Os Dois Amores/XL

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Os Dois Amores por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XL: O "coração" de Jacó


Estava correndo a segunda noite depois daquele dia em que João tinha sido lançado fora da casa de Salustiano.

Eram cerca de dez horas.

Na acanhada saleta de jantar da casinha que ficava fronteira ao "Céu cor-de-rosa", estavam três personagens ceando alegremente, sentadas ao redor de uma pequena mesa: eram Jacó, Helena e João.

O antigo agente da casa de Salustiano tinha calculado bem com o gênio interesseiro do ex-escrivão; logo que se separou de Rodrigues apresentou-se na casa de Jacó com a bolsa na mão e foi imediatamente recebido e instalado no melhor quarto da casa.

Logo na primeira noite, João ofereceu a seus hóspedes uma excelente ceia. Jacó era amigo de bom vinho, e Helena, ou por condescendência, ou por que quer que fosse, gostava de tudo de que seu marido gostava. Portanto comeu-se e bebeu-se até alta noite.

Na que se estava seguindo, repetiu-se a mesma cena.

No entretanto conversavam.

— Mas, como ia fazendo notar, disse João, parece que o destino foi quem decidiu que nos ajuntássemos; eu fui um dos que cooperaram para sua desgraça, e portanto era justo que viesse ajudá-lo a sofrê-la.

— Não nos lembremos disso, disse Helena.

— Sim, afoguemos os pesares com vinho.

— Vá feito! exclamou Jacó; à saúde da boa amizade.

E apenas esvaziados os copos, João os encheu de novo, porém com vinho diferente.

— Esta mistura de vinhos é que ontem me fez mal, obser­vou Helena.

— Ora, saúde... um dia não é todos os dias...

— Apoiado! bradou Jacó.

— Comamos um pouco deste bolo inglês para fazer lastro.

— Vamos a ele, que está excelente!

— Eu já pedi a uma comadre minha a receita dos bolos ingleses; mas a maldita egoísta deu-me uma como a cara dela.

— Perdemos uma dúzia de ovos, meu caro João.

— Deixe estar, sra. Helena, que eu lhe hei de trazer a verdadeira receita dos bolos ingleses.

— Oh! Sr. João, não faz idéia do gosto que me dará.

— Sr. Jacó, lá vai a saúde da sua boa senhora!...

— À razão da mesma!

Jacó e Helena, pouco habituados a beber vinhos de diversas qualidades, começavam a demonstrar uma alegria e vivacidade muito significativa.

— Que vinho delicioso! disse o escrivão.

— Tem vinte e cinco anos de sepultado.

— Ah!... eu logo vi...

— Mais um copo.

Os dois não se fizeram rogar.

— A propósito, disse João, ontem o sr. Jacó começou a contar-me uma história que infelizmente não pôde concluir.

— Qual?

— A história de uma grande trovoada doméstica. Uma briga entre marido e mulher, a conseqüente separação dos sujeitinhos, e depois a sua recente conciliação... que diabo! eu fiquei espantado de o ouvir contar as coisas como se as tivesse testemunhado, e ainda mais me espantei quando disse que tinha documentos disso no "coração".

— Quando?... ah!...

Helena soltou também a sua risada.

— Ele não entende o que é o meu "coração"!...

— É verdade... confesso que não posso adivinhar semelhante charada.

— É segredo de família, e portanto...

— Basta... já não quero saber. Vá um copo de vinho aos segredos de família.

— Vá!

João, que desde a noite anterior concebia as melhores esperanças de realizar o plano que trouxera em mente quando viera morar em casa de Jacó, deixou passar cerca de um quarto de hora, durante o qual fez com que o ex-escrivão e sua mulher esvaziassem ainda mais dois cálices de vinho, e depois disse:

— Mas, tornando, como lá se diz, à vaca fria, devo notar que não são muito concordes em um ponto da tal história.

— Em qual?

— O sr. Jacó diz que o casal brigado e separado reconciliou-se em conseqüência de uma carta muito cheia de lamúrias e de tolices, escrita por um deles.

— É certo!

— Foi tal qual.

— Sim; mas ontem o sr. Jacó sustentou que a carta estava assinada pela mulher, e a sra. d. Helena jurou que era do próprio punho do marido.

— É da mulher.

— É do marido.

— Então em que ficamos?

— Não faltava mais nada?... uma mulher abaixar a cabeça a um homem!...

— Pois digo-lhe eu que a carta é da mulher! exclamou Jacó, dando na mesa um forte murro.

— É mentira, sr. João!

O velho soltou uma gargalhada estrepitosa.

Jacó e Helena, extremamente espiritualizados, teimavam um com o outro com desespero e furor. João, em vez de apaziguá-los, os desafiava cada vez mais com suas gargalhadas.

— Ferve-me o sangue quando esta mulher do diabo teima comigo!

— Este homem, sr. João, não abre a boca que não minta! é um inimigo das mulheres...

— Pois se a carta é da mulher!...

