Os Trabalhadores do Mar/Parte I/Livro III/XII

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Os Trabalhadores do Mar por Victor Hugo, traduzido por Machado de Assis
Exceção no caráter de Lethierry


Mess Lethierry tinha um defeito, e grande. Odiava, não uma pessoa, mas uma coisa, o padre. Lendo um dia, em Voltaire — costumava ler e lia Voltaire —, estas palavras: os padres são gatos, Mess Lethierry pos o livro de parte, e ouviram-no murmurar baixinho: —sinto-me cão.

Cumpre não esquecer que os padres luteranos, calvinistas e católicos atacaram-no vivamente e perseguiram-no docemente, por causa da construção do Devil Boat local. Ser revolucionário em navegação, tentar introduzir um progresso no arquipélago normando, impor à pobre ilha de Guernesey os esboços de uma invenção nova era, conforme dissemos, uma temeridade condenável Lethierry não escapou a uma certa condenação. Não se esqueçam que falamos do clero antigo, diferente do cléro atual, que, em quase todas as igrejas locais, tem uma tendência liberal para o progresso.

Pearam-no de todos os modos; opuseram-lhe toda a soma de obstáculos que pode haver nas prédicas e nos sermões. Odiado pelos homens da igreja, Lethierry aborrecia-os também.

Ódio dos outros era a circunstância atenuante do ódio dele. Mas a sua aversão pelos padres era idiossincrática. Para odiá-los não precisava ser odiado. Como ele próprio dizia, era o cão daqueles gatos. Era contra eles pela idéia, e, o que é mais irredutível, pelo instinto. Sentia as garras latentes dos patires, e mostrava-lhes os dentes. A torto e a direito, e nem sempre a propósito. É erro não distinguir. Não são bons os ódios absolutos. Nem mesmo o vigário saboiano mereceria as simpatias de Lethierry. Não é certo que para ele houvesse um bom padre. À força de filosofar, ia perdendo a circunspecção. Existe a intolerância dos tolerantes, como existe o furor dos moderados. Mas Lethierry era tio boa alma que não podia ser odiento. Antes repelia que atacava. Fugia dos homens da Igreja. Tinham-lhe feito mal, Lethierry limitava-se a não querer-lhes bem. A diferença entre o ódio dos outros e o dele é que o dos outros era animosidade, e o dele antipatia.

Guernesey, apesar de ilha pequena, tem lugar para duas religiões.

Existem nela a religião católica e a religião protestante. Devemos acrescentar que aí não entram as duas religiões na mesma igreja.

Cada culto tem a sua capela ou o seu templo. Na Alemanha, em Heidelberg, por exemplo, a coisa arranja-se menos escrupulosamente; divide-se uma igreja; metade para São Pedro, metade para Calvino; entre as duas há um tabique para prevenir os murros e pescoções; partes iguais; os católicos tem três altares; os huguenotes tem três altares; como as horas do oficio são sempre as mesmas, o sino comum chama na mesma ocasião para os dois serviços. Convoca a um tempo os fiéis para Deus e para o diabo.

Simplificação.

A fleuma alemã acomoda-se com estas iniquidades. Mas, em Guernesey, cada religião tem casa própria. Há uma ortodoxa e paróquia herética. Pode-se escolher. Nem uma nem outra foi a escolha de Mess Lethierry.

Aquele marinheiro, aquele operário, aquele filósofo, aquele povo do trabalho, simples na aparência, não o era em substância. Tinha lá as suas contradições e pertinácias. Era inabalável a respeito do padre. Daria quinaus a Montlosier.

Costumava dizer chufas muito descabidas. Tinha expressões próprias dele, extravagantes, mas sem deixar de ter um sentido. Ir confessar-se era para ele pentear a consciência. Os poucos estudos que tinha, pouquíssimos, feitos aqui e ali, entre duas borrascas, complicavam-se com erros de ortografia. Tinha também erros de pronúncia, nem sempre ingênuos. Quando se fez a paz entre a França de Luís XVIII e a Inglaterra de Wellington, Mess Lethierry disse: Bourmont foi o traitre dIunion traidor por traço) entre os dois campos. Lethierry escreveu uma vez a palavra papado (papauté) do seguinte modo : pape oté (papa arrancado). Não acreditamos que ele fizesse isto de propósito.

