que em linha reta vai do portão do Passeio terminar-se no largo principal, e defronte do outeiro artificial chamado comumente — Cas­cata. — De caminho foi o velho cumprimentado como amigo por alguns. Trazia a moça muito no chão os olhos para o ser também. Ninguém todavia deu sinal de conhecer a velha nem o moço.

Os dois velhos conversando um com o outro sem cessar, nada ouviram do que se poderia estar dizendo em derredor deles. Outro tanto não acontecia aos mancebos que, em silêncio caminhando, tinham por conseqüência mais apurada a atenção.

Já por vezes lhes tinha chegado aos ouvidos ora um elogio à beleza da jovem, ora as meias palavras e o ruído das risadinhas de duas moças ao apuridar-se; quando ao passarem por junto de dois mancebos, disse um deles:

— Olha... aí vão dois irmãos ou dois noivos.

— Nem uma nem outra coisa, respondeu-lhe o compa­nheiro.

— Por quê?

— Porque se fossem irmãos conversariam, e se fossem noivos se estariam dizendo finezas.

— Então são namorados.

— É o mais provável.

A perturbação do moço e da moça foi tão visível então, que não pôde escapar aos olhos de seus observadores.

Depois de alguns passos mais, a moça disse ao seu companheiro com voz quase sumida:

— Conversemos... senhor...

Mas foram indo sempre calados como até então.

Desde porém que aquelas palavras chegaram aos ouvidos da moça, qualquer fraco ruído, o sussurrar de uma conversa a pouca distância travada, tudo, em uma palavra, a assustava; tudo lhe parecia estar repetindo aquele insulto feito à sua inocência:

— São namorados.

Chegaram enfim aquelas quatro personagens ao largo principal, e ladeando-o pela direita, entraram no caramanchel desse lado, e sentaram-se nos bancos de pedra.

Ficaram então todos quatro descansando em silêncio debaixo daquele belo teto de jasmins da Índia, e como se a melancolia dos dois moços se houvesse propagado aos velhos, estiveram estes tristes e suspirando, até que o ancião quebrou inopinado o silêncio, dizendo:

— Então... que quer dizer isto?... vimos passear e divertir-nos, e estamos tristemente olhando uns para os ou­tros?...

— Parece, respondeu a velha, que estes meninos nos pegaram sua tristeza.

— Não, tornou aquele; não mintamos a nós mesmos: queres saber, Celina, por que nossa velha amiga se tornou de súbito melancólica?... quer saber, sr. Cândido, por que me sucedeu o mesmo?...

Os dois mancebos levantaram pela primeira vez os olhos, e os fitaram em Anacleto, como dizendo cada um deles: — quero.

— É que nos estamos lembrando do passado! disse Ana­cleto.

Irias murmurou tristemente:

— É verdade! é isso mesmo.

— É que vemos ir-se tudo mudando em torno de nós. É que sentimos irem morrendo uma a uma todas as testemunhas de nossos gozos dos belos anos... e aqui mesmo, a não serem essas árvores copadas que resistem ao tempo, e essas duas pirâmides, que não sei por que milagre não se lembraram ainda de lançar por terra, nada, nada mais haveria do que era nosso! tudo teria morrido... tudo estaria mudado, pois que até se matam os nomes...!

— É verdade! tornou a velha.

— Vós, mancebos, não sabeis nada disto! houve no entanto um tempo, uma época como outra não haverá nunca mais para esta cidade. Eu era tão moço como vós, e vi e gozei tudo isso; havia paz e ventura para todos, e cada noite era uma noite de festa. Os moços saíam tocando e cantando pelas ruas suas músicas suaves; as famílias reuniam-se em uma só família para gozar prazeres inocentes; dormia-se com as portas abertas, e nunca um malfeitor entrava por elas... Tudo porém acabou, e este mesmo lugar, onde tão belas horas se passavam, já talvez nem delas lembrar-se pode, porque enfim tudo está mudado... vossa civilização matou tudo isso!

Ninguém respondeu.

— Vistes, continuou Anacleto depois de curto silêncio, vistes aquela rua que vem direito ao portão deste passeio?... vós hoje chamais — das Marrecas — e nós chamávamos então — das Belas-noites: — compreendeis o que significava este nome?... era a demonstração viva do prazer, da felicidade que fruía a multidão imensa de ambos os sexos, que passava por essa rua para entregar-se a gozos puros aqui. Sobre estas grandes mesas, junto de uma das quais estamos, ceavam famílias a quem os laços de amizade ligavam, e nas quais havia às vezes um mancebo e uma moça que não tarde se ligariam por outros laços mais doces ainda. Oh! quantas vezes de­baixo deste caramanchel, ou em um passeio, ali por aquelas ruas sombrias e solitárias, não teve origem um terno sentimento, que foi logo depois fazer a felicidade de duas cria­turas!...

Uma leve onda de rubor passou ligeira por sobre as faces de Celina, ao mesmo tempo que Cândido se fez mais pálido ainda.

