Os Trabalhadores do Mar/Parte II/Livro I

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Segunda Parte Parte- Livro Primeiro- O ESCOLHO

<Os Trabalhadores do Mar

<Autor:Victor Hugo

Tradução: Machado de Assis

A INCÔMODA CHEGADA, DIFÍCIL SAÍDA[editar]

Já os leitores terão adivinhado que o barco, visto em muitos pontos da costa de Guernesey, na noite anterior, em horas diversas, era a pança. Gilliatt escolheu ao longo da costa o canal que se abre entre os rochedos; era a rota perigosa, mas era o caminho direto. Tomar o mais curto foi o cuidado dele. Os náufragos não esperam. O mar é coisa urgente, uma hora de demora podia ser irreparável. Queria chegar depressa para socorrer a máquina.
Saindo de Guernesey, uma das preocupações de Gilliatt era não despertar a atenção. Tinha ares de pessoa que se esconde. Evitou a costa de leste como se achasse inútil passar à vista de Saint-Sampson e Saint-Pierre-Port; resvalou silenciosamente ao longo da costa oposta, que é relativamente inabitada. Nos bancos teve de remar; mas Gilliatt manejava o remo segundo a lei hidráulica: tomar a água sem choque e impeli-la devagar; desse modo pode nadar na obscuridade com a maior força e o menor rumor possíveis. Parecia que ia cometer uma ação feia.
A verdade é que, atirando-se de olhos fechados a um Cometimento que parecia impossível, e arriscando a vida com todas as probabilidades contra ele, receava a concorrência.
Como o dia começava a despontar, os olhos ignotos que estão talvez abertos no espaço puderam ver no meio do mar, num ponto em que há mais solidão e ameaça, duas coisas entre as quais ia diminuindo o intervalo, sendo que uma aproximava-se da outra.
Uma, quase imperceptível no largo movimento das vagas, era um barco de vela; nessa barca havia um homem; era a pança levando Gilliatt, A outra, imóvel, colossal, negra, tinha, sobranceira às vagas, uma surpreendente figura. Dois altos pilares amparavam acima da água, no vácuo, uma espécie de travessão horizontal, que era como que uma ponte entre as duas cumeadas. O travessão, tão informe de longe que seria impossível adivinhar o que era, fazia corpo com os dois pilares. Parecia uma porta. Por que haveria uma porta naquela abertura de todos os lados do mar? Dissera-se um dólmen titânico plantado ali, em pleno oceano, por uma fantasia magistral, e construído por mãos que tem o hábito de apropriar ao abismo as suas construções. Aquela medonha forma levantava-se na claridade do céu.
A luz da manhã ia crescendo a leste; a alvura do horizonte aumentava a negridão do mar. Do lado oposto, declinava a lua.
Os dois pilares eram as Douvres. A espécie de massa apertada entre eles como uma arquitrave era a Durande.
Apertando assim a sua vítima, e deixando-a ver, o escolho era horrível. A atitude daqueles rochedos era uma espécie de repto.
Parecia esperar.
Nada mais altivo e arrogante como tudo aquilo; o navio vencido, o abismo vitorioso. Os dois rochedos, ainda gotejantes da tempestade da véspera, pareciam dois combatentes em suor. Tinha acalmado o vento, o mar dobrava-se placidamente; adivinhava-se que havia à flor da água alguns bancos onde os penachos de escuma caíam com graça; de longe vinha um murmúrio semelhante ao zumbido das abelhas. Tudo era um nível, menos as duas Douvres, levantadas e tesas como duas colunas negras. Os flancos escarpados tinham reflexos de armaduras. Pareciam prestes a encetar de novo a luta. Compreendia-se que elas nasciam de montanhas submarinas. Havia em tudo aquilo uma espécie de onipotência trágica.
De ordinário, o mar oculta os seus lances. Conserva-se voluntariamente obscuro. A incomensurável sombra guarde tudo para ele.
É raro que o mistério renuncie ao segredo. Há um que de monstro na catástrofe, mas em quantidade ignota. O mar é patente e secreto; esconde-se, não quer divulgar as suas ações. Produz um naufrágio e abafa-o; engolir é o seu pudor. A vaga é hipócrita; mata, rouba, sonega, ignora e sorri. Ruge, depois abranda-se.
Nada semelhante nas Douvres. Os dois rochedos, levantando acima das ondas o cadáver da Durande, tinham um ar de triunfo.
Dissera-se dois braços saindo do golfão, e mostrando às tempestades o cadáver daquele navio. Era uma coisa igual ao assassino que se vangloria do crime.
A isto acrescentava-se o horror sagrado da hora. A madrugada tem uma grandeza misteriosa que se compõe de um resto de sonho e de um começo de pensamento. Nesse momento turvado, como que flutua ainda um pouco de espectro. A espécie de imenso H maiúsculo formado pelas duas Douvres com a Durande no centro aparecia no horizonte no meio de uma certa majestade crepuscular.
Gilliatt vestia a roupa do mar, camisa de lã, meias de lã, sapatos tacheados, japona de lã, calça de pano grosso mal tecido, com bolsos, e na cabeça um daqueles barretes de lã vermelha usados então na marinha, e que se chamavam, no século passado, galériennes.
Reconheceu o escolho e avançou.
A Durande estava ao contrário de um navio deitado a pique; era um navio pendurado no ar.
Não havia mais estranho cometimento que o de salvar a máquina daquele navio.
Era dia claro quando Gilliatt chegou às águas do escolho.
Como dissemos, havia pouco mar. A água tinha apenas a quantidade de agitação que lhe dava a estreiteza entre os rochedos. Há sempre marulho nos espaços de água como aquele, quer sejam grandes, quer pequenos. O interior de um estreito espuma sempre.
Gilliatt não abordou ao Douvres sem precaução.
Deitou a sonda muitas vezes.
Gilliatt tinha de fazer um pequeno desembarque de Matalotagem.
Afeito às ausências, tinha sempre pronta em casa a matolotagem.
Era um saco de biscoito, um saco de farinha de centeio, uma cesta de stocigrísh e de carne fumada, um grande pichel de água doce, uma caixa norueguense com ramagens pintadas, contendo algumas camisas de lã, grevas alcatroadas e uma pele de carneiro que ele punha de noite em cima da japona. Tinha posto tudo isso, às carreiras, na pança e mais um bocado de pão fresco. Com a pressa não levou outra ferramenta mais que o martelo da forja, o machado e a picareta, uma serra e uma corda de nós armada de fateixa. Com uma escada desta ordem e a maneira de servir dela, as subidas escabrosas tornam-se praticáveis nos mais rudes declives.
Pode-se ver na ilha de Serk a vantagem que os pescadores do Havre Gosselin tiram de semelhante corda.
As redes e as linhas e todo o arsenal de pescaria estavam na barca. Po-los dentro por costume, e maquinalmente, porquanto, tendo de tentar até o último esforço, talvez se demorasse algum tempo no arquipélago de cachopos, e o aparelho da pescaria é inútil em tais sítios.
No momento em que Gilliatt abordou o escolho o mar baixava, circunstância favorável. As vagas decrescentes descobriram, ao pé da pequena Douvre, algumas pedras chatas ou pouco inclinadas, à semelhança de chapéus carregando um pavimento. Essas superfícies, umas estreitas, outras largas, encadeando e elevando- se, com espaços desiguais, ao longo do monólito vertical, prolongava- se até debaixo da Durande, que abarcava o espaço entre os dois rochedos. Estava apertada ali como um tomilho.
Eram cômodas aquelas plataformas para desembarcar e observar.
Podia-se desembarcar ali, provisoriamente, o carregamento da pança. Mas era preciso apressar-se, porque elas estariam fora da água pouco tempo. Quando a maré enchesse, ficariam outra vez cobertas.
Foi para essas rochas, umas chatas, outras declives, que Gilliatt impeliu e fez parar a pança.
Uma espessura de sargaço, úmida e escorregadia, cobria essas rochas, e a obliqüidade de algumas. delas mais escorregadias as tornava.
Gilliatt descalçou-se, saltou sobre o limo e amarrou a pança em uma ponta do rochedo.
Depois aproximou-se o mais devagar que pode sobre a estreita pedra de granito, chegou debaixo da Durande, levantou os olhos e contemplou-a.
A Durande estava presa, suspensa, e como que ajustada entre os dois penedos, 20 pés acima das vagas. Era preciso que fosse atirada ali por uma furiosa violência do mar.
Tão impetuoso empurrão não faz pasmar a gente do mar. Para citar apenas um exemplo, a 25 de janeiro de 1840, no golfo de Stora, uma tempestade, já expirante, fez saltar um brigue, de um só pulo, por cima do casco naufragado da corveta La Mame e incrustou-o, com o gurupés à frente, entre dois penedos.
Demais, nas Douvres apenas havia um resto da Durande.
O navio arrancado às vagas foi de algum modo desenraizado da água pelo furacão. O turbilhão do vento tinha-o torcido, o turbilhão do mar tinha-o preso, e o navio, seguro em sentido inverso pelas duas mãos da tempestade, quebrou-se como se fora uma ripa. O pedaço da popa, com a máquina e as rodas, arrebatado das águas e impelido por toda a fúria do Ciclone para a garganta das Douvres, lá ficou. O vento foi acertado; para meter aquele casco entre os dois rochedos, o furacão transformou-se em maça. A proa, levada e rolada pelo vento, deslocou-se nos bancos de pedra.
O porão, que estava arrombado, esvaziara no mar os bois, mortos.
Um grande pedaço da amurada da proa ainda estava preso ao casco, mas pendurado nas caixas das rodas por algumas lascas, fáceis de quebrar com um machado.
Viam-se aqui e ali nas longínquas do escolho, barrotes, tábuas, pedaços de vela, pedaços de correntes, todos os destroços, tranqüilos nos rochedos.
Gilliatt contemplava com atenção a Durande. A quilha era o teto que lhe ficava sobre a cabeça.
O horizonte, onde a água iluminada apenas se mexia, estava sereno.
O sol saía esplendidamente daquela vasta massa azul.
De tempos a tempos uma gota de água destacava-se do navio e caia no mar.

