Os Retirantes/I/VIII

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Os Retirantes por José do Patrocínio
Primeira parte: a paróquia abandonada, Capítulo VIII


Maio entrou pela paróquia com a tristeza profunda de um féretro. Os dias ardentes, mas de uma claridade mesta como a chama dos brandões funerários, envileciam o seu brilho. esbatendo-se em quadros lutulentos.

Não havia pôr-de-sol em que o povoado não visse passar, sujos como as enxurradas do inverno, grupos de emigrantes misérrimos, em cujos semblantes transpareciam, com a mesma intensidade, as torturas da fome e da saudade do torrão natal abandonado.

O Engenho, com as suas lendas supersticiosas, com o seu aspecto sombrio de crasta alumiada por uma fraca lâmpada tornou-se ainda mais tristonho: parecia um corvo colossal cobrindo com a asa negra desmesurada a sua pútrida carniça. Os seus arredores exalavam o cheiro nauseabundo das sentinas não desinfetadas, o seu interior tresandava as exalações dos curtumes. Já não era a multidão despreocupada, sussurrante, feliz, ávida de contentamento, quem o enchia a transbordar, dando alma às ruínas, evocando-lhes o passado pletórico de vida dos tempos do poderio da família dos seus possuidores. Enchia-o agora a inundação da miséria, o vômito da esterilidade do sertão, gente seminua, cadavérica, faminta, que era atirada pelo cansaço por sobre os seus entulhos, como o náufrago moribundo cuspido pelo mar no lodaçal de um mangue.

A vasta área, que serviu de cenário ao espetáculo do Feiticeiro, estava agora dividida em muitos cubículos, feitos pelo envaramento de ramagens, que recatavam-lhes o interior com a folhagem seca. Nos claros deixados, viam-se aqui e ali lareiras improvisadas por três pedras soltas, sobre as quais as panelas negras de fuligem ferviam para escaldar o tapichã, enquanto a lenha, apenas emurchecida, chiava, deitando novelos de fumaça, debaixo da qual a chama vacilava em crescer, como se o próprio fogo se houvera tornado preguiçoso. Em torno das lareiras ou dos borralhos extintos, as crianças quedando sentadas, com a resignação hereditária do cearense, lembravam grandes entranhas acocoradas à beira do brejo.

O efeito moral da população adventícia no ânimo da paróquia prostrou-a num abatimento invencível, e, além disso, o tifo começou a tomar um desenvolvimento epidêmico. Pairou então sobre o povoado o ar consternado do penitente na noite do oratório. Via-se condenado a morrer por uma sentença irrevogável, porque a fatalidade pusera-lhe estreito cerco. De um lado, o sertão trasbordava, de outro lado, assustadoras notícias de Aracati diziam que, em quase todas as cidades e povoações, a morte engordava nas hecatombes da fome.

A intensidade do horror tinha sugerido uma crueldade atroz ao instinto de conservação da paróquia, tanto mais vivaz agora que a frialdade da cova já invadira, em parte, pelo terror.

O Feiticeiro e vários retirantes haviam abandonado o Engenho, deixando alguns deles a mísera família abandonada à desgraça, sem que ao menos lhe dessem, por despedida, uma palavra de conforto. Um pensamento ocorreu logo a todos e impôs-se como certeza. A fama dos Viriatos dos Cariris tomava grande vulto na voz pública; contavam-se já façanhas medonhas dessa quadrilha de ladrões, que se aliara com o flagelo da seca para levar a ruína e a miséria aos cearenses. Onde o sol abrasador, os ventos impetuosos e áridos não podiam chegar, penetravam as mãos dos bandidos; o que não conseguiam as moléstias reinantes, faziam os seus punhais cegos e desapiedados, que eram a guarda de honra que lhes garantiam as suas espoliações.

Falava-se muito também do desaparecimento de muitos homens de força provada, de agilidade aclamada. De um dia para outro ninguém mais os descobria: partiam sem deixar rasto, como se o chão os houvesse tragado. Começou-se, pois a suspeitar que esses homens eram voluntários que se iam alistar na temível quadrilha dos Cariris. A paróquia inteira, portanto, ao saber da fuga dos retirantes, volveu os olhos para as bandas de sudoeste, onde se levantavam com um azul de turquesa os picos da cordilheira infestada pelos Viriatos.

Alguns indícios apagados, mas ainda assim conducentes a justificar a suspeita, ficaram após os fugitivos. Durante muitos dias o Feiticeiro pareceu olvidar-se das suas cobras, que puderam dormir e enfurecer-se à vontade nas suas estreitas gaiolas. O homem misterioso tinha sido invadido por uma piedade estranha pelos miseráveis que co-habitavam o Engenho, e distribuía esmolas pelas crianças. A sua bolsa tornou-se o complemento da do velho Monte, a cujas expensas se mantinham os retirantes. Rompera-se carinhosamente o seu antipático silêncio; sorrisos paternais desbastavam-lhe a aspereza hostil do semblante: fizera-se conversador e tratável.

