Os Dois Amores/XXII

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Os Dois Amores por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXII: Um serão sem ele


Se o olhar do observador pudesse chegar ao fundo do coração humano, esquadrinhar todos os seus escaninhos, arrasar seus segredos mais ocultos, ler nele como em um livro; teria, é verdade, muito de que horrorizar-se, muito de que espantar-se com a hipocrisia e malvadeza da humanidade; em compensação porém acharia um encanto indizível, examinando o coração de uma moça que começa a amar pela primeira vez.

Porque, se doçura imensa se goza já nessas rápidas e passageiras traiçõezinhas, que fazem ao pudor de uma virgem os suspiros que por entre os lábios escapam, e os olhares que com mal comprimido fogo dardejam os olhos; em que mar de inocência, de amor angélico, de candura e de graças se não banharia o pensamento do observador, penetrando no coração da virgem cristã?!

Uma vida nova começa com o primeiro dia de amor. A aurora desse dia rubra com o pejo da moça, revela um mistério que ainda se não compreendia a noite passada.

De então por diante todos os pensamentos, todos os desejos, os brilhantes arabescos da imaginação, os sonhos, que a alma sonha acordada, o futuro, os risos, o pranto e a vida da virgem estão presos por correntes de rosas ao mistério que se revelou.

Foi o grito da natureza que soou, e que repercutiu no coração da donzela.

Mas a virgem cristã teve a educação da pureza, e tem o pudor da mulher. Desde que concebeu a idéia do amor, desde que a sentiu, ouvindo o grito da natureza, corou de si mesma.

Por que cora?... por que esconde um sentimento que a natureza inspira?... por que cora?... perguntai-lhe. Ela responderá com voz quase sumida — não sei, — há de corar mil vezes mais, respondendo.

E a virgem que não corasse por mais formosa que fosse, seria como uma flor sem perfumes, ou uma alma sem pensamentos.

Mas a virgem pretende em vão esconder o amor que amanheceu no seu coração. Ela o esconde, e ele se revela, como ainda o perfume que escapa da flor, e ainda o pensamento que transpira da alma.

Observai a moça que começa a amar. Tudo é novo nela: uma revolução se operou em seu caráter e em suas ações; o seu físico mesmo se ressente; ela se torna mais encantadora.

Estudai a expressão de seus olhos; seus olhares são vagos, rápidos, às vezes langorosos... é belo vê-la olhar assim...

Melancólica e distraída, seus antigos prazeres a afadigam; esqueceu-se deles... tem na mente um desejo novo...

Louquinha que amava as festas com seu ruído e bulício; que corria pelos prados; que brincava com as companheiras saltando, gritando, zombando; agora se esconde em seu quar­to para chorar sem motiva, e depois, no jardim, fica uma hora parada defronte de uma flor...

Isso, e ainda muito mais que não será possível descrever completamente nunca, é a história da madrugada do amor, que todas as que foram moças gozaram, e que as que o não são devem gozar ainda.

Celina começava a experimentar todos esses fenômenos. A noite de seus anos rasgara, enfim, o véu da dúvida... No fim do canto do mancebo pobre ela havia compreendido que já o amava muito; que dentro do seu coração esse amor brotara e crescera sem que fosse sentido... Cândido era amado.

Mas por que se tinha ele retirado antes da terminação do baile? por que não aparecera desde então no "Céu cor-de-rosa"?

O amor de Celina começava com tormentos. Porque também é regra que no amor uma dúvida é um tormento, uma suspeita é veneno.

Com ansiedade esperou a "Bela Órfã" pela primeira noite de serão... devia vê-lo... Cândido, se a amava, não podia faltar... havia de vir por força...

Gastou o dobro do tempo que costumava, em seu toucador. Tinha vontade de parecer ao homem que amava a mais bela de todas as mulheres.

Chegou a hora do serão. Vieram pouco a pouco chegando todos aqueles que costumavam freqüentar o "Céu cor-de-rosa".

Celina não podia arrancar os olhos da porta da entrada; por três vezes já, tinha ido à janela sob diferentes pretextos.

