Os Semeadores

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Os Semeadores
por Machado de Assis


(Século XVI)

...Eis aí saiu o que semeia a semear...

MAT., XIII, 3.

Vós os que hoje colheis, por esses campos largos,
         O doce fruto e a flor,
Acaso esquecereis os ásperos e amargos
         Tempos do semeador?
 
Rude era o chão; agreste e longo aquele dia;
         Contudo, esses heróis
Souberam resistir na afanosa porfia
         Aos temporais e aos sóis.
 
Poucos; mas a vontade os poucos multiplica,
         E a fé, e as orações
Fizeram transformar a terra pobre em rica
         E os centos em milhões.
 
Nem somente o labor, mas o perigo, a fome,
         O frio, a descalcez,
O morrer cada dia uma morte sem nome,
         O morrê-la, talvez,
 
Entre bárbaras mãos, como se fora crime,
         Como se fora réu
Quem lhe ensinara aquela ação pura e sublime
         De as levantar ao céu!
 
Ó Paulos do sertão! Que dia e que batalha!
         Venceste-la; e podeis
Entre as dobras dormir da secular mortalha;
         Vivereis, vivereis!