Os Retirantes/III/IX

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Os Retirantes por José do Patrocínio
Terceira parte: a capital, Capítulo IX


Enquanto a adversidade desfechava golpes violentos no coração de Eulália,. não poupava também a sua família.

Levadas pelo bilheteiro da estrada de ferro à casa do comissário do abarracamento T..., d. Ana e suas sobrinhas foram por ele bondosa e compassivamente recebidas. Receberam logo uma guia para serem acomodadas e, o que as desvaneceu muito, uma recomendação especial.

D. Ana, a quem as freqüentes decepções tinham tornado suspeitosa em extremo, saiu da casa do comissário abençoando-o sinceramente.

— Santo homem! Iguais a ele é que deviam ser todos os comissários.

De feito, julgado pelas aparências, o comissário inspirava a maior confiança a quantos se aproximavam de si. Era chefe de uma família numerosa, a quem mostrava adorar. Sempre que falava aos retirantes, chamava para a sala os filhos menores, e, afagando-os, beijando-os muito, espremendo lágrimas dos seus 40 anos, expunha fases tristes de sua vida.

— Conte com um amigo. No meu abarracamento não há retirantes e comissário, há somente amigos e irmãos.

Profundamente beato, o comissário misturava às suas frases consoladoras as mais comoventes máximas do catolicismo, de modo que toda a gente acreditava que nele se ocultava o arcabouço de um futuro santo.

— Eu, minhas senhoras, entendo que só há um caminho para a felicidade neste mundo: é compreender bem os mandamentos da Santa Madre Igreja: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos. Tudo o que não for isto é vão e falso.

E, abaixando a cabeça pequena, sarapintada de cabelos brancos, aquele homem de estatura mediana, de carnação parca, de olhar terno e humilde, acrescentava:

— Quando eu me casei, aos 18 anos, ninguém se lembrou de tais verdades para comigo. Não nutri ódios, porém, resignei-me, trabalhei e consegui.. Sei hoje quanto custa o infortúnio e o preço da felicidade.

D. Ana saiu verdadeiramente tranqüila da casa de tão profundo moralista e chegada ao abarracamento foi aí recebida atenciosamente.

O administrador, um rapaz de vinte e poucos anos, robusto, de maneiras delicadas e semblante que insinuava, esmerou-se em obsequiá-la, a ponto de causar estranheza aos próprios companheiros.

Não havia para hospedar as recém-chegadas lugar nenhum decente. O abarracamento tinha capacidade para mais de uma dezena de milhar em vastíssimos telheiros, sob os quais viviam os retirantes numa promiscuidade de animais. O lanço, que era formado por pequenas casas, estava todo ocupado, e não era possível de momento arranjar aí morada para a família.

— As senhoras hão de ter notado quais as casas em que moram os retirantes. Por ora é o que se tem podido fazer.

D. Ana, receando ser posta em contato com a massa repelente dos seus iguais em desventura, abaixou tristemente a cabeça.

— De pronto não é possível arranjar-lhe uma casa, portanto, à vista da recomendação especial do comissário, as senhoras ficam hospedadas aqui até segunda ordem. Venha comigo.

O administrador atravessou uma pequena sala em que estavam apinhadas as sacas de farinha e as mantas fétidas de carne.

Entre este compartimento e o outro em que devia ficar hospedada a família, havia dois outros: um era a rouparia, e outro um quarto pobre, mas decentemente mobiliado, em que, segundo a frase do administrador, "o comissário descansava e ouvia as queixas particulares de retirantes de uma certa ordem".

— Ah! é um santo homem, o comissário - repetiu o administrador mostrando à família a parte central do abarracamento; nenhum trata os retirantes com tanto carinho.

E o preposto chamou a atenção da senhora principalmente para uma prateleira que havia na rouparia, e que tinha em cima um grande letreiro: Dietas. O aspecto, e a qualidade dos gêneros confirmavam a afirmação do administrador.

— Eis aqui a sua casa - disse ele por fim; - aqui estão um quarto e uma sala. Não é um bom cômodo, mas serve. As senhoras dormem aqui, e podem fazer a sua cozinha lá fora; eis aqui a porta para sair.

D. Ana e as sobrinhas ficaram maravilhadas; tanta bondade afigurou-se-lhes por momento interessada, mas ao mesmo tempo o desinteresse do homem que as recomendara ao comissário, a figura simpática deste, que era um pai de família afastaram a mais leve suspeita acerca das intenções com que tudo era feito.