AS PERFEIÇOES DO DESASTRE[editar]

As Douvres eram diferentes de forma como de altura.
Na pequena Douvre, recurvada e aguda, viam-se ramificar-se, da base ao cimo, longas veias de uma rocha cor de tijolo relativamente tenra, que fechava com as suas lâminas o interior do granito.
Nessas lâminas avermelhadas havia, de espaço a espaço, fendas próprias para subir. Uma dessas fendas, um pouco acima do navio, foi tão bem trabalhada pelos arremessos do mar, que tornou-se uma espécie de nicho, onde podia guardar-se uma estátua. O granito da pequena Douvre era arredondado na superfície e macio como pedra de toque, o que não lhe tirava a dureza que tinha. A pequena Douvre terminava em ponta como um chifre. A grande Douvre, polida, unida, lisa, perpendicular, e feita como por desenho, era de um só jato e parecia feita de marfim preto. Nem um buraquinho, nem um relevo. Trepar por ela era impossível; não podia servir nem à fuga de um criminoso, nem ao ninho de um pássaro. No cume havia, como no rochedo Homem, uma plataforma; era, porém, inacessível.
Podia-se trepar pela pequena Douvre, mas não ficar lá, podia-se ficar na grande Douvre, mas não se podia subir.
Gilliatt, depois de lançar os olhos por tudo aquilo, voltou à pança, descarregou-a à flor da água, fez de todo o carregamento, aliás pequeno, uma espécie de pacote, atou-o num pano alcatroado, depois içou-o por meio de um cabo até um ponto da rocha onde o mar não podia chegar; feito isto, abraçou-se à pequena Douvre e, com pés e mãos, de fenda em fenda, trepou por ela até a Durande, que estava no ar.
Chegando à altura das caixas das rodas, saltou dentro.
Durande apresentava todos os vestígios de um arrombamento medonho.
, Era a violação tremenda da tempestade. A tempestade comporta-se como um pirata. Nada assemelha-se mais a um atentado que um naufrágio. Nuvens, trovão, chuva, vagas, tufões, rochedos, horrível multidão de cúmplices é esta.
No meio daqueles destroços, pensava-se em alguma coisa semelhante ao tripúdio furioso dos espíritos do mar. Tudo eram vestígios de raiva. As torções estranhas de certos ferros indicavam a ação impetuosa dos ventos. O convés assemelhava-se à célula de um louco; tudo estava despedaçado.
Nenhum animal estrangula uma pedra como o ar. A água regurgita das garras. O vento morde, o mar devora, a vaga é um queixo. É um socar e um esmigalhar ao mesmo tempo. O oceano tem um golpe igual à pata do leão.
O descalabro da Durande apresentava esta particularidade: era minucioso. Era uma espécie de terrível descascamento. Muitas coisas pareciam feitas de propósito. Que maldade!, podia dizer-se.
As fraturas das amuradas eram feitas com arte. Este gênero de destruição é próprio do ciclone. Retalhar e adelgaçar tal é o capricho desse devastador enorme. O ciclone usa das averiguações do carrasco. Os seus desastres parecem suplícios. Dissera-se que algum rancor o anima; é requintado como um selvagem. Disseca examinando. Tortura o naufrágio, vinga-se, diverte-se; é mesquinhamente cruel.
Raros são os ciclones em nossos climas, e tanto mais terríveis quanto que são inesperados. Um rochedo encontrado pode fazer andar à roda a tempestade. É provável que a borrasca tivesse feito espiral sobre as Douvres, voltando-se subitamente em tromba ao choque do escolho, o que explicava o salto do navio a tamanha altura naquelas rochas. Quando o ciclone sopra, um navio pesa tanto como a pedra de uma funda.
A Durande tinha a chaga que fica ao homem cortado pelo meio; era um tronco aberto deixando ver um molho de destroços semelhante a entranhas. O cordame flutuava e estremecia; as correntes balançavam e tiritavam; as fibras e os nervos do navio estavam nus e pendiam no ar. O que não estava quebrado estava desarticulado; a pregadura do casco assemelhava-se a uma almofada eriçada de pregos; em tudo havia a forma de ruína; uma barra de pé-de-cabra não era menos que um simples pedaço de ferro; uma sonda era apenas um pedaço de chumbo; uma driça era apenas uma ponta de cânhamo; uma talha era apenas um fio de debrum; por toda a parte a inutilidade lamentável da destrui- ção; havia que não estivesse despregado, desenganchado, rachado, roído, recurvado, aniquilado; nenhuma adesão naquele feio montão de destroços; em tudo o deslocamento e a futura, esse aspecto de inconsistente e líquido que caracteriza todas as confus ões, desde as refregas dos homens, que se chamam batalhas, até as refregas dos elementos, que se chamam caos.
Tudo caía, e uma torrente de tábuas, de lonas, de ferro, de cabos e de vigas tinha parado na grande fratura da quilha, donde o menor choque podia precipitar tudo ao mar. O que restava daquela poderosa carena tão triunfante outrora, toda aquela parte suspensa entre as duas Douvres e talvez prestes a cair, tudo estava roto e dilacerado, deixando ver pelos buracos o interior sombrio do navio.
Debaixo cuspia a espuma sobre: aquela coisa miserável.

SÃ, MAS NÃO SALVA[editar]

Gilliatt não esperava achar somente metade do navio. Nas indicações, aliás tão precisas, do capitão do Shealtiel, nada fazia pressentir aquela divisão pelo meio. Foi talvez na ocasião em que o navio partiu-se, debaixo da imensa espessura da espuma, que houve aquele estalo diabólico ouvido pelo capitão do Shealtiel. O capitão afastava-se sem dúvida no momento do último sopro do vento, e não viu que era uma tromba que impelia o navio. Mais tarde, aproximando-se para observar o desastre, viu apenas a parte anterior do casco, ficando-lhe escondido pelo rochedo o lado fraturado donde se rompera metade do navio.
Exceto isto, o capitão do Shealtiel disse tudo exato. O casco estava perdido, a máquina estava intata.
São freqüentes estes acasos nos naufrágios como nos incêndios.
Não se pode compreender a lógica do desastre.
Os mastros quebrados tinham caído; o cano nem mesmo envergou; a grande placa de ferro que amparava o mecanismo manteve-o intato e completo. O revestimento de tábuas das rodas estava destruído como as lâminas de uma persiana; mas através das fendas viam-se as rodas em bom estado. Apenas faltavam alguns raios.
Além da máquina, tinha resistido o grande cabrestante da popa.
Tinha ainda a corrente, e graças ao seu robusto encaixe em um quadro de tabules, ainda podia prestar serviços, uma vez que se não rompesse a prancha. O pedaço do casco metido entre as Douvres estava firme, já o dissemos, e parecia sólido.
A conservação da máquina tinha um que de irrisório e acrescentava a ironia à catástrofe. A sombria malícia do desconhecido mostra- se, às vezes, nessas espécies de zombarias amargas. A. má- quina estava salva, o que não impedia que estivesse perdida. O oceano guardava-a para demoli-la aos poucos. Divertimento de gato.
A máquina ia agonizar e desfazer-se peça por peça. Ia diminuir dia a dia e, por assim dizer, derreter-se. Ia servir de brinco às selvajarias de espuma. Que fazer? Que aquele pesado montão de mecanismos e encaixes, maciço e delicado a um tempo, condenado à imobilidade por seu peso, entregue na solidão às forças demolidoras, posto pelo cachopo à discrição do vento e do mar, pudesse, sob a pressão daquele lugar implacável, escapar à destruição lenta era até loucura imaginá-lo.
A Durande estava prisioneira das Douvres.
Como tirá-la dali? Como libertá-la?
A evasão de um homem é difícil; mas que problema não é este: a evasão de uma máquina!

PRÉVIO EXAME LOCAL[editar]

Gilliatt estava cercado de urgências. O mais urgente era achar ancoradouro para a pança, e depois abrigo para si.
A Durande estava mais carregada a bombordo, que a estibordo, e, por isso, a roda direita ficava mais elevada que a da esquerda.
Gilliatt subiu à caixa das rodas da direita. Daí dominava a parte baixa dos bancos, e embora a rede de rochas alinhadas em ângulos por trás das Douvres fizesse muitos cotovelos, Gilliatt pode estudar o plano geométrico do escolho.
Começou por aí.
As Douvres, como indicamos, eram duas altas pilastras marcando a entrada estreita de uma viela de penedos perpendiculares na frente. Não é raro achar nas formações submarinas primitivas esses corredores singulares feitos como que a machado.
Aquele, que era tortuoso, nunca estava a seco, mesmo nas marés baixas. Uma corrente agitada atravessava-o sempre. A impetuosidade do redemoinho era boa ou má, segundo o rumo do vento reinante; ora quebrava a onda, e fazia-a cair; ora exasperava-a.
Este último caso era o mais freqüente; o obstáculo encoleriza a vaga e leva-a aos excessos; a espuma é a exageração da vaga.
O vento da tempestade, naqueles estrangulamentos entre duas rochas, sofre a mesma compressão e adquire a mesma malignidade.
O sopro imenso fica imenso, mas faz-se agudo. É ao mesmo tempo maça e dardo. Fura e esmaga. Imaginai o furacão fazendose vento coado.
As duas cadeias de rochedos, deixando entre si essa espécie de rua do mar, terminavam em degraus mais baixos que as Douvres, gradualmente decrescentes, e mergulhavam juntas no mar a uma certa distância. Havia aí outra foz menos elevada que as das Douvres, porém mais estreita ainda e que era a entrada, a leste, daquela garganta. Adivinhava-se que o duplo prolongamento das duas arestas de rocha continuava a rua debaixo da água até o rochedo Homem, colocado como uma cidadela quadrada na outra extremidade do escolho.
Nas marés baixas, e era nessa ocasião que Gilliatt observava, as duas fileiras de bancos mostravam os seus dorsos, alguns a seco, todos visíveis, e coordenando-se sem interrupção.
O Homem limitava e resguardava no levante a massa inteira do escolho, que era limitado, ao poente, pelas duas Douvres.
Todo o escolho, visto a vôo de pássaro, apresentava um rosário recurvado de rochedos, tendo em uma ponta as Douvres e na outra o Homem.
O escolho Douvres, visto em seu conjunto, era apenas a imersão de duas gigantescas lâminas de granito tocando-se quase e caindo verticalmente, como uma crista de montes que estão no fundo do oceano. Há, fora do abismo, essas esfoliações imensas. A lufada e a onda tinham recortado essa crista como uma serra. Via-se apenas o cimo, era o escolho. O que a onda escondia devia ser enorme. A viela onde a tempestade tinha atirado a Durande era o centro dessas duas lâminas colossais.
Essa viela, em ziguezague como o relâmpago, tinha quase em todos os pontos a mesma largura. O oceano fe-la assim. O eterno tumulto produz suas regularidades estranhas. Sobe da água uma geometria.
De um cabo a outro da garganta, as duas muralhas da rocha faziam-se face paralelamente a urna distância que a Durande media quase com exatidão entre as duas Douvres; o esvazamento da pequena Douvre, recurvada e voltada, dera lugar às caixas das rodas. Em qualquer outro lugar as caixas ficariam quebradas.
A dupla fachada interna do escolho era hedionda. Quando na explora ção do deserto de água chamado Oceano chega-se às coisas ignotas do mar, torna-se tudo surpreendente e disforme. Aquilo que Gilliatt, do alto do casco, podia ver na garganta fazia horror.
Há muitas vezes nas gargantas graníticas do oceano uma estranha imagem permanente do naufrágio. A garganta das rochas Douvres tinha a sua, que era assustadora. Os óxidos da rocha davam-lhe aqui e ali umas vermelhidões imitando placas de sangue coalhado. Era uma espécie de transudação sangrenta de um matadouro.
Havia um ar de açougue naqueles parcéis. A rude pedra marinha, diversamente colorida, aqui pela decomposição dos amálgamas metálicos misturados à rocha, ali pelo bolor, ostentava vermelhidões hediondas, esverdeamentos suspeitos, despertando uma idéia de morte e de extermínio. Acreditava-se ver uma parede ainda não enxuta do quarto de um assassinato. Dissera-se que eram aqueles os vestígios de um despedento de homens; a rocha íngreme tinha um cunho de agonias acumuladas. Em certos lugares a carnagem parecia escorrer ainda, a muralha estava molhada e parecia impossível apoiar o dedo sem tirá-lo sangrento. Por toda a parte aparecia uma ferrugem de morticínio. Ao pé do duplo declive paralelo, esparso à flor da água ou debaixo da vaga, ou a seco nas escavações, monstruosos seixos redondos, uns escarlates, outros negros ou roxos, tinham semelhanças de vísceras; acreditava- se ver pulmões frescos ou fígados pútridos. Dissera-se que ali se tinham esvaziado ventres de gigantes. Longos fios vermelhos, que se poderiam tomar por destilaves fúnebres, riscavam o granito de alto a baixo.
Esses aspectos são freqüentes nas cavernas do mar.

