Os Dois Amores/XXIV

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Os Dois Amores por Joaquim Manuel de Macedo
Capítulo XXIV: A moça e o velho


O viver da "Bela Órfã" estava sofrendo notáveis mo­dificações.

Desde que Cândido deixara de aparecer no "Céu cor-de-rosa", tornou-se mais constante e profunda a melancolia da moça.

De ordinário escondida no seu quarto, Celina comparava seus curtos dias de um amor nascente, com aqueles que es­tava passando de ansiedade e de dúvida, e conseqüentemente misturava saudades com lágrimas.

Os pesares desta ordem são mil vezes mais fortes e cruéis na mulher do que no homem, porque a sociedade impõe à mulher o dever de calar, e o homem pode sem corar desaba­far-se contando-os, derramando-os na alma de um amigo. Ela portanto concentra a sua dor, revolve-se nela, devora-a em silêncio, o que dói mais certamente.

Sucedia isso a Celina. Apesar da amizade com que sua tia a tratava, não podia a moça esquecer-se da diferença de idade que havia entre ela e Mariana, e por isso, ainda quando pretendesse confiar a alguém os seus pesares, não se animaria nunca a escolher a viúva para confidente.

Em resultado a "Bela Órfã" fugia de tudo e de todos para viver com seu segredo, para pensar somente nesse amor que tão sem sentir lhe nascera no peito.

Todos os seus antigos e mais preferidos entretenimentos estavam esquecidos. O piano não mais se abria, as músicas descansavam, os livros tinham sido aborrecidos; porque também às vezes a pobrezinha, pretendendo vencer-se, tomava um romance, lia uma página inteira, e no fim dela, conhecia que lhe era preciso ler outra vez, porque sua atenção se distraíra, mas a leitura se repetia uma e dez vezes e o resultado era sempre o mesmo. Lia apenas com os olhos... com o pensamento não podia.

Era melhor não ler.

Um único de seus antigos costumes conservou intacto: ao romper da aurora ia sempre ao seu jardinzinho colher um botão de rosa... quem sabe se ele a observava oculto atrás da janela?

Era sempre uma esperança a de ser vista assim tão abatida e tão triste.

Até o velho Rodrigues perdera com as mudanças do viver da "Bela Órfã"; as sestas não se renovaram mais. E ele nem ouvia a doce voz de Celina, nem podia, acompanhado por ela, entoar suas baladas e antigos romances.

Foi indo assim a moça admirada de que ninguém, nem seu avô, nem sua tia, dissesse uma só palavra notando a ausência de Cândido, até que chegou a noite do segundo serão, depois da de seus anos.

O moço do "Purgatório-trigueiro" faltou a esse, como tinha faltado ao primeiro.

A aflição da "Bela Órfã" subiu de ponto. Ela conheceu que já tinha lágrimas que derramava em segredo, para es­vaziá-lo; conheceu que lhe era absolutamente preciso, para ser consolada, falar a preço mesmo do que sofreria seu pudor de virgem.

Lembrou-se de uma sua amiga.

No fim do serão chamou Mariquinhas de parte, e disse-lhe:

— D. Mariquinhas, no último serão você me havia dito que teríamos tempo de conversar sobre alguma coisa, em qualquer dos dias que se seguissem...

— Ah! é verdade, respondeu a amiga.

— Então?

— Eu pedirei a meu pai que me deixe vir passar um dia contigo, d. Celina.

— Olha, depois de amanhã é domingo.

— Pois sim.

— Queres que eu peça a teu pai?...

— Não... ele me estima muito para me negar esse prazer.

— Então eu te espero...

— Depois de amanhã.

As duas amigas separaram-se.

No dia seguinte, e na hora em que a "Bela Órfã" tinha por costume ir cantar, e ouvir o velho Rodrigues, estava Celina encerrada em seu quarto e toda entregue a suas meditações.

— É-me preciso falar, pensava ela: não se pode viver assim em silêncio com a alma cheia de angústias, e condenada a não soltar um só gemido. Os homens têm o direito de chorar bem alto!... quando se diz o que se está padecendo, parece que o mal abranda um pouco...

