Os Dois Amores/XLI

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Os Dois Amores por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XLI: Mariana


Uma verdadeira guerra de emboscadas era a que estava declarada. Cada um dos combatentes tinha seu segredo, e por ele velava; alguns tinham dois segredos também: um que fazia alentar, e outro que fazia corar. Outros viviam suspensos e temerosos, vítimas e inocentes da intriga que fumegava.

João e Rodrigues, senhores das pontas daquela meada embaraçada, velavam, tendo os olhos fitos em Salustiano e Mariana; mas pareciam guardar ainda para si o — seu segredo querido, — que era talvez a história de Cândido.

Salustiano e Mariana esperavam e tremiam. Tinham que esperar. Ambos porém tinham ao mesmo tempo de corar.

A velha Irias ignorava porventura tudo? parece ao menos que sim.

Anacleto, Cândido e Celina eram aqueles que viviam suspensos e temerosos; eram eles as vítimas inocentes que se preparavam, porque o primeiro deveria chorar por sua filha, e os dois últimos por seu amor.

Henrique nada temia e tudo esperava. Estava quase a brilhar o dia de seu casamento.

Os acontecimentos se iam precipitando, e deixavam adivinhar que o drama corria para um próximo desfecho. O dia que sucedeu à noite de embriaguez de Jacó e de Helena, embriaguez que havia deixado cair o "coração" do ex-escrivão nas mãos do antigo agente da casa de Salustiano, foi de terríveis surpresas para o primeiro e para Mariana.

Salustiano soube na manhã desse dia que um documento importante, que o tornava criminoso público, havia caído nas mãos do homem que dois dias antes se declarara seu inimigo.

Concebe-se qual deveria ser o efeito dessa horrível notícia: era um raio que acabava de levantar-se sobre a cabeça do mísero mancebo.

A Providência castiga o crime por todas as maneiras: castiga-o mil vezes por seus descuidos e imprevidências. Aqueles que tinham comprado Jacó, poderiam e deveriam tê-lo visto queimar o processo e a letra falsa. A falta desse cuidado era agora um castigo que vinha sobre o crime que não deveria ficar impune.

Salustiano mandou deitar fora de sua casa o ex-escrivão, que acabava de lhe trazer a fatal nova, e ficou só... perdido em um mar de reflexões torturadoras... aterrado e furioso.

Depois lançou-se sobre sua secretária, e escreveu uma carta com rapidez e desesperação.



Por sua parte Mariana tinha aparecido naquele dia mais abatida que de ordinário. Um sonho terrível a atormen­tara toda a noite; acordara três vezes aos gritos de uma crian­cinha recém-nascida que lhe bradava: — minha mãe!

Depois do almoço retirou-se para o seu quarto, e ficou dolorosamente pensando... no futuro que a esperava.

Era um futuro bem duvidoso!... de um lado estava Celina, que não daria nunca sua mão a Salustiano; do outro lado esse mancebo abominável pronto para falar, e com uma folha de papel na mão. E sua primeira palavra era a desonra e esse papel era o corpo de delito da desgraçada viúva!... e para completar o quadro, via-se no fundo um mísero velho curvado pelos anos e pelos pesares, chorando com os olhos em sua filha, e descendo para dentro de uma cova funda como um abismo!

E depois de tudo isso a imagem de um mancebo pálido e melancólico... a imagem de Henrique tão belo, tão cheio do mais puro amor, tão capaz de fazer a ventura de Ma­riana!...

Pensava nisso, via tudo isso a infeliz mulher, continuava sempre a pensar e a ver, até que às onze horas da manhã uma escrava entrou em seu quarto e entregou-lhe uma carta que acabava de chegar.

Mariana abriu a carta e estremeceu ao ler a assinatura.

Era a carta de Salustiano.

Retirou-se a escrava a um aceno da viúva, que, apenas se achou só, leu a carta:

"Senhora, um acontecimento que pouco lhe importará saber qual seja, porque somente a mim diz respeito, acaba de obrigar-me a modificar minhas disposições. A escritura de meu casamento com a senhora sua sobrinha deverá impreterivelmente ser hoje assinada Às cinco horas da tarde terei o prazer de ir ao "Céu cor-de-rosa", levando comigo a escritura de que falo, e a carta, que com toda probabilidade espero deixar hoje em suas mãos. Tenho a honra de assinar-me, etc. — Salustiano".