UMA PALAVRA A RESPEITO DAS COLABORAÇÕES SECRETAS DOS ELEMENTOS[editar]

A forma de um escolho não é coisa indiferente para os que, nos riscos das viagens, podem ser condenados à habitação temporária de um escolho no oceano.
Há o escolho pirâmide, um cimo fora da água; há o escolho círculo, coisa semelhante a uma roda de pedras grandes; há o escolho corredor. O escolho corredor é o pior de todos. Não somente por causa da angústia das ondas entre as rochas e do tumulto das águas apertadas, mas também por causa das propriedades meteorológicas que parecem desprender-se do paralelismo das duas rochas em pleno mar. As duas paredes retas são um verdadeiro aparelho de Volta.
Orienta-se o escolho corredor, e isso é importante. Resulta daí uma primeira ação sobre o ar e a água. O escolho corredor atua na água e no vento mecânicamente, pela forma, galvânicamente, pela atração diversa dos seus planos verticais, massas sobrepostas e contrariadas umas pelas outras.
Esta espécie de escolhos atrai todas as forças furiosas esparsas no furacão, e tem sobre a borrasca uma singular força de concentra ção.
Donde resulta que nas paragens desses cachopos há uma certa acentuação da tempestade.
Cumpre saber que o vento é compósito. Acredita-se que o vento é simples; engano. Essa força não é somente dinâmica, é química; não é somente química, é magnética. Tem alguma coisa que é inexplicável.
O vento é tão elétrico como aéreo. Certos ventos coincidem com auroras boreais. O vento do banco das Arguilles rola vagas de 100 pés de altura, espanto de Dumont dUrville. A corveta, disse ele, não sabia a quem havia de atender.
Debaixo das lufadas austrais, verdadeiros tumores doentios sopram no oceano, e o mar torna-se tão horrível que os selvagens fogem para não vê-lo.
As lufadas boreais são outras; misturam-se de pontas de gelo e esses furacões irrespiráveis impelem para a neve os trenós dos esquimós. Outros ventos queimam. É o simuni da África, é o turão da China e o samiel da índia. Simuni, Tufão, Samiel; parece que são demônios estes nomes. Fundem o cimo das montanhas; uma tempestade vitrificou o vulcão de Toluca. Este vento quente, turbilhão cor de tinta atirando-se sobre as nuvens encarnadas, fez dizer aos vedas: Eis aí o Deus negro que vem roubar as vacas encarnadas. Sente-se em tudo isto a pressão do mistério elétrico.
O vento é cheio desse mistério. Do mesmo modo o mar. Também ele é complicado; debaixo das suas vagas de águas, que se vêem, há outras vagas de forças, que se não vêem. Compõem-se de tudo. De todas as misturas, a do oceano é a mais invisível e a mais profunda.
Tentai conhecer esse caos, tão enorme que vai ter ao nada. É o recipiente universal, reservatório para as fecundações, cadinho para as transformações. Amassa, depois dispersa; acumula, depois semeia; devora, depois produz. Recebe todos os esgotos da terra, e aferrolha-os. E sólido no banco, líquido na água, fluido no eflúvio. Como matéria é massa, e como força é abstração. Iguala e consorcia os fenômenos. Simplifica-se no infinito pela combina- ção. É a força da mescla e da turvação que chega à transparência.
A diversidade solúvel prende-se na sua unidade. Tem tantos elementos diversos que é idêntico. Uma das suas gatas é todo ele.
Como é cheio de tempestades, torna-se equilíbrio. Platão via dançar esferas; coisa estranha, mas real na colossal evolução terrestre à roda do Sol, o oceano, com o seu fluxo e refluxo, é o pêndulo do globo.
No fenômeno do mar, todos os fenômenos estão presentes. O mar é aspirado pelo turbilhão como um sifão; uma tempestade é um corpo de bomba; o raio vem da água como do ar; nos navios sentem-se abalos surdos, depois um cheiro de enxofre sai do poço das correntes. O oceano ferve. O diaba pós o mar na sua caldeira dizia Ruyter.
Em certas tempestades que caracterizam os movimentos das esta ções e as /entradas em equilíbrio das forças genesíacas, os navios batidos de escuma parecem evaporar uma luz, e flamas de fósforo correm pelo cordoame, tão misturadas aos cabos que os marinheiros estendem a mão e procuram apanhar esses pássaros de fogo. Depois do terremoto de Lisboa, um hálito de fornalha impeliu para a cidade uma vaga de 60 pés de altura. A oscilação oceânica liga-se ao estremecimento terrestre.
Essas energias incomensuráveis tornam possíveis todos os cataclismos.
No fim de 1864, a 100 léguas das costas de Malabar, soçobrou uma ilha, como se fosse um navio. Os pescadores que tinham saído de manhã voltaram à noite e não acharam nada; apenas puderam ver as suas aldeias debaixo da água; e desta vez foram os barcos que assistiram ao naufrágio das casas.
Na Europa, onde parece que natureza sente-se constrangida em respeito à civili2:ação, tais acontecimentos são raros até à impossibilidade presumível.
Todavia Jersey e Guernesey fizeram parte da Gália; e, no momento em que escrevemos, um vento equinócio acaba de demolir na fronteira da Inglaterra e da Escócia o penedio da praia chamado Primeiro dos Quatro, First of the Fourth.
Em parte alguma essas forças pânicas aparecem mais formidavelmente amalgamadas do que no surpreendente estreito boreal. chamado Lyse-Fiord. O Lyse-Fiord é o mais temível dos escolhosbocais do oceano. Aí a demonstração é completa. É o mar da Noruega, a vizinhança do tremendo golfo Stavanger, o 59.
O grau de latitude. A água é pesada e negra com uma febre de tempestade intermitente.
Nessa água, no meio da solidão, há uma grande rua sombria. Não é rua para pessoa alguma. Ninguém passa ali; nenhum navio se arrisca nesse lugar. Um corredor de 10 léguas de comprido, entre duas muralhas de 3 000 pés de altura: eis a entrada. Esse estreito tem cotovelos e ângulos como todas as ruas do mar, que nunca são retas, pois que são feitas pela torção da vaga.

No Lyse-Fiord, a vaga é quase sempre tranqüila; o céu é sereno; lugar terrível. Onde está o vento? Não está em cima. Onde está o trovão? Não está no céu. O vento está debaixo do mar; o trovão está debaixo da rocha.
De tempos a tempos há um estremecimento debaixo da água. Em certas horas, sem que haja uma nuvem sequer no ar, no meio da altura do penedio vertical, a 1000 ou 1500 pés acima das vagas, mais do lado do sul que do norte, o rochedo reboa subitamente, rompe daí um relâmpago, que fende o ar, e recolhe-se logo, como esses brinquedos que se alongam e contraem nas mãos das crianças; tem contrações e ampliações esse relâmpago, fere a rocha oposta, entra outra vez, torna a aparecer, recomeça, multiplica as suas cabeças e as suas línguas, eriça-se, fere onde pode, recomeça ainda, até que se apaga sinistramente. Fogem os bandos de pássaros. Nada é tão misterioso como essa artilharia saindo do invisível. Um rochedo ataca outro. Fulminain entre si os cachopos.
É uma guerra que nada tem com os homens. ódio de dois penedos no golfão.
No Lyse-Fiord o vento torna-se eflúvio, a rocha desempenha as funções de nuvem, e o trovão tem arrojos de vulcão. É uma pilha aquele estranho estreito; tem por elementos as suas duas filas de rochas.

CAVALARIÇA PARA O CAVALO[editar]

Gilliatt era sabedor de cachopos e não tomava as Douvres ao sério. Antes de tudo, já o dissemos, tratou ele de por a pança em segurança.
A dupla fileira de arrecifes que se prolongava sinuosamente por trás das Douvres fazia grupo com os outros rochedos, e adivinhavam-se cavas e sacos saindo da viela, e prendendo-se à garganta principal como ramos a um tronco.
A parte inferior dos escolhos estava tapetada de sargaço e a parte superior de líquen. O nível uniforme do sargaço em todas as rochas marcava a linha da flutuação da maré cheia.
As pontas que a água não atingia tinham o prateado e o dourado que dá aos granitos marinhos o líquen branco e o líquen amarelo.
Cobria a rocha em certos pontos uma lepra de conchas corroídas.
Em outros pontos, nos ângulos reentrantes, onde se acumulara uma areia fina, ondeada na superfície antes pelo vento que pela vaga, havia tufas de cardo azul.
Nos rebentes pouco batidos pela espuma, reconheciam-se as pequenas covas furadas pelos ursos do mar. Este urso-concha, que anda, bola viva, rolando-se nas pontas, e cuja couraça compõese de mais de 10 000 peças artisticamente ajustadas e soldadas, o urso-marinho, cuja boca se chama, ninguém sabe por que, lanterna de Aristóteles, cava o granito com os cinco dentes que tem e aloja-se nos buracos. Nessas alvéolas é que os pescadores de frutos do mar dão com ele. Cortam-no em quatro partes e comem-no cru como ostra. Alguns metem o pão naquela carne mole. Daí o nome de ovo do mar.
As cumeadas dos bancos descobertas pela maré que vazava iam ter mesmo debaixo do rochedo Homem a uma espécie de angra murada quase por todos os lados. Havia ali evidentemente um ancoradouro possível. Gilliatt observou a angra. Tinha a forma de uma ferradura e abria-se de um só lado, ao vento leste, que é o menos mau daquelas paragens. O vento ali estava preso e quase adormecido. Era segura aquela baiazinha. Nem Gilliatt tinha muito onde escolher.
Se Gilliatt quisesse aproveitar a maré vazante, devia apressar-se.
O tempo continuava a ser magnífico. Estava de bom humor aquele insolente mar.
Gilliatt tomou a descer, calçou os sapatos, desatou a amarra, entrou na barca e navegou para fora. Costeava com o remo e parte externa do cachopo.
Chegando perto do Homem, examinou a entrada da angra.
Um certo ondeado na mobilidade da água, ruga imperceptível a qualquer que não fosse marinheiro, desenhava aquele passo.
Gilliatt estudou alguns instantes a curva, lineamento quase indistinto na vaga, depois tomou ao largo, a fim de virar a gosto, e entrar bem, e vivamente, de um só movimento de remo, entrou na angra.
Sondou.
Era excelente o ancoradouro.
A pança estaria protegida ali quase contra todas as eventualidades da estação.
Os mais temíveis arrecifes tem desses recantos tranqüilos. Os portos que se acham nos escolhos assemelham-se à hospitalidade do beduírio; são honestos e seguros.
Gilliatt arranjou a pança o mais perto do Homem que lhe foi possível, em ponto que não pudesse perder-se, e pós ao mar as duas âncoras.
Feito isto, cruzou os braços e refletiu.
A pança estava abrigada; era um problema resolvido; mas apresentava- se o segundo. Onde abrigar-se Gilliatt?
Ofereciam-se dois pontos; o primeiro era a própria pança, com o seu camarote mais ou menos habitável; o segundo era o cimo do rochedo Homem, fácil de escalar.
De qualquer dos dois ângulos podia-se ir a pé nas vazantes, saltando-se de rocha em rocha, até Douvres, onde estava a Durande.
Mas a vazante dura apenas um momento, e no resto do tempo ficava ele separado, ou do asilo ou da Durande, por umas 200 braças. Nadar no mar de um escolho a outro é difícil; com qualquer - agitação é impossível.
Era preciso desistir da pança e do Homem.
Nenhuma estação possível nos rochedos vizinhos.
Os cimos inferiores desaparecem duas vezes por dia debaixo da enchente da maré.
Os cimos superiores eram constantemente cuspidos pelos saltos da espuma. Inóspita lavagem.
Restava o casco da Durande.
Podia-se viver ali?
Gilliatt teve essa esperança.