Ela pensou alguns instantes, e prosseguiu:

— Seguramente aqueles que escrevem, os poetas em primeiro lugar, devem achar bastante consolação escrevendo. Esses sim, não têm necessidade de um seio onde depositem os seus pensamentos, seus segredos e suas dores; eles têm uma amiga fiel e mais condescendente que nenhuma outra na sua pena; quando sofrem, escrevem, dizem o que têm no coração; exaltam-se, eternizam suas penas, suas desgraças, e nessa mesma eternidade acham um grande lenitivo para sua dor. Um poeta!... se ele ama, ele o diz nos seus livros, faz do que se passa em sua alma um romance; está dizendo que ama e a quem ama à face do mundo inteiro, e ninguém compreende o belo segredo que está derramado em todas as páginas de seu livro senão a pessoa que ele quer que compreenda!... oh!... se eu fora poetisa!

E prosseguiu ainda:

— Um poeta! um homem excepcional... o gênio tem por força em si alguma coisa de divino; assim como o oceano é no universo o que poderia dar a idéia do infinito, se a idéia do infinito se pudesse dar; o poeta arremedaria o poder da divindade, se esse poder chegasse a ser arremedado. Porque o poeta cria também o seu mundo, o seu universo; levanta palácios e abre cavernas; desprende as tempestades e faz belas auroras... oh!... que riqueza há aí tão rica como a imaginação de um poeta!... oh! se eu fosse poetisa!...

Respirou alguns instantes, e continuou:

— Se eu fosse poetisa... não precisava tanto, se eu pudesse ao menos escrever algumas páginas, que eu mesma não me fatigasse, lendo-as, ao chegar ao fim da primeira... oh!... que felicidade!... eu havia de pintar o estado do meu coração... exalar meus tormentos e minhas saudades nas páginas do meu livro... escreveria com lágrimas; porém depois, que consolação!... eu beijaria minha alma nas minhas letras, beijaria meus olhos nas minhas lágrimas...

Celina hesitou um momento, e depois disse:

— Quem sabe?...

Ficou pensando ainda:

— Não... não eu não escreveria nada que merecesse ser lido... iria descorar o quadro que existe traçado no meu pensamento... mas em suma, ninguém havia de ler o que eu escrevesse... era um livro que depois de acabado eu lançaria no fogo... oh!... se eu pudesse escrever...

Ela tornou a hesitar e depois disse como da primeira vez:

— Quem sabe?!...]

A moça pensou ainda... parecia lutar entre um grande, um nobre desejo, e um receio, que, apesar de pueril, podia muito no seu ânimo. Enfim o nobre desejo triunfou.

A "Bela Órfã" ergueu-se do leito onde estava recostada, foi primeiro observar se sua tia estava no quarto vizinho... Mariana dormia.

Tomou então todas as disposições para escrever, e sentando-se junto de uma mesa, começou a trabalhar.

O fruto das inspirações daquela virgem de dezesseis anos devia ser cheio de pensamentos inocentes e puros: era talvez como uma flor que derrama na solidão perfumes agradáveis e leves.

Ao terminar a primeira página, a "Bela Órfã" parou de repente ouvindo a voz do velho Rodrigues.

O guarda-portão do "Céu cor-de-rosa" cantava, sem dúvida no fundo do alpendre, um romance já conhecido de Celina.

"Era um dia um mancebo que ardente

"Pobre vida esquecido vivia,

"E uma virgem formosa, inocente,

"Que outra igual não se viu, não se via.

"Quem separa o ardor da beleza?...

"Um abismo fatal: — a pobreza."

O velho Rodrigues parou no fim da primeira estrofe do romance.

Celina, que havia interrompido o seu belo trabalho para ouvir a voz do guarda-portão esperou debalde que ele pros­seguisse, durante algum tempo.

Supondo, enfim, que o velho Rodrigues não prosseguiria em seu canto, tomou outra vez a pena, quando a voz de novo se fez ouvir:

"O mancebo a donzela adorava ....

"Quem o sabe!... ninguém dele ouviu.

"Em seu peito esse amor sepultava,

"Se o amor em seu peito nutriu,

"E se amava, era triste esse amar;

"Era um mudo e terrível penar."

O canto, como antes sucedera, parou no fim da estrofe.

— Que quererá isto dizer? perguntou a si mesma a "Bela Órfã", por que é que o velho Rodrigues canta e se suspende no fim de cada estrofe?... esta é a hora em que mutuamente nos fazíamos ouvir. Quererá ele assim lembrar-me o que tenho esquecido?... mas por que escolheu, para chamar-me, o romance que exprime um segredo do meu coração?...

