Os Dois Amores/XXXIX

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Os Dois Amores por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXXIX: No alpendre


Logo que Rodrigues saiu, João entrou para o quarto deste, cerrou a porta e esperou a volta de seu irmão, meditando sobre os meios de realizar um projeto que desde muitos dias, e então mais que nunca, o ocupava.

Chegou Rodrigues, e adivinhando onde se recolhera o irmão, abriu a porta e entrou.

O velho guarda-portão estava triste e abatido.

— Então?... perguntou João.

— Nada.

— Não te havia eu prevenido de que serão inúteis todos os teus esforços?

— Paciência, mas fiz o que devia.

— E agora ainda quererás suspender-me?

— Não; convém que aquele moço seja abatido.

— Bem: tomo isso à minha conta.

Ficaram os dois velhos pensando durante algum tempo, e depois João perguntou:

— E a respeito do outro, que novidades há?

— Ontem à noite fez ele vinte e um anos.

— Eu o sei.

— À meia-noite bateu à porta do "Purgatório-trigueiro" uma mulher de mantilha, que o foi procurar.

— E essa mulher...

— Era Mariana.

— O que queria dele?

— Não sei bem, mas parece que conseguiu muito, porque ao romper do dia de hoje cheguei ao "Purgatório-trigueiro" muito a tempo...

— A tempo de quê?

— De desmanchar um projeto de viagem a mais extravagante do mundo. Cândido ia partir.

— Para onde?

— Ele mesmo não sabia dizer.

— Rodrigues, aquela mulher é o diabo em pessoa.

— É muito desgraçada, João.

— Por culpa dela: tu foste sempre mais piedoso do que eu.

— Não, tu és que te finges mau.

— Está bem; e então não conseguiste saber o motivo dessa viagem?

— O nosso pequeno teimou em ocultá-lo.

— Mas por fim, cedeu e ficou.

— Sim; porém custou-me muito. Foi-me preciso tocar-lhe na corda mais sonora de seu coração.

— Ah! já sei, falaste-lhe em sua mãe.

— É verdade.

— Pobre rapaz!... e como vai ele de amores?

— Olha, João, eu não o entendo. Até ontem à meia-noite era todo ardor, paixão e esperança.

— E hoje?

— Não quer ouvir o nome da "Bela Órfã".

— E esta!...

— A mulher da mantilha dobrou muito à sua vontade aquele coração.

— Quando eu digo que ela é o diabo!

— Infeliz! treme diante do mundo. Salustiano é um espectro que a assombra; obedece-lhe como a um senhor.

— Cedo eu a livrarei desse fantasma.

— Como?

João ficou olhando por algum tempo para Rodrigues, e depois disse:

— Está bem... era um segredo que eu queria guardar para mim só, mas vou dizer-to.

Rodrigues escutou curioso.

— Tens um belo vizinho ali defronte, disse João.

— Sim, é o celebre Jacó... aquele nosso escrivão do processo.

— Pois sabe que é muito meu amigo.

— Teu amigo?... e tu apertas a mão de semelhante ho­mem?

— Aperto.

— João!

— Nada de repreensões. Escuta: observei que o tal Jacó ia de vez em quando ter com Salustiano; ficavam a sós por algum tempo, e depois o escrivão retirava-se muito alegrezinho, e o outro ficava por algumas horas de mau humor.

— E a razão?

— Um dia consegui ficar em posição de ouvi-los, e apanhei-lhes o segredo. O escrivão é duas vezes infame.

— Como?... explica-te.

— Infame, porque recebeu dinheiro para queimar um processo, e por isso perdeu o ofício, e infame outra vez, porque o processo não está queimado.

— E então?...

— Ele o guarda.

— Oh! mas isso é o diabo.

— Pelo contrário, eu julgo que é excelente. Já te disse que tenho estreita amizade com Jacó.

— E que pretendes fazer?

— Ir morar com ele.

— E esperas conseguir isso?

— Com dinheiro tudo se consegue daquele homem. Vou alugar-lhe um quarto em sua própria casa.

— E depois?

— Depois os papéis estão lá, e hão de ser meus, custe o que custar.

— Falar-lhe-ás nisso?

— Deus me defenda. Salustiano deve tê-los pago bem, para que ele mos quisesse ceder!

— Olha, João, se te vás meter nalguma...

— Deixa o caso por minha conta; mas que é isto?...

Ouviu-se uma voz terna e melancólica, que começava a cantar o romance do "Sonho da Virgem".

"Era um dia um mancebo, que ardente,

"Pobre vida esquecido vivia;

"E uma virgem...

O velho Rodrigues sorriu.

— De que te ris?... perguntou João.

— É que este canto me está chamando. A "Bela Órfã" tem que me confiar.

— Pois vai, adeus!

— Não, espera; pode ser que convenha que saibas o que ela tem para me dizer.

João ficou outra vez só no quarto de Rodrigues.

Uma hora depois voltou o velho guarda-portão.

— Que novidades há? perguntou João.

— O caso vai-se complicando.

— Então, que temos?

— A tal mulherzinha de mantilha obteve do nosso pequeno uma carta para Celina.

— Bravo! provavelmente o rapaz desmanchou-se todo em juramentos de amor.

— Ao contrário, declara a nossa "Bela Órfã" que a não ama, e que não quer iludi-la por mais tempo.

— E esta!... que dizes a isto?

— Fiquei com a cara à banda, João!

— Que disseste à pobre menina?

— Que desconfiasse e que esperasse.

— Realmente foi boa resposta.

— Agora vamos sair, João.

— Para onde?

—Tu para casa de Jacó, e eu para o "Purgatório-trigueiro".

— Vamos.

Os dois velhos separaram-se à porta do alpendre. João entrou na casa de Jacó, e Rodrigues foi conversar com a velha Irias.