Os Dois Amores/XVI

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Os Dois Amores por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XVI: A velha, o moço e a moça


Quando Anacleto, Irias, Cândido e Celina entraram na sala do "Céu cor-de-rosa", já Mariana ali não se achava.

Ou fosse para ocultar a perturbação, que por uma causa qualquer sentia, ou porque realmente se achasse fatigado, Anacleto convidou os dois habitantes do "Purgatório-trigueiro para cear com ele, e pedindo-lhes licença para descansar alguns momentos, dirigiu-se ao quarto de Mariana.

A viúva estava deitada e abatida. Queixou-se de que uma intempestiva e inesperada visita de Salustiano lhe exacerbara o incômodo de que poucas horas antes se tinha queixado.

Anacleto não lhe disse uma palavra; deixou-se cair em uma cadeira de braços e ficou triste e meditabundo, olhando para Mariana.

O pai desconfiava da filha.

Mas haviam ficado na sala a velha Irias, Cândido e Celina.

Estiveram descansando, sem encetar a mais simples conversação durante algum tempo; os dois moços conservavam a sua melancolia silenciosa do passeio. Irias continuava a observá-los como fizera em toda a tarde desse dia.

Até que enfim ela mesma quebrou o silêncio, dizendo:

— Continuais a estar tristes, meus filhos?

— Não, minha mãe, acudiu prontamente Cândido, estamos apenas fatigados.

— Sim... passeamos muito, disse Celina.

— E no entanto, em todo vosso passeio estivestes do mesmo modo, continuou a velha; sabeis que essa tristeza dá muito que entender nos moços?...

A "Bela Órfã" corou vivamente; Cândido estremeceu a próprio pesar.

— Não é preciso corar tanto assim, minha boa menina. Por que estremeceste tão fortemente, Cândido?

A observação da velha aumentou o enleio dos moços.

Irias pareceu deleitar-se vendo a ambos perturbados, e foi somente quando eles conseguiram serenar-se, que ela pros­seguiu:

— Ouvi-me: quando alguém vê dois jovens... um moço e uma moça, meditando tristemente, naturalmente vem-lhe vontade de compreender a causa dessa meditação; e coisa notável! quase sempre acaba por adivinhá-la.

Nada disseram os dois moços.

— Porque, continuou Irias, a alma da mocidade é inconstante, rápida e faceira; ligeira como o corpo que anima, ela se apraz de mudar a cada instante de objeto, de alimentar-se com impressões e pensamentos sempre novos e diversos. A alma da mocidade é uma borboleta no espírito. Não é assim a velhice; pertence a esta a meditação, pois que seu corpo já está cansado; e os sentidos fatigados de, por tantos anos, levar impressões a todos os instantes, mostram-se como que vagarosos por fraqueza e preguiça. A alma da velhice descansa sobre um pensamento, revolve-se dentro dele, porque também nisso lhe ajuda a tristeza, que de ordinário acompanha o velho, e que é morosa como convém ser quem medita. A juventude, repito, é naturalmente alegre, e a alegria é leve e brincadora; portanto, quando um moço e uma moça estão tristes, e meditam, quem os vê, por força os observa, porque nessa tristeza e nessa meditação deve haver algum mistério muito interessante para se estudar, e quem as estuda quase sempre adivinha.

— É noite fechada, disse Cândido levantando-se e aproximando-se de uma janela; é noite fechada; mas a lua, clara e brilhante...

— Deixa a noite e a lua, respondeu a velha cortando-lhe a palavra, e senta-te aí onde estavas para eu te dizer como é que se adivinha a tristeza e a meditação dos moços.

Deixou-se Cândido outra vez sentar, e Irias continuou:

— Sobre que é que medita um moço quando passeia com uma jovem bela e espirituosa, ou se acha junto dela senta­do?... é verdade que o homem tem no coração a ambição, que o faz desejar mil coisas, que lhe pode ao longe desenhar ricos castelos, extravagantes arabescos, palácios e venturas de diversas naturezas; mas é verdade, também, que naqueles momentos parece muito mais provável que medite sobre al­gum pensamento que tenha bastante relação com essa moça e ele mesmo. Que pensamento será? qual é o que nesta vida põe em mais íntima relação as almas de um moço e de uma moça?... o observador, que de ordinário é um velho, lem­bra-se do que com ele se passou no tempo do verdor dos anos, lembra-se de que não podem impunemente ver-se, e conversar, um mancebo cheio de ardor e uma donzela cheia de encantos; e finalmente o observador conhece que o moço medita sobre — amor. — A respeito da moça é ainda mais positivo.

— Senhora, disse timidamente a "Bela Órfã", esta conversação me acanha....

