Os Lvsiadas/II

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Os Lvsiadas por Camões
Canto Segundo
Versão com ortografia atualizada disponível em Os Lusíadas/II.



Canto Segundo


Ia neſte tempo o lucido Planeta,
Que as horas vay do dia diſtinguindo,
Chegaua aa deſejada, & lenta Meta,
A luz Celeſte aas gentes encobrindo:
E da caſa maritima ſecreta,
Lhe eſtaua o Deos Nocturno a porta abrĩdo:
Quando as infidas gentes ſe chegárão
Aas naos, que pouco auia que ancorarão

Dantre elles hum que traz encomendado,
O mortifero engano, aſsi dezia.
Capitão valeroſo, que cortado
Tens de Neptuno o reyno, & ſalſa via,
O Rei que manda eſta Ilha, aluoraçado
Da vinda tua tem tanta alegria,
Que nam deſeja mais que agaſalharte,
Verte, & do neceſſario reformarte.


E porque eſtà em eſtremo deſejoſo
De te ver, como couſa nomeada,
Te roga que de nada receoſo,
Entres a barra, tu com toda armada:
E porque do caminho trabalhoſo,
Traras a gente debil, & canſada,
Diz que na terra podes reformala,
Que a natureza obriga a deſejada,

E ſe buſcando vas mercadoria,
Que produze o aurifero Leuante,
Canella, Crauo, ardente eſpeciaria,
Ou Droga ſalutifera, & preſtante:
Ou ſe queres luzente pedraria,
O Rubí fino, o rigido Diamante:
Daqui leuaras tudo tam ſobejo.
Com que faças o fim a teu deſejo:

Ao menſageiro o Capitão reſponde,
As palauras do Rei agradecendo,
E diz que porque o Sol no mar ſe eſconde,
Não entra pera dentro obedecendo,
Porem que como a luz mostrar por onde
Va ſem perigo, a frota não temendo,
Comprirà ſem receio ſeu mandado,
Que a mais por tal ſenhor eſtà obrigado.


Perguntalhe deſpois, ſe estão na terra
Chriſtãos, como o Piloto lhe dezia,
O menſageiro aſtuto que não erra,
Lhe diz, que a mais da gẽte em Chriſto cria:
Deſta ſorte do peito lhe desterra
Toda a ſoſpeita, & cauta fantaſia:
Por onde o Capitão ſeguramente,
Se fia da infiel, & falſa gente.

E de algũs que trazia condenados,
Por culpas, & por feitos vergonhoſos
Porque podeſſem ſer auenturados,
Em caſos deſta ſorte duuidoſos.
Manda dous mais ſagazes, enſaiados,
Porque notem dos Mouros enganoſos,
A Cidade, & poder, & porque vejão,
Os que Chriſtãos, que ſo tanto ver deſejão.

E por eſtes ao Rei preſentes manda,
Porque a boa vontade que moſtraua,
Tenha firme, ſegura, limpa, & branda,
A qual bem ao contrario em tudo eſtaua.
Ia a companhia perfida, enefanda
Das naos ſe deſpedia, & o mar cortaua,
Foram com geſtos ledos, & fingidos,
Os dous da frota em terra recebidos.


E deſpois que ao Rei apreſentàrão,
Co recado os preſentes que trazião,
A Cidade correrão, & notarão
Muito menos daquillo que querião,
Que os Mouros cauteloſos ſe guardarão
De lhe moſtrarem tudo o que pedião.
Que onde reina a malicia, eſtà o receio
Que a faz imaginar no peito alheio.

Mas aquelle que ſempre a mocidode
Tem no roſto perpetua, & foy naſcido
De duas mãis: que vrdia a falſidade,
Por ver o nauegante deſtruydo:
Eſtaua nũa caſa da Cidade,
Com roſto humano, & habito fingido
Moſtrandoſe Chriſtão, & fabricaua
Hum altar ſumptuoſo que adoraua.

Ali tinha em retrato affigurada
Do alto & Sancto ſpirito a pintura,
A candida Pombinha debuxada,
Sobre a vnica Fenix virgem pura,
A companhia ſancta eſtà pintada,
Dos doze tam toruados na figura,
Como os que, ſo das lingoas que cayrão,
De fogo, varias lingoas referirão.


Aqui os dous companheiros conduzidos,
Onde com este engano Baco estaua
Poem em terra os giolhos, & os ſentidos
Naquelle Deos, que o mundo gouernaua
Os cheiros excellentes produzidos,
Na Panchaia odorifera queimaua
O Thioneû, & aſsi por derradeiro
O falſo Deos adora o verdadeiro.

Aqui forão denoite agaſalhados,
Com todo o bom, & honeſto tratamento
Os dous Chriſtãos, nam vendo que enganado
Os tinha o falſo, & ſancto fingimento:
Mas aſsi como os rayos eſpalhados
Do Sol forão no mundo, & num momento
Apareceo no rubido Orizonte,
Na moça de Titão a roxa ſronte.