— O mundo não é felizmente composto de malvados somente, ainda há homens dignos no meio dos perversos - ponderou d. Ana à Chiquinha.

— Parece, pelo menos - respondeu esta cujos olhos tinham por vezes encontrado com os do administrador.

— Agora - disse o jovial preposto - quero mostrar-lhes que, apesar de toda a bondade do comissário, aqui temos meios de manter a ordem. Vejam as senhoras.

Tinham saído e haviam, depois de alguns passos, parado diante de uma casa de paredes fortes. O administrador tirou do bolso uma chave e abriu a única porta, que dava para fora e deixava ver uma pequena sala, completamente nua.

— Esta casa tem seis compartimentos. Serve para castigar os retirantes de uma certa ordem.

— É medonha - disse Chiquinha sorrindo: - não tem janelas? Não entra luz aí?

— Não. Foi feita de propósito para o caso de delitos graves.

— E aí tem estado muita gente presa?

— Nem por isso, felizmente. A maior parte das vezes basta só a ameaça.

Quando o administrador voltou com a família, diversos empregados tinham vindo espreitar, e sorriam maliciosamente.

— Olhem o Neco como se apresenta... Querem ver que ele está fingindo de comissário ~...

— A rapariguinha mais velha é bem bonita.

— Felizardos... o melhor guardam para si.

O administrador, deixando a família, que não reparara no ar dos curiosos, veio a esfregar as mãos e a rir.

— Com que então, seu Neco, você é quem pode.

— Mais baixo; parecem muito ariscas, fidalgas da roça.

— É por isso que começam com este tratamento?

— Coisas do comissário.

— O que vale é que isso não dura muito, é só enquanto as pequenas engordam.

— Mais baixo, cambada, a velha é desconfiada, se ouve falatórios já, é capaz de arrepiar carreira.

— Grande perda, tão boas ou melhores não faltam por aí, é pegar com os olhos fechados.

— Mas o grande caso é que vocês têm água na boca.

O empregados rindo e chacoteando com o administrador afastaram-se finalmente e deixaram-no só com o fiel do armazém.

— É esquisito este procedimento do comissário; nunca se fez isto aqui.

— Ele não me recomendou que procedesse assim, mas como disse na carta - recomendo-lhe tratamento especial -, entendi que devia tomar esta resolução.

— E se ele não concordar?

— Ele há de alegrar-se até.

O administrador tinha razão quando afirmava que o comissário alegrar-se-ia com o seu procedimento.

Quando à tardinha veio ao abarracamento, o comissário ainda a cavalo, perguntou pelas suas recomendadas e, apeando-se, acrescentou falando à puridade com o administrador:

— Então, que tais as meninas?

— Bonitinhas, mas estão multo desfeitas.

— Com uns 15 dias de bom tratamento refazem-se e ficam ai fortes e de se verem.

— Se alguma febre não as lapear de um trago...

— Não agoure; você já está com inveja das minhas moreninhas.

Desfazendo-se em jovialidade, foi logo visitar d. Ana e presenteá-la com o melhor que havia na despensa das dietas.

— Não está tão bem como na sua paróquia, mas não lhe faltará nada, minha senhora - disse o comissário; - o pedido do meu amigo é como se fosse o de um pai. Devo muito, devo tudo aquele homem. O tempo lhe demonstrará quanto vale para mim a recomendação que a senhora trouxe...

De feito, nos dias subseqüentes, o comissário esforçou-se por se tornar cada vez mais amável e acessível. Distribuiu roupa pela família, e contemplou-a na lista das viúvas que recebiam pensão semanal.

D. Ana não sabia até onde estender a sua gratidão e; não sabendo também como demonstrá-la de modo a corresponder a cordialidade do comissário, entendeu que o melhor meio era trabalhar para limitar o mais possível a esmola de que tinha necessidade.

Doze dias passaram-se assim; d. Ana durante todo este tempo não pedira coisa alguma ao comissário que era o primeiro a obsequiá-la.

Em uma das suas visitas diárias, o comissário, que se apeava à porta de d. Ana, pediu-lhe vinho.

— Já não o temos - respondeu a senhora abaixando os olhos de acanhada -, mas se vossa mercê não estranha...

— Pelo amor de Deus, minha senhora, tenha a bondade de mandar uma de suas sobrinhas buscar. Eu vou já à despensa.

