Os Fidalgos da Casa Mourisca/II

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Os Fidalgos da Casa Mourisca por Júlio Dinis
Capítulo 2


II

Por uma manhã de setembro, limpida e serena, como ás vezes são na nossa terra as manhãs do outomno, Jorge sahiu a pé, a passear pelos campos. Errou ao acaso por bouças e tapadas, seguiu a estreita vereda a custo cedida ao transito pela sôfrega cultura nas terras marginaes do pequeno rio da aldeia. Depois, subindo a uma eminencia, parou a contemplar do alto o aspecto do feracissimo valle, que suavemente se lhe abatia aos pés, e no fundo do qual se erguia, d'entre veigas e pomares, a Herdade, de que já fallamos.

Jorge sentou-se sobre uma d'essas enormes moles de granito, que se encontram com frequencia em certos logares da provincia, soltas pelos montes, como se fossem roladas para alli em remotas eras por mãos de fundibularios gigantes, empenhados em encarniçada lucta. Os olhos dirigiram-se-lhe instinctivamente para a Herdade, onde se fixaram, como se com força irresistivel os attrahisse o espectaculo que via.

Era a época de mais intensa vida nas granjas. Os cereaes, cobrindo as eiras, lourejavam aos raios desanuviados do sol; carros, a vergarem sob o fardo das colheitas, transpunham lentos as portas patentes do quinteiro, chiando estridorosamente; apinhavam-se além em montes as cannas e o folhelho de milho, restos de recentes descamisadas; longas series de mêdas elevavam-se mais longe, á maneira de tendas em um arraial de campanha; juntas de bois, já livres do jugo, repousavam das fadigas d'aquelles dias de azafama, ruminando em socego; os moços da lavoura iam e vinham, atarefados em diversos misteres; e de tudo isto erguia-se um clamor de trabalho, que o socego dos campos e a serenidade do dia deixavam chegar distincto até o alto da collina.

O dono da Herdade, o antigo criado da Casa Mourisca, presidia áquellas tarefas, e em volta d'elle moviam-se, saltavam e riam duas ou tres robustas crianças, com quem brincava um formidavel rafeiro.

E era esta a scena que Jorge contemplava, e que em tão profundas meditações parecia absorvêl-o. De repente distrahiu-o o som dos passos de alguem que se aproximava d'aquelle mesmo logar, em que tão desapercebidamente lhe ia correndo a manhã.

Voltando-se, viu seu irmão Mauricio, que em traje rigoroso e competentes petrechos de caça, e com a esmerada elegancia e apuro, que lhe eram habituaes, subia a collina, precedido de dois ou tres cães de boa raça, que de longe descobriram Jorge e correram para elle, afagando-o, com latidos e cabriolas.

Mauricio, assim avisado e conduzido pelos cães, veio ter com o irmão, exclamando jovialmente á distancia de alguns passos:

--Em flagrante delicto de meditação poetica, o snr. Jorge! Bravo! Já não desespero de te vêr um dia fazer versos.

Jorge respondeu, encolhendo os hombros:

--Quem se senta no alto de um monte, depois de subir toda a encosta d'elle sem parar, póde fazêl-o simplesmente com o prosaico intento de tomar fôlego. Se isto fosse symptoma de poesia, então...

--Pois sim, mas já isso de subir o monte com as mãos vazias, como estás, sem uma espingarda que revele um razoavel fim no passeio, é um symptoma importante. Quem é que se dá ao incommodo de uma ascensão d'essas, quando o gozo da perspectiva que espera encontrar lhe não compensa as fadigas? E quem tem d'essas compensações senão os poetas, que são os unicos que sabem ce qu'on entend sur la montagne?

     Avez vous quelque fois, calme et silencieux,
     Monté sur la montagne en presence des cieux?

E, a recitar os primeiros versos da poesia alludida, sentava-se ao lado do irmão, pousava a espingarda, e descobrindo a cabeça, sacudia aos ventos os formosos e bastos cabellos castanhos, objecto de muitos cuidados seus.

Os cães andavam inquietos a farejar por entre as urzes e as tojeiras do monte.

Interrompendo de subito a recitação, Mauricio proseguiu:

-Mas que teima a tua em te mostrares frio ante estas magnificencias! Que escrupulos póde haver em declarar isto tudo admiravel? Repara como é bem talhado aquelle córte além, no monte; parece feito de proposito para deixar vêr no plano posterior aquella povoação distante, que não sei que nome tem. E alli o campanario, com a sua alameda? Quem teria a feliz inspiração de o assentar tão bem? Onde é que elle ficaria melhor? Parece que andou um gosto de artista a dirigir estas coisas.

