Os Dois Amores/XIX

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Os Dois Amores por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XIX: Um pai que chora


Fazia um calor abrasante; apesar dele, porém, as moças e moços continuavam a dançar.

Cândido deixou a sala, e dirigiu-se ao jardim. Queria ver aquele lugar feliz, onde pela primeira vez vira Celina; era o teatro de seu primeiro e único amor, devia ser-lhe grato.

Entrou como possuído de um santo respeito, devorou com os olhos todas aquelas inocentes flores, todos os dias regadas ao amanhecer por um ente tão belo e tão puro como elas mesmas; dirigiu-se depois ao caramanchão; mas força lhe foi parar diante dele.

Um velho com a cabeça coberta de cabelos brancos, ali estava sentado com o rosto caído entre as mãos, e chorando como um menino.

Era Anacleto.

Portanto, naquela festa estava a história do mundo. Estava o prazer de mistura com a dor, o riso de envolta com o pranto, e a felicidade com o infortúnio.

Na sala uma música alegre, viva e estrepitosa animava os moços; e no jardim um mísero velho desabridamente solu­çava.

Cândido em pé, diante de Anacleto, não podia compreender uma tristeza tão grande em uma noite de festa, nem adivinhava o que lhe cumpria fazer naquele caso

Anacleto, ocupado só com a sua dor, não tinha sentido aproximar-se o mancebo, e chorava, e soluçava sempre.

O que queriam dizer aquelas lágrimas do velho, que ainda há pouco se mostrara na sala tão feliz?... tão contente?... que contradição de sentimentos era essa?...

Era o segredo de um coração de pai.

Há na vida do homem um grande amor, cuja benéfica influência se experimenta ainda nos mais apertados lances. Um amor imenso, que, por assim dizer, enche toda a alma que o dá; amor único, sem interesse, porque às vezes é mes­mo a um ingrato, que arranca lágrimas, a quem se ama: é o amor que um pai e uma mãe dão a seus filhos.

Porém nesse terníssimo afeto, pode-se talvez fazer uma distinção: um pai ama muito com o coração, mas ama também com a cabeça; uma mãe ama quase sempre só com o coração.

A grande missão da mulher é a maternidade; e, desde que é mãe, a mulher tem Deus no céu, e seu filho no mundo.

Uma mãe, em regra geral, sabe amar muito, e só cura de seu amor; vive de beijar, de contemplar seu filho; ela quase que o acredita um ente especial, que todos devem bem-querer, e ao qual nunca poderá tocar a mão pesada do infortúnio. Extremosa, complacente, fecha os olhos aos erros de seu filho, não ouve aqueles que notam em suas faltas; e se seu filho é um desgraçado, ela é desgraçada com ele. E se seu filho é um criminoso, ela o adora no seio do crime, despreza o juízo do mundo; e que lhe importa o mundo!... Deus está no céu, e é grande para perdoá-lo; e na terra está ela, que é grande para amá-lo sempre.

Um pai não é tanto assim; olha também para o mundo em que vive; respeita seus prejuízos e quer preparar seu filho para esse mundo, no qual tem de passar a vida. A opinião dos homens significa muito para ele, e portanto dobra-se a ela. Quando seu filho começa a representar um papel na sociedade, o pai segue-o constantemente com os olhos, anima-o com suas exortações, corrige-o com suas admoestações, dirige-o com seus conselhos, e enfim coroa-se também com os seus triunfos, e humilha-se com suas derrotas, O desvario de seu filho o enlouquece; a mancha, que vem nodoá-lo, cai-lhe no coração; é com ele solidário na glória e na vergonha.

Por seu filho tem um pai os olhos no mundo, e uma mãe os olhos no céu.

E coisa notável!... a natureza inspira sentimentos que quase chegam a parecer-se com a ingratidão.

Um filho que deve tanto a seus pais; que antes de nascer causou já tantas dores, tantos tormentos a sua mãe, que depois de nascer bebe o leite de seus peitos; um filho, por cuja causa perderam seus pais tão longas noites, choraram lágrimas tão amargosas; um filho, ao pé do qual velam sempre por ele dois anjos, como duas Vestais pelo fogo sagrado; que tem sido o objeto de tão grande amor, de tão extremosos cuidados; um filho tem na sua vida uma hora que lhe é marcada pela natureza; que é hora da natureza sim, mas que é hora também de ingratidão.

Se esse filho é um homem, encontra cedo ou tarde uma mulher; e se é mulher, aparece-lhe um homem, pelo qual são deixados pai e mãe!... basta às vezes o olhar de um man­cebo elegante, para plantar-lhe no coração um sentimento que vai depois na balança pesar mais que todos esses amores, que todos esses cuidados de vinte anos e de mais anos ainda!...

A roda vai sempre girando. Os que foram filhos chegam um dia a ser pais, e enfim, vem também o tempo em que eles sentem por sua vez o que fizeram outrora experimentar a seus pais.

