Os Trabalhadores do Mar/Parte I/Livro III/VIII

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Os Trabalhadores do Mar por Victor Hugo, traduzido por Machado de Assis
A melodia Bonny Dundee


Déruchette ocupava o mais lindo quarto da casa, com duas janelas, mobília de mogno, cama de cortinas riscadas de verde e branco, tendo vista para o jardim e para a colina onde está o castelo do Vale. Do outro lado desta colina é que estava o Tutu da Rua.

Déruchette tinha no quarto a música e o piano. Acompanhava-se ao piano cantando a canção de sua preferência, a melancólica melodia escocesa Bonny Dundee; a noite encerra-se toda naquela ária, a aurora encerrava-se toda naquela voz; isto produzia insólito contraste. Dizia-se: Miss Déruchette está ao piano; e os que passavam ao sopé da colina paravam algumas vezes diante do muro do jardim para ouvir aquele canto tão fresco e aquela canção tão triste.

Déruchette era a alegria perpassando a casa toda, e fazendo ali uma eterna primavera. Era formosa, porém, mais linda que formosa, e mais gentil que linda. Fazia lembrar aos velhos pilotos amigos de Mess Lethierry aquela princesa de uIna canção de soldados e marujos, tão bela que passava por tal no regimento.

— Déruchette tem um cabo de cabelos — dizia Mess Lethierry.

Era lindíssima desde a irírancia. Receou-se por muito tempo que o nariz fosse disforme, mas a pequena, provavelmente disposta a ficar bonita, manteve-se de modo que não adquiriu defeito algum até tornar-se moça; o nariz nem ficou comprido nem curto; e, chegando à juventude, Déruchette conservou-se encantadora.

Dava o nome de pai ao tio.

Mess Lethierry concedia-lhe algumas funções de jardineira e mesmo de dona de casa. A moça regava os canteiros de malvaísco, de verbasco, de flox e erva-benta; cultivava oxálida rosada; utilizava o clima da ilha de Guernesey, tão hospitaleira às flores. Tinha, como toda a gente, aloés plantado no chão, e, o que é mais difícil, fazia pegar a potentilha de Nepaul. Tinha uma horta habilmente arranjada; plantava espinafres, rabanetes e ervilhas; sabia semear a couve-flor da Holanda e a couve-de-bruxelas; transplantava-as em julho; nabos para agosto, chicória para setembro, pastinaca para o outono, e rapúncio para o inverno. Mess Lethierry consentia em tudo isso, contanto que não trabalhasse muito com a pá e o ancinho, e sobretudo que não fosse ela própria quem estrumasse a terra. Deu-lhe duas criadas. uma chamada Graça, e a outra Doce, nomes usados em Guernesey. Graça e Doce faziam o serviço da casa e do jardim, e tinham o direito de andar com as mãos vermelhas.

O quarto de Mess Lethierry era retirado, dava para o porto e era contíguo à sala grande do rés-do-chão, onde havia a porta de entrada e onde iam ter as diversas escadas da casa. A mobília do quarto compunha-se de uma maca de marujo, um cronometro, uma mesa, uma cadeira e um cachimbo. O teto, construído com vigas, era caiado, bem como as paredes; à direita da porta estava pregado o arquipélago da Mancha, bela carta marítima, onde se lia a seguinte inscrição: W. Faden, 5, Charing Cross, Geographer to His Majesty; e à esquerda estava pendurado um desses grandes lenços de algodão que trazem figurados os sinais de todas as marinhas do globo, tendo nos quatro cantos os estandartes da França, da RÜssia, da Espanha e dos Estados Unidos da América, e no centro a Union Jack da Inglaterra.

Doce e Graça eram duas criaturas ordinárias, devendo tomar-se esta palavra à boa parte. Doce não era má e Graça não era feia.

Não lhes ficavam mal tão perigosos nomes. Doce, que era solteira, tinha um amante. Nas ilhas da Mancha usa-se tanto a palavra como a coisa. As duas criadas faziam o serviço com uma espécie de lentidão própria à domesticidade normanda no arquipélago. Graça, faceira e bonita, contemplava constantemente o horizonte com uma inquietação de gato. Era porque, tendo também o seu amante, tinha, de mais a mais, dizia-se, marido marinheiro, cuja volta receava. Mas nós não temos nada com isto. A diferença entre Graça e Doce é que, numa casa menos austera e menos inocente, Doce ficaria criada de servir e Graça subiria à posição de criada grave. Os talentos possíveis de Graça eram nulos para uma moça cândida como Déruchette. Demais, os amores de Doce e Graça eram latentes. Nada chegava aos ouvidos de Mess Lethierry, nada salpicava sobre Déruchette.

A sala baixa do rés-do-chão, com chaminé, e rodeada de bancos e mesas, servira no século passado para as reuniões de um conventículo de refugiados francêses protestantes. A parede de pedra nua não tinha ornamento algum a não ser um quadro de madeira preta com um cartaz de pergaminho ornado das proezas de Benigno Bossuet, bispo de Meaux. Alguns pobres diocesanos daquele genio, perseguidos por ele na ocasião da revocação do Edito de Nantes, e abrigados em Guernesey, penduraram aquele quadro na parede como um testemunho.

Quem podia decifrar a letra tosca e a tinta amarelada lia naquele cartaz os seguintes fatos pouco conhecidos: A 29 de outubro de 1685, demolição dos templos de Morcef` e de Nanteuil, requerida ao rei pelo Sr. Bispo de Meaux. A 2 de abril de 1686, prisão de Cochard pai e filho por motivo de religião, a requerimento do Sr.Bispo de Meaux. Foram soltos Por terem abjurado. A 28 de outubro de 1699 o Sr. Bispo de Meaux envia ao Sr. de Pontchartrain uma memória expondo a necessidade de transportar as Sras. de Chalandes e de Netiville, donzelas da religião reformada, para a casa das Novas Católicas de Paris. A 7 de julho de 1703 executou-se a ordem pedida ao rei pelo Sr. Bispo de Meaux de encerrar no hospital um tal Beaudoin e sua mulher, maus católicos, de Fliblaines.

No fundo da sala, ao pé da porta do quarto de Mess Lethierry, havia uma pequena divisão de tábuas, que tinha sido tribuna huguenote, e era então, graças a uma grade arranjada, o office do vapor, isto é, escritório da Durande ocupado por Mess Lethierry em pessoa. Na velha estante de carvalho um registro com as páginas cotadas. Deve e Há de Haver, substituía a Bíblia,