Os Trabalhadores do Mar/Parte I/Livro III/XIII

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Os Trabalhadores do Mar por Victor Hugo, traduzido por Machado de Assis
O desleixo faz parte da graça


Dita uma coisa, Mess Lethierry não a esquecia mais; de uma coisa, Miss Déruchette esquecia-a logo. Esta era a diferença entre o tio e a sobrinha.

Déruchette, educada como os leitores viram, acostumou-se a pouca responsabilidade. Há mais um perigo latente numa educação tomada muito a sério. Querer tornar felizes os filhos, antes do tempo, é talvez uma imprudência.

Déruchette acreditava que, estando ela contente, tudo o mais ia muito bem. Via o tio alegre quando ela estava alegre. As suas idéias eram pouco mais ou menos as mesmas de Mess Lethierry.

Satisfazia os sentimentos religiosos indo à paróquia quatro vezes por ano. Já a encontramos vestida para a festa do Natal. Da vida humana não sabia coisa alguma. Tinha disposições para amar um dia loucamente. Enquanto não chegava esse dia, era menina folgazã.

Déruchette cantava ao acaso, tagarelava ao acaso, vivia sem esforço, soltava uma palavra e passava, fazia um gesto e fugia, era encantadora. Ajunte-se a isto a liberdade inglesa. Na Inglaterra as crianças andam sós, as meninas são senhoras de si, a adolescência vai à rédia solta. Tais são os costumes. Mais tarde, as moças livres fazem-se mulheres escravas. Tomem à boa parte estas duas expressões: livres no crescimento, escravas no dever.

Déruchette acordava todos os dias com a inconsciência das suas ações da véspera. Bem embaraçado ficaria quem lhe perguntasse o que ela havia feito na semana anterior. Isto, porém, não impedia que ela tivesse, em certas horas turvas, uma indisposição misteriosa, e sentisse uma tal ou qual passagem do sombrio da vida no seu desabrochamento e na sua jovialidade.

Há nuvens dessas nos céus como aquele; mas passavam depressa.

Déruchette voltava a si com uma gargalhada, sem saber nem por que estivera triste, nem por que estava serena.

Brincava com tudo. De travessa que era, bulia com quem passava.

Caçoava com os rapazes. Não escaparia o próprio diabo, se o encontrasse em caminho. Era gentil, e ao mesmo tempo tão inocente que abusava de si própria. Dava um sorriso como um gatinho dá um bofete. Tanto pior para quem ficasse arranhado. Nem pensava mais nisso. O dia de ontem não existia para ela; vivia na plenitude do dia de hoje. Eis o que é a excessiva felicidade. Naquela moça a lembrança dissipava-se como neve que se funde.