Os Filhos do Padre Anselmo/XXVIII

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Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XXVIII: Coração morto


Helena de Noronha, a instancias de madre Paula e de D. Aurelia, consentiu em receber a visita de Julio de Montarroyo.

O encontro d'estes dois desgraçados, depois de tantos annos d'ausencia, foi tudo quanto póde imaginar-se de mais simples e de mais tocante.

Elle, um velho quasi demente, ella, moribunda, quasi um cadaver.

O que vivia n'elles ainda era a reminiscencia de tempos passados, era a amarga lembrança de uma mocidade distante, que nem um nem outro puderam gozar na plenitude da ventura que sonharam.

No fundo de seus corações, estava gravada a imagem de cada um d'elles. Julio de Montarroyo, nas evocações da sua amada, não via a pobre e andrajosa creatura de face cadaverica, que o mestre Tomba encontrara exangue no seu caminho: via a gentilissima e encantadora noviça que, no convento do Sardão, proferira os sagrados votos, envolta n'uma nuvem de incenso, entre o resplendor das luzes e os canticos das religiosas suas companheiras de fé e martyrio. Ella, pela sua parte, quando volvia os olhos ao passado e proferia o nome de Julio, era sempre a imagem do louro e gracioso mancebo da Serra do Carvalho que via reflectir-se na sua retina de allucinada.

E assim se amaram e se viram com os olhos da alma no longo precurso dos dezoito annos decorridos.

Nem um nem outro jámais havia pensado que o tempo, na sua marcha destruidora, pudesse ter roubado a frescura e a gentileza áquelles rostos que mutuamente se reviam nas horas tristes de uma ausencia crudelissima.

Foi, pois, com um mixto de surpresa e de doloroso espanto que os dois se encararam, quasi sem se reconhecerem.

Julio de Montarroyo recuara um passo aterrado diante d'aquella moribunda que, com os olhos desmesuradamente abertos e os labios como que a reprimirem um grito de surpresa, o observava apavorada.

— Não esperava encontrar-me tão velho, não é verdade, Helena de Noronha?

— Diga antes, meu amigo — volveu-lhe Helena — que não esperava tornar a vêl-o n'este mundo... Pensava ir esperal-o na outra patria... na patria dos grandes desgraçados, onde as dôres acabam e a ventura começa... Seria melhor para si... poupal-o-hia ao doloroso espectaculo que está presenceando... Procurava Helena de Noronha e encontra um cadaver, não é assim?

Julio aproximou-se do leito, tomou a mão descarnada da pobre Helena e, levando-a aos labios com piedoso respeito, apenas pôde murmurar:

— Ha dezoito annos que a procuro, Helena... ha dezoito annos que a sua imagem occupa constantemente o meu pensamento, que o seu nome é a oração unica que meus labios sabem proferir. Posso agora morrer, pois que a encontrei viva para lhe dizer que não a esqueci, que, fiel ao amor que lhe jurei, gastei a mocidade e a vida, percorrendo o mundo em sua procura.

— Pobre amigo! — murmurou Helena com as lagrimas a bailarem-lhe nos olhos — Era digno de melhor sorte! Eu fui a sua má estrella... Era fatal que todos os que se aproximassem de mim fossem infelizes! E todavia, Deus sabe que nunca pratiquei o mal pelo mal... Aquelles que eu mais amei foram aquelles que mais fiz soffrer... Perdôe-me, Julio! perdoe-me e creia — agora posso dizer-lh'o, porque me sinto já bafejada pelo sopro gelido da morte — creia que foi o unico homem que fez palpitar o meu pobre coração de mulher...

— Se isso era assim, porque não veio, Helena, porque não veio quando a chamei, quando a instei a que abandonasse o convento e viesse salvar seu pobre pae? Que desgraças teria poupado, minha pobre amiga!

— Não podia... não podia!... Era impossivel sahir d'aquelle inferno em semelhante occasião... Ah! se soubesse que horriveis laços me prendiam ao poste de martyrio em que eu agonisava, decerto não me lançaria agora em rosto a minha recusa!

— Deus me livre de a accusar, Helena! Amo-a muito para que pense em dirigir-lhe a menor censura, o mais leve queixume...

— Ama-me, diz! Deve amar-me como se amam os mortos... com a saudade e o luto no coração, porque eu, meu amigo, não sou mais que um cadaver.

Julio de Montarroyo abeirou-se do leito, tomou-lhe a mão, que levou aos labios respeitosamente exclamando:

— Não falle em morrer, minha amiga! Deus, que permittiu que nos tornassemos a vêr, ha de tambem permittir que resurja para a vida e para a felicidade...