A seu convite, os homens mais valentes passavam as tardes a provar forças e travavam lutas corpo a corpo, porfiadas, e até algumas vezes ameaçadoras a ponto de ser necessária a intervenção do seu promotor.

— Eh! - resmungava o Feiticeiro. - Isto é só para desenferrujar para as viagens: não é de vida ou de morte.

Dois dias antes da fuga, o homem misterioso, conversando à tarde, tinha dito aos ouvintes:

— Homem! Vocês têm ouvido nomear uns tais Viriatos ?... É gente para se ter respeito - continuou ele após a resposta afirmativa; - é gente de pegar: onde eles chegam, fecha-se o tempo.

— São ladrões desabusados - disseram entre os ouvintes -, má casta de gente.

— Vingam muitos pobres inocentes - replicou o Feiticeiro - chamados ladrões por tirar uma cana, e às vezes ratada.

— Lá isto é verdade - concordou o grupo.

— E aqui mesmo há exemplo - continuou o Feiticeiro -, há muita gente que passa por ladrão sem nunca ter furtado nem a porção de açúcar que uma formiga carrega.

— Muita verdade, muita verdade, tio Luís - responderam;

— lá em Inhamuns toda a gente fala no Virgulino; ele que o diga.

Os olhos voltaram-se todos para o homem que na sacristia entregara o cordão de ouro ao vigário Paula, em paga da sepultura do seu sogro.

— Ora o que lá vai, lá vai - ponderou Virgulino -, para que falar mais nisso?

A insistência do grupo obrigou-o, porém, a vir em auxílio das suas palavras

Tinha sido morador num sítio de criação, e ali nunca houve nenhum vaqueiro mais estimado. Era como um filho da casa, confiariam dele montes de ouro em pó. Todas as tardes o filho mais velho do situado vinha prosear no seu rancho e balançar-se na rede da sala, contando histórias divertidas, muito de se ouvir, porque ele tinha ido a estudos na Fortaleza. Era, em suma, um rapaz da praça, bem falante e muito floreador. Virgulino recebia-o em casa sem diferença de irmão; ele e o Anacleto, que os ouvintes estavam vendo, eram uma e a mesma coisa. Mas, uma tarde, o moço adiantara-se com uma das irmãs de Virgulino, que, ao ver semelhante desacato ao seu pundonor de cearense, ainda teve prudência de lhe dizer acomodado:

— Mais devagar, amigo; guarde esses modos lá para a praça, quando for ao Ceará.

A resposta foi de ferver o sangue:

— Cala boca daí; tomara você que eu a queira.

Uma onda de indignação engoliu de um trago a prudência do vaqueiro, e, fora de si, rugindo injúrias pungentes, agrediu o rapaz temerário, espalmando-lhe uma tremenda bofetada.

O covarde vacilou, bamboleou e rodou por terra, onde o foi subjugar a cólera de Virgulino, que, por desprezo, cuspiu-lhe ainda na face. A vingança não demorou a se fazer sentir atroz, quanto fora brutal a afronta. O próprio pai do rapaz, o velho situado, abriu-lhe na fronte a cruz infamatória, corrente fatal de galé que nada pode quebrar, porque os seus elos são fundidos com o próprio sangue do condenado.

— Eis ai por que eu sou apontado como ladrão - terminou Virgulino.

— Mirem-se agora neste espelho - exclamou o Feiticeiro - e tenham raiva aos Viriatos.

E, prosseguindo com a sua voz pausada, enrouquecida, o Feiticeiro comentou a cena da igreja e a pouca piedade da paróquia.

— O velho Monte não pode sozinho matar a fome a mais de cem pessoas; dá o que pode o bom do velho, mas os outros nem um real! O sr. vigário nem confessa a gente, e dá a comunhão; mas a hóstia santa e o gole de água não matam a fome ao cristão. Aqui é como se vê sempre: a presença do pobre não faz dó, mete medo; o rico pensa logo que o infeliz o vem roubar. Eu não vivo da esmola; vivo do veneno das cobras. O veneno é menos cruel do que a esmola. Não preciso de rogar o bocado para a boca. Por isso mesmo não me vexo com o desprezo de todos; não sinto que olhem para mim como para um pesteado. Mas vocês...

A voz do Feiticeiro tomou então uma acentuação lúgubre. Enrugou-se-lhe a pele do rosto entre os supercílios, e os seus olhos vermelhos, meio ocultas as pupilas no sobrecenho carregado, luziram como duas brasas.

— Não posso ver o que se está passando – continuou ele -, os homens são irmãos e um não deve morrer de fome à porta do outro. Nem ao menos dão o pano para mortalha; os mortos não merecem mais um bocadinho de respeito. Eis a razão por que eu não odeio os Viriatos; quem tem medo de dar uma cuia de farinha ao pobre, quem teme que esta obra de caridade lhe traga a fome em casa, é bem que perca tudo, e venha a sofrer o que os pobres sofrem. Os ouvintes ficaram profundamente impressionados; e alguns ponderaram, para significar a sua aprovação às palavras do Feiticeiro:

— E a verdade é que eles não fazem mal aos pobres.