Tornão da terra os Mouros co recado
Do Rei, pera que entraſſem, & conſigo
Os dous que o Capitão tinha mandado,
A quem ſe o Rei moſtrou ſincêro amigo:
E ſendo o Portugues certificado,
De não auer receio de perigo.
E que gente de Chriſto em terra auia,
Dentro no ſalſorio entrar queria


Dizem lhe os que mandou, que em terra vîrão,
Sacras aras, & ſacerdote ſancto,
Que ali ſe agaſalhàrão, & dormirão,
Em quanto a luz cubrio o eſcuro manto:
E que no Rei, & gentes não ſentirão
Senão contentamento, & gosto tanto:
Que não podia certo auer ſoſpeita,
Nũa mostra tão clara, & tão perfeita.

Co iſto o nobre Gama recebia
Alegremente os Mouros que ſubião,
Que leuemente hum animo ſe fia,
De mostras que tão certas parecião:
A nao da gente perfida ſe enchia,
Deixando a bordo os barcos que trazião:
Alegres vinhão todos, porque crem
Que a preſa deſejada certa tem.

Na terra cautamente aparelhauão,
Armas, & monições, que como viſſem
Que no Rio os nauios ancorauão,
Nelles ouſadamente ſe ſubiſſem:
E neſta treição determinauão,
Que os de Luſo de todo deſtruiſſem:
E que incautos pagaſſem deste geito
O mal que em Moçambique tinhão feito.


As ancoras tenaces vão leuando,
Com a nautica grita coſtumada,
Da proa as vellas ſos ao vento dando,
Inclinão pera a barra abaliſada:
Mas a linda Ericina, que guardando
Andaua ſempre a gente aſsinalada:
Vendo a cilada grande, & tam ſecreta,
Voa do Ceo ao Mar como hũa ſeta.

Conuoca as aluas filhas de Nerêo,
Com toda a mais cerulea companhia,
Que porque no ſalgado Mar naſceo,
Das agoas o poder lhe obedecia.
E propondo lhe a cauſa a que deceo,
Com todos juntamente ſe partia:
Pera eſtoruar que a armada não chegaſſe
Aonde pera ſempre ſe acabaſſe.

Ia na agoa erguendo vão com grande preſſa,
Com as argenteas caudas branca eſcuma,
Cloto co peito corta, & atraueſſa
Com mais furor o Mar do que coſtuma.
Salta Niſe, Nerine ſe arremeſſa,
Por cima da agoa creſpa, em força ſuma:
Abrem caminho as ondas encuruadas,
De temor das Nereidas apreſſadas.


Nos hombros de hum Tritão com geſto aceſo,
Vay a linda Dione furioſa,
Não ſente quem a leua o doçe peſo,
De ſoberbo, com carga tam fermoſa:
Ia chegão perto donde o vento teſo,
Enche as vellas da frota belicoſa.
Repartenſe, & rodeão neſſe inſtante
As naos ligeiras que hião por diante.

Poem ſe a Deoſa com outras em dereito
Da proa capitaina, & ali fechando,
O caminho da barra estão de geito,
Que em vão aſſopra o vento, a vella inchãdo:
Poem no madeiro duro o brando peito,
Pera detras a forte nao forçando.
Outras em derredor leuandoa eſtauão,
E da barra inimiga a deſuiauão.

Quaes pera a coua as pròuidas formigas,
Leuando o peſogrande acomodado,
As forças exercitão, de inimigas,
Do inimigo Inuerno congelado:
Ali ſam ſeus trabalhos, & fadigas,
Ali mostrão vigor nunca eſperado.
Tais andauão as Nimphas eſtoruando
Aa gente Portugueſa o fim nefando.


Torna pera detras a Nao forçada,
A peſar dos que leua, que gritando,
Mareão vellas, ferue a gente yrada,
O leme a hum bordo, & a outro atraueſſando
O Meſtre aſtuto em vão da popa brada,
Vendo como diante ameaçando
Os estaua hum maritimo penedo,
Que de quebrarlhe a Nao lhe mete medo:

A celeuma medonha ſe aleuanta,
No rudo Marinheiro que trabalha,
O grande eſtrondo, a Maura gente eſpanta,
Como ſe viſſem horrida batalha:
Nam ſabem a razão de furia tanta,
Nam ſabem neſta preſſa quem lhe valha,
Cuydão que ſeus enganos ſam ſabidos,
E que ande ſer por iſſo aqui punidos.

Eilos ſubitamente ſe lançauão,
A ſeus bateis veloces que trazião,
Outros encima o mar aleuantauão,
Saltando nagoa a nado ſe acolhião:
De hum bordo & doutro ſubito ſaltauão,
Que o medo os compelia do que vião.
Que antes querem ao mar auenturarſe,
Que nas mãos inimigas entregarſe.


Aſsi como em ſeluatica alagoa,
As rãs no tempo antigo Lycia gente,
Se ſentem por ventura vir peſſoa,
Estando fora da agoa incautamente,
Daqui, & dali ſaltando, o charco ſoa,
Por fogir do perigo que ſe ſente,
E acolhendo ſe ao couto que conhecem,
Sos as cabeças na agoa lhe aparecem.

Aſsi fogem os Mouros, & o Piloto,
Que ao perigo grande as naos guiâra,
Crendo que ſeu engano eſtaua noto,
Tambem foge ſaltando na agoa amara:
Mas por nam darem no penedo immoto,
Onde percão a vida doçe, & cara:
A ancora ſolta logo a capitaina,
Qualquer das outras junto della amaina.