QUARTO PARA O VIAJANTE[editar]

Meia hora depois, Gilliatt, de volta à Durande, subia e descia no interior do tombadilho ao porão, aprofundando o exame sumário de sua pequena visita.
Com auxílio do cabrestante, tinha ele içado à Durande o pacote que fez do carregamento da pança. O cabrestante comportara-se bem. Não faltava onde meter o carregamento. Gilliatt tinha, no meio daqueles destroços, muito onde escolher.
Achou entre as ruínas um escopro caído sem dúvida da selha de carpinteiro e com o qual aumentou ele a ferramenta.
Além disso, como tudo serve onde não há abundância, tinha consigo a faca.
Gilliatt trabalhou o dia no casco, limpando, consolidando, simplificando.
A tardinha se conheceu isto:
Todo o casco tiritava ao vento, tremia a cada passo de Gilliatt. Só era estável e firme a parte do casco metida entre os rochedos, que continha a máquina e ficava poderosamente presa ao granito.
Instalar-se na Durande era imprudente. Era sobreposse; e, longe de dar peso ao navio, cumpria torná-lo mais leve.
Carregar sobre o casco era o contrário do que cumpria fazer.
Aquela ruína queria melhores tratos. Era uma espécie de doente que expira. Havia bastante vento para maltratá-la.
Já era mau ter de trabalhar nela. A porção de trabalho que o casco devia suportar naturalmente talvez o fatigasse mais do que comportavam as suas forças.
Além disso, se sobreviesse algum acidente noturno durante o sono de Gilliatt, estar no navio era soçobrar com ele. Nenhum auxílio possível; tudo ficava perdido. Para socorrer o navio, era preciso estar fora dele.
Fora dele e junto dele, tal era o problema.
Complicava-se a dificuldade.
Onde achar um abrigo em tais condições?
Gilliatt pensou.
Só restavam as duas Douvres. Pareciam pouco habitáveis.
Via-se, debaixo, no platô superior da grande Douvre, uma espécie de excrescência.
As rochas em pé, com a parte superior chata, como a grande Douvre e o Homem, são penedos decapitados, abundam nas montanhas e no oceano. Certos rochedos, principalmente os que se encontram em mar largo, tem entranhas como se foram árvores golpeadas. Parecem ter recebido um golpe de machado. Com efeito, essas rochas andam sujeitas ao vaivém do furacão, que é o lenhador do mar.
Existem outras causas de cataclismo mais profundas ainda. Daí vem que há tantas feridas em todos esses velhos granitos. Alguns desses colossos tem a cabeça cortada.
Às vezes a cabeça, sem que se possa explicar, não cai e fica mutilada, no cume do rochedo. Não é rara essa singularidade. A Roque-au-Diable, em Guernesey, e a Table, no vale de Annweiler, apresentam nas mais surpreendentes condições esse estranho enigma geológico.
Provavelmente tinha acontecido à grande Douvre alguma coisa semelhante.
Se a intumescência que havia no platô não era natural, era necessariamente algum fragmento que ficara da decapitação.
Talvez houvesse alguma escavação nesse pedaço de rocha.
Buraco para meter-se um homem; era o que Gilliatt queria.
Mas como chegar até lá? Como trepar por aquela coluna vertical, densa e polida como um seixo, meio coberta de uns filamentos viscosos, tendo o aspecto escorregadio de uma superfície ensaboada?
Gilliatt tirou da caixa da ferramenta a corda de nós, prendeu-a à cintura e pôs-se a escalar a pequena Douvre. À proporção que ia subindo, tornava-se mais difícil a ascensão. Esquecera-se de tirar os sapatos, o que aumentava a dificuldade. Não sem custo chegou à ponta. Chegando à ponta, posse de pé sobre ela. Havia apenas lugar para os pés. Fazer disso um lugar para descansar e dormir era difícil. Um estilista contentara-se; Gilliatt, mais exigente, queria coisa melhor.
A pequena Douvre curvava-se para a grande, e de longe parecia cumprimenta-la, e o intervalo das duas Douvres, que era de uns 20 pés embaixo, era apenas de 8 ou 10 pés em cima.
Da ponta, onde trepara, Gilliatt viu mais distintamente a intumescência que cobria a plataforma da grande Douvre.
Essa plataforma elevava-se urnas 3 toesas acima da cabeça dele.
Separava-o dela um precipício.
O declive da pequena Douvre desaparecia debaixo dele.
Gilliatt desprendeu da cintura a corda de nós, tomou rapidamente com o olhar as dimensões e atirou a ponta da corda sobre a plataforma.
O gancho arranhou a rocha e resvalou. A corda de nós que tinha o gancho na extremidade caiu aos pés de Gilliatt ao longo da pequena Douvre.
Gilliatt recomeçou, lançando a corda mais longe e visando a protuberância granítica onde via buracos.
O lanço foi tão destro e tão firme que o gancho segurou.
Gilliatt puxou.
Desprendeu-se a corda, e veio bater na coluna abaixo de Gilliatt.
Gilliatt lançou a corda pela terceira vez.
Desta vez não caiu.
Gilliatt puxou a corda. A corda resistiu. O gancho estava seguro.
Ficara seguro em alguma anfractuosidade da plataforma que Gilliatt não podia ver.
Tratava-se de confiar a vida àquela desconhecida prisão do gancho.
Gilliatt não hesitou.
Urgia tudo. Era preciso ir quanto antes.
Além de que, descer ao tombadilho da Durande para procurar qualquer outro meio era coisa impossível. O resvalamento era provável e a queda quase certa. Sobe-se, não se desce.
Tinha Gilliatt, como todos os bons marinheiros, movimento de previs ão. Nunca perdia força. Vinham daí os prodígios de vigor que ele executava com músculos ordinários; tinha as forças comuns, mas uma grande coragem. Ao lado da força, que é física, tinha a energia, que é moral.
Devia praticar ali um ato tremendo.
Galgar, suspenso àquele fio, o intervalo das duas Douvres; tal era a questão.
São freqüentes nos atos de dedicação ou de dever esses pontos de interrogação que parecem postos pela morte.
Farás isto?, diz a sombra.
Gilliatt executou uma segunda tração de ensaio sobre: o gancho; o gancho resistiu.
Gilliatt embrulhou a mão esquerda no lenço, apertou a corda com a mão direita coberta pela mão esquerda, depois tendo um pé adiante, e empurrando com o outro pé a rocha a fim de que o vigor do impulso impedisse a rotação da corda, precipitou-se do alto da pequena Douvre sobre a coluna da grande.
Duro foi o choque.
Apesar da precaução tomada por Gilliatt a corda volteou, e foi o ombro dele que bateu no rochedo.
Por sua vez os punhos bateram na rocha. Desatara-se o lenço. As mãos ficaram arranhadas; admirou que não ficassem esmagadas.
Gilliatt conservou-se algum tempo aturdido e suspenso.
Mas ainda assim, bastante senhor de si para não largar a corda.
Decorreu algum tempo em oscilação e sobressaltos antes que pudesse agarrar a corda com os pés, mas conseguiu afinal.
Voltando a si e conservando a corda entre as mãos, Gilliatt olhou para baixo.
Não se assustava a respeito do comprimento da corda que mais de uma vez lhe servira a maiores alturas. A corda, com efeito, arrastava na Durande.
Gilliatt, certo de poder descer, começou a trepar.
Em poucos momentos chegou ao cume.
Ninguém, a não ser os pássaros, tinha posto ali o pé. A plataforma estava coberta de esterco de pássaros. Era um trapézio irregular, lasca daquele colossal granito chamado grande Douvre. No meio havia uma cava como uma bacia. Trabalho das chuvas.
Gilliatt conjeturara com exatidão. Via-se no ângulo meridional do trapézio uma superposição de rochedos, destroços prováveis do descalabro do cimo. Esses rochedos, espécie de monte de pedras desmedidas, deixavam lugar a um animal feroz que ali tivesse trepado para passar. Equilibravam-se no meio da confusão; tinham os interstícios de um montão de grabatos. Não havia grota nem antro, mas buracos como uma esponja. Um desses podia admitir Gilliatt.
O fundo desse buraco era de relva e musgo. Gilliatt estaria ali como se fosse em casa.
A alcova na entrada tinha 2 pés de altura. Estreitava-se para o fundo. Há túmulos de pedra que tem essa forma. O monte de rochedos estava encostado ao sudoeste, de modo que a casinhola de Gilliatt ficava garantida das águas, mas aberta ao vento do norte.
Gilliatt achou que isso era bom.
Os dois problemas estavam resolvidos, a pança tinha um porto, ele tinha casa.
A excelência da casa era ficar perto da Durande.
O gancho da corda tinha caído entre dois pedaços de rocha e ficou solidamente preso. Imobilizou-o pondo em cima uma grossa pedra.
Depois entrou imediatamente em livre prática com a Durande.
Já estava em casa.
A grande Douvre era a casa, e Durande era a oficina.
Ir e vir, subir e descer, nada mais simples.
Atirou-se vivamente pela corda abaixo até o tombadilho.
O dia foi bom, a coisa começava bem, Gilliatt estava satisfeito, reparou que tinha fome.
Desatou o cesto de provisões, abriu a faca, cortou um pedaço de carne fumada, trincou o pão de rala, bebeu um gole do pichel de água doce e ceou admiravelmente.
Trabalhar bem e comer bem são duas alegrias. O estômago cheio assemelha-se a uma consciência satisfeita.
Acabada a ceia, ainda havia sol. Gilliatt aproveitou a claridade para começar a aliviar o navio, que era urgente.
Tinha passado uma parte do dia a separar os destroços. Pós de lado, no compartimento sólido, onde estava a máquina, tudo o que podia servir, madeira, ferro, cordoame, velame. O que era inútil deitou ao mar.
O carregamento da pança, içado pelo cabrestante até o tombadilho, era, embora sumário, um estorvo. Gilliatt viu a espécie de nicho cavado na pequena Douvre, a uma altura que ele podia tocar com a mão. Vêem-se muitas vezes nos rochedos esses armários naturais, não fechados, é verdade. Pensou que era possível confiar o depósito àquele nicho. Pós no fundo as duas caixas, a da ferramenta e a do vestuário, os dois sacos, o centeio e o biscoito, e na frente, demasiado chegado à borda, por não haver mais lugar, o cesto das provisões.
Teve cuidado de retirar da caixa das roupas a pele de carneiro, a japona e as grevas alcatroadas.
Para impedir que o vento desse na corda de nós, prendeu a ponta em uma porca da Durande.
A porca era muito curva e prendia a corda tão bem como se fosse uma mão fechada.
Restava a parte superior da corda. Prender a extremidade de baixo era fácil, mas no cimo da coluna, no lugar onde a corda encontrava a borda da plataforma, era de esperar que fosse a pouco e pouco gasta pelo ângulo do rochedo.
Gilliatt investigou o montão de destroços que reservara, apanhou alguns pedaços de lona e alguns fios de carreta achados entre os cabos, e meteu tudo nas algibeiras.
Qualquer marujo adivinhava logo que ele ia forrar com a lona e os fios o pedaço da corda na altura do ângulo do rochedo, de modo a preveni-lo de qualquer avaria.
Feita a provisão dos trapos, pós as grevas; nas pernas, vestiu a japona, prendeu ao pescoço a pele de carneiro, e assim vestido, com essa panóplia completa, agarrou a corda, robustamente presa ao flanco da grande Douvre, e subiu por aquela sombria torre do mar.
Gilliatt, apesar de ter as mãos arranhadas, chegou rapidamente à plataforma.
Os últimos clarões do poente iam-se apagando. Fazia noite no mar.
O alto da Douvre conservava alguma claridade.
Gilliatt aproveitou o resto da claridade para forrar a corda. Aplicou no cotovelo que ela fazia no rochedo uma ligadura de muitos pedaços de vela, fortemente atada em cada pedaço. Era pouco mais ou menos o forro que costumam por nos joelhos as atrizes para as agonias e súplicas do 5. ato.
Terminado o forro, Gilliatt levantou-se.
Desde alguns instantes, enquanto esteve forrando a corda, ouvia ele confusamente no ar um estremecimento singular.
Assemelhava-se, no silêncio da noite, ao rumor que fizesse o bater das asas de um morcego.
Gilliatt levantou os olhos.
Um grande círculo negro volteava-lhe por cima da cabeça no céu profundo e alvo do crepúsculo.
Costuma-se ver, nos velhos quadros, círculos iguais sobre a cabe- ça dos santos. A diferença é que são de ouro em fundo sombrio; este era tenebroso em fundo claro. Nada mais estranho. Dissera-se a auréola noturna da grande Douvre.
O círculo abaixava-se e levantava-se; estreitava-se e alargava-se.
Eram gaivotas, goelanos, corvos, cotovias, uma nuvem de pássaros do mar, espantados.
É provável que a grande Douvre fosse a hospedaria deles, e que eles fossem buscar ai o repouso. Gilliatt tinha-lhes tomado um quarto. Assustou-os o inesperado inquilino.
Nunca tinham visto esse homem ali.
Durou algum tempo aquele voar assustado.
Os pássaros pareciam esperar que Gilliatt se fosse embora.
Gilliatt, vagamente pensativo, acompanhava-os com os olhos.
O turbilhão volante acabou por tomar uma resolução, o círculo desfez-se em espiral, e a nuvem de pássaros foi cair do outro lado do escolho, no rochedo Homem.
Aí pareceram consultar e deliberar. Gilliatt, estendendo-se no seu buraco de granito, e pondo debaixo da cabeça uma pedra como travesseiro, ouviu por muito tempo a conversa dos pássaros, que guinchavam cada um por sua vez.
Depois calaram-se, e tudo dormiu, os pássaros em uma rocha e Gilliatt em outra.