— São o castigo de Deus - acrescentou o Feiticeiro.

Dois dias depois, dera-se a fuga, figurando no número dos fugitivos o Feiticeiro, Virgulino e seu irmão. O mistério do seu desaparecimento propagou o terror por todo o povoado, que não acreditava que fosse possível alguém abandonar a família moribunda, desamparada, a não ser pela alucinação de um crime.

O Feiticeiro passou, portanto, a ser considerado um ladrão, e o povoado ficou à espera para repelir o seu assalto.

Antão Ramos, que era o mais diretamente ameaçado, teve então uma idéia, que em outra qualquer ocasião ele mesmo só julgaria digna da fria perversidade de Marciano. O atemorizado inspetor passava os dias a olhar para as pilhas de carne e para os sacos de farinha, e estremecia, como se a sua imaginação lhe pintasse os ladrões sentados a rir, a mofar da sua consternação, enquanto os seus molares afiados mordiam os seus gêneros. Torturado por tão lutuoso temor, Antão Ramos foi ter com o vigário para merecer-lhe um conselho.

— Na minha qualidade de inspetor - perguntou ele -, não posso mandar retirar esta gente que está no Engenho?

— Homem, tudo se pode fazer; a questão é querer.

— Pois então eu vou fazê-lo; não é por desumanidade, sr. vigário, mas por cautela. Os outros fugiram, estes podem querer vir arranjar-se aqui mesmo no povoado. Não acha que previno um grande mal?

— E se os que fugiram estiverem aí por perto?

— Qual ! Nesta não caíam eles.

— Homem, lá diz o rifão: o melhor para o ladrão esconder-se é mesmo na casa em que roubou. Os homens viriam então saquear o povoado.

— Neste caso havemos de morrer aqui pesteados por esses diabos?!

— Há ainda um outro recurso.

— Qual é? Diga pelo amor de Deus, sr. vigário.

— Deitar fogo ao Engenho, deixá-los ao tempo - respondeu Paula serenamente.

O conselho de Paula avultou como um dom sobrenatural no espírito de Antão Ramos. Achou nobre, justa a monstruosidade sugerida e, num transporte de expansibilidade, atirou-se-lhe ao pescoço, a abraçá-lo calorosamente.

— Vossa Mercê é um homem de cabeça; está tudo feito exclamou o inspetor; - foi um excelente achado, uma riqueza.

— Não parece mau - ponderou Paula. - Eles cozinham debaixo do casarão; uma brasa esquecida, o Engenho muito velho, o vento da noite explicam tudo.

— E vão lá saber - sorriu o inspetor.

— A gente mostra-se triste, insiste com eles para que fiquem, eles relutam, partem e.. . acabou.

— Olhe que Vossa Mercê sempre é.... Melhor só Deus a engenhava. Muito boa!

E alegre, pojando o seu egoísmo em risadas e oferecimentos, Antão Ramos, com os braços cruzados sobre as costas, sacudindo-se morosamente, contemplava Paula. A fecunda espontaneidade dos seus alvitres, que honrariam uma longa reflexão, espantava o inspetor, que não se fartava de olhá-lo muito e insistentemente.

— Olhe, sr. Antão, não vá pensar que lhe dei o conselho por ter mau coração!...

— Nem eu penso, nem ninguém. Vote! Pensar mal de quem nos livra dessas pestes? Nunca! Eu sei, eu conheço Vossa Mercê.

— Obrigado; mas saiba que eu não lhe aconselharia coisa alguma, se o Evangelho não dissesse: "A árvore, que não dá bom fruto, corta-se pela raiz".

— Sim, senhor; e ninguém pode negar que, se essa gente continuar aqui, o povoado está perdido. As febres já aí andam.

— Pois é ter coragem. Você é a única autoridade que ficou entre nós; proceda como deve.

Antão tomou o seu chapéu para sair, e estendeu ao vigário a sua mão de sertanejo robusto.

— Perdoe-me; são horas, e eu vim cá num pulo. Por entanto, sr. vigário, Deus lhe agradecerá.

— Amém - respondeu O vigário; faça-o, eu encarrego-me do mais.

— Por entanto...

— Adeus, Antão Ramos.

Depois da saída do inspetor, o vigário impressionou-se profundamente; mas não demorou a espairecer e a reintegrar-se na sua indiferença habitual. Recostou-se na rede a fumar e a cantarolar um salmo, e em pouco tempo adormeceu acalentando com os vaivens suaves a quebreira canicular.

Não o deixaram gozar por muito tempo o tranqüilo repouso. O velho Marciano veio procurá-lo, porque pediam o Sacramento para o Engenho, e o pequeno José, o timorato criado, entrou pé ante pé pelo quarto a fim de chamar Sua Mercê.

— Sr. vigário - murmurou o pequeno, vendo-o acordar meio estremunhado -, é o sr. Marciano quem está chamando para Vossa Mercê ir confessar no Engenho.