A voz fez-se ouvir pela terceira vez. Celina ergueu-se meio agitada.

O guarda-portão do "Céu cor-de-rosa" prosseguindo no seu canto, saltou pela terceira estrofe do romance, e cantava a quarta:

"O que é feito da virgem, do pobre?...

"Quando o dia voltar to direi;

"Negro manto da noite nos cobre.

"Ela dorme... mas ele... não sei.

"E’ na terra das trevas o véu;

"Vagam sonhos... mistérios do céu."

A voz parou como até então fizera, e a "Bela Órfã", guardando apressadamente os seus papéis, saiu do quarto, desceu a escada, e entrou na sala.

Não havia ninguém aí.

Celina sentou-se ao piano, e começou a tocar uma música terna e melancólica.

O velho Rodrigues apareceu à porta da sala, e aproximou-se com seu andar vagaroso.

— Tinha-se esquecido de mim, senhora, disse ele.

A moça abaixou a cabeça, e respondeu:

— Tenho passado mal.

— Está doente?...

— Não estou boa.

— Acha-se hoje melhor?

— Não.

— Talvez que nesse caso possa a música incomodá-la.

— Ao contrário.

— Quer cantar?...

— Não; quero ouvir.

— Escolha o que quiser, senhora.

A moça hesitou; mas enfim respondeu com a cabeça baixa:

— O mesmo romance que estava cantando há pouco.

O velho Rodrigues começou de novo a cantar o "Sonho da Virgem".

Quando o canto terminou, a "Bela Órfã" deixou cair a cabeça, e ficou pensativa.

Depois de algum tempo de silêncio, o velho perguntou:

— Por que está triste assim?

— Não sei; respondeu a moça.

— Faz-lhe mal ouvir este romance?

— Não; faz-me bem.

— Mas essa tristeza deve ter forçosamente uma causa... qual é ela?...

— Eu não sei, tornou a moça enxugando uma lágrima.

O velho fingiu não ver essa lágrima, e prosseguiu dizendo:

— Parece que a melancolia é a moléstia reinante da qua­dra atual.

— Por quê?...

— Tenho um bom amigo padecendo do mesmo mal.

A moça não disse nada.

— Um bom amigo, que a senhora também conhece.

— Quem é ele?

— O sr. Cândido.

Celina olhou espantada para o guarda-portão, mas para logo abaixou os olhos rubra de pejo.

O velho deixou que a "Bela Órfã" serenasse, e depois con­tinuou:

— É um bom moço aquele sr. Cândido.

A moça não respondeu.

— Não pensa como eu? perguntou o velho.

— Penso, murmurou Celina.

— Pois o infeliz moço anda agora bem triste; e desgraçadamente com razão.

A "Bela Órfã" fez um leve movimento.

— Incomodo-a, senhora?

— Não.

— Dizia pois que o sr. Cândido tinha bastante razão para andar triste... ofenderam-no gravemente...

— Sinto isso, balbuciou a moça.

— E há de sentir mais quando souber que se serviram do seu nome para ofendê-lo...

— Do meu nome?... disse a moça estremecendo, e levantando ao mesmo tempo a cabeça.

— Do seu nome, repetiu o velho.

— E como? e por quê? eu não sei, eu não suspeito coisa alguma...

— Estou certo disso, senhora; mas o fato é grave, e eu não sei se cometo uma imprudência falando-lhe desse assunto.

— Não, não, fale; eu lhe peço que fale.

— Pois bem, eis aqui o que se passou: o sr. Cândido foi política, mas formalmente despedido desta casa.

— Quando?... exclamou com traidora comoção a "Bela Órfã".

— Na noite de seus anos.

— E por quê?

— Por sua causa.

— Por minha causa?... meu Deus!... disse a moça com lágrimas nos olhos.

— Sim, minha senhora: sua tia teve com o sr. Cândido uma entrevista no jardim; quer saber o que ela disse? que nesta sala zombava-se da senhora, dizendo-se que a senhora e o pobre mancebo se amavam...

— É falso!.. isso não é verdade.

— E que em conseqüência dessas zombarias fora a senhora queixar-se a ela de que seu nome estava exposto às calúnias e à maledicência por causa do sr. Cândido.

— Meu Deus! Meu Deus!...

