Os Trabalhadores do Mar/Parte I/Livro III/XIII

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XIII.


O DELEIXO FAZ PARTE DA GRAÇA.


Dita uma cousa, mess Lethierry não a esquecia mais; dita uma cousa, miss Deruchette esquecia-a logo. Esta era a differença entre o tio e a sobrinha.

Deruchette, educada como os leitores viram, acostumou-se a pouca responsabilidade. Ha mais de um perigo latente n’uma educação tomada muito ao sério. Querer tornar felizes os filhos, antes do tempo, talvez uma imprudencia.

Deruchette acreditava, que, estando ella contente, tudo o mais ia muito bem. Via o tio alegre quando ella estava alegre. As suas idéas eram pouco mais ou menos as mesmas de mess Lethierry. Satisfazia os sentimentos religiosos indo á parochia quatro vezes por anno. Já a encontramos vestida para a festa do Natal. Da vida humana não sabia cousa alguma. Tinha disposições para amar um dia loucamente. Emquanto não chegava esse dia era menina folgazã.

Deruchette cantava ao acaso, tagarelava ao acaso, vivia sem esforço, soltava uma palavra e passava, fazia um gesto e fugia, era encantadora. Ajunte-se a isto a liberdadade ingleza. Na Inglaterra as crianças andam sós, as meninas são senhoras de si, a adolescencia vai á redéa solta. Taes são os costumes. Mas tarde, as moças livres fazem-se mulheres escravas. Tomem a boa parte estas duas expressões: livres no crescimento, escravas no dever.

Deruchette acordava todos os dias com a inconsciencia das suas acções da vespera. Bem embaraçado ficaria que lhe perguntasse o que ella havia feito na semana anterior. Isto, porém, não impedia que ella tivesse em certas horas turvas, uma indisposição mysteriosa, e sentisse uma tal ou qual passagem do sombrio da vida no seu desabrochamento e na sua jovialidade. Ha nuvens dessas nos céos como aquelle. Mas passavam depressa. Deruchette voltava a si com uma gargalhada, sem saber nem porque estivera triste, nem porque estava serena. Brincava com tudo. De travessa que era, bulia com quem passava. Caçoava com os rapazes. Não escaparia o proprio diabo se o encontrasse em caminho. Era gentil, e ao mesmo tempo tão innocente que abusava de si propria. Dava um sorriso como um gatinho dá um bofete. Tanto peior para quem ficasse arranhado. Nem pensava mais nisso. O dia de hontem não existia para ella; vivia na plenitude do dia de hoje. Eis o que é a excessiva felicidade. Naquella moça a lembrança dissipava-se como neve que se funde.