A velha pareceu não ter ouvido o que lhe acabava de dizer Celina e prosseguiu:

— Em que pensará a menina de dezesseis anos?... ela não é ainda esposa para cuidar na constância de seu marido, e observar como é que ele olha, como é que ele fala às outras senhoras; ela ainda não é mãe para entregar-se toda inteira ao cuidado de seus filhos, para viver para eles de dia, e velar por eles de noite; em que pensará pois, ali sentada ao pé de um belo moço, ou com ele passeando?... pensará nos vestidos de suas bonecas?... no romance que está lendo?... meditará sobre sua lição de desenho?... sobre a cavatina que nessa noite pretende cantar?... sobre seus enfeites para o próximo serão? Mas nisso não medita a moça tristemente. Há, porém, para a jovem de dezesseis anos, que é ainda solteira, uma meditação acompanhada de tristeza, que não amarga, de melancolia que é doce como a saudade, e que se chama — amor: — sim, minha filha! sempre que a moça sol­teira está meditando, medita sobre amor. Vós ambos meditáveis esta tarde, e estais meditando ainda agora sobre amor.

— Senhora! exclamou Celina.

— Minha mãe! exclamou Cândido.

— Negais o que eu digo? perguntou a velha.

— Nego, disse rapidamente o mancebo.

— Enganou-se, respondeu com timidez a moça.

— Pois eu vou demonstrar que não; vou provar que conheço vosso coração mais do que vós mesmos; ou antes vou demonstrar isso somente à senhora, porque tu não podes negar, Cândido.

— Oh! minha mãe! por compaixão não abuse do meu es­tado!

— Senhora, Deus e a educação da virtude, tinha até bem pouco conservado o seu coração em toda a virgindade da inocência. Até bem pouco a senhora sabia o que era o galanteio; porque nesses poucos bailes a que tem ido, e nas reu­niões que se fazem em sua casa, os cavalheiros que lhe cercam, lhe dizem finezas, e provavelmente a requestam; tem pois ouvido muito falar em amor; não o compreendia, porém, porque não o havia sentido. Corava pelo que lhe diziam, mas não corava de si; também é só assim que pode corar a inocência.

Sem o pensar, Celina estava ouvindo atentamente o que dizia a velha.

— Enfim, senhora, este mancebo apareceu, seu desvalimento, sua pobreza, a palidez de seu rosto, que parece indicar íntimo sofrimento, sua melancolia habitual, que quase dá o caráter de verdade à suspeita de suas penas, eram suficientes para recomendá-lo à alma das virtudes; mas além disto seus tios o trataram com amizade e confiança; e sobretudo, a senhora quando o viu pela primeira vez, viu-o onde?... como?... viu do meio dos túmulos e de joelhos, orando junto à urna que guarda as respeitáveis cinzas de seus pais.

— É verdade! é verdade!... exclamou a "Bela Órfã" com vivo acento de gratidão.

Uma onda de prazer indizível rolou sobre o coração do mancebo, e foi desfazer-se em leve sorriso, que dilatou por um momento brevíssimo seus lábios.

— Desde então, prosseguiu Irias, desde esse momento, quando no silêncio de seu quarto, ou nas fantasias do seu leito, a imagem deste mancebo se lhe desenha no espírito, não é, a senhora deve-se estar lembrando, não é sob a forma de um lindo jovem, vestido de brilhantes e custosas galas... não, a senhora não o quer assim, não o quer fidalgo nem príncipe, não o quer rico nem deslumbrador, a senhora o quer, a senhora o vê sempre abatido, pálido e melancólico, de joelhos junto ao túmulo de seus pais.

— É verdade!... é verdade!... exclamou com lágrimas nos olhos a "Bela Órfã".

Cândido, enquanto Celina atendia exclusivamente à velha, devorava com ardentes vistas as pérolas de ternura que se escapando dos olhos da moça, pendiam de suas faces viçosas, como gotas de água límpida, caídas em pétalas de rosa.

Irias continuou:

— Depois, este mancebo começou a freqüentar o "Céu cor-de-rosa", e a senhora, muito naturalmente, notou que nas reuniões que aqui têm lugar, os cavalheiros a cercam, a adulam e incensam, e que somente Cândido, exceção entre todos, se afastava e se deixava, e deixa ainda esquecer em um canto de sala. A senhora pretendeu explicar a si mesma uma tal singularidade, porque, primeiramente, a mulher é muito curiosa destas coisas, e depois enfim porque lhe doía que estivesse sempre longe de seu lado aquele que tivera o seu mesmo pensamento no dia de dor, e junto do qual se ajoelhara um momento no meio dos túmulos.