E acrescentou, suspirando:

-Ai, na aldeia o scenario bem está, pouco tem que se lhe diga; mas os actores e a comedia que aqui se representa é que são de uma insipidez!

Os instinctos urbanos de Mauricio, cuja indole mal se accommodava á simplicidade campesina, e o fazia suspirar pela vida das capitaes, arrancavam-lhe frequentemente d'estas exclamações.

Jorge, que escutára o irmão sob uma meia distracção e sem desviar os olhos da Herdade, replicou-lhe sorrindo:

-Ha quasi uma hora que estou aqui, e posso jurar-te que não tinha notado uma só d'essas particularidades da paisagem que descreves.

-Gostas mais da contemplação em globo. Até isso é de poeta. Analysar minuciosamente as impressões recebidas não é o seu forte.

-Enganas-te ainda; não era tambem o conjuncto da paisagem que eu observava; mas um ponto limitado d'ella, muito limitado.

-Qual era então?

-Olha alli para baixo; a Herdade de Thomé, aquella azafama, aquella gente toda a trabalhar, a vida que alli vae! -Ora adeus!-exclamou Mauricio-é justamente o que me não roubaria um momento de attenção. Não te estou a dizer que para mim o que ha de insupportavel no campo é a gente que o habita, a vida que n'elle se passa? Faz pena vêr que especie de contempladores tem a natureza para estas maravilhas. A indifferença com que estes selvagens encaram tudo isto! Repara, vê aquelle labrego passar lá em baixo na ponte; olha lá se elle desvia a cabeça para algum dos lados, ou se pára um momento para gozar do bello espectaculo que d'alli observa. Olha para aquillo! Selvagem! Pergunta ao Thomé ou a toda essa gente que lá anda em baixo a trabalhar quantas vezes admiraram as bellezas de uma noite de luar, vista do alto do oiteiro pequeno, ou se o pôr do sol lhes produz alguma sensação na alma, a não ser a lembrança de que vão sendo horas da ceia.

Jorge sorria ao ouvir o irmão, e tornou placidamente:

-Que homem este! A poesia precisa de ter quem a entenda e quem a faça; e olha que nem sempre os que a entendem a fazem, nem os que a fazem a entendem. Esta pobre gente do campo é uma parte integrante d'elle; não o contemplam, completam-n'o. Que querias tu? Gostavas talvez mais de que em vez d'essa gente indifferente, que trabalha, estivessem por ahi os montes, os valles e as ribeiras povoados de poetas contempladores como tu? Deves confessar que seria um campo bem ridiculo esse. Se eu até, para que te diga a verdade, estou persuadido de que não encontraria encantos nos logares muito visitados, que ha por as quatro partes do mundo, onde, a cada momento, apreciadores inglezes, francezes, russos e allemães passeiam, soltando exclamações polyglotas, e onde o nosso enthusiasmo nos é prescripto a paginas tantas do GUIA DO VIAJANTE. O que torna os lavradores poeticos é a inconsciencia com que elles o são.

-Vistos de longe. Pelo menos concorda n'isto; vistos de longe, e de muito longe.

-Vistos de longe, sim, que duvida? como tudo o mais. Ao perto tambem muitos d'esses prados são pantanos mal cheirosos, que infectam, e mexe-se uma miryada de insectos repugnantes n'essa verdura que tanto admiras. Dize - me uma coisa, Mauricio, parece - te que o nosso velho solar prejudica a belleza d'esta paisagem?

- Se prejudica? Ora essa! Adorna - a. Olha que bem que elle sahe d'aquelle fundo que lhe fazem os castanheiros!

- Muito bem, e comtudo, visto de perto, ha lá tristes e prosaicas realidades - observou Jorge, suspirando.

Ao olhar de estranheza, com que, ao ouvir - lhe estas palavras, o irmão o fitou, Jorge correspondeu, dizendo:

- Sim, Mauricio, triste e prosaica realidade para quem o olhar de perto. Ha nada mais triste do que aquelles campos invadidos pelas ortigas, que nós lá temos, do que aquelles pomares mal tractados, e aquelles celleiros em ruinas? Quererás encontrar poesia na nossa pobreza, Mauricio?

- Pobreza?!

- Pobreza, sim; pois que nome lhe queres dar? Olha, compara o aspecto d'essa casa branca de um andar, que ahi fica em baixo, com o do nosso paço acastellado, a actividade d'aquelles homens com a somnolencia chronica do nosso capellão; compara ainda, Mauricio, compara a desafogada alegria de Thomé com a tristeza sem conforto do nosso pae.

Mauricio curvou a cabeça, e uma como sombra de tristeza parou - lhe algum tempo na fronte, habitualmente desanuviada. Dir - se - ia que pela primeira vez o vulto descarnado da realidade se lhe apresentava aos olhos, até então fascinados pelo fulgor de lisongeiras illusões.