— Raios te partam, demônio. Não me acordes nunca para dizer tolices.

Marciano, que estava na sala, repetiu o chamado, e acrescentou:

— Tenha paciência, sr. vigário; quem se aluga a S. Miguel...

— Quer saber de uma coisa, Marciano? Nem sempre se está para brincar - respondeu Paula rudemente. - Diga lá a quem lhe trouxe o recado que eu não saio com esta soalheira; se quiser traga cá à igreja o doente.

— Foi isto o que eu disse ao portador. Não se zangue Vossa Mercê; eu vou já.

Marciano saiu cortejando o vigário com a inalterável boa vontade do seu aviltamento, e na porta de casa passou adiante as palavras desabridas do vigário.

— E se quiser - concluiu ele respondendo às objeções do portador do recado. O sr. vigário não há de ir por este sol fora dar tamanha caminhada.

— Mas a doente não pode também apanhar este sol: morrerá antes de chegar à igreja.

— Espere então para logo mais; com a fresca da tarde, talvez lhe faça bem. Até logo, ou até já, como quiser.

O portador voltou desconsoladamente ao Engenho, e, entrando em um dos cubículos, acercou-se de uma rede, onde uma pobre mulher arquejava sobre a umidade de dejeções disentéricas, e disse-lhe à meia voz:

— Não é melhor que você espere mais um pouco, até de tarde, para tomar o Nosso Pai?

A enferma sacudiu a cabeça, e a sua voz muito fraca murmurou tristemente:

— Já, já.

— Mas é preciso que a levemos lá; o sr. vigário não pode vir até cá: está muito quente o sol.

— Eu vou - disse a moribunda; - é melhor até ser na igreja, levem-me lá.

O homem, enxugando silenciosamente os olhos, saiu a pedir o auxílio de alguém, a procurar um companheiro. Os miseráveis habitantes do Engenho puseram-se todos à disposição do infeliz.

— Pronto - disse o primeiro a quem falou.

— Prontos - ofereceram-se os que o ouviram.

O nobre coração cearense revelava-se inteiro em tamanha espontaneidade. A desgraça encontrava ainda a fraternidade dos tempos prósperos, em que surpresas delicadas vinham honrar o trabalho e arraigar o sentimento de solidariedade entre os vizinhos. Corria a notícia de que um amigo andava a convidar gente para fazer uma derrubada. Calavam-se os vizinhos e, certos do dia em que devia começar o trabalho, lá iam de véspera invadir a mata com os golpes dos seus machados e foices, afiados pela amizade a mais sincera. Quando o proprietário levava a sua gente para o trabalho, mãos desconhecidas já o haviam feito.

Foi este sentimento o que ouviu o pedido do esposo da moribunda.

Os preparativos para a condução da mísera crente não demoraram. Dentro em meia hora dois homens colocavam sobre os ombros uma rede asseada, e, seguidos por quase todos os habitantes, subiam a colina, ao som do canto tristíssimo do Bendito.

A natureza em torno, silenciosa na sufocação da canícula, as carnaubeiras, perfiladas aqui e ali, pareciam grandes pontos de admiração, comentando a cena compungente. Os milhares de focozinhos radiantes, feitos pelo sol nos seixos do areal do Jaguaribe, pareciam miríades de olhos esgarados para verem o requinte da crueldade clerical. Mas os trapilhos, os exilados não participavam da indignação da natureza; absortos na assonância do cântico lúgubre e sentido, limitavam-se a invocar a piedade divina para a infeliz que se avizinhava do túmulo, e cantando, pedindo e prometendo perdão, fizeram a sua entrada tristonha no povoado, que se consternava sem poder explicar o que via.

O vigário não se perturbou, apesar dos olhares interrogativos e dos cochichos que o hostilizavam na passagem pelo corpo da igreja. Relanceou o olhar indiferente sobre o grupo que cercava a rede, e disse:

— Tragam a doente para junto do confessionário.

O esposo infeliz ajoelhou-se para tomar nos braços a moribunda, e, como esta olhasse com uma fixidez assustadora, inclinou-se muito e perguntou-lhe quase ao ouvido:

— Não está melhor, não, minha velha?

E acrescentou em seguida:

— Vamos para junto do confessionário, sim?

A moribunda nada respondeu, e nem sequer pestanejou; os seus olhos, brilhantes como a malacacheta, conservaram-se imóveis, nessa estagnação contristadora que gera o pavor do túmulo e dá ao moribundo o ar de quem escuta atentamente um ruído longínquo.

— Eu creio que ela já não ouve - exclamou o marido; - não me responde. Chamem depressa o sr. vigário, depressa.

Um sussurro piedoso acolheu as palavras do infeliz, e diversas pessoas saíram apressadas para chamar o vigário.

Paula já havia saído da sacristia e, revestido com a sua sobrepeliz, atravessava o corredor que desembocava na capela-mor.

O sussurro promovido pelas palavras do retirante chegou-lhe aos ouvidos e fê-lo sorrir mofareiramente.