Irias, até então distraída, começava a observá-los, fitando ora na moça, ora no mancebo seus olhos verdes.

Anacleto prosseguiu:

— Que é feito daqueles nossos dois pavilhões quadrangulares com sua estátua de Apolo coroando o do lado direito, e com a de Mercúrio o do esquerdo?... vossos dois torreões octogonais poderão fazê-los esquecer?... desconfio muito que não; pelo menos eu me hei de lembrar sempre do pavilhão da direita com seu teto de arabescos, palmas e flores sobre fundo branco, todos formados de diversas cores; com suas sobreportas de baixos-relevos de pássaros de nossa terra, feitos à custa de suas próprias penas. Pelo menos eu me hei de lembrar sempre do pavilhão da esquerda com seu teto de arabescos, palmas e flores sobre fundo azul, todos formados, não já de penas, como o outro, mas de lindas conchinhas, com suas sobreportas ornadas de relevos de peixes de nossos mares, feitos à custa de suas próprias peles; tudo isso era belo, era bem acabado, era obra de gênio; mas tudo isto está morto e morto ficará, porque vós não tendes para ressuscitar tantas belezas o homem que nós tínhamos, o nosso —Xavier dos pássaros. — Sim! sim!... tudo está mudado. Mudou mesmo a índole, mudaram os hábitos, e é outro hoje e espírito da população.

— É verdade! disse ainda a velha Irias; mas tendo sempre os olhos fitos ora em Cândido, ora em Celina.

— E nós, que isso sentíamos, que por tudo isso passamos, sofremos agora ao visitar estes lugares, onde tanto gozamos, uma melancolia profunda, uma saudade imensa do nosso passado e ao mesmo tempo uma dor aguda e terrível, quando pensamos que os prazeres, as belas festas, os jardins, e os edifícios têm todos mudado de face, todos caídos, todos enfim morrido, que daquela época nós e poucos mais restamos, e que quando também morrermos só teremos do nosso tempo algumas folhas de árvores seculares, para cair sobre a tumba que nos cobrir.

Ficaram de novo todos quatro em silêncio por algum tempo, e ainda tristemente, até que Anacleto de novo falou.

— Mas vós também estais tristes, e todavia vossa tristeza em nada se pode parecer com a nossa! o que vos acanha, meus filhos?... não podeis chorar o que nós choramos, porque não bebestes na taça de nossos gozos: chorais sobre o presente porventura?... porém, meus filhos, não sentis que o futuro se está sorrindo sempre para a mocidade?...

— Às vezes não, disse o mancebo falando pela primeira vez.

— Ás vezes não?! tornou Anacleto. Sim; ele tem razão: às vezes parece que o homem traz de dentro do ventre materno a sina de sofrer sempre, de sempre chorar, e não rir nunca nem uma só vez na vida! Mas será crivel que o senhor pertença ao número desses homens desgraçados?...

— Pertenço, sr. Anacleto, respondeu Cândido, pertenço a número daqueles que sofrem... e calam.

Anacleto olhou com interesse para o mancebo, e não julgando a propósito encetar uma conversação sobre tal assunto naquele lugar, disse pouco depois:

— Meus filhos, passeai... se amais a multidão, lá está terraço cheio de povo; se preferis o silêncio, tendes as alamedas sombrias... ide...

— E vós, meu avô?... perguntou Celina.

— Eu fico. Tenho muito de que falar à sra. Irias. Somos dois velhos que estamos voltados para o passado; ide vós, pois, que tendes o rosto para o porvir.

— Oh! não, tornou a moça; nós queremos ficar e ouvir-vos... preferimos isso...

Anacleto pegou levemente na mão de Celina, fez com que a moça se erguesse, e entregando-a a Cândido, disse:

— Não, eu quero ficar só com a sra. Irias; e o sr. Cândido, Celina, é um cavalheiro honrado e nobre, que pode pas­sear a sós contigo. Ide!

Celina tocou com a ponta de seus dedinhos o braço que lhe oferecia Cândido, e saíram ambos do caramanchel; ela, como no princípio, muito corada, e ele muito pálido.

Foram os dois mancebos para o caminho do terraço; a multidão pareceu talvez a ambos uma defesa contra sua própria perturbação. Quando eles subiam a escada do extremo direito do terraço, Irias ainda tinha sobre ambos fitos os olhos, e os acompanhava com um sorrir eloqüente; mas ao vê-los chegar ao último degrau, Anacleto estendendo o braço, e apontando para Cândido, disse a Irias:

— Estamos em completa liberdade; e eu posso desvanecer-me de merecer a sua confiança. Diga-me, senhora, quem é aquele mancebo que leva pelo braço minha pupila e neta?...

— O que quer saber, senhor? pergunta-me pela história de sua vida, ou por suas qualidades?...

— Penso ter bem apreciado as últimas; mas ignoro tudo da primeira.

— Também o que eu sei não poderá satisfazer-lhe.

— Diga-me sempre.

Começou Irias a falar, em voz porém tão baixa, que não a pudemos ouvir.