Chiquinha foi mandada pela velha senhora e acompanhou o comissário até a despensa.

Caiu então a máscara' ao hipócrita. Às suas primeiras palavras revoltou-se o pudor de Chiquinha, que se limitou a defender-se com as lágrimas e uma queixa inofensiva.

— Minha tia tem Vossa Mercê como um homem de honra.

O comissário, vendo que a sofreguidão podia prejudicar ou pelo menos dificultar os seus cálculos, conteve-se e, sorrindo, ponderou à moça:

— Ah! eu logo vi que você havia de ofender-se; quis experimentá-la. Agora vejo que trato com gente séria.

Chiquinha sorriu contente e agradecida e levantou para o comissário os seus olhos negros arrebatadores.

— Não é preciso que a titia saiba do que se deu não é verdade? Ficamos amigos, sim?

A moça meneou afirmativamente a cabeça e saindo apressadamente, ao chegar à casa, longe de deixar pairar a menor suspeita sobre o caráter do comissário, fez dissipar se uma tácita interrogação que lhe fazia o olhar de d Ana.

O comissário, porém, não tardou a desmenti-la. Não compreendera a profundeza das poucas palavras de Chiquinha; pelo contrário, inferiu da sua brandura que não haveria dificuldade séria aos seus planos. Resolveu dirigir-se jeitosamente à d. Ana e no dia seguinte convidou a velha senhora para correr o abarracamento.

— Vê a senhora? - disse o comissário mostrando as grandes barracas onde os retirantes viviam em brutal promiscuidade. - Dói-me o coração, mas não me é dado fazer mais. Gomo isto é horrível, hein?

— É exato.

De feito, o comissário e d. Ana estavam em face de um espetáculo comovente. Mulheres, homens e crianças, todos esfarrapados e sórdidos, levantavam-se como que desvairados e vinham-lhes ao encontro, erguendo súplicas e prorrompendo em soluços. Tinham fome, viam os parentes moribundos e sem amparo, queriam algum socorro.

O comissário respondia com uma série de consolações banais e esperanças vãs e, convidando d. Ana, fê-la penetrar no casarão emparedado apenas em três das suas faces.

Haviam apenas dado alguns passos, quando o comissário julgou que devia chamar de novo a atenção de d. Ana.

— Vê a senhora quanta miséria eu não posso evitar?

D. Ana não pôde conter as lágrimas, em face do quadro que se lhe oferecia às vistas.

Sobre o chão estava estendido um cadáver.

Era uma vítima da anasarca; a inchação o deformava e tornava-o repelente. Largas fendas nas pernas dessoravam, desafiando a gula de um mosqueiro, que esvoejava e pousava sobre o corpo, ora sugando-o nos lagrimais, ora nos beiços roxos, de que escorria um ló de escuma, ora penetrando nas fendas fétidas. O cadáver tinha como sudário uma tanga feita com um pedaço imundo de lona.

A pequena distância do morto estava deitada uma mulher ainda moça e que devia ter sido linda. Uma palidez mortal revestia-lhe as feições, a tristeza embaciava-lhe os olhos e imobilizava-lhe o olhar de modo que a desventurada parecia estar morta também.

— Olá - disse o comissário chamando o inspetor do abarracamento; - por que deixou ficar aqui este homem?

— A mulher pediu-me que o deixasse ficar ao menos até logo à noite.

— Estas vontades não se fazem - resmungou o comissário - remova-me isto daqui.

Dizendo estas palavras, o comissário olhou de través para d. Ana, para medir o efeito que este rasgo de brutalidade lhe causara. Ficou satisfeito: d. Ana estava perplexa a olhá-lo.

— E quanto a esta mulher, é preciso dar-lhe alguma coisa; ela já comeu hoje?

— Não se distribuíram rações hoje. As rações são dadas nas segundas, quartas e sextas, hoje é domingo.

— E na sexta-feira deram-lhe ração?

— Ela trocou a ração por uma dieta de carne fresca para o marido.

— Que estúpida - exclamou o comissário. - Vão ver que está para morrer de fome.

— Ela é muito soberba, quer se fazer de boa.

— Bom, amanhã não se esqueça de dar-lhe alguma coisa, caso ela não morra hoje como parece.

A mísera mulher, de quem o comissário se ocupava, volveu para ele os seus belos olhos cearenses, onde como que já se projetava a sombra do túmulo, e sorriu.