— O que vem a ser isto?

— Toleimas - respondeu o sacristão; - estavam a dizer que Vossa Mercê é que devia ir ao Engenho.

— Tanto melhor para eles - respondeu encolhendo os ombros; - não me faltava mais nada.

Paula caminhou até o confessionário e daí, com o seu tom rude, disse em voz alta:

— Então não trazem a doente?

Responderam-lhe que ela não podia mais ser ouvida de confissão; perdera a fala.

— Dá-se-lhe a extrema-unção - ponderou desdenhosamente.

E caminhou até junto da rede.

Comprimindo as narinas entre o polegar e o indicador, o vigário começou a administrar o sacramento, e, tendo de aplicar os santos óleos, disse dirigindo-se ao marido da infeliz:

— Veja se pode levantá-la.

— Hei de poder, sr. vigário, hei de poder; mas vou incomodar a coitada. Se Vossa Mercê pudesse agachar-se um nadinha?...

— Sim, sim, posso; incomodo-me eu.

Marciano sorriu quase imperceptivelmente, aprovando a ironia do protetor da sua filha mais velha e seu compadre. Os outros espectadores não tiveram tempo de perceber a finura da sátira característica do seu pastor espiritual.

Quando a cerimônia religiosa terminou, deixava um cadáver estendido sobre o pavimento do templo.

— Que fedentina - ponderou o vigário, desrevestindo-se na sacristia. - Vamos ficar com a igreja empestada. É preciso lavar aquele lugar e queimar incenso.

— Sim, sr. vigário - disse o sacristão -, mas se todos os dias vier algum doente confessar-se...

— Não, havemos de remediar isso; eu vou ver o que devemos fazer.

Neste momento o triste enviuvado parou à porta da sacristia, pedindo licença para entrar. Vinha pedir à Sua Mercê licença para que o corpo ficasse depositado na igreja. Era trabalho penoso reconduzi-lo para o Engenho. Não o dizia por si mas pelos seus companheiros que não tinham obrigação nenhuma. Já muito lhe haviam feito, subir de cabeça acima a colina, por este sol danado, carregando o peso de um corpo. O sr. vigário de certo lhe faria o grande favor de consentir que o corpo ficasse em depósito.

— Por mim, filho, pode ficar - retorquiu Paula -, mas não sou eu quem cuida de abrir e fechar as portas da igreja; é ali o Marciano; fale com ele.

O velho sacristão, que estava dobrando a sobrepeliz, voltou-se bruscamente, e, depois de olhar para o vigário que se fingia distraído, disse timidamente:

— Vossa Mercê bem sabe que eu não vivo só de ser sacristão; tenho outros ganchos, e não os posso perder para ficar vigiando a igreja. Mas Vossa Mercê manda...

— Eu nada tenho com isso; é lá entre vocês dois - respondeu o vigário.

E tomando o seu chapéu redondo, de grandes borlas pretas, afastou-se batendo cadenciadamente com os tacões um passo firme e regular.

No corpo da igreja, porém, Paula foi obrigado a parar para falar com Rogério Monte que, depois de cumprimentá-lo, pediu-lhe para consentir que o cadáver ficasse depositado na igreja, pelo menos até a tardinha.

— Pois não! - respondeu Paula prazenteiramente.

E voltando-se para um dos espectadores:

— Diga lá na sacristia ao Marciano para deixar ficar o corpo.

— Pobre gente, meu Paula! - ponderou Monte.

— É verdade - murmurou o vigário - Desgraçada gente!

O velho Marciano, com todo o império de um sacristão ínfimo do sr. vigário, já havia respondido com um não redondo às súplicas do viúvo, quando lhe chegou o recado de Paula.

— Graças, meu Deus! - exclamou o viúvo, ouvindo o portador - Graças!

— Agora, sim senhor - advertiu-lhe Marciano; - manda quem pode.

O ajuntamento foi rareando gradativamente, e dentro em uma hora apenas eram vistos no templo o cadáver, muito espichado no pano azulado da rede, com uma vela amarelada à cabeceira, e algumas pessoas que ficaram de quarto com o viúvo.

Os paroquianos, porém, continuavam a comentar o procedimento do sr. vigário. Era incompreensível. A seca ainda não tinha dado senão os primeiros passos, e já ele, agoureiro como as corujas, pregava apontando-a como um castigo sem esperança de perdão. O seu olhar surpreendeu no desconhecido os horrores do futuro e desdobrou-os na pungente nitidez dos seus contornos. Daí a ineficácia das preces, onde o arrependimento bracejava, náufrago no oceano tenebroso da indiferença divina. Mas ainda assim esse congraçamento de lágrimas e dúvidas, de dores e desesperanças, esse caos de agonias que se enovelavam e se distendiam, afundavam-se e sobrenadavam, enoiteciam e clareavam no seio insondável do desconforto, dava à paróquia a solidariedade da desgraça, estendia por toda ela a mesma sensibilidade, como na circunferência de uma água-viva. Paula, não obstante, suprimiu as preces, como se quisesse interpor-se à terra e ao céu, separando-os para sempre com o esplendor dos dias estivos, fatal como a claridade bíblica às portas do paraíso. Não satisfeito ainda, voltou as costas a todos aqueles que precisavam do seu olhar de sacerdote cristão, para minorar os padecimentos da sua desventura. Era inqualificável tanta crueldade, e o próprio Marciano já resmungava à porta do templo:

— Eu posso perder o meu dia de trabalho, mas os sete palmos de terra não se dão de graça.