— Não, não... É inutil toda a esperança. Deus é bom, Deus é justo e misericordioso; e se consentiu que o meu amigo ainda me encontrasse viva, foi unicamente para que pudesse ouvir dos meus labios esta confissão sincera e franca do meu amôr: Amei-o, Julio de Montarroyo... amei-o, para maior desgraça e castigo meu!... Se esta declaração feita á beira do tumulo póde servir-lhe de algum lenitivo... receba-a como a sincera expressão de uma alma que passou no mundo incomprehendida...

— Helena! fossem quaes fossem os motivos que a impediram de salvar seu pobre pae, quando eu anciosamente lh'o supplicava; fossem quaes fossem as rasões que a levaram a faltar á sua promessa de me dar noticias suas em Paris, tudo respeito e tudo dou por justo e bem cumprido; mas, por Deus lh'o peço! reanime-se, ganhe novos alentos e triumphe da doença e da morte para me conceder, ao menos no ultimo quartel da minha desgraçada existencia, a esmola bemdita da sua presença!

— Que não cumpri a promessa de lhe dar noticias minhas em Paris? — balbuciou Helena fazendo visiveis esforços para se recordar — Não tenho a minima ideia de alguma vez ter sabido que o senhor estaria em Paris.

— Pois não me escreveu uma carta dizendo-me que partia para lá e convidando-me a que a seguisse á capital de França e ahi aguardasse noticias suas?

— Nunca lhe escrevi tal carta! — bradou Helena surprehendida.

— Todavia, eu recebi uma carta sua, com a sua letra e a sua assignatura a dar-me parte da sua ida para França e a pedir-me que a seguisse... Não foi realmente para Paris?

— Nunca sahi do reino! Essa carta é mais uma infamia do miseravel que me perdeu!

— A letra, porém, era de tal modo semelhante á sua que a tomei como verdadeira, e parti immediatamente, na ancia de cumprir as suas ordens!

— Meu pobre amigo! Como esse maldito padre abusou da sua boa fé!

— Esperei-a pacientemente, durante, muitos mezes no Hotel das Nações, aonde ficara de me mandar noticias. Como, porém, a minha espectativa fosse baldada, resolvi-me a procural-a por todos os conventos e casas religiosas da França; e não a encontrando, passei á Hespanha, á Italia, á Africa, ao Brasil, a toda a parte, emfim, onde a negra milicia exerce as suas hypocritas manobras, sempre sem poder achar o menor vestigio da sua passagem, minha pobre amiga! Bem sabia que o meu projecto de a encontrar por semelhante modo era uma loucura irrealisavel. Mas emquanto a procurava, vivia da esperança de a encontrar, a sua imagem estava presente sempre ao meu espirito, o seu nome era o meu constante pensamento... Perdidos dezeseis annos de vida n'estas investigações sem resultado, cheguei a convencer-me de que estava morta; e então, não podendo alimentar-me mais da esperança de a tornar a vêr, quiz ao menos cercar-me de tudo quanto fosse uma recordação sua, e comprei a casa de seu pae, onde tudo me fallava d'aquella que tanto amara e que fôra a minha unica aspiração n'este mundo.

Helena de Noronha fitára no desgraçado os seus grandes olhos brilhantes de febre e duas grossas lagrimas lhe rolaram silenciosas pelas faces.

— Foi de todos o mais infeliz, meu pobre amigo! — suspirou ella. — Quiz Deus, para me punir da minha ingratidão e desobediencia para com meu pae, que eu não morresse antes de avaliar bem o enorme thesouro de affectos que perdi n'essa nobre alma, tão digna de melhor sorte e de mais ventura! ....................................................... .......................................................

Helena de Noronha escutara com uma expressão de profundo assombro, que mais e mais se lhe accentuava no rosto á medida que ia ouvindo, a narrativa de Julio.

Quando este chegou ao fim, comprehendeu então que tinha sido amada por aquelle homem com um ardôr e um enthusiasmo que tocava as raias da loucura. Um mixto de dôr e de felicidade inaudita lhe agitou o seio arquejante. Pôz as mãos e levantando os olhos ao ceu, exclamou:

— Graças, meu Deus!! que se foi grande o soffrimento que me déste, em expiação das minhas faltas, tambem não é menor a consolação que me concedeste, permittindo que eu me soubesse tão profundamente amada!