— Bonitos olhos, não acha, d. Ana? - perguntou o comissário que ostentava perversidade para intimidar a senhora.

— É pena que a terra não demore nada a comê-los...

D. Ana não pôde mais conter os soluços e as lágrimas, e o comissário com um suspiro fingido exclamou:

— Pensa a senhora que a minha alma não se penaliza com isto? Não a quero ver sofrer tanto, vou infringir as minhas ordens e socorrer esta infeliz. O sr. inspetor, leve já a mulher para o hospital.

— Obrigada, mil vezes obrigada - soluçou d. Ana; - eu lhe agradeço em nome dos céus.

A moribunda levantou para d. Ana os olhos em que bailavam duas grossas lágrimas, e o inspetor, coçando a cabeça, levantou a infeliz, que entregou a dois serventes para que se cumprisse a ordem do comissário.

— A senhora tem realmente um coração de anjo - disse o comissário. - Veja agora também quanto tenho me esforçado para ser-lhe útil e minorar-lhe os sofrimentos. Imagine o triste caso de não ter vindo com a recomendação de um amigo meu, ou, o que nunca há de acontecer, a desgraça de não me ser mais possível protegê-la. Quanta miséria, não é verdade?

D. Ana meneou a cabeça afirmativamente.

— Pode perguntar aos retirantes, um por um, se o meu não é o abarracamento em que eles encontram melhor tratamento e, entretanto, é isto: calcule agora o que serão os outros.

— Que horror! - exclamou a boa senhora. - Eu creio porque vejo.

As palavras de d. Ana demonstravam comoção mais profunda do que o comissário visara obter da, incômoda visita ao abarracamento.

De si para si o hipócrita julgou seguro o êxito da sua baixa e criminosa empresa: conseguir pelo terror a desonra da família Queiroz.

Decidiu-se, pois, a terminar a prova a que submetera a honrada senhora, e voltou para a casa da administração.

— Até logo, d. Ana - disse ele ao entrar.

— O mais certo é até amanhã; é quase noite.

— Não, é até logo. -.

— Dá-nos muito prazer.

Separaram-se e com eles o sol despediu-se também do abarracamento, sobre o qual ficaram, apenas pairando as tristes claridades do crepúsculo e os ais dos que sofriam.

Não há cores que descrevam a vizinhança da noite longe dos céus sob os quais temos as nossas afeições, as nossas intimidades, todas as reminiscências, do passado e os escombros de todos os sonhos do futuro. Há, então no pungir da saudade um incitamento invencível às lágrimas. Da funda depressão que ela nos deixa no espírito, a imaginação tristonha levanta visões comoventes, que nos endoidecem abeberando-nos de angústias.

O crepúsculo parece um rosto carrancudo que nos censura a vida, dir-se-ia que ele, com os últimos clarões do dia, arrasta-nos o porvir: tamanho é o vazio que nos fica no coração.

Sob a luz mortiça de semelhante tarde recolhiam-se ao abarracamento os trabalhadores, os miseráveis que debaixo da soalheira do meio-dia, queimando os pés no areal ardente, torturando-se com as gritas e as ameaças dos inspetores, tinham ido conquistar uma ração minguada para a mulher e os filhos andrajosos.

Para recebê-los, havia, entretanto, sorrisos, e que sorrisos - vitórias contra a fome, derrotas da morte.

Como que todo o abarracamento se animava: aquele monturo ganhava uma alma.

O comissário, à janela, vendo as moças retirantes que passavam correndo, e colhendo os andrajos para guardar a compostura, dizia obscenidades a rir com o administrador:

— Olhe você, eu quero estabelecer aqui o banho obrigatório e em comum.

— É quase impossível, não temos local.

— É difícil, sim, e por isso mesmo tenho demorado.

— Há um meio de as ter asseadas; é negar ração aos pais.

— Porém isto não evita que várias: vezes tomemos gatos por lebres.

— Isto é verdade; e ainda agora creio que o senhor cai numa dessas, com as vizinhas.

— Não, eu já lhes dei os contras; estão seguras.

— Eu lhes vejo assim um certo ar.

— Querem vender o peixe caro, mas afinal vendem-no pelo preço das outras.

— Pode ser.,. mas eu quero ver.

— Pois chame-me lá, a Chiquinha... Já se sabe diga à velha, que a mandei chamar.