Apresentou-se Henrique... algum tempo depois apareceu Salustiano.

Os sinos tocaram nove horas da noite. Cândido não havia chegado.

Celina não pôde conter um forte movimento de impaciência e desagrado.

— Meu Deus! D. Celina, exclamou Felícia, o que é que hoje você tem?

— Parece que esperava por alguém que não chegou, disse Mariquinhas; ela não tem tirado os olhos da porta da sala,

— Oh! não! respondeu a "Bela Órfã"; é que hoje não estou boa... sinto um calor que parece febre; preciso respirar ar puro e livre. E dirigiu-se de novo à janela... ninguém vinha. Esperou cerca de dez minutos; mas sempre debalde.

A pobre moça sentiu então uma dor nova para ela; apertou-se-lhe o coração, como se uma mão de ferro a estivesse comprimindo com os dedos; e não podendo suportar o ruído que na sala reinava; parecendo-lhe as risadas que ouvia, os gracejos que se diziam, as músicas que se cantavam, e os olhares que lhe lançava Salustiano, um insulto feito à sua dor, aproveitou um momento de distração geral, e saindo da sala sem ser sentida, subiu para seu quarto, e atirando-se no leito, começou a chorar.

No entanto, Henrique havia oferecido o braço a Mariana, e passeavam conversando.

Chegaram-se ambos para uma janela, e vendo-se a sós Henrique falou à bela viúva:

— Minha senhora, eu precisava falar-lhe a sós sobre um objeto de grande importância para nós ambos, julgará opor­tuno este momento?...

— Posso eu dar uma sentença sobre causa que não conheço? perguntou gracejando Mariana.

— Não haverá gracejo nem puerilidade no que eu devo dizer, tornou Henrique com tom sério.

— Mas é que eu não sei sobre o que devemos tratar.

Oh!... senhora!... será possível que não adivinhe qual será o objeto de que lhe quero falar?... não lho diz o coração há seis anos?...

— Para aqueles que se amam, disse Mariana abaixando a cabeça e a voz, todos os momentos e todos os lugares são oportunos e propícios.

— Então eu falo; e depois que eu falar, é que realmente ouvirei uma sentença.

Mariana levantou os olhos e viu a expressão apaixonada e séria do semblante de Henrique.

— Eu não lembrarei o passado, disse o mancebo: é a história de uma luta desesperada entre o dever e o amor, que eu não quero recordar, porque ainda me causa terríveis angústias...

— Oh! lembremo-lo sempre!... a sua memória é doce porque não desdoura... foi um amor do espírito.

— Embora... mas se quiser, eu o lembrarei somente para dizer que esse amor que resistiu ao dever, que não morreu na ausência, é um amor que deve ser bem caro, senhora!...

— E tem ele sido mal pago, senhor?... nessa luta entre o dever e o amor, sofreria menos a mulher, para quem o amor é sempre mais ardente, e o dever era dobradamente maior?...

— E agora, senhora?... agora, que não há mais barreiras levantadas diante desse terno sentimento?...

— Agora?...

— Sim, agora?...

— Aceite como resposta, senhor, a mesma pergunta que acaba de fazer-me.

— Oh! pois bem; mas o que vemos na sociedade?... quem é que se apressa a desejar prender-se por laços sagrados?... é porventura o homem, que pode esperar dez anos sem perder na opinião dos outros homens?...

— Que quer dizer, senhor?...

— Quero dizer, minha senhora, que acreditando em suas palavras, julgando-­me feliz e amado, eu me espanto de que a mulher que me ama, e que tem a certeza de ser por mim idolatrada, livre, tão senhora de sua mão como de seus pensamentos, não se lembrasse uma só vez ainda de me estender essa mão há tantos anos desejada, dizendo-me: — ei-la aqui!

— Ah! senhor!...

— Quero dizer que tenho pensado comigo mesmo sobre a causa provável dessa frieza, e seguramente há erro em todos os meus juízos. Pensei, eu o confesso, senhora, que eu podia ter sido o objeto de uma zombaria de seis anos... que o amor, em que acreditava, era fingido...