Mariana ao princípio ficou petrificada, pálida e imóvel como um cadáver; depois com o rosto contraído, os olhos espantados e o corpo convulso, causaria piedade ao coração mais duro.

Era a sentença final que a mísera acabava de ler... O que lhe restava?... O que lhe cumpria fazer?...

Mas passada uma hora, a graciosa cabeça daquela encantadora mulher ergueu-se bela e orgulhosa; brilharam seus olhos com ardor imenso, suas faces se animaram com o rubor da vida, e um sorriso que se não podia bem traduzir, que tinha alguma coisa do rir terrível do desespero e do rir sossegado de um mártir cristão, raiou em seus lábios grossos e voluptuosos, deixando alvejar seus lindíssimos dentes.

Animava-a a idéia um novo crime: ela se exaltava com um pensamento sinistro.

— Vencerei... a meu modo!... murmurou ela.

E depois, por entre uma risada nervosa, e como filha da loucura, acrescentou:

— É um tigre!... é um tigre que pretende devorar-me!... livrarei minha alma de suas garras.. . deixar-lhe-ei o meu corpo... ah! sim!... o tigre que se farte no meu cadáver!...

A infanticida meditava no suicídio!...

Porém ela sentiu rumor. Ouviu os passos compassados de alguém que vinha subindo a escada: eram os passos de um velho.

Mariana correu a receber seu pai.

— Meu pai!... exclamou.

O velho recuou dois passos, como sobressaltado, depois cruzou as mãos e disse:

— Graças a Deus!

— Por que, senhor?...

— Porque enfim te vejo alegre, Mariana.

Foi com tão viva expressão de prazer que aquele bom velho agradeceu ao céu a alegria que estava brilhando no rosto de sua filha, que ela mesma não pôde resistir à dor que lhe causava a mentira que iludia seu pai.

Os olhos de Mariana arrasaram-se de água: a mísera começou a soluçar desabridamente, de joelhos, abraçada com as pernas do sensível velho.

— Minha filha! minha querida filha!... que é isto?... bradou então ele; por acaso enganei-me eu?... és sempre incompreensivelmente desgraçada?...

Mariana chorava ainda mais.

— Filha da minha alma, continuou Anacleto chorando também, fala! Derrama no meu coração os teus pesares... fala, pelo amor de Deus! Se tens um segredo, onde acharás para esse arcano mais bem cerrado túmulo do que o coração de teu pai?... Oh! fala!... A alma de um pai se abre piedosa às penas que te dilaceram, fala! se um tal silêncio continua, e continuam essas lágrimas e esse constante sofrer, cuja causa me escondes, eu não posso resistir mais... eu morro, decerto!

— Senhor... balbuciou a mísera.

— Ah! é porque tu não sabes o que é ser pai, Mariana; é porque ignoras que não há punhal que rasgue mais dolorosamente as entranhas de um pai do que as lágrimas de uma querida filha!... Fala, meu anjo, fala, meu amor, fala, minha filha!... Por que choras?... Tens porventura cometido uma falta?... A alma de teu pai é grande para te perdoar!... Ofenderam-te?... Fala, e meu trêmulo braço readquirirá as perdidas forças para vingar-te... O que tens? Vê que o teu silêncio faz mal a ti mesma... Lembra-te que esse mistério em que envolves a tua dor pode dar lugar a que alguém suspeite...

Com a rapidez do relâmpago desapareceram todos os sinais de dor ou de enternecimento, que em Mariana acabavam de mostrar-se. Tinha despertado a vaidade... a mentira.

A viúva ergueu-se.

— Então, minha filha?

— Nada sofro, meu pai.

— Mas que contradição é essa?... Chego e acho-te risonha; dou graças a Deus pelo teu contentamento, e cais a meus pés desfazendo-te em pranto; chorando também por minha vez, peço-te que fales; e tu te ergues altiva, com os olhos enxutos, e me dizes que nada sofres?! Como explicas isto?

A viúva pensou um momento, e depois respondeu tão sossegadamente como se fora a própria verdade que nos seus lábios falasse:

— Meu pai, disse ela, tenho-lhe causado imensos pesares...

— Não nos lembremos das dores passadas. O que eu quero saber é simples: o que te atormenta hoje?

— Remorsos.