Não sejam os homens acusados por isso... pois que todos seriam réus e ninguém poderia ser juiz. Os homens não têm culpa; a natureza é que é a ingrata; mas o fato é esse.

Solteiro, porém, ou casado, o filho continua sempre a ser o pensamento da alma de seus pais. É a luz que lhes brilha na vida. Quem foi que pôde já consolar aqueles que perderam um filho?... o tempo?... o tempo dá somente resignação; muda o nome, crisma a dor; em vez de aflição, chama-a saudade, mas os pais não esquecem o filho que lhes morreu senão quando morrem.

Porém, nada pode ser eterno: tudo tem um fim. E esse amor deve acabar um dia... acaba na sepultura.

É esta a mais ligeira idéia que se pode dar, muito de passagem, do amor paternal.

Se nem todos amam com a mesma força a seus filhos, amam-nos sempre e a natureza do afeto é a mesma.

Anacleto amava a Mariana como os pais que são mais extremosos e ternos.

Apenas saindo do berço, Mariana perdera sua mãe, e então seu extremoso pai, vendo-a tão pequenina já órfã, tão debilzinha e já sem um de seus gênios protetores, viu tam­bém nisso uma razão para amá-la em dobro.

Obrigado por sua viuvez a rodear sua filha daqueles ternos e miúdos cuidados, de que especialmente se ocupam as mães, perdendo noites por ela, às vezes embalando-a para fazê-la dormir, Anacleto tinha por sua filha reunido em si dois amores a um só tempo: o amor de pai e de mãe.

Desse modo Anacleto pôde estudar a fundo o caráter de sua filha; pôde ler na leve contração de um músculo de seu rosto o íntimo sentimento de sua alma, e distinguir a verdade e a mentira nos feiticeiros sorrisos de Mariana.

Mas o amor não dá somente prazeres, faz sofrer também pesares acerbíssimos. Não será até possível decidir se estes são devidamente compensados por aqueles. Há muitos amores que sorriem; mas não há um só que não chore.

A beleza de Mariana encheu de orgulho o coração de seu pai nos primeiros anos, pouco depois porém essa mesma beleza começou-lhe a ser origem de sérios cuidados; quando ele chegou a notar que sua filha, vaidosa de seus encantos, embriagada com o incenso de mil lisonjas, procurava ganhar escravos em todas as sociedades onde aparecia, não desanimava nem preferia nenhum de seus numerosos admiradores, e, em uma palavra, amava perdidamente o galanteio... o galanteio, que é quase sempre um obstáculo para a felicida­de das moças, e uma recordação desagradável, que às vezes, já em muito nobre posição, as faz corar diante de um homem que vem visitar seu marido.

Então Anacleto desamava a beleza de Mariana, quisera antes vê-la cem vezes menos bela, contanto que fosse cem vezes mais discreta; porque enfim, uma filha nunca é feia para seu pai.

Quando Mariana casou, Anacleto sentiu-se livre de uma responsabilidade imensa; mas cedo encheu-se de novos e de mais importantes cuidados. Anacleto adivinhou o amor de sua filha e do jovem Henrique, e tremeu, e teve vontade de morrer; porque um pai faz-se por seu grande amor solidário na vergonha de seus filhos. E teve vontade de viver para velar por Mariana, para salvá-la e salvar-se daquele abismo.

Veio depois a viuvez de Mariana e com ela novos tormentos para o pobre velho. Um mancebo com quem ele antipatizava, parecia exercer sobre sua filha um império indizível. Com seu olhar penetrante, com suas vistas de pai, Anacleto via Mariana tremer diante de Salustiano... uma vez compreendeu que entre eles dois devia haver um segredo terrível; estudou inutilmente as ações e procedimento de ambos; daria metade dos poucos anos que lhe restavam para descortinar aquele arcano, mas não descobriu nada.

Enfim, chega Henrique, e outra vez aparece diante de sua filha. O amor daqueles dois corações não se tinha deixado morrer na ausência. Anacleto surpreende essa afeição ardente e dá-se parabéns porque Henrique é um nobre mancebo, que merece sua filha, e porque, além disso, vem livrá-lo do espectro que o assusta, vem lançar fora do combate a Salustiano.

Todavia, a despeito da presença de Henrique, Salustiano prossegue com seus antigos modos; Mariana continua, como dantes, a hesitar a seus olhos; portanto, nem o talismã do amor a pode salvar; e o pobre pai, que não conhece o abismo que o assusta, não tem o poder de avaliar o seu fundo, e treme ainda.

Um sarau é dado... festejam-se os anos de Celina, e nessa noite de prazer, na qual Anacleto adormecia suas mágoas, o mancebo importuno e terrível vem despertá-las.

O triste velho viu Salustiano aproximar-se de sua filha, conheceu no semblante dela que havia terror dentro de sua alma, e sem poder vencer-se, segue o par que passeia e con­versa; apura o ouvido, e apanha algumas palavras.

