Os Retirantes/I/III

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Os Retirantes por José do Patrocínio
Primeira parte: a paróquia abandonada, Capítulo III


Quando já não se ouvia o som de nenhuma passada de transeunte, um jato de luz entornou-se na sombra da praça. Escoara-se da janela da casa do vigário, que vinha de quando em quando debruçar-se ao peitoril, interrompendo assim um passeio automático. O seu semblante, se bem já alguma cousa serenado, dizia que ele ainda estava sob a mesma impressão; que o seu pensamento continuava a pairar sobre a imagem de Eulália, profanando-a com um beijo de sátiro.

Cálculos temerosos enovelaram-se e desdobraram-se-lhe no cismar delirante; às vezes parava de chofre e sorria, outras vezes tomava o ar grave de quem aconselha, ou o aspecto carrancudo de quem ameaça; finalmente, ajoelhando-se, exclamou, como quem calcula o efeito de uma cena romântica:

— Responder-lhe-ei: porque te amo

Este epílogo era inteiramente real. O coração frio de Paula fora aquecido aos poucos, insensivelmente, como num banho-maria, à luz dos olhos vivos de Eulália. Íntimo de Francisco de Queiroz, acompanhara todas fases do desenvolvimento daquela formosura lapidar de estátua grega. Quando voltou dos estudos no seminário tinha 22 anos e Eulália apenas cinco. Era então muito dada com todos, muito afável, e gostava de sentar-se no colo dos hóspedes para correr-lhe a mão macia pela barba. Foi crescendo, crescendo, e, sempre a dobrar de beleza e de afabilidade, ainda aos 11 anos vinha intrometer-se entre os joelhos de Paula, então coadjutor da paróquia. Ele, acariciando-a, corria-lhe a mão pelos cabelos, pela face e pelo colo, onde a demorava, sentindo-o intumescido pela primeira efusão da puberdade. Ela pagava-lhe os afagos, encostando-lhe a face morena sobre o ombro, e perguntando-lhe com um olhar de cordeiro e um tom muito suave, por que é que ele não tinha uma filha para brincar comigo; gostaria mais dela do que das bonecas que lhe davam e que suas irmãs pequenas quebravam. Depois vira-a, à medida que seus vestidos iam aumentado, diminuir as suas carícias, tomá-la um retraimento delicado, limitar-se a um beijo na sua mão grande de atleta e às perguntas pela sua saúde e pela concorrência às missas. Então este beijo, aquecido por um hálito perfumado, enfeixava, como raios num foco, tudo quanto ela lhe dera nas despreocupações da meninice.

Viveu assim satisfeito, sob o domínio de uma paixão acomodada, cujo egoísmo se limitava a uma espécie de fanatismo religioso, mas calmo, semelhante aos dos monges pelas santas dos seus conventos. Mais tarde sobressaltou-se muito: Eulália estava com 16 anos, e seu próprio pai falou-lhe em casá-la.

Todas as torturas do ciúme assaltaram-no inopinadamente com o ímpeto de uma legião, com o desespero da impotência ofendida. Mas a sua boa estrela veio-lhe em auxílio: a mulher de Queiroz morreu de parto, e Eulália jurou não casar-se antes que sua irmãzinha estivesse criada: um marido podia tirá-la de junto do berço da órfã, e isto mata-la-ia.

Paula descansou na resolução de Eulália; conhecia a energia do seu caráter, ardente como o sol, e infalível como ele. A heroicidade do seu voto havia já quatro anos embalsamava-lhe a virgindade e nunca a mais insignificante falha sobreviera. Dai aumentar-se o culto silencioso do vigário, que só ultimamente começava a querer patenteá-lo à maioridade da sua amada. Era, pois, sincero, quando, de joelhos, exclamou

— Porque te amo.

Veio então recostar-se à janela, enxugando, com a ponta dos dedos, talvez as primeiras lágrimas que tinha chorado depois do dia em que fora sagrado sacerdote. O vento soprava com maior intensidade; era quase violento, dissolvendo as nuvens ou acumulando-as em castelos opalados na curva do ocaso. Já não havia escuridão, mas um leve esfumarado, através do qual via-se o profundo azul do céu nítido e estrelado, como a cauda de um pavão enorme.

A solidão esbatia-se na sua esmagadora integridade, cheia de evocações misteriosas e de temores sobrenaturais, e do meio dela levantava-se, negra, como o futuro, silenciosa como o além-túmulo, a massa agigantada do cruzeiro do cemitério, nu e desornado, com os seus paus-a-pique muito conchegados, como se fossem um quadro de esqueletos pulverulentos acostados e unidos para se aquecerem da frialdade do relento. A paróquia inteira parecia dormir. Só uma criança da vizinhança esgoelava um choro birrento, estrídulo, inconsolável, apesar de uma acalentação monótona, paciente como de um sonâmbulo, que se ouvia quando o berreiro descaía em soluços.

Jazeu aí por largo tempo; mas as corujas com os seus ululos tristes começaram a chamar-se para os amores nas trevas; os cavalos puseram-se a soprar os seus bufos rumorosos, e batendo os chocalhos, enchiam o espaço de estridentes relinchos, enquanto os galos da vizinhança cantavam profiada e prolongadamente.

Paula estremeceu involuntariamente e, endireitando-se, aprumando-se em toda a sua estatura, olhou para o céu, já sem as pegadas da tormenta, e com a voz rude, repassada de perversidade satânica, resmungou, balanceando o corpo:

— Bom, não temos inverno, ai vêm a fome e as epidemias; isto vai ficar um inferno. Mas também quanto orgulho vai ser quebrado - acrescentou sorrindo -, quanta baixeza surgir!

Fechou pacificamente as duas janelas, e tomando da vela, que já se aproximava do fim, entrou no seu quarto, que abria sobre a sala. Já em trajes de dormir, sentou-se à beira da sua rede, de grandes franjas azuladas, pouco suspensa do chão, e persignou-se olhando de face um Cristo esgrouviado, sarapintado das moscas, e que parecia não querer encará-lo, tão pendida tinha a cabeça.

Alguns minutos depois o vigário resfolegava a respiração compassada de quem dorme um sono tranqüilo. A vela ardendo dentro do bocal, ora abatia a chama, ora exalava clarões esverdeados como a luzerna de um vaga-lume.