Vendo o Gama, atentado a eſtranheza
Dos Mouros não cuidada, & juntamente,
O Piloto fugir lhe com preſteza,
Entende o que ordenaua a bruta gente,
E vendo ſem contraste, & ſem braueza
Dos ventos, ou das, agoas ſem corrente,
Que a Nao paſſar auante não podia,
Auendo o por milagre aſsi dezia.


O caſo grande, eſtranho, & não cuydado,
O milagre clariſsimo, & euidente,
O deſcuberto engano inopinado,
O perfida inimiga, & ſalſa gente,
Quem poderà do mal aparelhado
Liurarſe ſem perigo ſabiamente.
Se la de cima a guarda ſoberana,
Não acudir aa fraca força humana?

Bem nos moſtra a diuina prouidencia,
Destes portos, a pouca ſegurança,
Bem claro temos viſto na aparencia,
Que era enganada a noſſa confiança
Mas pois ſaber humano, nem prudencia
Enganos tam fingidos nam alcança:
O tu guarda diuina, tem cuidado
De quem ſem ti nam pode ſer guardado.

E ſe te moue tanto a piedade,
Deſta miſera gente peregrina,
Que ſo por tua altiſsima bondade,
Da gente a ſaluas, perfida & malina,
Nalgum porto ſeguro de verdade:
Conduzirmos ja agora determina,
Ou nos amostra a terra que buſcamos,
Pois ſo por teu ſeruiço nauegamos.


Ouuiolhe eſtas palauras piadoſas,
A fermoſa Dione, & comouida,
Dantre as Nimphas ſe vay, que ſaudoſas
Ficarão deſta ſubita partida:
Ia penetra as Eſtrellas luminoſas,
Ia na terceyra Eſphera recebida
Auante paſſa, & la no ſexto Ceo
Pera onde eſtaua o Padre ſe moueo.

E como hia afrontada do caminho
Tão fermoſa no geſto ſe moſtraua,
Queas Eſtrellas, & o Ceo, & o Ar vizinho,
E tudo quanto a via namoraua
Dos olhos, onde faz ſeu filho o ninho
Hũs eſpiritos viuos inspiraua,
Com que os Polos gelados acendia,
E tornaua do Fogo a eſphera fria.

E por mais namorar o ſoberano
Padre, de quem foy ſempre amada, & cara
Se lhapreſenta aſsi como ao Troyano,
Na ſelua Idea ja ſe apreſentàra:
Se a vira o caçador, que o vulto humano
Perdeo, vendo Diana na agoa clara:
Nunca os famintos galgos o matàrão,
Que primeiro deſejos o acabárão.


Os creſpos fios douro ſe eſparzião
Pelo colo, que a neue eſcurecia,
Andando as lacteas tetas lhe tremião,
Com quem Amor brincaua, & não ſe via.
Da alua petrina flamas lhe ſaião,
Onde o minino as almas acendia.
Polas liſas colũnas lhe trepauão,
Deſejos, que como Era ſe enrolauão.

Cum delgado cendal as partes cobre,
De quem vergonha he natural reparo,
Porem nem tudo eſconde, nem deſcobre
O veo dos roxos lirios pouco auaro:
Mas pera que o deſejo acenda, & dobre,
Lhe poem diante aquelle objecto raro.
Ia ſe ſentem no Ceo, por toda a parte,
Ciumes em Vulcano, Amor em Marte:

E mostrando no angelico ſembrante,
Co riſo hũa tristeza miſturada,
Como dama que foi do incauto amante,
Em brincos amoroſos mal tratada,
Que ſe aqueixa, & ſe ri, num meſmo inſtãte,
E ſe torna entre alegre maogada.
Deſta arte a Deoſa, a quem nenhũa iguala,
Mais mimoſa que triſte ao Padre fala.


Sempre eu cuidey, ô Padre poderoſo,
Que pera as couſas, que eu do peito amaſſe
Te achaſſe brando, affabil, & amoroſo,
Poſto que a algum contrairo lhe peſaſſe:
Mas pois que contra my te vejo yroſo,
Sem que to mereceſſe, nem te erraſſe.
Façaſe como Baco determina,
Aſſentarey em fim que fuy mofina.

Eſte pouo que he meu, por quem derramo,
As lagrimas que em vão caidos vejo,
Que aſſaz de mal lhe quero, pois que o amo,
Sendo tu tanto contra meu deſejo:
Por elle a ti rogando choro, & bramo,
E contra minha dita em fim pelejo.
Ora pois porque o amo he mal tratado,
Quero lhe querer mal, ſera guardado.

Mas moura em fim nas mãos das brutas gentes,
Que pois eu fuy: & niſto de mimoſa
O rosto banha, em lagrimas ardentes,
Como co orualho fica a freſca roſa.
Calada hum pouco, como ſe entre os dentes
Lhe impedira a falla piedoſa.
Torna a ſeguila, & indo por diante,
Llhe atalha o poderoſo, & grão Tonante.


E deſtas brandas moſtras comouido,
Que mouerão de hum Tigre o ptito duro,
Co vulto alegre, qual do Ceo ſubido,
Torna ſereno & claro o ar eſcuro.
As lagrimas lhe alimpa, & acendido
Na façe a beija, & abraça o colo puro.
De modo que dali, ſe ſo ſe achara,
Outro nouo Cupido ſe gerara.