— Vamos nós tirar uma porção? - ponderou um grupo estacionado a pouca distância da igreja.

— Só assim não veremos outra cena igual à de hoje: um moribundo não ter quem lhe vá levar Nosso Pai e vir morrer na igreja.

— E o melhor; falemos nisso ao velho Monte, e se ele quiser está tudo feito.

Na mesma tarde começou-se a tratar da porção, ou subscrição paroquial para aumentar a côngrua do sr. vigário, caso ele quisesse encarregar-se de todo o trabalho, ou então para contratar um coadjutor.

Paula, informado da resolução dos seus paroquianos, que era uma tácita censura ao seu procedimento, não aprovou nem desaprovou, mas refletiu secamente:

— Eu não preciso que me ensinem o caminho a seguir; só eu posso regular o meu procedimento, enquanto for vigário.

O seu despeito mostrou-se mais acentuado ainda à tardinha. Foi à igreja e aí, em face do cadáver já amortalhado, subiu ao púlpito para encetar uma nova série de práticas. Pôs-se a discorrer; mas em meio da descrição do quadro contristador da paróquia, seviciada pelo sol, estrangulada pela canícula, empestada pela febre, vendo-se aqui o luto - hóspede forçado em quase todas as moradas - acolá o terror - companheiro sombrio de todos os homens -, por toda parte o pensamento do exílio emboscado em todas as consciências, Paula suspendeu a sua torrente de horrores. Lembrou-se do conselho dado a Antão Ramos, e imóvel, com os braços levantados, os olhos fitos na telha-vã da nave, o semblante ensombrado por um recolhimento ascético, lembrava os antigos profetas invocando o Deus de Israel. Só depois de longos minutos de espanto e de contrição dos ouvintes continuou a falar, mas agora com a hesitação dolorosa que é às vezes a eloqüência da sinceridade, e outras a arma da perfídia.

Sonho ou realidade, disse, acabava de esmagá-lo uma visão tremenda. Era um lugar para o lado do Norte, triste, abandonado, pouso das aves da noite, cercado de uma paisagem lôbrega. A vegetação combalida lembrava a floresta dantesca em toda a sua tristeza. Neste lugar ouviam-se queixas e gemidos de velhos e de crianças, que morriam, pedindo em vão socorro aos seus semelhantes, tanto ou mais desgraçados do que os que pediam. De repente um clarão enorme abrira-se nesse lugar de tantas dores e de tanta desventura. Espirais longas de fumo rolando pelo espaço, turbilhonantes como os anjos rebeldes na sua queda, embaciaram a transparência do espaço. Um fragor, soturno como o rodar de um ventilador, mas permeado de ruídos estridentes, fez-se ouvir e logo depois as labaredas vermelhas, assanhadas como um bando de cobras enclausuradas numa gaiola negra, relampejaram, colearam e ergueram-se faiscando sobre o pedestal de fumo. A multidão, que aí habitava, acordando em sobressalto, sem tempo ao menos para salvar os filhos, queria arremessar-se às chamas temerosas, e contida, subjugada, debatia-se na profundeza da sua imensa dor. A noite aqueceu-se no brasido enorme daquela rápida fogueira, e, ao amanhecer, os olhos viam caídos pela estrada, como se ao peso da maldição de Deus, dezenas de pessoas mordendo a terra, desconsoladas como a própria morte.

— Ninguém pode penetrar nos arcanos divinos – exclamou o vigário terminando. - O homem não tem olhos para sondar o futuro; o olhar se enturva se quer lobrigar alguma coisa nesses domínios da Providência.

A palavra restabeleceu-lhe a força moral em toda a sua integridade; fazia tremer como nas primeiras prédicas repassadas da poesia tenebrosa das superstições. O seu vulto excepcional cresceu até a sua altura de outrora, e foi triunfante que desceu do púlpito, que lhe dava maior majestade do que um trono.

A sua perspicácia percebeu logo a inteireza da reabilitação, e Paula, com uma solicitude e sofreguidão pouco habituais, procurou entre os fiéis o timorato Antão Ramos. Quando o encontrou fez-lhe sinal para segui-lo até a sacristia, e aí o conduziu para o recanto de uma janela.

— Está ainda disposto a fazer aquela obra de caridade?

— Não sei, sr. vigário - respondeu o inspetor -, falta-me a coragem. Pensei no caso; pareceu-me perversidade; não tenho coragem. Eu fugirei daqui.