"IMPORTUNAE QUE VOLUCRES"[editar]

Gilliatt dormiu bem. Mas sentiu frio, e por isso acordou várias vezes.
Tinha naturalmente os pés colocados no fundo do buraco, e a cabeça à borda. Não teve o cuidado de tirar daquele leito uma porção de seixos agudos que não lhe davam melhor sono.
De quando em quando entreabria os olhos.
Ouvia em certos instantes detonações profundas. Era o mar que enchia e entrava nas cavas do escolho com um ruído de canhão.
Tudo ali em roda apresentava o extraordinário da visão; Gilliatt tinha a quimera à roda de si. O meio espanto da noite contribuía para que ele se visse mergulhado no impossível. Gilliatt dizia consigo: Estou sonhando.
Depois tornava a dormir e, sonhando então, achava-se na casa dele, na de Lethierry, em Saint-Sampson; ouvia cantar Déruchette; estava no real. Enquanto dormia acreditava estar acordado e viver; quando acordava, pensava dormir.
Com efeito, era um sonho aquilo.
Lá pelo meio da noite, ouviu-se um vasto rumor no céu. Gilliatt teve confusamente consciência disso através do sono. Era provável que fosse o vento.
De uma vez que ele acordou, com um estremecimento de frio, abriu as pálpebras mais do que até então. Havia largas nuvens no zênite; a lua fugia e uma grande estrela ia atrás dela.
Gilliatt tinha o espirito cheio da difusão dos sonhos, e esse crescimento do sonho complicava as medonhas paisagens da noite.
De madrugada estava gelado e dormia profundamente.
A aurora tirou-o daquele sono talvez perigoso. A alcova de Gilliatt estava em frente ao sol nascente.
Gilliatt bocejou, espreguiçou-se e levantou-se do buraco.
Dormira tão bem que não compreendeu nada.
A pouco e pouco foi-lhe voltando o sentimento da realidade, e ele exclamou: Almocemos!
O tempo estava calmo, o céu estava frio e sereno, não havia nuvens, a vassoura da noite limpara o horizonte, o sol levantava-se bem. Era um segundo dia bonito que começava. Gilliatt sentiu-se alegre.
Tirou a japona, envolveu-a na pele de carneiro, atou tudo e meteu o embrulho no fundo do buraco ao abrigo de alguma chuva eventual.
Depois fez a cama, isto é, pós fora os seixos agudos.
Feita a cama, deixou-se rolar ao longo da corda sobre o tombadilho da Durande, e correu para o nicho onde pusera o cesto de provisões.
Não achou o cesto; como estava muito à beira, o vento da noite atirou-o ao mar.
Isto anunciava uma intenção de luta.
Era preciso que houvesse no vento uma certa vontade para ir buscar o cesto.
Era um começo de hostilidades. Gilliatt compreendeu isso. É difícil, quando se vive em familiaridade com o mar, não ver no vento e nas rochas criaturas e personagens.
Só restava a Gilliatt, além do biscoito e da farinha de centeio, o recurso das conchas com que se alimentou o náufrago morto de fome no rochedo Homem.
A pesca era impossível. O peixe, inimigo dos choques, evita os escolhos; as redes perdem o seu tempo nos recifes; as pontas da rocha só servem para rasgar as redes.
Gilliatt almoçou alguns mariscos que arrancou da pedra com dificuldade, escapando-se-lhe de quebrar a faca; feito este guapo lanche, ouviu um estranho tumulto no mar. Olhou.
Era o bando de goelanos e gaivotas que caía sobre uma das rochas baixas, batendo as asas, empurrando-se, gritando. Formigavam no mesmo ponto. Aquela horda de bicos e unhas saqueava alguma coisa.
Essa coisa era o cesto de Gilliatt.
O cesto, lançado sobre um banco pelo vento, rasgou-se. Os pássaros correram logo. Levaram no bico toda a espécie de pedaços de comida. Gilliatt reconheceu de longe a sua carne fumada e o seu stockfish.
Era a vez de entrarem também em luta os pássaros. Faziam represálias. Gilliatt tomara-lhes a casa; eles tomavam-lhe a comida.

O ESCOLHO E A MANEIRA DE SE SER VIR DELE[editar]

