Os Trabalhadores do Mar/Parte I/Livro IV

Wikisource, a biblioteca livre
Ir para: navegação, pesquisa
Os Trabalhadores do Mar por Victor Hugo, traduzido por Machado de Assis
Parte I, Livro IV


Primeiros Rubores de Aurora ou de Incêndio[editar]

Gilliatt não trocara nunca uma palavra com Déruchette.

Conhecia-a por te-la visto de longe, como se conhece a estrela da manhã.

Na época em que Déruchette encontrou Gilliatt, no caminho de Saint-Pierre-Port ao Vale, e reze-lhe a surpresa de traçar na neve o nome dele, tinha dezesseis anos. Exatamente na véspera Mess Lethierry disse-lhe as seguintes palavras:

— Deixa-te de seres travessa; estás moça feita.

O nome Gilliatt, escrito por aquela menina, caiu em uma profundidade desconhecida.

Que eram as mulheres para Gilliatt? Nem mesmo ele poderia dizelo.

Quando encontrava alguma, causava-lhe medo e cobrava-lhe medo. Só na última extremidade falava às mulheres. Nunca foi amante de nenhuma camponesa. Quando se achava só em um caminho e avistava alguma mulher ao longe, Gilliatt galgava um cercado, ou metia-se em uma moita e ia-se embora. Até das velhas fugia. Só tinha visto uma parisiense. Parisiense de arribação, estranho acontecimento em Guernesey naqueles tempos idos. E Gilliatt ouvira a parisiense contar nestes termos os seus infortúnios: Estou muito maçada, caíram-me uns chuviscos no chapéu, esta cor é muito sujeita a ficar manchada.

Tendo encontrado, tempo depois, entre as rolhas de um livro uma antiga gravura de modas representando uma dama da calçada de Antin em grande toalete, pregou-a na parede como lembrança dessa aparição. Nas noites de estio, escondia-se atrás das rochas de Houmet-Paradis para ver as camponesas banharem-se no mar.

Um dia, através de uma cerca, viu a feiticeira de Torteval atar a liga que lhe tinha caído. Provavelmente Gilliatt era virgem.

Naquela manhã de Natal em que Déruchette escrevera rindo o nome dele, Gilliatt voltou para casa não sabendo já por que motivo tinha saído. Não dormiu de noite. Pensou em mil coisas: de que faria bem se cultivasse rabanetes no jardim; que não tinha visto passar o navio de Serk e talvez lhe houvesse acontecido alguma coisa; que tinha visto erva-pinheira em flor, coisa rara naquela estação.

Gilliatt nunca soubera com certeza que parentesco havia entre ele e a velha que morrera em casa; disse consigo que devia ser sua mãe e pensou nela com redobrada ternura. Lembrou-se do enxoval de mulher que estava na mala de couro. Pensou que o Reverendo Jaquemin Herodes seria provavelmente nomeado decano de Saint-Pierre-Port, e que a paróquia de Saint-Sampson ficaria vaga. Pensou que o dia seguinte ao de Natal, seria o 27.

1 dia de lua, e que por conseqüência a maré enchente seria às 3 horas e 21 minutos, a média às 7 horas e 15 minutos, a vazante às 9 horas e 36 minutos. Recordou até nas menores particularidades, o vestuário de highIander que lhe vendera o bagpipe, boné enfeitado com um cardo à claymore, a casaca de abas curtas ,e quadradas, o saiote, o scilt or philaberg, adornado com uma bolsa e uma boceta de chifre, o alfinete feito de uma pedra escocesa, os dois cintos, as sashwises, o belts, a espada, o swond, o sabre, o dirk e o skene dhu, faca preta de cabo preto ornada de dois cairgorums, e os joelhos nus do soldado, as meias, as polainas riscadas e os sapatos de borlas. Tudo aquilo tornou-se espectro, perseguiu-o, deu-lhe febre até que ele adormeceu.

Gilliatt acordou quando o sol já ia alto e o seu primeiro pensamento foi Déruchette.

Adormeceu no dia seguinte e sonhou toda a noite com o soldado escoces. Sonhou também com o velho cura Jaquemin Herodes.

Quando acordou pensou outra vez em Déruchette e teve contra ela uma violenta cólera; lamentou não ser criança para ir atirar pedras nas vidraças da moça.

Depois lembrou-se de que, se fosse criança, teria ainda sua mãe, e entrou a chorar.