Este anti-papismo não o conciliava com os anglicanos. Os presbíteros protestantes não o estimavam mais que os curas católicos. Ante os mais graves dogmas, ostentava-se quase sem reservas a irreligião de Lethierry. Deu-se o acaso de ser levado a ouvir um sermão acerca do inferno, pregado pelo Reverendo Jaquemin Herodes, sermão magnífico, empachado de textos sagrados, que provavam as penas eternas, os suplícios, os tormentos, as condenações, os castigos inexoráveis, os fogaréus sem fim, as maldições inextinguíveis, as cóleras do Onipotente, os furores celestes, as vinganças divinas, coisas incontestáveis; Lethierry ouviou o sermão e, ao sair com um dos fiéis, disse-lhe baixinho: ora, quer ver? Eu cá tenho uma idéia ratona. Suponho que Deus é bom.

Adquiriu este germe de ateísmo quando residiu na França.

Posto que fosse guernesiano, e de raça pura, chamavam-no na ilha o francês, por causa de seu espírito impróprio. Nem ele o ocultava; estava impregnado de idéias subversivas. A sanha de fazer o vapor, o Devil Boat, provava bem isto.

Lethierry costumava dizer: Eu mamei o leite 89. Mau leite.

E que despropósitos fazia! É difícil viver intato nos lugares pequenos.

Na França, guardar as aparências, na Inglaterra, ser respeit ável é quanto basta para passar a vida tranqüilo. Ser respeitável é coisa que implica uma imensidade de observâncias, desde o domingo bem santificado até a gravata bem atada.

Não te faças apontar com dedo, eis uma lei terrível. Ser apontado é o diminutivo de anátema. As pequenas cidades, charcos de mexeriqueiros, são exímias nesta malignidade isoladora, que é a maldição vista ao invés do óculo. Os mais intrépidos arreceiam-se disto. Afronta-se a metralha, afrontasse o furacão, recua-se diante da malignidade. Mess Lethierry era mais tenaz que lógico.

Mas debaixo dessa pressão dobrava-se-lhe a tenacidade. Deitava água no vinho, locução prenhe de concessões latentes e às vezes inconfessáveis. Afastava-se dos homens do clero, mas não lhes fechava resolutamente a porta. Nas ocasiões oficiais e nas épocas das visitas pastorais, recebia atenciosamente tanto o presbítero luterano como o capelão papista. Acontecia-lhe de quando em quando acompanhar à paróquia anglicana a menina Déruchette, que, aliás, só ia lá nas quatro grandes festas do ano.

Em resumo, esses compromissos, que lhe custavam muito, irritavam-no, e, longe de incliná-lo para os homens da Igreja, aumentavam o seu pendor interno. Aquela criatura sem azedume era acrimoniosa apenas nesse ponto. Não havia meio de emendá-la.

De fato, e sem remissão, era esse o temperamento de Lethierry.

Aborrecia todos os cleros. Tinha a irreverência revolucionária. Distinguia pouco entre duas formas de culto. Nem mesmo fazia justiça a este grande progresso: não acreditar na presença real. A sua miopia nestas coisas chegava ao ponto de não ver a diferença entre um ministro e um sacerdote. Confundia um reverendo doutor com um reverendo padre. Wesley não vale mais que Loyola, dizia ele. Quando via passar um pastor protestante de braço com a mulher, desviava os olhos. Padre casado!, dizia ele, com o acento absurdo que essas duas palavras tinham na França naquela época. Contava que na viagem à Inglaterra tinha visto a bispa de Londres. A sua revolta contra essas uniões ia até a Cólera. Vestido não casa com vestido!, exclamava ele. O sacerdote fazia-lhe efeito de um sexo. Não teria dúvida em dizer: Nem homem nem mulher: padre. Aplicava com mau gôsto tanto ao clero anglicano como ao papista os mesmos desdenhosos; enrolava as duas sotainas na mesma fraseologia; e não se dava ao trabalho de variar, a propósito de padres, quaisquer que fossem, católicos e luteranos, as mesmas soldadescas usadas naquele tempo.

— Casa-te com quem quiseres — dizia ele a Déruchette -, contanto que não seja com algum padreco.