Passou-se uma semana.
Embora fosse a estação das chuvas, não chovia, o que alegrava Gilliatt.
Mas o que ele empreendia estava acima da força humana, em aparência ao menos, O sucesso era de tal modo inverossímil que a tentativa parecia louca.
As operações encaradas de perto mostram os seus empecilhos e perigos. Basta começar para ver como é difícil concluir. Todo come ço resiste. O primeiro passo que se dá é um revelador inexorável.
A dificuldade que se toca fere como um espinho.
Gilliatt teve logo de contar com o obstáculo.
Para salvar a máquina da Durande, para tentar com alguma probabilidade um tal salvamento naquele lugar e naquela estação, parecia que seria necessário uma grande porção de homens. Gilliatt era só; precisava ter uma ferramenta completa de carpinteiro e maquinista, e Gilliatt apenas tinha uma serra, um machado, uma faca e um martelo; precisava ter uma boa oficina e um bom telheiro; Gilliatt não tinha nada disso; precisava ter provisões e víveres.
Gilliatt não tinha pão.
Alguém que, durante essa primeira semana, visse Gilliatt trabalhando no escolho, não saberia o que pretendia ele. Parecia não pensar nem na Durande nem nas Douvres. Estava ocupado com o que havia nos bancos; parecia absorto no salvamento dos pequenos destroços do naufrágio. Aproveitava as marés baixas, para limpar os recifes de tudo o que o naufrágio lhes tinha dado. Andou de rocha em rocha apanhando o que o mar aí depusera. pedaços de velame, pedaços de corda, pedaços de ferro, tábuas rasgadas, vergas destruídas, aqui um barrete, ali uma corrente, além uma roldana.
Ao mesmo tempo estudava todas as anfractuosidade do escolho.
Nenhum deles era habitável, com grande decepção de Gilliatt, que sentia frio de noite no buraco arranjado na grande Douvre, e desejaria achar melhor pousada.
Duas dessas anfractuosidade eram assaz espaçosas, posto que o chão de rocha natural fosse quase geralmente oblíquo e desigual, podia-se andar ali de pé. A chuva e o vento entravam ali a gosto, mas as altas marés não lhes chegavam. Eram vizinhas da pequena Douvre e fáceis de trepar a qualquer hora. Gilliatt decidiu que uma seria um depósito e a outra uma forja.
Com todos os cabos que pode recolher fez pacotes dos restos do naufrágio, ligando os destroços em molhos e as lonas em embrulhos.
Apertou tudo cuidadosamente. À proporção que a maré enchente batia nesses pacotes, Gilliatt arrastava-os através dos recifes até o depósito. Achou na cava de uma rocha um cabo de guindar, por meio do qual podia levantar mesmo os grossos pedaços de madeira. Do mesmo modo arrancou ao mar os numerosos pedaços de corrente esparsos nos escolhos.
Gilliatt era tenaz e admirável nesse trabalho. Fazia quanto queria.
Nada resiste a um encarniçamento de formiga.
No fim da semana, Gilliatt tinha nesse depósito de granito todo o arsenal de objetos destruídos pela tempestade. Havia o lugar dos cabos e o das escotas; as bolinas não estavam misturadas com as driças; as bigotas estavam arranjadas conforme a quantidade de buracos que tinham; as roldanas estavam classificadas separadamente; as cavilhas do papa-figo, as machadinhas, os cabos e mil outros objetos ocupavam, uma vez que não estivessem completamente desfigurados pela avaria, compartimentos diferentes; tudo quanto era de carpintaria estava à parte; de cada vez que era possível, as tábuas dos fragmentos do casco eram ajustadas umas às outras; não havia confusão de viradores, nem amuradas com precintas; um dos recantos era reservado à tabuiga da Durande que apoiava os ovéns do cesto de gávea e as gabundonas. Cada destroço tinha o seu lugar. Todo o naufrágio estava ali classificado e com o rótulo competente. Era uma coisa semelhante ao caos armazenado.
Uma vela de estais, presa por pedras, cobria, aliás rota, o que a chuva podia estragar.
Por mais quebrada que estivesse a proa da Durande, Gilliatt conseguiu salvar os dois cepos da âncora, com as três rodas de polé.
Achou o gurupés, e teve muito trabalho em desvencilhá-lo das cordas; estavam seguras, e foram postas em tempo seco. Gilliatt, porém, tirou-as porque o maçame podia ser-lhe útil.
Recolheu igualmente a pequena âncora que ficara pendurada em uma cava do banco onde o mar a encalhara.
Achou no que fora camarote de Tangrouilie um pedaço de giz e guardou-o cuidadosamente. Podia ter necessidade de fazer algumas marcas.
Uma selha de couro para incêndio e algumas tinas em bom estado completavam a ferramenta de trabalho.
O resto de carvão que havia na Durande foi levado para o armazém.
Em oito dias o salvamento dos destroços estava acabado; o escolho estava limpo e a Durande aliviada. No casco só restava a máquina.
O pedaço da amurada que ainda aderia ao resto não fatigava o casco. Pendia sem peso, pois que era sustentada embaixo por uma saliência de pedra; demais era largo e vasto, e pesado, e não podia ficar no armazém. Parecia uma jangada aquele pedaço de madeira. Gilliatt deixou-o onde estava.
Gilliatt, profundamente pensativo neste labor, procurou em vão a boneca da Durande. Era uma dessas coisas que a onda tinha levado para sempre, Gilliatt para achá-la daria os seus dois braços, se não precisasse tanto deles.
Na entrada do armazém, e fora, viam-se dois montes de rebotalho, um de ferro, para fundir, outro de pau para queimar.
Gilliatt trabalhava desde a madrugada. Fora do tempo do sono, não descansava nunca.
Os corvos-marinhos, voando aqui e ali, contemplavam-no a trabalhar.

A FORJA[editar]

Feito o depósito, Gilliatt fez a forja.
A segunda anfractuosidade escolhida por Gilliatt oferecia um reflágio, espécie de garganta, assaz profunda. Gilliatt teve a principio a idéia de dormir aí, mas o vento, renovando-se constantemente, era tão contínuo e teimoso nesse corredor que ele teve de renunciar à morada. O vento deu-lhe idéia de fazer a forja. Se a caverna não podia ser quarto, podia ser oficina. Utilizar o obstá- culo é um grande passo para o triunfo. O vento era o inimigo de Gilliatt, Gilliatt resolveu fazer dele o seu lacaio.
O que se diz de certos homens: próprios para tudo, bons para nada, pode-se dizer das cavas de rochedo. Não dão o que oferecem.
Tal cava de rochedo é uma banheira, mas deixa escapar a água; outra é um leito de musgo, porém molhado; outra é uma cadeira, mas de pedra.
A forja que Gilliatt queria estabelecer estava esboçada pela natureza; mas domar esse esboço, até torná-lo apropriado, e transformar a caverna em laboratório, nada mais áspero e difícil. Com três ou quatro rochas largas, abertas como funil, e abrindo para uma fenda estreita, o acaso fizera ali um vasto fole informe, muito melhor que os antigos foles de 14 pés de comprimento, que davam, por cada vez, 98 000 polegadas de ar. Aquilo era outra coisa.
As proporções de operação não se calculam.
O excesso de força era incomodo; era difícil regularizar aquele sopro.
A caverna tinha dois inconvenientes; o ar e a água atravessavam de um lado para o outro.
Não era a onda, era um pequeno esgoto perpétuo, mais semelhante a uma destilação que a uma torrente.
A espuma, continuamente lançada pela ressaca sobre o escolho, algumas vezes a mais de 100 pés no ar, acabara por encher de água do mar uma bacia natural situada nas altas rochas que dominavam a escavação. A abundância de água nesse reservatório fazia, um pouco atrás, no declive, uma pequena queda-dágua, de cerca de 1 polegada, caindo de 4 a 5 toesas. Ajuntava-se a isso um contingente de chuva. De tempos a tempos uma nuvem de passagem derramava algumas gotas naquele reservatório inesgotável e sempre transbordando.
A água era salobra, não potável, mas límpida, embora salgada. A queda escorria graciosamente nas extremidades dos filamentos verdes como nas pontas de uma cabeleira.
Gilliatt pensou em servir-se dessa água para disciplinar o vento.
Por meio de um funil de dois ou três tubos de tábuas, arranjados à pressa, sendo um de torneira, e de uma larga tina disposta como reservatório inferior, sem contrapeso, Gilliatt, que era, como dissemos, um pouco ferreiro e um pouco mecânico, conseguiu compor, para substituir o fole da forja, que não tinha, um aparelho menos perfeito do que aquele que se chama hoje cagniardelle, porém menos rudimentar do que o que se chamava outrora nos Pirineus uma trompa.
Tinha farinha de centeio, fez cola, tinha corda branca, fez estopa.
Com essa estopa e essa cola e alguns pedacinhos de pau, tapou ele todas as fendas do rochedo, deixando apenas um bico, feito com um pedaço de espoleta que achou na Durande e que servira à pedra de sinal. O bico ficava horizontalmente dirigido contra uma larga pedra onde Gilliatt pós a lareira da forja. Gilliatt fez uma rolha para tapar o bico quando fosse preciso.
Depois disto, Gilliatt ajuntou carvão e lenha na lareira, arranjou a pedra de ferir fogo no próprio rochedo, fez cair a faísca em um punhado de estopa, com a estopa acesa acendeu a lenha e o carvão.
Experimentou o fole. Era admirável.
Gilliatt sentiu essa altivez de ciclope, senhor do ar, da água e do fogo.
Senhor do ar, deu ao vento uma espécie de pulmão, criou no granito um aparelho respiratório, e fez um fole; senhor da água, da pequena cascata fez um tubo; senhor do fogo, tirou a flama daquele rochedo inundado.
Estando a escavação quase toda aberta, o fumo saía livremente, enegrecendo o rochedo. Aquele rochedo, que parecia feito para a espuma, conheceu a ferrugem.
Gilliatt tomou por bigorna um seixo multicor oferecendo a forma e as dimensões que se quisesse. Era uma perigosa base para bater, e podia acontecer que rebentasse. Uma das extremidades do seixo, arredondada, e acabando em ponta, podia a rigor figurar de bigorna conóide, mas faltava a bigorna piramidal. Era a antiga bigorna de pedra dos trogloditas. A superfície polida pela água tinha a rigidez do aço.
Gilliatt lastimava não ter trazido a sua bigorna. Como ignorava que a Durande estivesse partida pelo meio, esperava achar toda a ferramenta de carpintaria, ordinariamente colocada no porão da proa. Ora, era exatamente a proa que faltava.
As duas escavações, conquistadas no escolho por Gilliatt, eram vizinhas uma da outra. O depósito e a forja comunicavam-se.
Todas as noites, acabado o trabalho, Gilliatt ceava um pedaço de biscoito molhado em água, um ursozinho da água, ou algumas castanhas do mar, caça única daquele rochedo, e, tiritando como a corda, trepava para ir dormir na grande Douvre.
A espécie de abstração em que Gilliatt vivia aumentava-se pela materialidade das suas ocupações. A realidade era em alta dose. O trabalho corporal com os seus pormenores inumeráveis não diminuía a estupefação que sentia de achar-se ali, e de fazer o que estava fazendo. Ordinariamente o cansaço material é um fio que puxa para terra; mas a própria singularidade do trabalho empreendido por Gilliatt mantinha-o em um trabalho de região ideal e crepuscular.
Parecia-lhe às vezes estar dando marteladas nas nuvens.
Outras vezes parecia-lhe que as suas ferramentas eram armas. Tinha o singular sentimento de um ataque latente que ele repelia ou prevenia. Tecer maçame, desfiar uma vela, escorar duas pranchas, era fabricar máquinas de guerra. Os mil cuidados minuciosos deste salvamento acabavam por assemelhar-se a precau- ções contra as agressões inteligentes, mui pouco dissimuladas e muito transparentes. Gilliatt não sabia as palavras que exprimem as idéias, mas percebia as idéias. Sentia-se cada vez menos operário e cada vez mais pelejador.
Entrou ali como um domador. Compreendia isso quase. Estranha ampliação para o seu espírito.
Além disso, tinha à roda de si, a perder de vista, o imenso sonho do trabalho perdido. Nada mais perturbador do que ver manobrar a difusão das forças no insondável e no ilimitado. Procuram-se os fins. O espaço sempre em movimento, a água infatigável, as nuvens que parecem afadigadas, o vasto esforço obscuro, toda essa convulsão é um problema. Que faz este perpétuo tremor? Que constróem estes ventos? Que levantam estes abalos? Em que se ocupam os choques, os soluços, os gritos? Que faz todo esse tumulto? O fluxo e refluxo dessas questões é eternoromo a maré.
Gilliatt sabia o que fazia; mas a agitação da extensão era um enigma que o aturdia confusamente. Sem querer, mecanicamente, imperiosamente, por pressão e penetração, sem outro resultado mais que uma fascinação inconsciente e quase feroz, Gilliatt pensativo ajuntava, ao seu trabalho, o prodigioso trabalho inútil do mar. Na verdade, como não impressionar-se e sondar, ali à vista, o mistério da tremenda vaga laboriosa? Como não meditar; na propor ção da meditação que se tem, a oscilação da onda, a impetuosidade da espuma, a usura imperceptível do rochedo, o esfalfâmento insensato dos quatro ventos? Que terror para o pensamento não é o recomeçar perpétuo, o oceano poço, as nuvens Danaides, todo esse trabalho para coisa nenhuma!
Para coisa nenhuma, não; só o Ignoto o sabe!