E co ſeu apertando o roſto amado,
Que os ſaluços, & lagrimas aumenta,
Como minino da ama castigado,
Que quem no aſſago o choro lhe acrecenta,
Por lhe por em ſoſſego o peito yrado,
Muitos caſos futuros lhe apreſenta.
Dos fados as entranhas reuoluendo,
Deſta maneira em fim lhe eſtà dizendo.

Fermoſa filha minha não temais
Perigo algum, nos voſſos Luſitanos,
Nem que ninguem comigo poſſa mais,
Que eſſes choroſos olhos ſoberanos:
Que eu vos prometo filha que vejais
Eſquecerenſe Gregos & Romanos.
Pelos illuſtres feitos que esta gente,
Ha de fazer nas partes do Oriente.


Que ſe o facundo Vliſſes eſcapou,
De ſer na Ogigia Ilha, eterno eſcrauo:
E ſe Antenor os ſeios penetrou,
Iliricos, & a fonte de Timauo.
E ſe o piadoſo Eneas nauegou,
De Scila, & de Caribdis o Mar brauo.
Os voſſos môres couſas atentando,
Nouos mundos ao mundo yrão moſtrando.

Fortalezas, Cidades, & altos muros,
Por elles vereis filha edificados:
Os Turcos belaciſsimos & duros,
Delles ſempre vereis desbaratados.
Os Reis da India liures, & ſeguros,
Vereis ao Rei potente ſojugados.
E por elles de tudo em fim ſenhores,
Serão dadas na terra leis milhores.

Vereis eſte, que agora preſuroſo,
Por tantos medos o Indo vay buſcando,
Tremer delle Neptuno de medroſo,
Sem vento ſuas agoas encreſpando.
O caſo nunca viſto, & milagroſo
Que trema, & ferua o Mar em calma eſtãdo?
O gente forte, & de altos penſamentos,
Que tambem della hão medo os Elementos.


Vereis a terra que a agoa lhe tolhia,
Que inda ha de ſer hum porto muy decente,
Em que vão deſcanſar da longa via,
As naos que nauegarem do Occidente.
Toda eſta coſta em fim, que agora vrdia,
O mortifero engano, obediente,
Lhe pagarà tributos, conhecendo,
Não poder reſistir ao Luſo horrendo:

E vereis o Mar roxo tam famoſo,
Tornar ſelhe amarello de infiado:
Vereis de Ormuz o Reino poderoſo,
Duas vezes tomado, & ſojugado.
Ali vereis o Mouro furioſo,
De ſuas meſmas ſetas traſpaſſado.
Que quem vay contra os voſſos, claro veja,
Que ſe reſiſte, contra ſi peleja.

Vereis a inexpugnabil Dio fortes,
Que dous cercos terà, dos voſſos ſendo:
Ali ſe mostrarà ſeu preço, & ſorte,
Feitos de armas grandiſsimos fazendo.
Enuejoſo vereis o grão Mauorte,
Do peito Luſitano, fero & horrendo.
Do Mouro ali verão que a voz extrema,
Do falſo Mahamede ao Ceo blasfema.


Goa vereis aos Mouros ſer tomada,
A qual virá deſpois a ſer ſenhora,
De todo o Oriente, & ſublimada
Cos triumphos da gente vencedora.
Ali ſoberba altiua, & exalçada,
Ao Gentio que os Idolos adora.
Duro ſreo porà, & a toda a terra,
Que cuidar de fazer aos voſſos guerra.

Vereis a fortaleza ſuſtentarſe,
De Cananor, com pouca força & gente:
E vereis Calecu desbaratarſe,
Cidade populoſa, & tam potente.
E vereis em Cochim aſsinalarſe,
Tanto hum peito ſoberbo, & inſolente,
Que Cîtara ja mais cantou victoria,
Que aſsi mereça eterno nome, & gloria.

Nunca com Marte, inſtructo & furioſo,
Se vio feruer Leucate, quando Auguſto
Nas ciuîs Actias guerras animoſo,
O Capitão venceo Romano injuſto,
Que dos pouos de Aurora, & do famoſo
Nilo, & do Bactra Scitico, & robusto,
A victoria trazia, & preſa rica,
Preſo da Egipcia linda & não pudica.


Como vereis o mar feruendo aceſo,
Cos incendios dos voſſos pelejando,
Leuando o Idololatra, & o Mouro preſo,
De nações differentes triumphando.
E ſogeita a rica Aurea Cherſoneſo,
Ate o longico China nauegando.
E as Ilhas mais remotas do Oriente,
Serlhe a todo o Occeano obediente.

De modo filha minha, que de geito,
Amoſtrarão esforço mais que humano,
Que nunca ſe vera tam forte peito,
Do Gangetico mar ao Gaditano,
Nem das Boreais ondas, ao Eſtreito,
Que moſtrou o agrauado Luſitano:
Poſto que em todo o mundo, de affrontados
Reſucitaſſem todos os paſſados.

Como isto diſſe, manda o conſagrado
Filho de Maia aa terra, porque tenha,
Hum pacifico porto, & ſoſſegado,
Pera onde ſem receyo a frota venha:
E pera que em Mombaça, auenturado
O forte Capitão ſe não detenha,
Lhe mãda mais, que em ſonhos lhe moſtraſſe
A terra, onde quieto repouſaſſe.