Ninguém interrompeu a velha; ela, porém, parou um instante para respirar e depois disse:

— Mas para se explicar a si mesma essa singularidade, a senhora devia observar o mancebo, e em algumas das vezes que para ele olhava encontrou seus olhos que, de súbito, se abaixaram; bastou, porém, esse momentâneo encontro de vistas para a senhora espantar-se do ardor, do fogo com que Cândido a olhava. Esse fogo, senhora, incomodou-a a princípio; depois essa chama começou a propagar-se, e não tarde seu coração ardia também; mas por que ardia?... por que começou um desassossego indizível a perturbá-la? por que em seu jeito pensava nos abrasadores olhares do mancebo?... por que lhe escapava um suspiro na solidão?... por quê? a alma virgem da moça o não podia dizer.

Celina nada respondeu; estava porém espantada, porque a velha dizia o que realmente se havia passado dentro dela.

— Mas hoje, prosseguiu Irias, hoje era o dia das revelações dos mistérios do coração. A manhã deste dia correu como todas as outras; a tarde contudo foi muito diferente para ambos. Senhora, um amigo disse o que na sua alma se pas­sava, e a senhora o não compreendia. Antes do passeio da tarde que acaba de passar, a senhora já sabia que entre a "Bela Órfã" e o mancebo desvalido se abria uma flor perfu­mada e bela: — era a rosa do amor.

Os dois mancebos ficaram como que petrificados.

— A senhora não tinha tido tempo de estudar a sua posição, e ainda que a houvesse estudado, o mesmo sucederia. A perturbação, o enleio, o pejo a acompanhou em todo o pas­seio. Avaliando já seus sentimentos, e levada pelo braço de um homem a quem amava, e por quem era amada, temia que uma simples palavra a pudesse trair, que os olhos dos observadores arrasassem o segredo de si própria... e corava... e meditava; e portanto a senhora meditava e medita ainda; porque ama.

— Ah! senhora!... exclamou a moça, escondendo o rosto com as mãos.

— Minha mãe! basta!... disse o mancebo fora de si: basta, ou eu me retiro.

— Não! fica! e se vale alguma coisa para ti a autoridade de mãe adotiva que em mim respeitas, fica! eu te ordeno que fiques!...

O mancebo ficou imóvel à voz da velha.

— E este mancebo, disse ela a Celina, apontando Cândido com seu trêmulo dedo, concebe a senhora como é que este mancebo lhe ama?... oh!... ele dirá que não, ele há de jurar que eu minto. E sabe por quê?... porque, escravo do mais nobre orgulho, ele não quer ser amado por uma mulher que possui mais do que ele. Quereria, senhora, vê-la pobre e desgraçada, para lançar a alma a seus pés, e no entanto...

— Basta, minha mãe!

— No entanto é a senhora o objeto de seus mais belos e caros pensamentos. Ao romper da aurora ele, da fresta da janela do sótão que habita, acompanha com os olhos todos os seus passos, quando a senhora vai passear por entre suas flores...

— Minha mãe!... silêncio!... exclamou o mancebo, caindo de joelhos aos pés da velha.

Celina respirava apenas.

— Durante o dia, continuou Irias, ele não pensa, ele não suspira, ele não vive senão pela senhora.

— Minha mãe!...

— De noite, se dorme, são seus os sonhos dele; se vela, ele vive ainda só pela "Bela Órfã", e escreve hinos ao objeto de seus cultos...

— Minha mãe!...

— Negas isto?... perguntou a velha com tom grave.

— Nego! disse Cândido.

As três personagens no fervor dessa prática se haviam insensivelmente erguido, e se tinham chegado até junto do piano.

— Negas isto? repetiu Irias.

— Nego, respondeu outra vez o moço.

Então a velha, lançando a mão no bolso de seu vestido, tirou dele um papel, e o ia entregar a Celina; mas vendo que esta não o recebia, lançou-o sobre o piano, e disse:

— Eis aí, senhora, a declaração de amor deste mancebo.

— Que é isto? perguntou Cândido.

— Os versos que escreveste em uma das noites passadas.

Ouviu-se nesse momento o tropel que faziam Anacleto e Mariana descendo a escada do sótão. Cândido lançava-se sobre o papel, quando Irias o susteve com sua mão musculo­sa e forte, dizendo:

— Aquilo não te pertence mais.

Quando Anacleto e Mariana entraram na sala, Celina, trêmula e cheia de pejo, lançou seu lenço branco sobre o papel.

Depois, aproveitando um instante em que todos pareciam estar entretidos, ela, não tendo bolsos no vestido, escondeu o papel no seio.

Cândido viu isso.

Na hora de recolher-se, a "Bela Órfã" abriu esse papel e viu algumas folhas escritas: eram versos, e constavam de trinta e duas estrofes, tendo por título o seguinte: "O Sonho da Virgem".