DESCOBERTA[editar]

Um escolho próximo da costa é algumas vezes visitado pelos homens; um escolho em mar largo, nunca. Que se iria buscar aí? Não é uma ilha. Não se pode contar com vitualhas, nem árvores com fruta, nem pastos, nem animais, nem fontes de água potável. É uma nudeza numa solidão. É uma rocha, com declives fora da água e pontas debaixo da água. Nada se encontra aí - a não ser o naufrágio.
Essa espécie de escolhos, que a velha língua marinha chama os Isolados, são, como dissemos, lugares estranhos. Só há o mar. O mar faz ali o que lhe parece. Nenhuma aparição terrestre o perturba.
O homem assusta o mar; o mar desconfia dele; esconde-lhe o que é e o que faz. No escolho está seguro; lá não vai o homem.
Não será perturbado o monólogo da onda. A água trabalha no escolho, repara-lhe as avarias, aguça-lhe as pontas, eriça-o, conserta- o. Empreende a abertura do rochedo, desconjunta a pedra mole, desnuda a pedra dura, tira a carne, deixa o osso, remexe, fura, esburaca, canaliza, põe os intestinos em comunicação, enche o escolho de células, imita a esponja em grande, cava o interior, esculpe o exterior.
Nessa montanha, que lhe pertence, o mar faz para si antros, santuários, palácios; tem uma vegetação hedionda e esplendida; comp õe-se de ervas flutuantes que mordem e monstros que se enraízamente na sombra da água essa horrível magnificência. No escolho isolado, ninguém o espreita, nem o incomoda; o mar desenvolve aí a gosto o seu lado misterioso e inacessível ao homem.
Depõe aí as secreções vivas e horríveis. Acha-se ali todo o ignorado do mar.
Os promontórios, os cabos, os cachopos, os arrecifes, são verdadeiras construções. A formação geológica é pouca coisa comparada à formação oceânica. Os escolhos, casas de vaga, pirâmides da espuma, pertencem à arte misteriosa que o autor deste livro chamou algures a Arte da Natureza, e tem uma espécie de estilo enorme. Ali o fortuito parece intencional. Essas construções são multiformes. Tem o embaraçado do pólipo, a sublimidade da catedral, a extravagância do pagode, a amplidão da montanha, a delicadeza da jóia, o horror do sepulcro. Tem alvéolos como uma colmeia, patíbulos como um pátio de bichos, túneis como um combro de toupeiras, cárceres como uma bastilha, emboscadas como um campo. Tem portas, mas tapadas colunas, mas truncadas, torres, mas inclinadas, pontes, mas despedaçadas. Os seus compartimentos são inextricáveis; isto é só para os pássaros; aquilo é só para os peixes. Não se passa. A figura arquitetural transforma-se, desconcerta-se, afirma e nega a estática, quebra-se, detém-se, começa em arquivolta, acaba em arquitrave; seixo sobre seixo.
Encélado é o pedreiro. Uma dinâmica extraordinária ostenta ali os seus problemas resolvidos. Terríveis abóbadas pendentes ameaçam cair, mas não caem. Ninguém sabe como se seguram estes edifícios vertiginosos. Declives, lacunas, suspensões insensatas; desconhecesse a lei desse babelismo. O Ignoto, imenso arquiteto, nada calcula e tudo consegue; os rochedos, construídos confusamente, compõem um monumento monstro; nenhuma lógica, um vasto equilíbrio. É mais do que a solidez, é a eternidade. É a desordem ao mesmo tempo. O tumulto da vaga parece ter passado no granito. Um escolho é a tempestade petrificada. Nada mais impassível para o espírito do que essa medonha arquitetura, sempre esboroante, sempre de pé. Tudo ali se ajuda e se contraria. É um combate de linhas donde resulta um edifício. Reconhece-se a colaboração dessas duas querelas, o oceano e o furacão.
Arquitetura que tem terríveis obras-primas. O escolho Douvres era uma delas.
Esse foi construído e aperfeiçoado pelo mar com um amor formidável. Lambia-o a água rabugenta. Era hediondo, pérfido, obscuro; cheio de cavas.
Tinha um sistema de veias que eram fendas submarinas, ramificando- se em profundezas insondáveis. Muitos orifícios desse rasg ão inextricável ficavam a seco nas vazantes.
Podia-se entrar, então, com risco.
Gilliatt, pela necessidade do trabalho, teve de explorar todas essas grotas. Nenhuma delas deixava de ser terrível. Em todas as cavas, reproduzia-se, com as dimensões exageradas do oceano, aquele aspecto de matadouro e açougue estranhamente imitado do centro das Douvres. Quem não viu as escavações desse gênero, na parede do eterno granito, esses horríveis frescos da natureza, não pode fazer uma idéia do que é.
Eram dissimuladas essas grotas ferozes, era inconveniente demorar- se nelas. A maré enchente invadia-as até o teto.
Abundavam os mariscos e os frutos do mar.
Estavam cheias de seixos rolados e amontoados no fundo. Muitos pesavam mais de 1 tonelada. Eram de todas as proporções e de todas as cores, a maior parte pareciam ensangüentados, alguns, cobertos de filamentos peludos e viscosos, pareciam grossas toupeiras verdes focinhando no rochedo.
Muitas dessas cavas terminavam como um forno. Outras, artérias de uma circulação misteriosa, prolongavam-se no rochedo em fendas tortuosas e negras. Eram as ruas do golfão. Essas fendas estreitavam-se constantemente de modo a não deixar passar um homem. Um brandão aceso deixava ver obscuridades gotejantes.
Gilliatt aventurou-se uma vez numa dessas fendas. A hora da maré prestava-se a isso. Era um belo dia de calma e de sol. Não havia que temer nenhum acidente do mar que pudesse complicar o perigo.
Duas necessidades, como dissemos, levavam Gilliatt a essas explorações: procurar os destroços úteis e achar lagostas para comer.
Já lhe faltavam conchas nas Douvres.
A fenda era estreita e a passagem quase impossível. Gilliatt via claridade do outro lado. Fez esforço, espremeu-se como pode e entrou até onde lhe foi possível.
Achou-se, sem pensar, no interior do rochedo da ponta do qual Clubin atirara-se da Durande. Gilliatt estava debaixo dessa ponta.
O rochedo abrupto exteriormente, e inacessível, era vazio no interior.
Tinha galerias, poços e quartos como o túmulo de um rei do Egito. Aquele dédalo era dos mais complicados, trabalho da água, infatigável solapa do mar. As divisões daquele subterrâneo submarino comunicavam provavelmente com a água imensa do exterior por mais de uma saída, umas abertas ao nível da água, outras profundos funis invisíveis. Perto dali, Gilliatt nem o sabia, foi que Clubin. atirou-se ao mar.
Gilliatt, naquela fisga de crocodilos, onde na verdade não havia medo de achá-los, serpenteava, arrastava-se, esbarrava, curvava-se, levantava-se, perdia o pé, encontrava o chão, avançava penosamente. A pouco e pouco alargou-se o bocal, apareceu uma meia luz, e de repente Gilliatt entrou em uma caverna extraordinária.

O INTERIOR DE UM EDIFÍCIO DEBAIXO DO MAR[editar]

A luz vinha a propósito.
Um passo mais, Gilliatt estaria em uma água talvez sem fundo. As águas das cavas tem um tal resfriamento e uma paralisia tão súbita, que lá ficam muitas vezes os mais fortes nadadores.
Demais, não havia meio de subir e agarrar às rochas entre as quais ficaria preso. Gilliatt parou.
A grota, donde ele saíra, ia ter a mesma saliência estreita e viscosa, espécie de vulcão na muralha a pique. Gilliatt encostou-se à muralha e olhou.
Estava numa grande cava. Tinha acima de si alguma coisa semelhante ao interior de um crânio dissecado. E parecia dissecado de fresco. As nervuras gotejantes das estrias do rochedo imitavam na abóbada as fibras dentadas de uma bola. Por teto, a pedra; por assoalho, o mar; as ondas apertadas entre as quatro paredes da grota pareciam vastos ladrilhos flutuantes. A grota estava fechada por todos os lados. Nenhuma trapeira, nenhum respiradouro, nenhuma fenda na parede. A luz vinha de baixo, através da água.
Era um resplendor tenebroso.
Gilliatt, cujas pupilas se dilataram durante o trajeto obscuro do corredor, distinguia tudo naquele crepúsculo.
Conhecia, por lá ter ido mais de uma vez, as cavas de Pleinmont em Jersey, o Croux-Maillé em Guernesey, as Boutiques ein Jerk, assim chamadas por causa dos contrabandistas que ali depunham as suas mercadorias; nenhum desses maravilhosos antros era compar ável ao quarto subterrâneo e submarino onde penetrara.
Gilliatt via diante dele, debaixo da vaga, uma espécie de arcada afogada. Essa arcada, ogiva natural, trabalhada pela onda, era brilhante entre as suas duas colunas profundas e negras. Era por aquele pórtico submergido que entrava na caverna a claridade do alto-mar. Luz estranha que vinha por um buraco na água.
Essa claridade esvazava-se debaixo da água como um largo leque e repercutia no rochedo. Os raios retilíneos, cortados em longas fitas negras, sobre a opacidade do fundo, clareando ou escurecendo de uma anfractuosidade a outra, imitavam interposições de lâminas de vidro. Havia luz, mas luz desconhecida. Já não era a nossa luz. Podia-se crer que se estava em outro planeta. A luz era um enigma; dissera-se o verde clarão da pupila de uma esfinge. A cava figurava o interior de uma cabeça enorme; a esplendida abó- bada era o crânio, e a arcada era a boca; não havia buracos dos olhos. A boca engolindo e vomitando o fluxo e o refluxo, aberta em pleno meio-dia exterior, bebia a luz e vomitava o amargor.
Certos entes, inteligentes e maus, assemelham-se a isto. O raio do sol, atravessando aquele pórtico obstruído de uma espessura vidrenta da água do mar, tornava-se verde como um raio de Aldebarã. A água, cheia dessa luz molhada, parecia esmeralda em fusão. Um reflexo de água-marinha de incrível delicadeza tingia brandamente toda a caverna.
A abóbada, com os seus lóbulos quase cerebrais e as suas ramifica ções semelhantes a nervos, tinha um fraco reflexo de crisópraso.
O chamalote da onda, reverberado no teto, decompunha-se e recompunha-se constantemente, alargando e estreitando as suas rodas de ouro com um movimento de dança misteriosa. Saia dali uma impressão espectral; o espírito podia perguntar que presa ou que espera era aquela que fazia tão alegremente aquele magnífico filete de fogo vivo. Nos relevos da abóbada e nas asperidades da rocha pendiam longas e finas vegetações banhando provavelmente as raízes através do granito em alguma toalha de água superior, e desbagando, nas pontas, uma gota de água, uma pérola. Essas pérolas caíam no golfão com um pequeno rumor. Todo esse conjunto era inexprimível. Não se podia imaginar nada mais lindo nem mais lúgubre. Era ali o palácio da Morte, alegre.