Ia pelo ar o Cylenêo voaua,
Com as aſas nos pês aa terra deçe,
Sua vara fatal na mão leuaua,
Com que os olhos canſados adormece:
Com eſta, as triſtes almas reuocaua,
Do Inferno, & o vento lhe obedeçe.
Na cabeça o galêro coſtumado,
E deſta arte a Melinde foy chegado.

Conſigo a Fama leua, porque diga,
Do Luſitano, o preço grande, & raro,
Que o nome illuſtre a hũ certo amor obriga,
E faz a quem o tem, amado & caro.
Deſta arte vay fazendo a gente amiga,
Co rumor famoſiſsimo, & perclaro.
Ia Melinde em deſejos arde todo,
De ver da gente forte o gesto, & modo.

Dali pera Mombaça logo parte,
Aonde as naos eſtauão temeroſas,
Pera que aa gente mando que ſe aparte
Da barra imiga, & terras ſoſpeitoſas:
Porque muy pouco val esforço, & arte,
Contra infernais vontades enganoſas:
Pouco val coração, aſtucia , & ſiſo,
Se la dos Ceos nam vem celeſte auiſo.


Meyo caminho a noite tinha andado,
E as Eſtrellas no Ceo co a luz alheia,
Tinhão o largo Mundo alumiado,
E ſo co ſono a gente ſe recreia.
O Capitão illuſtre, ja canſado,
De vigiar a noite, que arreceia,
Breue repouſo antam aos olhos daua,
A outra gente a quartos vigiaua.

Quando Mercurio em ſonhos lhe apareçe,
Dizendo, fuge, fuge Luſitano,
Da cilada que o Rei malicado teçe,
Por te trazer ao fim, & extremo dano,
Fuge, que o Vento, & o Ceo te fauoreçe,
Sereno o tempo tẽs, & o Occeano,
E outro Rei mais amigo, noutra parte,
Onde podes ſeguro agaſalharte.

Não tens aqui ſe não aparelhado,
O hoſpicio que o cru Diomedes daua,
Fazendo ſer manjar acostumado,
De cauallos a gente que hoſpedaua:
As aras do Buſiris infamado,
Onde os hoſpedes tristes imolaua
Teràs certas aqui ſe muito eſperas,
Fuge das gentes perfidas & feras.


Vaite ao longo da coſta diſcorrendo,
E outra terra acharàs de mais verdade
La quaſi junto donde o Sol ardendo,
Iguala o dia, & noite em quantidade:
Ali tua frota alegre recebendo
Hum Rei, com muitas obras de amizade,
Gaſalhado ſeguro te daria,
E pera a India certa & ſabia guia.

Isto Mercurio diſſe, & o ſono leua
Ao Capitão, que com muy grande eſpanto
Acorda, & ve ferida a eſcura treua,
De hũa ſubita luz, & rayo ſancto:
E vendo claro quanto lhe releua,
Não ſe deter na terra iniqua tanto.
Com nouo ſprito ao Mestre ſeu mandaua,
Que as vellas deſſe ao vento que aſſopraua.

Day vellas, diſſe, day ao largo vento,
Que o Ceo nos fauoreçe, & Deos o manda,
Que hum menſageiro vi do claro aſſento
Que ſo em fauor de noſſos paſſos ando:
Aleuantaſe niſto o mouimento,
Dos marinheiros, de hũa & de outra banda,
Leuão gritando as ancoras acima,
Moſtrando a ruda força, que ſe estima.


Neſte tempo, que as ancoras leuauão,
Na ſombra eſcura os Mouros eſcondidos,
Manſamente as amarras lhe cortauão,
Por ſerem, dando aa coſta, deſtruydos:
Mas com viſta de Linces vigiauão,
Os Portuegueſes ſempre apercebidos.
Elles como acordados os ſentirão,
Voando, & não remando lhe fogirão.

Mas ja as agudas proas apartando,
Hião as vias humidas de argento,
Aſſopralhe galerno o vento, & brando,
Com ſuaue & ſeguro mouimento,
Nos perigos paſſados vão falando,
Que mal ſe perderão do penſamento,
Os caſos grandes, donde em tanto aperto
A vida em ſaluo eſcapa por acerto.

Tinha hũa volta dado o Sol ardente,
E noutra começaua, quando virão
Ao longe dous nauios, brandamente
Cos ventos nauegando, que reſpirão,
Porque auião de ſer da Maura gente,
Pera elles arribando, as vellas virão.
Hum de temor do mal que arreceaua,
Por ſe ſaluar a gente aa costa daua.


Não he o outro que fica tão manhoſo:
Mas nas mãos vay cair do Luſitano,
Sem o rigor de Marte furioſo,
E ſem a furia horrenda de Vulcano,
Que como foſſe debil & medroſo,
Da pouca gente o fraco peito humano:
Não teue reſiſtencia, & ſe a tiuêra,
Mais dãno reſiſtindo recebêra.

E como o Gama muito deſejaſſe,
Piloto pera a India que buſcaua,
Cuidou que entre eſtes Mouros o tomaſſe:
Mas não lhe ſoccedeo como cuidaua,
Que nenhum delles ha que lhe inſinaſſe
A que parte dos Ceos a India eſtaua.
Porem dezem lhe todos, que tem perto,
Melinde onde achàrão Piloto certo.