— E a paróquia, e todos ficarão expostos ao roubo, ao assassinato, porque a autoridade não tem força para fazer o bem geral. É muita covardia.

— Seja, sr. vigário; mas eu tenho filhos e pensei que pode não haver tempo de salvar as crianças.

— Pense melhor, sr. Antão Ramos; eu sou um ministro de Deus e não lhe aconselharia um crime. Os seus filhos serão talvez as primeiras vítimas. Roubado você, eles terão a mesma sorte. Pense que a conservação própria é um dever.

— Eu sou fraco, sr. vigário, não tenho coragem.

— Não é necessária a mão do homem para fazer o que virá diretamente da mão de Deus. Pode ir.

Paula afastou-se e foi ajoelhar-se em frente ao Cristo que ornava a grande mesa da sacristia.

O seu rosto sereno, sem a mais leve comoção, o seu olhar claro, embebido nos do crucifixo, alucinaram o simplório inspetor. Não era possível que Paula o aconselhasse a uma perversidade, quando podia fitar desassombradamente a imagem de Deus.

Este pensamento conquistou-lhe o espírito e expeliu o receio piedoso que o enchia, dando corpo ás ameaças tremendas do vigário. Frio invencível percorreu-lhe o organismo; as pernas fraquearam-lhe, e, azoinado, sentindo arrepiarem-se-lhe os cabelos, o supersticioso inspetor caminhou até junto do vigário, que, parecendo arrebatado num êxtase, continuava a orar ao Crucificado.

— Eu vou, sr. vigário, vou já - segredou-lhe Antão Ramos -, não peça a Deus que faça cair sobre mim o sangue do povoado; eu vou, tenha piedade de meus filhos.

— A misericórdia de Deus não precisa do braço do homem, sr. Antão Ramos. O povoado será salvo pela graça do Onipotente.

— Não importa - resmoneou o supersticioso -, eu farei a Deus este sacrifício.

Levantaram-se ambos, e Paula, abraçando ternamente o inspetor, disse-lhe a sorrir:

— Está bem, meu amigo, acalme-se, o sacrifício, para ser recebido, deve ser feito de ânimo calino.

— Obrigado, sr. vigário, muito obrigado.

Os olhos de Paula foram então encontrar-se com os de Marciano, que a um canto da sacristia acompanhava atentamente a cena, sem poder compreendê-la. Esse olhar aguçado pela curiosidade fez estremecer o vigário.

— Marciano, vá acender as velas nos altares, e diga ao povo que eu vou rezar um responso por alma daquela infeliz.

O velho retirou-se, depois de acender uma vela junto ao Cristo, e os dois interlocutores puderam ficar sós.

— Eu posso detê-los por aqui por mais de uma hora; depois ainda há o enterramento; ninguém o verá, vá.

Antão Ramos saiu com o ímpeto da alucinação, enquanto Paula, sorrindo, vestia a sobrepeliz para ir rezar o responso.

— Hão de agora respeitar mais os meus atos, sandeus; não hão de resmungar mais.

Era já noite fechada quando o inspetor estava preparado para levar a efeito o seu sacrifício à guarda da paróquia. O céu, apenas estrelado, não tinha luz para alumiar o caminho, e Antão Ramos pôde tomar a direção do Engenho sem que ninguém o visse. Só a consciência ia-lhe ao encalço, pondo ruídos assustadores na folhagem das árvores, abrindo mil olhos nos troncos ressequidos, articulando psius indiscretos no rumor trépido dos matagais.

A superstição não o tinha investido da coragem necessária para ficar indiferente à revolta silenciosa do seu espírito contra si mesmo, e o inspetor estremecia, hesitava, corria, estacava, sentindo latejarem-lhe as têmperas, encandearem-se-lhe os olhos, tornarem-se-lhe trôpegas as pernas ágeis.

Uma secura de febre ressequia-lhe a boca e aportava-lhe a garganta com a constrição do terror.

De repente parou, como se o tivessem chumbado ao solo. Estava no começo do cemitério, e a massa negra do cruzeiro pareceu-lhe um embuçado caminhando ao seu encontro, com os braços abertos, como para estrangulá-lo. Perdeu de todo a coragem e encostou-se à cerca para não dar em terra, tonto pela aluvião de pensamentos monstruosos que o salteavam, como num pesadelo.

Um rugido de chocalhos fez-se então ouvir no profundo silêncio, e uma voz rouca, ecoando forte, gritou claramente:

— Arriba, arriba!

Longe de acalmar-se, a exaltação do inspetor deu a estes sons uma origem sobrenatural. Pareceu-lhe que todas as covas se abriam, e que um bando de esqueletos, levantando-se morosamente das suas tenebrosas moradas, caminhavam para ele, brandindo grandes archotes e oferecendo-lhos por escárnio: "Toma, toma; vai incendiar o abrigo dos desgraçados".

Quis gritar, mas o seu espanto não tinha voz; quis fugir, mas conservou-se imóvel, como se um laço inquebrantável o amarrasse ao pau-a-pique da cerca.