— Ignora que eu tenho em minhas mãos os meios de vingar-me; e que existe no seu coração um amor que eu posso destruir?... — tinha dito Salustiano.

E Mariana tremera e balbuciara uma frase que ele não pôde ouvir.

O terrível moço continuara:

— Eu vou ter daqui a pouco uma hora de prática com o sr. Henrique.

Mariana estava desfigurada pelo terror.

— No fim dessa hora estarei vingado.

Anacleto não teve coragem para ouvir mais nada; luziu-lhe no ânimo a idéia de cair sobre aquele homem com suas mãos trêmulas, e afogá-lo ali mesmo... mas lembrou-se de que ele podia gritar... falar muito alto... e o pobre pai não sabia o que é que toda a sociedade reunida em sua casa chegaria a saber.

Com o coração despedaçado correu para o jardim, atirou-se ao banco de relva, e, cobrindo o rosto com as mãos, começou a chorar e soluçar desesperadamente.

— Oh! meu Deus! meu Deus!... exclamava ele.

E depois pensava consigo mesmo: será possível que aquela gente toda tenha os olhos fechados, que não observe e reprove o procedimento de minha filha?... que não leia na horrível palidez de seu semblante a prova irrecusável de um crime?... que não esteja olhando para mim com piedade de meus cabelos brancos?

— Oh! meu Deus!... meu Deus!... exclamava.

E depois, continuava a pensar consigo mesmo. Que crime terá praticado minha pobre filha?... porque a submissão, com que ela se curva àquele bárbaro, não é amor... não... eu conheço minha filha, ela detesta esse indigno mancebo; mas ele falou em vingar-se... disse que tinha em suas mãos os meios da vingança: oh! pois então a minha pobre Mariana é criminosa?... a filha do meu coração há de ser desgraçada?... ousaria ela manchar as cãs de seu pai?... a minha pobre, a minha querida filha... o meu anjo!...

— Oh! meu Deus!... meu Deus! exclamava.

E depois, continuava ainda a pensar consigo mesmo: ser pai é uma coisa muito triste; ter filhos é abrir a alma aos pesares!... oh! estes filhos, a quem damos a vida, nos matam!... estes filhos, a quem em pequeninos sustentamos pelas mãozinhas para fazê-los andar, e carregamos aos nossos ombros, vêm depois com as suas loucuras empurrar-nos para o túmulo!... oh! neste mundo não há missão mais difícil, mais cheia de lágrimas, do que a missão de pai!... e então eu... tão velho! com a cabeça coroada pela neve dos anos, trêmulo, sem forças, com os pés na cova, nem ao menos morrer consolado! o que eu pedia ao céu era fazer minha filha venturosa, e depois morrer... E há de agora a vergonha vir fechar-me os olhos?!... e morrendo, deixarei minha pobre filha do coração, só, desolada, desprezada pelos homens, e sem amparo no mundo!... isto é horrível... é capaz de matar de repente!

— Oh! meu Deus!... meu Deus!... exclamou chorando ainda com mais força o infeliz velho.

Cândido tinha estado muito tempo em pé diante de Anacleto, não querendo, enfim, perturbar aquela dor imensa em que o via engolfado; ia retirar-se, quando ao ruído de suas pisadas na terra o velho ergueu a cabeça.

— Quem é?... perguntou enxugando apressadamente as lágrimas.

— Sou eu, sr. Anacleto, respondeu Cândido. Minha curiosidade trouxe-me neste momento ao jardim; retirava-me po­rém já para não incomodá-lo.

— Incomodar-me!... então eu...

O mancebo ficou em silêncio.

— Chorava?... exclamou Anacleto soluçando de novo.

— É verdade.

Estiveram ambos por algum tempo sem dizer-se palavra. O velho chorando e Cândido tristemente observando-o.

— Sim, disse finalmente aquele: tenho chorado... muito, minha cabeça arde... uma dor despedaçadora parece querer rebentar as fracas paredes deste velho crânio... o que eu sofro é isso... é uma dor... eu estou doente.

— Oh? então por que não se apressa a medicar-se? eu vou chamar a senhora sua filha... sobretudo este ar da noite, o sereno pode fazer-lhe mal.

— Não... não quero... eu exijo que não chame ninguém... nem mesmo minha filha. Este ar da noite me faz bem... eu estou melhor, muito melhor; isto vai passar de todo. Basta que eu descanse... vá dançar, preciso ficar só.

Cândido ia retirar-se.

— Escute, tornou o velho: promete-me não dizer a pessoa alguma que eu estava incomodado?... promete-me?... veja que eu o exijo.

— Pois bem, senhor, nada direi.

— Sobretudo, meu filho, não diga a pessoa alguma que me viu chorando aqui.

Cândido retirou-se.

O velho, sacudindo tristemente a cabeça, disse:

— Moço, se não compreendeste a minha dor, hás de compreendê-la um dia; — és filho; serás pai.