Louuão do Rei os Mouros a bondade,
Condiçam liberal, ſincero peito,
Mognificencia grande, & humanidade,
Com partes de grandiſsimo reſpeito.
O Capitão o aſſella por verdade,
Porque ja lho diſſera deſte geito,
O Cydenêo em ſonhos, & partia,
Pera onde o ſonho, & o Mouro lhe dizia.


Era no tempo alegre quando entraua,
No roubador de Europa a luz Febea,
Quando hum, & o outro corno lhe aquentaua
E Flora derramaua o de Amalthea:
A memoria do dia renouaua,
O preſuroſo Sol, que o Ceo rodea.
Em que aquelle, a quem tudo eſtà ſogeito,
O ſello pos a quanto tinha feito.

Quando chegaua a frota aaquella parte,
Onde o Reino Melinde ja ſe via,
De toldos adornada, & leda de arte
Que bem moſtra eſtimar o Sancto dia:
Treme a Bandeira, voa o Eſtandarte,
A cor porpurea ao longe aparecia.
Soão os atambores & pandeiros,
E aſsi entrauão ledos & guerreiros.

Enche ſe toda a praya Molindana,
Da gente que vem ver a leda armada,
Gente mais verdadeira, & mais humana
Que toda a doutra terra atras deixada.
Surge diante a frota Luſitana,
Pega no findo a ancora peſada.
Mandão fora hum dos Mouros q̃ tomàrão,
Por quem ſua vinda ao Rei manifeſtàrão.


O Rei que ja ſabia da nobreza
que tanto os Portugueſes engrandece,
Tomarem o ſeu porto tanto preza,
Quanto a gente fortiſsima merece:
E com verdadeiro animo, & pureza,
Que os peitos generoſos ennobrece.
Lhe manda rogar muyto que ſaiſſem,
Pera que de ſeus Reinos ſe ſeruiſſem:

Sam offerecimentos verdadeiros,
E palauras ſinceras, não dobradas,
As que o Rei manda aos nobres caualleiros,
Que tanto mar & terras tem paſſadas:
Mandalhe mais lanigeros carneiros,
E galinhas domeſticas çeuadas,
Com as fructas que antam na terra auia,
E a vontade aa dadiua excedia.

Recebe o Capitão alegremente
O menſageiro ledo, & ſeu recado,
E logo manda ao Rei outro preſente,
Que de longe trazia aparelhado:
Eſcarlata purpurea, cor ardente,
O ramoſo coral fino, & prezado.
Que debaxo das agoas mole creçe,
E como he fora dellas ſe endureçe.


Manda mais hum na pratica elegante,
Que co Rei nobre as pazes concertaſſe,
E que de não ſair naquelle inſtante,
De ſuas naos em terra o deſculpaſſe.
Partido aſsi o embaixador preſtante,
Como na terra ao Rei ſe apreſentaſſe:
Com eſtillo que Palas lhe enſinaua,
Estas palauras tais fallando oraua.

Sublime Rei, a quem do Olimpo puro,
Foy da ſuma Iustiça concedido,
Refrear o ſoberbo pouo duro,
Não menos delle amado, que temido,
Como porto muy forte, & muy ſeguro,
De todo o Oriente conhecido:
Te vimos a buſcar, pera que achemos
Em ti o remedio certo que queremos.

Não ſomos roubadores, que paſſando
Pelas fracas cidades deſcuidadas,
A ferro, & a fogo, as gentes vão matando
Por roubarlhe as fazendas cubiçadas:
Mas da ſoberba Europa nauegando,
Himos buſcando as terras apartadas
Da India grande, & rica, por mandado
De hum Rei que temos, alto, & ſublimado.


Que geração tam dura ahi de gente?
Que barbaro costume, & vſança fea,
Que não vedem os pertos, tam ſomente:
Mas inda o hospicio da deſerta area?
Que ma tençam? que peito em nos ſe ſente?
Que de tam pouca gente ſe arrecea.
Que com laços armados tam fingidos,
Nos ordenaſſem vernos deſtruydos?

Mas tu, em quem muy certo confiamos
Acharſe mais verdade, o Rei benigno,
E aquella certa ajuda em ti eſperamos,
Que teue o perdido Itaco em Alcino:
A teu porto ſeguros nauegamos,
Conduzidos do interprete diuino.
Que pois a ti nos manda, eſtà muy claro,
Que es de peito ſincêro, humano, & raro.

E não cuydes, ô Rei, que não ſaiſſe.
O noſſo Capitão eſclarecido
A verte, ou a ſeruirte, porque viſſe
Ou ſoſpeitaſſe em ti peito fingido:
Mas ſaberas que o fez porque compriſſe,
O regimento em tudo obedecido,
De ſeu Rei, que lhe manda que nam ſaia,
Deixando a frota, em nenhũ porto, ou praia.


E porque he de vaſſalos, o exercicio,
Que os membros tem regidos da cabeça
Não quereras, pois tẽs de Rei o officio,
Que ninguem a ſèu Rei deſobedeça:
Mas as merçes, & o grande beneficio,
Que ora acha em ti, promete que conheça
Em tudo aquillo que elle & os ſeus poderem,
Em quanto os rios pera o mar correrem.