Projetou ir passar uns esses meses em Chausey ou em Minquiers, mas não partiu.

Não tornou a por os pés na estrada de Saint-Pierre-Port ao Vale.

Imaginava que o seu nome ficara gravado na terra e que todos os viandantes deviam olhar para ele.

Gilliatt vai Entrando Passo a Passo no Desconhecido[editar]

Gilliatt ia todos os dias ver a casa de Lethierry. Não o fazia de propósito, mas encaminhava-se para esse lado. Acontecia então passar sempre pelo caminho que costeava o muro do jardim de Déruchette.

Estando um dia naquele caminho, ouviu a uma mulher do mercado, que falava a outra, e vinha da casa de Lethierry: Miss Lethierry gosta muito de sea kales .

Gilliatt fez no jardim da casa mal-assombrada uma fossa de sea kales. O sea kale é uma couve que tem o sabor de aspargo.

O muro do jardim da casa de Déruchette era baixinho; podia-se pular fácilmente. Esta idéia pareceu terrível a Gilliatt. Mas quem passava não podia deixar de ouvir as vozes das pessoas que falavam nos quartos ou no jardim. Gilliatt. não escutava, mas ouvia.

De uma vez ouviu disputar as duas criadas, Graça e Doce. Como o rumor vinha daquela casa, soou-lhe como se fosse música.

De outra vez, distinguiu uma voz que não era como as outras, e que lhe pareceu ser a voz de Déruchette. Deitou a correr.

As palavras que ouviu à moça ficaram para sempre gravadas no seu pensamento. Repetia-as a cada instante. Essas palavras eram: Faz favor de me dar a vassoura?

Gilliatt foi ousando a pouco e pouco. Já se atrevia a ficar parado.

Aconteceu uma vez que Déruchette, que não podia ser vista de fora, embora tivesse a janela aberta, estava ao piano e cantava.

Cantava a canção Bonny Dundee. Gilliatt empalideceu, mas levou a firmeza até ouvir a canção toda.

Chegou a primavera. Gilliatt teve uma visão: abriu-se o céu. Gilliatt viu Déruchette regando uns pés de alface.

Dai a pouco já ele fazia mais do que parar. Observava os hábitos da moça, notava as horas em que ela aparecia, e esperava.

Tinha cuidado de não ser visto por ela.

A pouco e pouco, ao tempo em que as noites se enchem de borboletas e de rosas, imóvel e mudo horas inteiras sem ser visto por ninguém, retendo a respiração, Gilliatt acostumou-se a ver Déruchette andar pelo jardim. É fácil acostumar-se ao veneno.

Do lugar em que se escondia, Gilliatt ouvia Déruchette conversar com Mess Lethierry, debaixo de um espesso caramanchão feito de caniço, dentro do qual havia um banco. As palavras chegavam-lhe distintamente aos ouvidos.

Quanto já não tinha andado! Chegou até a espiar e prestar ouvido.

Ali! o coração humano é um velho espião!

Havia outro banco visível e próximo, no fim de uma alameda.

Déruchette assentava-se ali algumas vezes.

Pelas flores que ele via Déruchette colher e cheirar, adivinhou as preferências da moça a respeito de perfumes.

A moça preferia antes de tudo a campânula, depois o cravo, depois a madressilva, depois o jasmim. A rosa estava em quinto lugar. Quanto aos lírios, olhava para eles, mas não os cheirava. A vista da escolha dos perfumes, Gilliatt compunha-a no seu pensamento.

Cada cheiro significava para ele uma perfeição. Só a idéia de falar a Déruchetie fazia-lhe arrepiar os cabelos. Uma boa velha que mascateava, e por esse motivo ia algumas vezes à rua que costeava o muro do jardim de Déruchette, veio a notar confusamente a assiduidade de Gilliatt junto daquele muro e a sua devoção por aquele lugar deserto. Ligaria ela a presença daquele homem à possibilidade de uma mulher que estivesse atrás do muro?

Descobriria esse vago fio invisível? Restava-lhe acaso, na sua decrepitute mendicante, um pouco de mocidade para lembrar-se de alguma coisa dos belos tempos, e saberia ela, já no inverno e na noite, que coisa é o alvor da madrugada? Ignoramo-lo, mas parece que, passando uma vez perto de Gilliatt, que estava de sentinela, dirigiu para o lado dele toda a quantidade de sorriso de que ainda era capaz e murmurou entre as gengivas: Aquece, aquece!