— E teve duas vezes esse mesmo pensamento?... perguntou Mariana, deixando cair duas grossas lágrimas.

Henrique não viu felizmente as lágrimas da viúva.

— Não... não... esse pensamento duas vezes concebido seria capaz de matar-me; esse pensamento foi certamente uma loucura; mas como essa, mil outras loucuras me vieram à cabeça, e finalmente uma, que foi a pior de todas, que é horrível!...

— Mas por felicidade nossa, senhor, não passará também de uma loucura.

— Pensei, disse Henrique voltando os olhos para a sala, que havia no mundo um homem que se opunha à minha dita... e que a mulher que eu adoro, obedecia à sua voz e tre­mia debaixo de seus olhos!

Henrique encarou Mariana como querendo apanhar-lhe no rosto, no tremer convulsivo de um músculo, ou no espanto do olhar, um segredo que ela guardasse; mas apenas viu raiar nos lábios da interessante viúva o mais feiticeiro dos sorrisos.

Com serenidade, sangue frio e graça respondeu Mariana em tom alegre:

— Quando eu dizia que era ainda uma loucura!...

— Uma loucura somente?... uma quimera, e mais nada.

— Sim... sim; somente uma loucura; mas uma doce lou­cura, que me agrada, porque a sua origem me é grata.

— Deus permita que eu fosse realmente um louco!

Apesar da serenidade que afetava, a viúva sentia-se terrivelmente combatida interiormente pelas suspeitas de Henrique; a todo transe quis saber até onde tinham elas chegado.

— Porém, disse ela, para que ficar assim apenas conhecido por metade o juízo que fez a meu respeito?... arrependo-me de o haver interrompido.

— Ao contrário, senhora, fez bem em dar apressada um copo d’água ao homem morto de sede; tanto mais que o meu juízo parou aí... não pensei mais nada...

— Fala seriamente? não procurou conhecer esse homem que podia tanto em mim, nem descobrir a causa de sua admi­rável influência?...

— Não passei além do que disse.

— Oh! exclamou Mariana, Deus permita que os seus votos de amor sejam mais verdadeiros do que as suas últimas pa­lavras...

— Por que, minha senhora?...

— Porque agora não disse a verdade. O homem do qual quer falar está ali na sala... seus olhos o procuraram ainda há pouco.

— É verdade, murmurou Henrique.

Mariana corou, e disse com violência mal comprimida:

— E o senhor... o homem a quem eu distingui com o meu amor, o senhor que é um homem nobre, porque se o não fora eu o não amara, abaixou-se até o ponto de tomar para seu rival um miserável que não tem espírito nem beleza?... rebaixou-me, dando-me por amante um moço sem mérito e que eu detesto!...

— É possível...

— Oh!... eu sei amar melhor do que sou amada!...

Henrique apertava com ardor uma das mãos de Mariana; cairia a seus pés, se não pudesse ser visto por tanta gente que estava a alguns passos deles.

— Eu sei amar melhor, continuou a viúva. Porque ao menos eu não rebaixaria o homem que amo, julgando-o capaz de esquecer-me por uma mulher que não se pudesse comparar comigo!...

— Mas aquele homem por toda a parte a segue... e eu... ah! senhora, eu já disse que sou um louco.

O rosto de Mariana tomou ainda uma nova expressão fisionômica; radiou nele outra vez o prazer, e com acento gracioso respondeu:

— Quando eu digo que amo, que me é grata uma loucura assim!...

— Que contradição, meu Deus!

— Que quer?! a culpa não é minha; quando penso em levantar-me violenta e ressentida contra essa loucura, vem logo desarmar-me a imagem do louco!...

Henrique torceu as mãos apaixonadamente, e disse:

— Ah! senhora! eu quisera sentar-me em um trono para lhe dar metade dele... eu tremeria menos assim, porque o esplendor do meu diadema deslumbraria àqueles que ousas­sem erguer os olhos para aquela que se sentasse a meu lado!

— E eu, pelo contrário, respondeu a viúva com seu encantador sorriso, quisera vê-lo no fundo de um horrível abismo para descer até lá, e ir viver debaixo de seus olhos; eu então não tremeria nunca... porque nenhuma mulher quereria descer como eu e esquecer o mundo pelo abismo.