O QUE SE VÊ E O QUE SE ENTREVÊ[editar]

Sombra que deslumbra, tal era aquele sítio surpreendente.
A palpitação do mar fazia-se sentir naquela cava. A oscilação externa inchava e deprimia a toalha de água interior com a regularidade de uma respiração. Cuidava-se ver uma alma misteriosa naquele grande diafragma verde elevando-se e abaixando-se em silêncio.
A água era magicamente límpida, e Gilliatt distinguia, em profundezas diversas, estações imersas, superfícies de rochas de um verde carregado a mais e mais. Certas cavas obscuras eram provavelmente insondáveis.
Dos dois lados do pórtico submarino esboços de címbrios abatidos, cheios de trevas, indicavam pequenas cavas laterais, pontos inferiores da caverna central, acessíveis talvez na época das marés extremamente baixas.
Essas anfractuosidade tinham tetos em plano inclinado, em ângulos mais ou menos abertos. Pequenas plagas, descobertas pelas escavações do mar, mergulhavam-se e perdiam-se debaixo dessas obliqüidade.
Longas ervas espessas, de mais de 1 toesa, ondulavam debaixo da água como um balancear de cabelos ao vento. Entreviam-se florestas de sargaço.
Fora da água, e dentro da água, toda a muralha da cava, de alto a baixo, desde a abóbada até ao desaparecimento no invisível, era tapetada dessas prodigiosas florescências do oceano, tão raramente visíveis ao olho humano, que os velhos navegadores espanh óis chamaram praderias del mar. Espesso musgo, com todos os matizes da azeitona, escondia e ampliava os granitos. De todos os declives rompiam os delgados loros lavrados do sargaço com que os pescadores fazem barômetros. O hálito obscuro da caverna agitava essas correias luzentes.
Debaixo dessas vegetações escondiam-se e mostravam-se ao mesmo tempo as mais raras jóias do escrínio do oceano, os marfins, as mitras, os elmos, as púrpuras, os búzios, os estrutiolários, as conchas univalves. As campanas de lapas, semelhantes a barracas microscópicas, aderiam ao rochedo e grupavam-se em aldeias em cujas ruas rolavam as multivalves, esses escarabeus da vaga. Não podendo os seixos de mariscos entrar facilmente nessa grota, aí se refugiavam as conchas. As conchas são grandes fidalgos que, bordados e paramentados, evitam o rude e incivil contato do populacho das pedras. A fúlgida reunião das conchas fazia debaixo da água, em certos lugares, inefáveis irradiações através das quais entrevia-se um grupo de azuis e vermelhos, e todos os reflexos da água.
Na parede da caverna, um pouco acima da linha de flutuação da maré, uma planta magnífica e singular prendia-se como um debrum à tapeçaria do sargaço, continuava-o e terminava-o. Essa planta, fibrosa, vasta, inextrincavelmente dobrada, e quase negra, oferecia ao olhar largas toalhas embaraçadas e obscuras, ornadas em toda a extensão de numerosas florinhas cor de lápis-lazúli. Na água parecia que essas fores acendiam-se, e cuidava-se ver brasas azuis. Fora da água eram flores, dentro da água eram safiras, de modo que a onda, subindo e inundando o esvazamento da grota, revestia essas plantas e cobria o rochedo de carbúnculos.
A cada enchimento da vaga túmida como um pulmão, essas flores banhadas resplandeciam, a cada abaixamento apagavam-se; melanc ólica semelhança com o destino. Era a aspiração, que é a vida; era a expiração, que é a morte.
Uma das maravilhas daquela caverna era a rocha. Essa rocha, ora muralha, ora címbrio, ora pilastra, era em alguns lugares bruta e nua, em outros trabalhada pelos mais delicados lavores naturais.
Um não sei que, aliás de espírito, misturava-se à estupidez maciça da pedra. Que artista não é o abismo! Tal pedaço de parede, cortado em quadro, e cheio de altos e baixos representando atitudes, figurava um vago baixo relevo; ante essa escultura, em que havia um tanto de nuvem, podia-se sonhar com Prometeu esbo- çando para Miguel Angelo. Parecia que com alguns toques de cinzel o gênio poderia acabar o que o gigante começara. Em outros lugares a rocha era embutida como um broquel sarraceno ou traçada como uma florentina. Tinha almofadas que pareciam bronze de Corinto, arabescos como uma porta de mesquita; como uma pedra rúnica tinha sinais de unha obscuros e improváveis. Plantas com ramos torcidos em forma de verruma, cruzando-se no dourado do musgo, cobriam-na de filigranas. Era um antro e um alhambra. Era o encontro da selvajaria e da ourivesaria na augusta e disforme arquitetura do acaso.
O magnífico bolor do mar aveludava os ângulos de granito. As pedras estavam adornadas de lianas grande floras, tão destras que não caíam, e pareciam inteligentes tão bem adornavam elas.
Parietárias com estranhos ramalhetes mostravam os seus tufos a propósito e com gesto. Havia aí a casquilhice possível. numa caverna.
A surpreendente luz edênica que vinha de baixo da água, a um tempo penumbra marinha e radiação paradisíaca, esfumava todos os lineamentos em uma espécie de difusão visionária. Cada vaga era um prisma. O contorno das coisas debaixo desses ondeamentos iriados tinha o cromatismo das lentes de óptica demasiado convexas; espectros solares flutuavam debaixo da água.
Acredítar-se-ia ver torcer-se nessa diafaneidade auroreal pedaços de arco-íris afogados. Em outros lugares havia na água um certo luar. Todos os esplendores pareciam amalgamados ali para fazer um que de cego e de noturno. Nada mais impossível e enigmático do que aquele fasto naquela cava. O que dominava ali era o encanto. A vegetação fantástica e a estratificação informe acordavam-se e compunham uma harmonia. Era de belo efeito aquele consórcio de coisas medonhas. Penduravam-se as ramificações parecendo apenas tocar de leve. Era profundo o afago da rocha selvagem e da flor ruiva.
Pilares maciços tinham, por capitéis e por ligaduras, frágeis e trêmulas grinaldas; parecia ver-se dedos de fada fazendo cócegas nas patas de um hipopótamo, e o rochedo sustentava a planta e a planta abraçava o rochedo com uma graça monstruosa.
Resultava dessa deformidade misteriosamente ajustada uma beleza soberana. As obras da natureza, não menos supremas que as obras do gênio, contem o absoluto e impõem-se. O inesperado delas faz-se obedecer imperiosamente pelo espírito; sente-se uma premeditação que fica fora do homem, e elas não são mais surpreendentes do que quando fazem subitamente sair o delicado do terrível.
Aquela grota estava, por assim dizer, e se tal expressão é admissível, sideralizada. Sentia-se ali o imprevisto do espanto. O que enchia aquela cripta era luz do apocalipse. Não havia certeza de que aquilo existisse. Tinha-se diante dos olhos uma realidade cheia de impossível. Olhava-se isto, tocava-se, presenciava-se; mas era difícil crer.
Era luz aquilo que jorrava daquela janela debaixo da água? Era água aquilo que tremia naquela bacia obscura? Aqueles címbrios e pórticos não eram nuvem celeste imitando uma caverna? Que pedra era aquela que se pisava? Aquele apoio não ia desconjuntar-se e tornar-se fumo? Que joalheria de conchas era aquela que se entrevia? Que distância havia dali à vida, à terra, aos homens? Que encanto era aquele misturado àquelas trevas? Comoção inaudita, quase sagrada, à qual misturava-se a doce inquietação das ervas no fundo da água.
Na extremidade da cava, que era oblonga, debaixo de uma arquivolta ciclópica singularmente correta, em um buraco quase indistinto, espécie de antro no antro, espécie de tabernáculo no santuário, atrás de uma toalha de luz verde, interposta como um véu de templo, descobria-se fora da água uma pedra de ângulos cortados em quadro com urna parecença de altar. A água circundava essa pedra. Parecia que uma deusa tinha descido dali. Era impossível deixar de pensar, debaixo daquela cripta, em cima daquele altar, em alguma nudeza celeste eternamente pensativa, que a entrada de um homem tinha feito fugir. Era difícil conceber aquela célula augusta sem uma visão dentro dela; a aparição, evocada pelo devaneio, recompunha-se por si; um porejar de casta luz sobre espáduas apenas entrevistas, uma fronte banhada de alvores, um oval de rosto olímpico, uns misteriosos seios arredondados, uns braços pudicos, uma coma esparsa em uma aurora, uns quadris inefáveis, modelados em luz pálida, no meio da sagrada bruma, umas formas de ninfa, um olhar de virgem, uma Venus saindo do mar, uma Eva saindo do caos; tal era o sonho que forçosamente assaltava a imaginação. Era inverossímil que não estivesse antes um fantasma naquele lugar. Uma mulher nua, com um astro em si, devia provavelmente ter ocupado aquele altar. Sobre aquele pedestal, donde emanava um êxtase inexprimível, imaginava-se uma alvura, viva e de pé. O espírito criava, no meio da adoração muda daquela caverna, uma Afrodite; uma Tétis, alguma Diana que pudesse amar, estátua do ideal formada de um raio e contemplando a sombra com meiguice. Foi ela quem, ao esquivar-se, deixou na caverna aquela claridade, espécie de perfume-luz saído daquele corpo-estrela. A fascinação daquele fantasma já não estava ali; já se não via a figura, feita para ser vista somente pelo invisível, mas sentia-se; recebia-se aquele estremecimento que é uma volúpia. A deusa estava ausente, mas a divindade estava presente.
A beleza do antro parecia feita para aquela presença. Era por causa dessa deidade, dessa fada dos nácares, dessa rainha das brisas, dessa graça nascida das vagas, era por causa dela, ao menos supunha-se isto, que o subterrâneo estava religiosamente murado, a fim de que nada perturbasse nunca, em derredor daquele divino fantasma, a obscuridade que é um respeito, o silêncio que é uma majestade.
Gilliatt, que era uma espécie de vidente da natureza, cismava, confusamente comovido.
De súbito, alguns palmos abaixo dele, na transparência encantadora daquela água, que eram pedras preciosas dissolvidas, Gilliatt viu alguma coisa inexprimível. Uma espécie de longo andrajo movia- se na oscilação das vagas. Esse andrajo não flutuava, vogava; tinha a forma de um cetro de truão com pontas; essas pontas tinham reflexos; parecia que uma poeira impossível de molhar-se cobria aquele todo. Era mais que horrível, era nojento. Tinha um que de quimérico; era um ente, a menos que não fosse uma aparência. Parecia dirigir-se para o obscuro da cava e mergulhava-se ali. As espessuras da água tornaram-se sombrias sobre aquela coisa que resvalou e desapareceu, sinistra.