Gilliatt ouviu a palavra, que lhe fez impressão, e murmurou com um ponto de interrogação interior: Aquece? Que quer dizer a velha? Repetiu maquinalmente a palavra durante todo o dia, mas não chegou a compreende-la.

Estando um dia à janela da casa mal-assombrada, cinco ou seis raparigas de Ancresse foram banhar-se por pagode na angra de Houmet-Paradis. Brincavam ingenuamente na água, a cem passos dele. Gilliatt fechou violentamente a janela. Reparou então que uma mulher nua causava-lhe horror.

A Canção Bonny Dundee acha um Eco na Colina[editar]

Atrás do muro do jardim, em um ângulo do muro coberto de azevinho e hera, empachado de urtigas, com um pé de malva silvestre arborescente e um grande verbasco do mato que brotava do granito, passou Gilliatt quase todo o verão. Ficava ali inexprimivelmente pensativo. As lagartixas, que se iam acostumando a Gilliatt, aqueciam-se ao sol nas mesmas pedras. O verão foi luminoso e suave.

Gilliatt tinha sobre a cabeça as nuvens que perpassavam no céu.

Assentava-se na relva. Tudo estava cheio de um rumorejar de pássaros. Punha a cabeça nas mãos e perguntava a si próprio: Mas por que escreveu ela o meu nome na neve?

O vento do mar soprava ao longe grandes lufadas. De quando em quando, nas pedreiras longínquas de Vaudue, troava bruscamente a trombeta dos pedreiros, advertindo os passantes de que ia rebentar uma mina. Não se via o porto de Saint-Sampson; mas via-se a ponta dos mastros por cima das árvores. As gaivotas voavam esparsas. Gilliatt ouvira dizer a sua mãe que as mulheres podem amar os homens, e que isso acontecia algumas vezes. Lembrava-se, e respondia a si mesmo: É isso. Compreendo. Déruchette ama-me. Sentia-se profundamente triste. Dizia ele: Mas também ela pensa em mim; faz bem. Pensava em que Déruchette era rica, e ele pobre. Pensava que o vapor era uma invenção execrável.

Não podia lembrar nunca em que dia do mês estava. Contemplava vagamente os grandes zangões negros, de lombo amarelo e asas curtas, que penetram zumbindo nos buracos das paredes.

Déruchette recolhia-se uma noite ao quarto. Aproximou-se da janela para fechá-la. A noite estava escura. De repente, Déruchette aplicou o ouvido. Havia uma música no meio daquela noite profunda.

Alguém que provavelmente estava na vertente da colina, ou ao pé das torres do castelo do Vale, ou talvez mais longe, executava uma canção num instrumento. Déruchette reconheceu a sua melodia favorita Bonny Dundee tocada em bagpipe. Não compreendeu nada.

Desde então, ouviu ela muitas vezes a mesma coisa, à mesma hora, especialmente nas noites escuras.

Déruchette não gostava muito daquilo.

Passaram-se quatro anos.

Déruchette aproximava-se dos 21 anos e conservava-se solteira.

Já alguém escreveu algures: Uma idéia fixa é uma verruma. Vai-se enterrando de ano para ano. Para extirpá-la no primeiro ano é preciso arrancar os cabelos; no segundo rasga-se a pele; no terceiro ano quebra o osso; no quarto saem os miolos. Gilliatt estava no quarto ano.

Não tinha trocado uma só palavra com Déruchette. Pensava nela; era tudo.

Aconteceu-lhe uma vez, estando por acaso em Saint-Sampson, ver Déruchette conversando com Mess Lethierry diante da porta da casa que dava para a calçada do porto. Gilliatt arriscou-se a aproximar-se dela. Cuidava estar certo de que sorrira quando ele passou. Não era coisa impossível.

Também Mess Lethierry ouvia o bagpipe e notou a persistência desta música perto da janela de Déruchette. Música terna, circunst ância agravante. Não lhe agradavam namorados noturnos.

Queria casar Déruchette com dia claro, quando ela e ele quisessem e simplesmente, sem romance e sem música. Exasperado, procurou descobrir o amador e pareceu-lhe entrever Gilliatt. Meteu as unhas na barba em sinal de cólera e disse: Por que motivo vem aquele animal sanfonear-me à porta? Ama Déruchette, é claro.

