Os Trabalhadores do Mar/Parte I/Livro III/VI

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Os Trabalhadores do Mar por Victor Hugo, traduzido por Machado de Assis
Lethierry entra na glória


Prosperava a Galeota, Mess Lethierry via chegar o dia em que ele seria gentleman. Em Guernesey não se pode ser gentleman da noite para o dia. Há uma escala entre o homem e o gentleman; o primeiro degrau é o nome simplesmente, Pedro, suponhamos; depois, vizinho Pedro; terceiro degrau, pai Pedro; quarto degrau,, Senhor (Síeur) Pedro; quinto degrau, Mess Pedro; último degrau, gentleman (Monsieur) Pedro.

Esta escada, que sai da terra, interna-se pelo céu acima. Entra nela toda a hierarquia inglesa. Eis os degraus mais luminosos; acima de senhor (gentleman) há esq. (escudeiro), acima de esq., o cavalheiro (sir vitalício), depois o baronete (sir hereditário), depois o lorde (7aird na Escócia), depois o barão, depois o visconde, depois o conde (earl na Inglaterra, jarl na Noruega), depois o marques, depois o duque, depois o par da Inglaterra, depois o príncipe de sangue real, depois o rei. Esta escada sobe do povo à burguesia, da burguesia ao baronato. do baronato ao variato, do pariato à realeza.

Graças aos seus triunfos, ao vapor, ao Navio-diabo, Mess Lethierry já era alguém. Para construir a Galeota teve de pedir dinheiro emprestado; endividou-se em Bremen e em Saint-Malo, mas ia amortizando a dívida todos os anos.

Lethierry comprou fiado, na entrada do porto de Saint-Sampson, uma linda casa de pedra e cal, novazinha, entre o mar e o jardim; no ângulo estava este nome: Bravees. A casa, cuja frente fazia parte da muralha do porto, era notável por duas fileiras de janelas, ao norte, do lado de um cercado cheio de flores, ao sul, do lado do mar; de modo que era uma casa com duas fachadas, dando uma para as tempestades, outra para as rosas.

As fachadas pareciam feitas para os dois moradores: Mess Lethierry e Miss Déruchette.

Era popular a casa de Lethierry, porque ele próprio acabou sendo popular. A popularidade nascia em parte da bondade, da educação e da coragem dele, parte dos homens que ele salvara de perigos iminentes, em grande parte do bom êxito da Galeota, e também por ter dado ao porto de Saint-Sampson o privilégio das partidas e chegadas do vapor. Vendo que decididamente o Devil Boat era um bom negócio, Saint-Pierre, capital, reclamou o vapor para si, mas Lethierry conservou-o para Saint-Sampson. Era a sua cidade natal.

Daqui é que eu fui lançado ao mar, dizia ele. Tinha por isso grande popularidade local.

A qualidade de proprietário e contribuinte fazia dele o que em Guernesey se chama um unhabitant. Deram-lhe um cargo. O pobre marinheiro galgou cinco degraus, dos seis que tem a ordem social guernesiana; era mess; estava quase gendeman, e quem sabe mesmo se não passaria daí? Quem sabe se algum dia não se havia de ler no almanaque de Guernesey, no capítulo Gentry and Nobility, esta inscrição inaudita e soberba: Lethierry esq. Mess Lethierry, porém, desdenhava, ou antes, ignorava o que era a vaidade das coisas. Sentia-se útil, era a satisfação dele; ser popular comoviao menos que ser necessário. Já o dissemos, tinha dois amores, e, por conseqüência, duas ambições: Durande e Déruchette.

Fosse como fosse, Lethierry arriscou-se na loteria do mar, e tirou a sorte grande.

A sorte grande era Durande navegando.