— Remorsos?! exclamou Anacleto.

— Sim, meu pai; remorsos dos desgostos que lhe tenho causado.

O velho fitou por alguns instantes os olhos no rosto de sua filha; depois, sacudindo tristemente a cabeça, disse:

— Não é isso.

— Oh! é isso, meu pai, é isso mesmo. Fui desde criança uma louca, cheia de presunção e vaidade, a mais pequena contrariedade ofendia meu orgulho; um homem que deixasse de queimar incenso a meus pés me levava ao desespero; e depois, envergonhada de meus sentimentos, de minhas puerilidades, eu escondia a causa de minhas penas a meu pai, que chorava julgando-me desgraçada, quando eu era somente uma pobre louca.

— E mais nada? perguntou Anacleto.

— Muito mais, meu pai, muito mais; porém tudo se reduz pouco mais ou menos a isso.

— E ultimamente?

— Ultimamente eu era, eu sou louca como dantes; eu sou criança ainda hoje, meu pai.

E com um sorrir gracioso Mariana continuou:

— Devo confessá-lo?... pois bem: eu sou ciumenta, meu pai, perdidamente ciumenta. Estou para casar-me, e se Henrique olha duas vezes para uma senhora, faz-me estar triste um dia inteiro; se conversa com prazer com outra, sou capaz de chorar duas horas. Eu não disse já que era louca?

— E mais nada? perguntou Anacleto de novo.

— Pois o que mais, meu pai?

— Minha filha, tu não queres ainda confiar-me os teus pesares; não tens piedade deste pobre velho, que tanto te ama!... paciência!

Outra vez se encheram de lágrimas os olhos de Mariana.

— Choras ainda?... eis aí...

— Meu pai! eu lhe tenho feito sofrer muito; ainda hoje, ainda agora acaba de chorar por minha causa. Pois bem; eu lhe prometo que amanhã, que nunca mais me há de ver pesarosa.

Anacleto estremeceu todo e disse:

— Mariana!...

— O que tem, meu pai?

— O que acabas de dizer pode-se entender de dois modos: é um pensamento que pertence tanto à vida como à morte, e talvez que ainda mais a esta última.

— Morte!... disse a viúva rindo-se; pensar em morte uma moça que está em vésperas de casar-se?

— Ah! Mariana, quem te poderá compreender suficiente­mente?!

A viúva apertou a mão de seu pai entre as suas e per­guntou:

— Meu pai, encomendou as flores?

— Encomendei, respondeu o velho suspirando.

— Eu quero que o meu vestido de casamento esteja pronto amanhã.

— Está bem.

— Meu adereço de brilhantes?

— Também amanhã o terás.

— Como meu pai me ama! exclamou Mariana abraçando o velho.

Anacleto apertou sua filha contra o coração sem dizer palavra.

O velho sofria muito; apesar de todos os esforços que fazia a viúva, o olhar penetrante de seu pai lia-lhe a men­tira no rosto.

Ah!... se ele pudesse ler também o pensamento sinistro e infernal que pairava no ânimo de Mariana; se ele adivinhasse que debaixo daquele rosto tão belo e tão risonho, daqueles olhos tão ardentes e dentro daquela cabeça tão graciosa estava a idéia da morte... o suicídio!...

— Mas, disse Mariana, agora é que eu reparo... meu pai está vestido para sair.

— Sim; lembrei-me, apenas há uma hora, que faz hoje anos um de meus velhos amigos, e vou jantar com ele; vinha por isso dizer-te adeus.

— Não pretende voltar cedo?

— De ordinário a gente se demora mais nestes dias...

— Então a que horas?

— Às dez da noite, pouco mais ou menos.

Apesar seu, Mariana sentiu que lhe iam faltar as forças... tornou-se pálida e segurou-se a uma cadeira.

Infelizmente escapou isso aos olhos de Anacleto, que se dispunha já a sair.

— Meu pai, disse a viúva com voz muito comovida e suspendendo o velho, que já se achava na porta: meu pai, pro­meti-lhe que nunca mais me havia de ver pesarosa... pois bem; abençoe de coração a sua filha.

Anacleto voltou-se com os olhos úmidos, e abençoou Mariana. Depois saiu.

— Abençoou-me pela última vez! murmurou surdamente a viúva.

E ficou estática... pasma... aterrada. Tinha a morte na alma.