Perde o tempo. Quem quiser Déruchette deve vir falar-me, e sem música.

Previsto desde muito, veio a realizar-se um acontecimento importante.

Anunciou-se que o Reverendo Jaquemin Herodes fora nomeado delegado do bispo de Winchester, decano da ilha e cura de Saint-Pierre-Port, e que partiria de Saint-Sampson logo depois de instalar o seu sucessor.

Estava a chegar o novo cura. Era ele gentleman de origem normanda, e chamava-se Joe Ebenezer Caudray.

A respeito dele havia circunstâncias que a benevolência e a malevolência comentavam em sentido inverso. Diziam que era moço e pobre, mas a mocidade era temperada por muita doutrina, e a pobreza por muita esperança. Na língua especial criada para a herança e a riqueza, a morte chama-se esperança. Era sobrinho e herdeiro do velho e opulento decano de Saint-Asaph. Morto este, ficava o outro rico. O Sr. Ebenezer Caudray era bem aparentado; tinha quase direito à qualidade de honorable. Quanto à sua doutrina, era julgada diversamente. Era anglicano, mas, segundo a express ão do Bispo Tilleston, era muito libertino, isto é, muito severo.

Repudiava o farisaísmo; ligava-se antes ao presbitério que ao episcopado.

Sonhava com a Igreja primitiva, onde Adão tinha o direito de escolher Eva, e Frumentanus, bispo de Hierópolis, raptava uma moça para ser mulher déle, dizendo aos pais: Ela quer e eu quero, já não sois nem pai nem mãe, eu sou o anjo de Hierópolis, e esta é minha esposa. O pai é Deus. A dar crédito aos boatos, o Sr.

Ebenezer Caudray subordinava o texto : Honrai pai e mãe ao texto, segundo ele, superior: A mulher é a carne do homem. A mulher deixará pai e mãe para acompanhar o marido. Mas, afinal de contas, esta tendência para circunscrever a autoridade paternal e favorecer religiosamente todos os modos de formar o vínculo conjugal é própria a todo o protestantismo, particularmente na Inglaterra e singularmente na América.

Justa Vitória é Sempre Malquista[editar]

Eis o balanço de Mess Lethierry, no tempo em que ocorria isto.

Durande cumpriu o que prometera. Mess Lethierry pagou as dívidas, reparou os prejuízos, satisfez as letras de Bremen, fez face aos vencimentos de Saint-Malo. Exonerou a casa em que morava das hipotecas, comprou todas as rendas locais inscritas sobre a casa. Era possuidor de um grande capital produtivo, a Durande. O rendimento líquido do navio era então de 1000 libras esterlinas e ia crescendo. A bem dizer, Durande era toda a fortuna dele. Era também a fortuna da terra. O transporte dos bois era dos que davam mais lucro; assim, para melhorar a arrumação a . bordo, e facilitar a entrada e saída do gado, suprimiram-se as malas e as faluas. Foi talvez imprudência. A Durande veio a ter apenas a chalupa. É verdade que a chalupa era excelente.

Já havia dez anos que Rantaine tinha roubado Mess Lethierry.

A prosperidade de Durande tinha um lado fraco, é que não inspirava confiança; acreditava-se que era puro acaso. A situação de Mess Lethierry era aceita como exceção. Dizia-se que ele fizera uma loucura feliz. Quis alguém fazer o mesmo em Cowes, na ilha de Wight, e teve mau êxito na tentativa. A tentativa arruinou os acionistas. Dizia Lethierry: É que a máquina foi mal construída.

Mas os outros abanavam a testa. As novidades tem contra si, o ódio de todos; o menor erro compromete-as.

Consultado acerca de um negócio de vapores, disse o banqueiro Jauge, de Paris, um dos oráculos comerciais do arquipélago normando: É uma conversão o que me propondes. Conversão de dinheiro em fumo. Os capitães teimavam em estar do lado da lona contra a caldeira.

. Em Guernesey a Durande era um fato, mas o vapor não era um princípio. Tal era a pertinácia da navegação diante do progresso. Dizia-se de Lethierry: Fez coisa boa, mas não há de meter-se em outra. Longe de animar, o exemplo dele causava medo. Ninguém ousaria arriscar segunda Durande.