No entanto, Cândido e Celina tinham-se entranhado no coração da multidão. Nas portas dos torreões, sobre os bancos de mármore e azulejos que entremeiam a bela cortina que guarnece em quadro o terraço, sobre o parapeito de grossas grades de ferro, que olham para o mar, subindo enfim pelas quatro escadas, havia sempre multidão. Celina pensava que melhor se esconderia no meio dela; Cândido era escravo da inércia, iria para onde o quisessem levar, e sobretudo respeitava o desejo de uma senhora.

Mas Celina se iludira. Um homem sim, uma mulher não, nunca se esconde na grande concorrência, porque, onde exis­te uma mulher, principalmente moça e bela, todos os olhos se fitam sobre ela.

Que importa que a mulher traga os olhos baixos? os observadores perguntam e indagam por que ela os não traz levantados; porém se os trouxer bem erguidos, os observadores hão de indagar ainda por que os não traz ela no chão.

Mas quase ao tocar a extremidade esquerda do terraço, quando o par incompreensível tinha atravessado todo aquele extenso quadro sem dar fé das belas jovens, e elegantes mancebos que por ali vagavam, Celina, no momento em que se voltava para repetir o mesmo passeio, viu em um volver de olhos os mesmos dois mancebos, que já uma vez tinha encontrado, e a haviam feito corar, e que ora a observavam de uma das janelas do torreão esquerdo.

Um dos observadores tinha o braço levantado, e mostrava-a com o dedo. Ambos se estavam rindo como de inteli­gência.

A brisa da tarde trouxe aos ouvidos de Celina as mesmas palavras da outra vez:

— São namorados.

A perturbação da moça redobrou; ela compreendeu que havia alguma coisa de singular neles dois. Lembrou-se desse silêncio obstinado que ambos guardavam, dessa melancolia que os fazia notáveis, e temendo já a multidão, ao chegar à primeira escada do centro que desce ao lado da cascata, ela deixou o braço de Cândido e disse:

— Desçamos, senhor... vamos passear... conversemos... por quem é... conversemos.

Cândido levantou os olhos e viu o rosto de Celina ainda mais embelecido pelo rubor do pejo... uma leve excitação nervosa lhe fazia palpitar com força o coração, e lhe inundava o seio de voluptuosidade. Cândido respondeu tre­mendo:

— Conversemos; e ficou ainda calado.

— Oh! vamos passear pelas alamedas... leve-me para as menos freqüentadas... eu aborreço a multidão... mas con­versemos!

— Vamos para as alamedas... murmurou Cândido.

Os dois mancebos que observavam desde o princípio Cândido e Celina, perderam-nos de vista ao voltar de uma alameda.

Cândido e Celina passeavam a sós.

Temendo a multidão como a um inimigo, procuravam as ruas solitárias; aí reinava o silêncio; as árvores cruzando seus ramos deixavam apenas passar raios de uma luz duvidosa... sopravam brandos favônios, que vinham travessos entender com as folhas, beijar as flores, e espalhar os perfumes, que das últimas roubavam...

Celina já se havia esquecido dos dois mancebos... e pensava sobre o romance que nessa tarde lhe havia cantado o velho Rodrigues...

Cândido lembrava-se do que ainda há pouco tinha ouvido da velha Irias.

Não conversavam... não se diziam palavra... fechava a boca de ambos esse pudor angélico do primeiro amor; mas o primeiro amor diz tudo no seu eloqüente silêncio, diz mil vezes mais do que em seus longos discursos dizem esses amores velhos, gastos, que já não têm originalidade nem pureza, e que falam muito porque sentem pouco.

O primeiro amor respira virtude e castidade: é a exalação do sentimento puro e santo que Deus soprou em nossa alma... exalado esse, os outros são feios arremedos, que nun­ca se podem parecer com ele.

O primeiro amor não fala... quase que não olha: suspira e treme; mas nessa linguagem muda diz muito... diz tudo.

Cândido e Celina não falaram, mal se olharam; suspiraram porém, tremeram.

Ao crepúsculo recolheram-se ambos ao caramanchel, onde Anacleto e Irias conversavam ainda.

Em todo passeio Celina só observou um fenômeno: quando sua mão tocava menos de leve o braço de Cândido, o mancebo estremecia involuntariamente. Cândido pôde apenas notar, que se alguma vez seus olhos encontravam os de Celina, a moça corava muito, e mostrava-se enleada.

E no fundo do coração ambos se haviam perguntado, o mancebo, por que era que aquela moça corava?... a moça, por que era que aquele mancebo tremia?...

Eles se amavam.

As quatro personagens de que temos falado, deixaram enfim o Passeio Público.

Quando de volta se achavam exatamente defronte do "Purgatório-trigueiro", um carro puxado por dois cavalos brancos se despedia do portão do "Céu cor-de-rosa", e passou perto deles.

— O carro do sr. Salustiano, disse a velha Irias.

A noite escondeu um movimento de despeito, e um olhar de cólera que escaparam ao velho Anacleto.

Entraram todos quatro no "Céu cor-de-rosa".