O administrador, cumprida a ordem, entrou, a convite do comissário, para a rouparia.

Chiquinha acompanhada, pela caçula apareceu dentro um pouco e veio falar com o comissário.

— Aqui estou - disse ela sorrindo -, às suas ordens.

— A titia disse-lhe que eu ia logo lá, não? Vou com efeito e para isto a mandei chamar, para que leve algumas bolachas e café para a nossa ceia. Entre.

Chiquinha, olhando de soslaio para o comissário, entrou tomando nos braços a caçula.

O comissário, que a veio esperar na passagem, fechou a porta sobre si e, antes que a surpresa da moça desse tempo à esquivança, depôs-lhe nas faces um beijo.

— Infame - exclamou Chiquinha -, deixe-me sair.

Uma risada cínica respondeu à interjeição nobre da moça. — Eu estou cansado da comédia, cheguemos já ao desfecho, ou atiro-as na rua com a ponta do pé.

— Faça-o, não lhe pedimos o que o senhor nos tem feito; faça-o quando quiser. Deixe-me sair, porque assim evita o incômodo; nós nos mudaremos hoje mesmo.

— Tem graça, minha atrevidinha, tem graça, mas saiba que sou eu quem governa aqui.

— Socorro! - bradou Chiquinha e, correndo para a janela, repetiu por três vezes - socorro!

Enquanto gritava, quis galgar a janela, depois de ter posto fora a pequenita, que chorava e chamava por d. Ana, mas foi detida pelo comissário, que resmungava furioso:

— Cale-se, desgraçada, eu tenho poder até para mandá-la matar.

O clamor da moça, porém, produziu o efeito que ela esperava. Embora os retirantes que passavam nem ousassem olhar para a casa da administração, d. Ana acudiu resolutamente e, transpondo a janela, colocou-se em face do comissário, que gritara pelo administrador.

— Chame os inspetores e guardas - bradou o comissário; - é preciso que estas miseráveis paguem o crime de desobediência que acabam de praticar.

Um assovio do administrador fez com que num lance de olhos as duas mulheres se vissem completamente cercadas.

— Meta-as na prisão até segunda ordem - sorriu o comissário e, voltando-se para d. Ana, disse com um ar disfarçado - com teu amo não jogues as pêras.

D. Ana e Chiquinha olharam-se perplexas. Estavam definitivamente perdidas; a resistência não só era inútil como fatal, porque deixava as três outras meninas expostas à crueldade do comissário e dos seus agentes.

O amargor do transe, a sua imprevisão fulminante deixavam atônitas as duas mulheres; o olhar de Chiquinha perguntava já a d. Ana se ela devia resignar-se.

— Uma palavra só, sr. comissário - suplicou humildemente d. Ana.

— Esperem - bradou o monstro, que já contava com o arrependimento das duas indefesas mulheres; - ouçamos.

— Em particular.

Foram postar-se em um recanto, e d. Ana, com um sangue-frio inesperado, murmurou:

— Para que faz vossa mercê esforços por esta rapariga, que já foi amante de um padre?

— Ah! - exclamou o comissário - que hipócrita!

Chiquinha ao ouvir a exclamação, percebendo que d. Ana para salvá-la havia lançado mão de alguma inverdade, fundiu em lágrimas.

— Se Vossa Mercê houvesse logo falado comigo, esta cena não se passaria.

— Vejo que procedi mal, é exato. Retirem-se todos - bradou o comissário, não é preciso mais.

D. Ana resfolegou e com um olhar mandou que Chiquinha se afastasse.

— Eu - continuou d. Ana, não sou tão ingrata como o sr. comissário me faz. A menina do meio chegou muito cansada da viagem. Demais... - Inclinou-se no ouvido do comissário, disse-lhe algumas palavras, e depois em voz alta:

— Dentro em três dias, pois, eu mesma me comprometo.

— A senhora é muito mais razoável - disse ele batendo no ombro de d. Ana sem atender para a transformação que se havia operado no semblante da senhora; ficamos amigos.

— Conte.

D. Ana retirou-se e o administrador veio encontrar-se com o comissário, que trouxera a senhora até a porta:

— Chegaram a acordo?

— Com a meã, a mais velha é uma comborça.

— E quando?

— Dentro de três dias.

O comissário retirou-se com a esperança, mas por alta noite a família Queiroz deixava o abarracamento.