Fortuna dos Náufragos Encontrando a Chalupa[editar]

Cedo anuncia-se o equinócio na Mancha. É um mar estreito, tolhe o vento e irrita-o. Desde fevereiro começam ali os ventos do oeste sacudindo as águas em todos os sentidos. A navegação torna-se inquieta; a gente da costa contempla o mastro de sinal; a todos preocupam os navios que podem estar em perigo. O mar aparece como uma emboscada; invisível clarim troa para uma estranha guerra. Longas e furiosas lufadas abalam o horizonte; é terrível o vento. A sombra silva e sopra. Na profundeza das nuvens o rosto negro da tempestade entumece as bochechas.

O vento é um perigo; o nevoeiro outro.

Os nevoeiros causam sempre medo aos navegadores. Há nevoeiros que trazem suspensos prismas microscópicos de gelo, aos quais Mariotti atribui as auréolas, os parélios e os paraselenes. Os nevoeiros tempestuosos são compósitos; vapores diversos de peso específico desigual combinam-se com o vapor da água e surperpõem-se em uma ordem que divide a bruma em zonas e faz do nevoeiro uma verdadeira formação.

Embaixo fica o iodo, acima do iodo o enxofre, acima do enxofre o bromo, acima do bromo o fósforo.

Isto, em certa proporção, deduzindo a tensão elétrica e magnética, explica muitos fenômenos, o santelmo de Colombo e de Magalh ães, as estrelas volantes de que fala Seneca, as duas chamas, Castor e Pólux, de que fala Plutarco, a legião romana que a César pareceu ver arderem os dardos, a lança do castelo do Duino no Frioul, que a sentinela acendia tocando com o ferro da sua lança, e talvez mesmo as fulgurações que os antigos chamavam relâmpagos terrestres de Satumo.

No equador, imensa bruma permanente parece cingir o globo, é o Cloud-ring, anel de nuvens.

O Cloud-ring resfria o trópico, do mesmo modo que o Gulf Stream aquece o pólo. Debaixo do Cloud-ring o nevoeiro é fatal. São essas as latitudes dos cavalos, Horse latitude; os navegadores dos últimos séculos, quando passavam ali, atiravam os cavalos ao mar, em ocasião de temporal para alijar o navio, em tempo de calma para economizar a água.

Dizia Colombo: Nube abajo és muerte. (Nuvem baixa, morte certa.

) Os etruscos, que são para a meteorologia o que os caldeus são para a astronomia, tinham dois pontificados - o pontificado do trovão e o pontificado da nuvem: uns observavam o relâmpago, outros o nevoeiro. O colégio dos átigures de Tarqüínia era consultado pelos tírios, fenícios e pelágicos, e de todos os navegadores primitivos do antigo Marinterno. O modo de geração das tempestades era entrevisto; ligava-se intimamente ao modo de geração dos nevoeiros, e, a bem dizer, é o mesmo fenômeno. Existem no mesmo oceano três regiões de brumas, uma equatorial, duas polares; os marinheiros dão-lhe um só nome - le pot au noir.

Em todas as paragens, e sobretudo na Mancha, os nevoeiros de equinócio são mui perigosos. Fazem anoitecer de súbito. Um dos perigos do nevoeiro, mesmo quando não é muito cerrado, é impedir que se reconheça a mudança de fundo pela mudança da cor da água; resulta daqui ficarem dissimulados os cachopos e parcéis. O navegador aproxima-se de um escolho sem ser advertido.

Muitas vezes os nevoeiros não deixam ao navio em marcha outro recurso que não seja por-se à capa ou ancorar. Há tantos naufrágios causados pelo nevoeiro como pelo vento.

Entretanto, após uma violentíssima borrasca que sucedeu a um dia de nevoeiro, a chalupa Cashemere chegou perfeitamente da Inglaterra.

Entrou em Saint-Pierre-Port aos primeiros raios do dia, no momento em que o Castelo Comet salvava o sol com um tiro.

Iluminava-se o horizonte. A chalupa Cashemere era esperada como devendo trazer o novo cura de Saint-Sampson. Pouco depois de chegar a chalupa, espalhou-se o boato de que encontrara à noite no mar outra chalUpa com uma equipagem. naufragada.

Boa Fortuna de Aparecer a Tempo[editar]

Naquela noite, Gilliatt, quando o vento amainou, saiu a pescar, sem afastar-se muito da costa.