O piano tocou nesse momento os primeiros compassos de uma valsa.

— Chamam-nos! disse Mariana.

— Sim... chamam-nos... mas com suas belas palavras ficou esquecido o fim principal de nossa conversação! Sereia encantadora que o homem não deve ouvir para se não perder!...

— Ah! porém eu compreendi tudo.

— Tudo?... talvez; porém não respondeu nada.

— Eis a minha resposta, disse a viúva.

E oferecendo a Henrique sua mão direita, acrescentou, abaixando os olhos e com voz comovida:

— Ei-la aqui.

O mancebo apertou aquela mão delicada e bela com ardor e entusiasmo, e com os olhos úmidos de lágrimas de prazer, disse:

— Amanhã virei pedi-la a seu pai!

— Venha... eu o espero, respondeu a viúva.

Os dois entraram na sala ébrios de alegria e de amor.

A música viva e animadora de Strauss tinha feito voltar à sala mais alguém, que dela estava ausente.

Pouco tempo depois que Celina havia subido para seu quarto, deu Mariquinhas por falta da amiga, e adivinhando onde a acharia, correu ao segundo andar.

Quando entrou no quarto da "Bela Órfã" não pôde reter um pequeno grito de susto:

Celina estava meio deitada em seu leito, e com o rosto coberto com um lenço chorava tristemente; seus cabelos se haviam desatado e caíam-lhe espalhados sobre o lindo colo.

Escutando o grito de Mariquinhas, tirou o lenço dos olhos, e sentando-se, perguntou agitada:

— Quem é?...

— Sou eu, d. Celina, disse Mariquinhas aproximando-se; sou eu, que te venho perguntar o que querem dizer essas lágrimas.

A "Bela Órfã" passou a mão pela fronte e respondeu tristemente:

— Já te não disse que não estava boa?... é a minha cabeça que sofre.

Mariquinhas olhou para a amiga por algum tempo, e depois tornou-lhe assim:

— Sou alegre, d. Celina, tu me chamas maliciosa. d. Felícia diz que eu sou ligeira, e que não tenho juízo; mas olha, o que eu sei é que sou tua amiga.

— Eu te creio, d. Mariquinhas.

— Pois bem, sabe que compreendo alguma coisa de tua dor... não adivinho tudo, mas alguma coisa eu sei.

— Que queres dizer?

— Que não é a tua cabeça que está sofrendo.

— Então o quê?...

— É o teu coração.

— D. Mariquinhas!

— Basta! por agora nem mais uma palavra. Deixa-me arranjar teus cabelos... teremos tempo para conversar qualquer destes dias.

— Mas eu...

— Silêncio! enxuga as tuas lágrimas. Que precisão há de que saibam lá embaixo que tu choraste?... sabes?... perguntar-te-iam, ou quereriam adivinhar por quê.

A "Bela Órfã" abaixou a cabeça, e Mariquinhas começou a endireitar-lhe o cabelo.

Quando acabava esse interessante trabalho, soaram embaixo os primeiros compassos da valsa.

— Ouves?... disse Mariquinhas.

— Sim, ouço.

— Pois vamos descer.

— Para quê?...

— Para dançar

— Eu não dançarei hoje.

— Oh! tornou Mariquinhas; mas é necessário dançar, é necessário rir, é necessário fingir; porque a moça que não finge, sofre muito neste mundo que morde.

— Oh! que mundo!...

— Vamos.

— Espera; olha bem para mim; poderão descobrir nos meus olhos que eu estive chorando?...

Mariquinhas olhou de perto para Celina, foi aproximando o rosto, deu-lhe um beijo, e disse:

— Teus olhos brilham... as lágrimas estão no coração. Desceram as duas amigas

Quando, deixando a janela em que haviam conversado, Mariana e Henrique tornavam à sala, Celina e Mariquinhas apareciam também.

Eram dois amores que entravam ao mesmo tempo: o primeiro trazia a esperança nos olhos, e o segundo um tormento no coração.