E volvendo os olhos para Julio, n'uma accentuação de vidente:

— Meu amigo — acrescentou — uma outra patria nos espera, que não esta em que tantos soffrimentos e martyrios nos attribularam a existencia. Lá nos encontraremos, Julio. Agora mais do que nunca o acredito, porque Deus, tão logico e tão consequente em tudo quanto fez e creou, seria monstruosamente absurdo se désse á creatura humana os horrores de um martyrio que ella não provocou, para a lançar por fim no aniquillamento absoluto, de par com os que nada soffreram e muito gozaram. Não! não póde ser! Soffrer sem motivo, gozar sem merito, unicamente pelo capricho de um acaso fortuito, de uma circumstancia inesperada, não póde ser. Que eu soffresse e me encontre reduzida a este misero estado em que me vê, recebendo a esmola de um abrigo da compassiva mão de uma amiga, comprehende-se, é justo, é logico que assim succedesse, porque o meu crime provocou a expiação. Mas o senhor, moço, rico e feliz, sem um ligeiro desvio do caminho do bem e do dever, porque motivo soffreu assim? Porque motivo andou errante dezesseis annos pelo mundo, em busca de uma felicidade que lhe fugia, expiando de um modo cruel as faltas de outrem... as minhas faltas? Eis aqui o innocente envolvido na condemnação do culpado... Porque? Isso é o que não se comprehende, e resultaria absurdo monstruoso, injustiça flagrante, sem a existencia de uma vida futura em que as faltas teem de ser relevadas pela expiação e os martyres innocentes terão de ser recompensados... Oh! não tenha duvida, Julio de Montarroyo, isto não acaba, não póde acabar aqui!

Esta longa tirada foi dita com um ardor e uma agitação de tal modo violenta, que bem deixava perceber a excitação febril da doente.

Julio de Montarroyo tentou socegal-a.

— Minha amiga — disse-lhe elle — é bem certo que muito temos ainda que esperar da misericordia e da justiça divina. E é por isso mesmo que eu lhe peço, minha querida Helena, que tenha animo e coragem, que não desanime nem descreia de quem tudo póde e tudo ordena. Tenho fé que virão dias melhores para nós n'este mundo... Depois de uma juventude tão tormentosa e cortada de crueis vicissitudes, não será licito esperar que Deus se amerceie do nosso soffrimento de tantos annos e nos reserve na ultima quadra da existencia alguns dias de serena tranquilidade na companhia d'aquelles a quem mais queremos?

Um amargo e triste sorriso, vincando os labios da doente, respondeu a estas palavras.

Julio tentava ainda illudir-se e queria communicar ao coração da enferma um raio da pallida esperança que já mal o animava a elle.

— Vou deixal-a, Helena. O repouso deve fazer-lhe bem. Espero que amanha, quando voltar, hei de encontral-a mais serena e mais bem disposta a encarar a nossa situação por outro prisma. Escuso dizer-lhe que a sua casa é ainda e sempre sua. Não deverá, á esmola nem á compaixão de ninguem o abrigo do mesmo tecto que a acolheu na infancia. Peço-lhe só que melhore; e no dia em que recobrar forças para entrar em sua casa, eu sahirei d'ella, se a minha boa e querida Helena de Noronha não achar no mais intimo da sua alma uma solução que permitta a convivencia dos dois no mesmo lar... De qualquer das fórmas, o seu coração decidirá...

— O meu coração está morto para tudo o que é d'este mundo, meu amigo... — balbuciou Helena, cahindo agora em profundo abatimento — Agradeço-lhe a generosidade com que pretende ainda insuflar no meu espirito um resto de apêgo á vida... Mas eu estou morta, creia...

— Pois bem! — exclamou Julio n'um impeto de desespero — se de todo em todo pretende morrer, morreremos ambos! Se não podemos unir-nos durante a vida, faremos ao menos a eterna viagem no mesmo dia e á mesma hora.

— Louco! Ignora que a vida é um deposito precioso de que não é licito a nenhum de nós despojar-se, sem que nos seja reclamada por quem nol-a confiou?

— Se a vida é um favor, eu tenho o direito de a recusar, por isso mesmo que a não pedi. Se é um ultrage que se me faz, um soffrimento a que me condemnam, maior direito me assiste de a rejeitar, pois que o juiz que me castiga se abstem de me dizer o delicto de que sou reu!

— Não falle assim, meu amigo! Quem teve animo para soffrer até aqui, deve tambem ter coragem para supportar o resto e esgotar até ao fim o calix da amargura que lhe foi offerecido... Adeus! Amanhã tornaremos a vêr-nos e tenho esperança de que o hei-de encontrar mais resignado...

Estendeu-lhe a mão descarnada e transparente que elle beijou; e, extenuada, pousou a cabeça no travesseiro, onde se sumiram duas grossas lagrimas que furtivamente se lhe escaparam dos olhos semi-cerrados.