— Arriba, arriba! - ecoou novamente na treva, de par com o bater dos chocalhos.

Um estrépito soturno, demorado, de tropa morro acima, ressoou em frente ao cemitério, e na treva alvejaram os pelos brancos dos animais e as camisas dos freteiros. Mas Antão Ramos, no seu delírio, via nos que passavam seres sobrenaturais, e, vencido pelo cansaço, deu em terra com um corpo inerte.

A tropa, ressoando os seus chocalhos num passo cadenciado, subiu a pequena ladeira e entrou pela praça da paróquia a alegrá-la e a confortá-la.

— Boa noite!

— De quem? - perguntaram os transeuntes ao freteiro.

— Do imperador - respondeu o freteiro, o Marcelino de Silva, com a sua voz muito cantada e melosa. - É a esmola do imperador.

— Bom, homem, chega mesmo ao montar! Como vai por lá o Ceará? Houve chuva?

— Que esperança! Está tudo torrado e o povaréu vai por aí de cabeça a baixo que é até um destempero.

— Virgem!

— As carnaubeiras por aí fora estão num destroço; a força do povo deu nelas com a fome, que é uma calamidade... Ê como uma mata brocada.

— É de morte?

— Está no Aracati o andaço da febre e do desandamento da barriga: cai gente como folha seca. Mas parece que não há nada, porque o povo é como a cabeça d'água de uma enchente, transborda pela cidade.

— Forte desgraça!

— E como vamos por cá?

— Na mesma toada, homem; está de amarrar a alpargata; num mês já lá vão para mais de 20 ao cemitério. A gente cai para aí com um febrão que é um Deus te livre, e já se sabe que é ir comprar a mortalha. Em menos de quatro dias está lapeado. Na igreja está se encomendando uma cabra de Maria Pereira.

— Então acho lá o sr. vigário.

— Visto.

— Tenho uma carta para ele e outra para o Monte, com muita recomendação.

O comboio estacou à esquina da igreja para deixar passar o saimento do cadáver. Um facho junto da rede e outro no meio da multidão alumiavam o caminho aos habitantes do Engenho, silenciosos pelo respeito inato aos mortos. O vigário, sobressaindo na mó, com a sua batina de lila muito preta, aumentava a solenidade da cena.

O freteiro, que se havia apeado, caminhou para Paula, e, tirando o chapéu de couro e saudando-o, entregou-lhe a carta, em cujo sobrescito lia-se o S. P. dos ofícios do governo.

— Serviço Público - exclamou Paula. - Vejamos o que diz; chegue-me cá este facho.

O vigário sorria à medida que ia correndo os olhos pelo bastardinho cuidado da carta, e, terminando a leitura, exclamou alegremente:

— Muito bem; saibam que não passarão mais fome. Está tudo remediado. Você, Marcelino, vá ter com o José em minha casa e deixe lá a carga.

O freteiro, cavalgando de novo, tangeu a tropa na direção da casa de Paula, enquanto os que se tinham demorado apressavam o passo para ficar mais próximo do caixão mortuário.

Uma impaciência invencível começou então a torturar o vigário; com o olhar agudo, penetrante, investigava todas as moitas, e, de vez em quando, enganado por um ruído, dirigia-se à beira da estrada para espiolhar.

— Como que ouvi pisadas - dizia ele, ao ver-se enganado.

— Seria capaz de jurar que as ouvi.

— Pois é engano seu, sr. vigário - respondiam-lhe alguns curiosos da paróquia que o vinham acompanhando.

Paula, porém, não se distraía do seu cuidado, e, sem poder mais conter a causa de tanta solicitude, perguntou:

— Viram na igreja o Antão Ramos?

— É verdade - responderam-lhe -, não apareceu lá, apesar de gostar de espiar tudo.

— E não estava também na venda - acrescentaram.

— Oh! diabo - exclamou o vigário.

Mas contendo logo a sua exaltação, ajuntou:

— Eu que precisava tanto conversá-lo!

— Isto é algumas diligências que ele foi fazer - ponderou um do grupo, que sorriu maliciosamente.

À porta do cemitério, o vigário pôde resfolegar livre da impressão que, mau grado seu, o subjugava. Algumas pessoas correram até junto da cerca, e, com exclamações de dó, puseram-se a levantar um homem que estava caído.

— Tragam cá o facho - clamaram -, está aqui um homem expirando.

Paula foi o primeiro a correr para o grupo, mas, em vez de entristecer-se como os circunstantes, o seu semblante alegrou-se.

— Ah! - exclamou ele, aspirando uma onda de ar -Felizmente.

E, como reparasse que tinha chamado a atenção de todos, acrescentou:

— Tive um aviso mau a respeito deste infeliz.

— Está ardendo em febre!

— Foi um susto, isto há de passar; chamem aí quatro desses homens para conduzi-lo até o povoado. Um gole de água com aguardente é quanto basta.

E, entre dentes, resmungou:

— Pedaço de poltrão!