Aſsi dizia, & todos juntamente,
Hũs com outros em pratica fallando,
Louuauão muito o eſtamago da gente,
Que tantos Ceos & mares vai paſſando,
E o Rei illuſtre, o peito obediente,
Dos Portugueſes, na alma imaginando.
Tinha por valor grande, & muy ſubido,
O do Rei que he tam longe obedecido.

E com riſonha viſta, & ledo aſpeito,
Responde ao Embaixador, que tanto estima
Toda a ſoſpeita mà tiray do peito,
Nenhum frio temor em vos ſe imprima:
Que voſſo preço, & obras ſam de geito,
Pera vos ter o mundo em muyta eſtima.
E quem vos fez mollesto tratamento,
Não pode ter ſobido penſamento.


De não ſair em terra toda a gente,
Por obſeruar a vſado preminencia,
Ainda que me peſe eſtranhamente,
Em muito tenho a muita obediencia:
Mas ſe lho o regimento não conſente,
Nem eu conſentirey que a excelencia,
De peitos tão leais em ſi desfaça,
So perque a meu deſejo ſatisfaça.

Porem como a luz crastina chegada,
Ao mundo for, em minhas almàdîas,
Eu irey viſitar a forte armada,
Que ver tanto deſejo, ha tantos dias.
E ſe vier do mar desbaratada,
Do furioſo vento, & longas vias:
Aqui tera, de limpos penſamentos
Piloto, munições, & mantimentos.

Isto diſſe, & nas agoas ſe eſcondia,
O filho de Latona, & o menſageiro
Co a embaixada alegre ſe partia
Pera a frota, no ſeu batel ligeiro:
Enchem ſe os peitos todos de alegria,
Por terem o remedio verdadeiro,
Pera acharem a terra que buſcauão,
E aſsi ledos a noite feſtejauão.


Não faltão ali os rayos de arteficio,
Os tremulos Cometas imitando,
Fazem os Bombardeiros ſeu officio:
O ceo, a terra, & as ondas atroando.
Moſtraſe dos Cyclopas o exercicio,
Nas bombas que de fogo estão queimando,
Outros com vozes, com que o Ceo ferião.
Inſtrumentos altiſſonos tangião.

Respondem lhe da terra juntamente,
Co rayo volteando, com zonido,
Anda em giros no ar a roda ardente,
Estoura o po ſulfureo eſcondido:
A grita ſe aleuanta ao Ceo, da gente,
O Mar ſe via em fogos acendido:
E não menos a terra, & aſsi feſteja
Hum ao outro a maneira de peleja.

Mas ja o Ceo inquieto reuoluendo,
As gentes incitaua a ſeu trabalho,
E ja a mãy de Menon a luz trazendo,
Ao ſono longo punha certo atalho:
Hião ſe as ſombras lentas desfazendo,
Sobre as flores da terra, em frio orualho,
Quando o Rei Milindano ſe embarcaua
A ver a frota que no mar estaua.


Vião ſe em derredor feruer as prayas
Da gente, que a ver ſo concorre leda,
Luzem da fina purpura as cabaias,
Lustrão os panos da tecida ſeda:
Em lugar de guerreiras a zagaias
E do arco, que os cornos arremeda
Da Lũa, trazem ramos de Palmeira,
Dos que vencem coroa verdadeira.

Hum batel grande & largo, que toldado
Venha de ſedas de diuerſas cores,
Traz o Rei de Melinde, acompanhado
De nobres de ſeu Reino, & de ſenhores:
Vem de ricos veſtidos adornado,
Segundo ſeus costumes, & primores.
Na cabeça hũa fota guarnecida,
De ouro, & de ſeda, & de algodão tecida.

Cabaya de Damaſco rico, & dino,
Da Tiria cor, entre elles eſtimada,
Hum colar ao peſcoço de ouro fino,
Onde a materia da obra he ſuperada,
Cum reſplandor reluze Adamantino,
Na cinta, a rica adaga bem laurada.
Nas alparcas dos pês, em fim de tudo,
Cobrem, ouro & aljofar ao veludo.


Com hum redondo emparo alto de ſeda,
Nũa alta & dourada astea enxerido,
Hum miniſtro aa ſolar quentura veda,
Que não offenda & queime o Rei ſubido:
Muſica traz na proa, eſtranha & leda,
De aſpero ſom, horriſsimo ao ouuido:
De trombetas arcadas em redondo,
Que ſem concerto fazem rudo estrondo.

Não menos guarnecido o Luſitano,
Nos ſeus bateis da frota ſe partia,
A receber no mar o Melindano,
Com luſtroſa & honrada companhia:
Vestido o Gama vem ao modo Hispano:
Mas Franceſa era a roupa que veſtia,
De cetim da Adriatica Veneza,
Carmeſi, cor que a gente tanto preza.

De botões douro as mangas vem tomadas,
Onde o Sol reluzindo a viſta cega:
As calças ſoldadeſcas recamadas,
Do metal que Fortuna a tantos nega,
E com pontas do meſmo delicadas,
Os golpes do gibão ajunta, & achega:
Ao Italico modo a aurea eſpada,
Pruma na gorra, hum pouco diclinada.


Nos de ſua companhia ſe moſtraua,
Da tinta que dà o Mûrice excelente,
A varia cor, que os olhos alegraua,
E a maneira do trajo diferente:
Tal o fermoſo eſmalte ſe notaua,
Dos veſtidos olhados juntamente:
Qual aparece o arco rutilante,
Da bella Nimpha filha de Thaumante.