— É do marido!

— Oh! senhora... não teime...

— Tenho dito; é do marido.

— A senhora não sabe que eu tenho a carta no meu "coração"?..

João fez um movimento.

— Pois, se lhe parece... eu não tenho medo...

Jacó olhou para João com ar ainda meio temeroso.

— Deixemo-nos disto, disse este; acabemos com esta contenda; vá à saúde dos bons esposos!

Os copos esvaziaram-se de novo; daí a algum tempo João tornou:

— Mas vamos: a carta era da mulher ou do marido?

A embriaguez de Jacó e Helena já então era completa; gaguejavam ambos, falando ao mesmo tempo.

— É da mu... lher...

— É do ma...ri...do...

— Quem fala verdade? decidamos.

— Eu...

— Eu...

Os dois disputantes ficaram desesperados outra vez.

— Eu vou... bus... car... o "co... ra... ção"!... exclamou Jacó.

Helena respondeu-lhe com um insulto, e o escrivão, cambaleando e segurando-se pelas paredes, dirigiu-se ao seu quarto.

No entretanto, e para que Jacó não se deixasse ficar no quarto, pois que tudo se podia esperar do estado de embriaguez em que se achava, João, instigando Helena, fazia com que a mulher injuriasse em alta voz a seu marido.

Jacó apareceu de novo à porta da pequena saleta.

João lançou um olhar cheio de curiosidade, de dúvida e de esperança sobre aquele homem.

O ex-escrivão vinha abraçado com uma caixa de jacarandá, que se mostrava sob a forma de um coração.

Era de fato aquilo que ardentemente desejava ver o antigo agente de Salustiano: era o "coração" de Jacó.

— Até que enfim! murmurou João por entre os dentes.

E ergueu-se para ir ajudar a Jacó, que vinha cambaleando.

O ex-escrivão chegou finalmente à mesa, e indo depositar aí a caixa que trazia, debruçou-se sobre ela olhando meio risonho, e ainda meio desconfiado para João.

— Vamos decidir a questão, disse este.

— É do ma.... ri... do, balbuciou Helena.

Com um movimento de desespero o ex-escrivão desabotoou o seu infalível fraque roxo, abriu a camisa, e deixando ver um peito vermelho e cabeludo, foi com a mão mal segura tirar um cordão preto, a que estava presa uma pequena chave.

— Vejamos... vejamos... disse João todo desejos e es­peranças.

Jacó trabalhou por muito tempo para introduzir a chavinha na fechadura; porém, conhecendo que o não podia fazer, sentou-se de novo risonho, e disse gaguejando:

— Que... di... a... bo....não pos... so... pa... re... ce... me que... es.. .tou bê...ba...do

— Dê-me a chave, que eu abro...

O ex-escrivão soltou uma gargalhada, sacudiu a cabeça e tornou a enfiar o cordão no pescoço.

Também não vale a pena perder tanto tempo por isso, tornou João; acabemos o prazer desta noite com um último copo de vinho.

E encheu os copos. Jacó bebeu metade e entornou sobre a mesa e sobre si mesmo a outra metade.

Helena não bebeu, porque já dormia a sono solto.

O antigo agente de Salustiano deixou cair a cabeça, e pareceu adormecido.

Daí a pouco Jacó roncava como um endemoninhado.

No fim de um quarto de hora João ergueu-se, observou cuidadoso os dois esposos; abriu a camisa do ex-escrivão, tirou-lhe o cordão do pescoço, e introduzindo a chavinha na fechadura da misteriosa caixa, deu uma volta, e o "coração" de Jacó ficou por dentro patente a seus olhos.

A caixa estava cheia de papéis de todos os tamanhos e de toda natureza.

Cartas de família, escritos de amor, originais de antigos impressos, tiras de papel com algumas linhas escritas, mas cujo sentido era quase impossível decifrar, antigos processos... papéis judiciais... e uma multidão imensa de outros objetos enchiam o "coração" de Jacó.

O ex-escrivão tinha realmente dado um nome muito significativo àquela caixa: era o seu "coração".

Era o coração do homem mau, intrigante, maledicente. Dentro dele estavam os materiais com que ele podia acender a guerra entre famílias.

Jacó era um malvado, ou para melhor dizer, um mise­rável malvado.

João não se demorou em fazer observações sobre o que tinha diante dos olhos; foi passando um por um todos aqueles papéis, até que chegou a um processo.

— Ah! ei-lo aqui!... ei-lo aqui!... exclamou sem poder suster-se.

E folheando o processo chegou a um lugar em que havia um documento:

— A letra falsa!... disse.

E como se mais nada lhe importasse do resto; como se houvera completado a sua missão naquela casa, guardou o processo no largo bolso de sua sobrecasaca, fechou o "co­ração" do mau, pôs de novo o cordão no pescoço de Jacó, e indo ao corredor da casa despertou a escrava, mandou que lhe abrisse a porta da rua e tomando o chapéu, saiu.

Era mais de meia-noite.