Mas, depois de breves instantes de silencio, respondeu ao irmão:

- Pois bem, será como dizes. Creio até que seja essa a verdade. A riqueza está alli, a pobreza do nosso lado; porém a poesia... oh! essa deixa - nol - a ficar, que bem sabes que não é ella a habitual companheira da opulencia.

- Da opulencia ociosa, egoista e inutil, de certo que não; mas da opulencia activa, benefica, que semeia, que transmitte a vida em volta de si, da opulencia que fomenta o trabalho, que cultiva os terrenos maninhos, que fertilisa a terra esteril, que sustenta, que educa e civilisa o povo, oh! d'essa é a poesia companheira tambem. Se o castello arruinado tem poesia bastante para fazer correr lagrimas de saudade; a granja, activa e prospera, tem - n'a de sobra para as provocar de enthusiasmo e de fé no futuro.

Mauricio ficou outra vez silencioso; depois, como se pretendesse sacudir de si as ideias negras evocadas pelas palavras do irmão, exclamou erguendo - se e com affectado estouvamento:

- Estás enganado, Jorge, o que reina alli em baixo não é a poesia, é... é... é a economia. A poesia não assiste ao edificio que se levanta, mas ao que se arruina; gosta mais dos musgos, do que da cal; do lado do passado é que a encontras, melancolica, que é o ar que lhe convém. E ella tem razão; o futuro tem muita vida para precisar do prestigio poetico. A poesia dos utilitarios! Com o que tu me vens! Não sei quem foi que ha tempos me disse ter lido uma noticia curiosa a respeito da Inglaterra. Parece que o espirito industrial e economico d'aquella gente vae por lá destruindo as florestas, as matas, as sebes vivas, o que emmudecerá dentro em pouco os córos das aves; os rebanhos, que d'antes pastavam pelas campinas verdes, hoje já prosaicamente se vão engordando nos estabulos! Que mais falta? A voz dos camponezes, as cantigas e as musicas ruraes hão de calar - se ao ruido do ranger das machinas e do silvo do vapor. Admiravel! Em vez do fumo alvo e tenue das choças ficará o céo coberto de fumo negro e espesso do carvão de pedra. Que modelo de aldeia o que nos vem da Inglaterra! Na verdade! que poesia!

- No que tu me vens fallar! Na Inglaterra agricola! - acudiu Jorge - Mas antes lá é que bem se comprehende a poesia da vida rural, que até a nobreza a não despreza. Sempre ouvi dizer que os senhores das terras e os rendeiros fraternisam e auxiliam - se mutuamente, e que os trabalhos do anno succedem - se entre festas e solemnidades populares, lucrando todos, trabalhando todos, e enriquecendo cada vez mais a terra. Deves confessar que ha mais poesia nos dominios senhoris dos lords de Inglaterra, que dirigem por si mesmos as suas vastas emprezas agricolas, do que nos pardieiros em ruinas dos nossos morgados, em cujas velhas salas dormem os proprietarios o somno da ignorancia, da inutilidade e da devassidão.

- Não o nego, mas... na nossa casa, naquella triste Casa Mourisca, ha um quê de poesia, de poesia elegiaca, se assim quizeres. Essa de que fallas será a poesia das georgicas; mas a da elegia deixa - m'a ficar.

- O peior, Mauricio, é que um dia virá talvez em que o tremendo prosaismo da completa miseria dissipará esse tenue perfume que dizes.

- Safa! Estás hoje com uns humores de Cassandra, Jorge! Deixa lá; lembra-te de que se diz que nas nossas propriedades ha um thesouro escondido desde o tempo dos mouros, e que um dia alguem de nossa familia o achará, ficando fabulosamente rico. Que essa esperança dissipe o humor negro que tens. Vamos, vem d'ahi. Pega n'esta espingarda e vae caçar. É bom para dissipar visões.

- Não estou hoje para caçar.

- Então vaes reatar aqui o fio das tuas cogitações?

- Não, vou reatal - o acolá.

- Vaes á Herdade?!

- Vou.

- Fazer o quê?

- Vêr de mais perto aquella poesia, ou aquella prosa, como quizeres.

- Sabes que o pae não gosta que lidemos muito de perto com o Thomé?

- Sei. É um preconceito. Elle não o saberá.

- Um preconceito! Bom! Estás hoje muito philosopho. Adeus, Jorge; espero vêr-te ao jantar de melhor aspecto.

- Adeus, Mauricio.

E os dois irmãos separaram-se. Mauricio, precedido pelos cães, seguiu em direcção dos montes, cantando. Jorge desceu a collina e caminhou para a Herdade.