Na volta, estando a maré a encher, pelas 2 horas da tarde, e fazendo um sol esplendido, quando Gilliatt passou por diante da Corne de Ia Bete para entrar na angra em que ficava a pança, pareceu-lhe ver na projeção da Cadeira Gild Holm-Ur uma sombra que não era a do rochedo. Deixou a pança chegar até ali e reconheceu que um homem estava assentado na Cadeira Gild-Holm- Ur. O mar já estava alto, a rocha estava cercada pela água, não era possível ao homem voltar para terra. Gilliatt gesticulou para o homem, o homem ficou imóvel. Gilliatt aproximou-se. O homem estava adormecido.

Tinha ele vestuário preto. Parece padre, pensou Gilliatt. Aproximou-se ainda mais e viu um rosto de adolescente.

Não conheceu quem era.

A rocha felizmente era a pique; havia muito fundo; Gilliatt Costeou a muralha. A maré levantava a barca quanto bastava Para que Gilliatt, pondo-se de pé sobre a pança, pudesse tocar os pés do homem. Gilliatt levantou-se sobre a borda e ergueu os braços. Se caísse naquele momento, é duvidoso que tornasse a aparecer. A vaga batia entre a pança e o rochedo, era inevitável ser esmagado.

Gilliatt puxou o pé do homem adormecido.

— Olá, que faz aí?

O homem acordou.

— Estou olhando - disse ele.

Depois, acordando de todo, continuou: — Cheguei há pouco à terra, vim passear aqui; passei a noite no mar, achei a vista bonita, estava cansado, adormeci.

— Dez minutos mais, afogar-se-ia - disse Gilliatt.

— Ah!

— Salte para a barca.

Gilliatt susteve a barca com o pé, pós uma das mãos no rochedo e estendeu a outra ao homem, que pulou lentamente na barca. Era um bonito rapaz.

Gilliatt tomou o leme; em dois minutos, a pança chegou à angra da casa mal-assombrada.

O moço tinha chapéu redondo e gravata branca. Trazia abotoada até o pescoço a comprida sobrecasaca preta. Tinha cabelos loiros, rosto feminino, olhar puro, ar grave.

Entretanto a pança tocou em terra. Gilliatt passou o cabo na argola da amarra, depois voltou-se, e viu a mão do moço que lhe apresentou um soberano de ouro.

Gilliatt repeliu docemente a mão.

Houve um silêncio. O moço falou: — Salvou-me a vida - disse ele.

— Talvez - respondeu Gilliatt.

A pança estava amarrada. Saíram da barca.

O moço continuou: — Devo-lhe a vida, senhor.

— Que importa isso?

Essa resposta de Gilliatt foi acompanhada de novo silêncio. É desta paróquia o senhor? - perguntou o mancebo. Não - respondeu Gilliatt. De que paróquia é então?

Gilliatt levantou a mão direita, mostrou o céu e disse: — Daquela.

O moço cumprimentou e foi caminhando.

Depois de alguns passos, voltou, meteu a mão no bolso, tirou um livro e voltou-se para Gilliatt.

— Consinta que lhe ofereça isto.

Gilliatt tomou o livro.

Era uma Bíblia.

Instantes depois, Gilliatt, encostado ao parapeito, olhava para o moço, que voltava o ângulo do caminho que, ia ter a Saint-Sampson.

A pouco e pouco abateu a cabeça, esqueceu o mancebo, não soube mais se existia a Cadeira Gild-Holm-Ur, e tudo desapareceu, na imersão sem fundo do cismar. Gilliatt tinha um abismo, Déruchette.

Tirou-o daquele abismo uma voz que lhe gritou: — Olá, Gilliatt!

Reconheceu a voz e ergueu os olhos.

— Que há, Sr. Landoys?

Era com efeito o Sr. Landoys, que passava na estrada a cem passos da casa, no seu faeton, com um pequeno cavalo. Parou a fim de chamar Gilliatt à fala, mas parecia atarefado e apressado: — Há novidade, Gilliatt.

— Onde?

— Na casa de Mess Lethierry.

— O que há?

— Estou longe para lhe contar o caso.

Gilliatt estremeceu.

— Casa-se Miss Déruchette?

— Não. Mas — Que quer dizer?

— Vá lá à casa dele, que há de saber.

E o Sr. Landoys chicoteou o cavalo.