Sonoroſas trombetas incitauão,
Os animos alegres reſoando,
Dos Mouros os bateis o Mar co lhauão,
Os toldos pelas agoas arrojando:
As bombardas horriſſonas bramando,
Com as nuuẽs de fumo o Sol tomando,
Ameudam ſe os brados acendidos,
Tapão com as mãos os Mouros os ouuidos.

Ia no batel entrou do Capitão
O Rei, que nos ſeus braços o leuaua,
Elle coa corteſia, que a razão
(Por ſer Rei) requeria, lhe fallaua.
Cũas moſtras de eſpanto, & admiração,
O Mouro o geſto, & o modo lhe notoua,
Como quem em muy grande estima tinha,
Gente que de tam longe à India vinha.


E com grandes palauras lhe offereçe,
Tudo o que de ſeus Reinos lhe compriſſe,
E que ſe mantimento lhe falleçe,
Como ſe proprio foſſe lho pediſſe:
Diz lhe mais, que por fama bem conheçe
A gente Luſitana, ſem que a viſſe.
Que ja ouuio dizer, que noutra terra
Com gente de ſua ley tiueſſe guerra.

E como por toda Affrica ſe ſoa,
Lhe diz, os grandes feitos que fizerão,
Quando nella ganharão a coroa
Do Reino, onde as Hesperidas viuerão:
E com muitas palauras apregoa,
O menos que os de Luſo merecerão:
E o mais que pela fama o Rei ſabia:
Mas deſta ſorte o Gama reſpondia.

O tu que ſo tiueste piedade,
Rei benigno, da gente Luſitana,
Que com tanta miſeria, & aduerſidade,
Doe mares experimenta a furia inſana.
Aquella alta, & diuina eternidade,
Que o Ceo reuolue, & rege a gente humana:
Pois que de ti tais obras reçebemos,
Te pague o que nos outros não pedemos.


Tu ſo de todos quantos queima Apolo,
Nos recebes em paz do Mar profundo
Em ti, dos ventos horridos de Eolo,
Refugio achamos bom, fido, & jocundo.
Em quanto apacentar o largo Polo,
As Eſtrellas, & o Sol der lume ao Mundo,
Onde quer que eu viuer, com fama & gloria,
Viuirão teus louuores em memoria.

Isto dizendo, os barcos vão remando,
Pera a frota, que o Mouro ver deſeja,,
Vão as naos, hũa & hũa rodeando,
Porque de todas tudo note, & veja:
Mas pera o Ceo Vulcano fuzilando,
A frota co as bombardas o feſteja,
E as trombetas canoras lhe tangião,
Cos anafis os Mouros reſpondião.

Mas deſpois de ſer tudo ja notado,
Do generoſo Mouro, que paſmaua,
Ouuindo o inſtrumento inuſitado,
Que tamanho terror em ſi moſtraua,
Mandaua estar quieto, & ancorado,
Nagoa o batel ligeiro que as leuaua,
Por fallar de vagar co forte Gama,
Nas couſas de que tem noticla, & fama.


Em praticas o Mouro diferentes,
Se deleitaua, perguntando agora,
Pelas guerras famoſas & excelentes,
Co pouo áuidas, que a Mafoma adora:
Agora lhe pergunta pelas gentes
De toda a Hispheria vltima, onde mora:
Agora pelos pouos ſeus vezinhos,
Agora pelos humidos caminhos.

Mas antes valeroſo Capitão,
Nos conta, lhe dezia, diligente,
Da terra tua o clima, & região
Do Mundo onde morais diſtintamente,
E aſsi de voſſa antiga geração,
E o principio do Reino tam potente:
Cos ſucceſſos das guerras do começo,
Que ſem ſabellas, ſey que ſam de preço.

E aſsi tambem nos conta dos rodeios
Longos, em que te traz o Mar yrado,
Vendo os coſtumes barbaros alheios,
Que a noſſa Affrica ruda tem criado
Conta: que agora vem cos aureos freios,
Os cauallos que o carro marchetado,
Do nouo Sol, da fria Aurora trazem,
O Vento dorme, o Mar & as ondas jazem.


E não menos co tempo ſe pareçe,
O deſejo de ouuirte o que contares,
Que quem ha, que por fama não conheçe
As obras Portugueſas ſingulares:
Não tanto deſuiado reſplandeçe,
De nos o claro Sol, pera julgares.
Que os Melindanos tem tam rudo peito,
Que não eſtimem muito hum grande feito.

Cometerão ſoberbos os Gigantes,
Com guerra vão, o olimpo claro, & puro,
Tentou Peritho, & Theſeu, de ignorantes,
O Reino de Plutão horrendo & eſcuro,
Se ouue feitos no mundo tam poſſantes,
Não menos he trabalho illuſtre, & duro,
Quanto foi cometer Inferno, & Ceo,
Que outrem cometa a furia de Nereo.

Queimou o ſagrado templo de Diana,
Do ſutil Teſifonio fabricado,
Horoſtrato, por ſer da gente humana
Conhecido no mundo, & nomeado:
Se tambem com tais obras nos engana,
O deſejo de hum nome auentajado.
Mais razão ha que queira eterna gloria
Quem faz obras tam dignas de memoria.

Fim.