— Que a senhora fizera notar que esse mancebo, apesar de suas boas qualidades, não estava pelo estado de pobreza em que se acha, na posição de pretendê-la.

— Oh! mas eu não disse nada.

— E finalmente, senhora, sua tia fez compreender ao pobre moço que a presença dele no "Céu cor-de-rosa" tornava-se incômoda e prejudicial à senhora.

— E ele?... perguntou Celina.

— Retirou-se, e não voltará mais nunca ao "Céu cor-de-rosa".

— Acreditou em tudo?!

— Como não acreditar, senhora?!...

— Oh! e me detesta!... e julga mal de mim!...

— Não! não; ele ainda não soltou uma só queixa.

— E como sabe o senhor de tudo isto?...

— Eu estava no jardim, ou perto dele. Estava em um lu­gar onde podia e pude observar quanto se passou.

— Oh! e então por que não jurou, por que não disse a esse mancebo que era falso tudo isso que avançaram contra mim?...

— Eu lho disse, senhora.

— E ele?

— Não quis crer-me.

— Sim! sim! e tinha razão; exclamou por entre lágrimas a "Bela Órfã"; tinha muita razão!... quem poderia suspeitar que minha tia levantasse contra mim uma tão grande calúnia?! que quer dizer isto, meu Deus?... que mal tenho eu feito?... que significa esta intriga?... oh! e que juízo estará fazendo de mim esse nobre moço? como não terá ele amaldiçoado a hora em que pela primeira vez me viu?!

— Não, tornou o velho; ele não há de amaldiçoá-la nunca.

— Minha cabeça arde, disse a moça sem atender ao guarda-portão: eu me perco... eu não sei o que faça; mas é terrível que eu deixe assim vingar uma intriga... uma calúnia que me desdoura!... não, não é possível.

E voltando-se para o velho tomou-lhe uma das mãos, e apertando-a prosseguiu:

— Sr. Rodrigues, eu devo-lhe amizade; sei que me estima; não consinta pois que tão injustamente estejam talvez praguejando contra mim. Eu sou uma pobre criança... devo fazer loucuras... mas nunca me lembrei de dizer o que disseram que eu disse. Vá, escute; se não julga haver nisso inconveniente, vá ter com esse moço, e diga-lhe da minha parte...

A virgem parou subitamente... cobriu-se-lhe o rosto de uma cor rubra, e ela estremeceu...

— Dizer-lhe o quê?... perguntou o velho.

— Nada! não lhe diga nada! tornou a "Bela Órfã" com tristeza profunda.

O guarda-portão ficou olhando admirado para Celina.

— Desculpe-me, disse depois a moça: uma calúnia deve ter bastante força para exaltar sua vítima, como eu há pouco me exaltei.

— E aquele pobre moço?...

— Saberá um dia a verdade, no entanto não posso esquecer-me do que devo à minha educação. Uma coisa só tenho direito de fazer..

— O quê?...

— Queixar-me-ei a meu avô, mesmo na presença de minha tia.

O rosto de Celina tinha tomado um tal aspecto de nobreza, sua voz um timbre tão forte, o seu olhar tanto fogo, que o velho Rodrigues esteve durante muito tempo olhando para ela sem dizer palavra

— Perdoe-me, senhora, disse ele enfim; mas eu creio que não vai bem pelo caminho que pretende seguir.

— Por quê?... perguntou ela com voz firme.

— Porque, se há intriga como supõe, é um erro expor-se a ela com essa franqueza que a caracteriza. Os que intrigam trabalham sob o manto da noite, e para triunfar deles não basta a inocência, é necessária também a prudência. Senhora, não diga coisa alguma a seu avô, nem se atraiçoe diante de sua tia.

— Que devo pois fazer?... perguntou a moça olhando admirada para o velho.

— Guardar silêncio, respondeu este.

— Silêncio?... e até quando?...

— Eu lho direi. No entanto anime-se com a certeza de que tem amigos que velam por ele... pela senhora...

E o velho acrescentou com voz insinuante:

— E que velam sobretudo pelo seu amor.

— Senhor...

— É inútil fingir comigo... eu sei tudo.

A moça cobriu o rosto com as mãos, envergonhada e sen­tida.

E o velho deixou a sala, cantarolando por entre os dentes o romance "Sonho da Virgem":

"Era um dia um mancebo, que ardente..."