Os Trabalhadores do Mar/Parte II/Livro II

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Segunda Parte- Livro Segundo-O TRABALHO

<Os Trabalhadores do Mar

<Autor:Victor Hugo

Tradução: Machado de Assis

OS RECURSOS DAQUELE QUE NÃO TEM RECURSOS[editar]

A cava não soltava facilmente quem lá ia. A entrada era pouco cômoda, a saída foi ainda pior. Gilliatt entretanto safou-se, mas não voltou lá. Nada encontrou do que procurava, e não tinha tempo para ser curioso.
Pós imediatamente a forja em atividade. Faltava ferramenta, Gilliatt fabricou-a.
Tinha por combustível os destroços, a água por motor, o vento por fole, uma pedra por bigorna, por arte o instinto, por força a vontade.
Gilliatt entrou ardentemente nesse trabalho sombrio.
O tempo mostrava-se complacente. Continuava belo, e o menos equinocial possível. Chegara o mês de março, mas tranqüilamente.
Os dias tornavam-se compridos. O azul do céu, a vasta doçura dos movimentos da extensão, a serenidade do meio-dia, pareciam excluir qualquer intenção má. Alegrava-se o mar debaixo do sol. Um afago prévio tempera as traições. A água marinha não é avara desses afagos. Com aquela mulher é preciso desconfiar do sorriso.
Havia pouco vento; a hidráulica soprava bem. O excesso do vento tolheria em vez de ajudar.
Gilliatt tinha uma serra; fabricou uma lima; com a serra atacou a madeira, com a lima, o metal; depois ajuntou as duas mãos do ferreiro, uma tenaz e uma pinça: a tenaz agarra, a pinça maneja; uma trabalha como a mão, a outra como o dedo. A ferramenta é um organismo. A pouco e pouco Gilliatt arranjava auxiliares, e construía as suas armaduras. Com um pedaço de ferro em folha fez uma antepara na forja.
Um dos seus primeiros cuidados foi a separação e a reparação das roldanas. Consertou as caixas e as rodas das polés. Cortou a esfoliação de todos os barrotes quebrados e aplainou as extremidades; como dissemos, tinha para as necessidades da carpintaria grande cópia de peças de madeira armazenadas, e aparelhadas, segundo as formas, as dimensões e as essências, o carvalho de um lado, o pinheiro de outro, as peças curvas, como as porcas, separadas das peças direitas, como as que ligam as escotilhas.
Era uma reserva de pontos de apoio e alavancas, de que podia precisar em um momento dado.
Quem quer construir um guindaste deve munir-se de traves e polés, mas não basta isso, é preciso corda. Gilliatt restaurou os cabos e as cordas. Estendeu as velas rasgadas, e conseguiu extrair excelente fio com que compôs uma sarja, e cerziu o cordoame. Mas essas costuras eram sujeitas a apodrecer, era preciso empregar as cordas e os cabos, Gilliatt apenas pode fazer o massame sem ter alcatrão.
Consertou as cordas, consertou as correntes.
Pode, graças à ponta lateral da bigorna, fazer anéis grosseiros, mas sólidos; com esses anéis, prendeu uns aos outros os pedaços de correntes quebrados, e fez correntes compridas.
Forjar só e sem auxílio é mais do que incomodo. Contudo, Gilliatt conseguiu faze-lo. É certo que só teve de trabalhar na forja peças de pequeno volume; podia meneá-las com uma mão e martelar com a outra.
Cortou em pedaços as barras de ferro redondas do lugar do comando; forjou nas duas extremidades de cada pedaço, de um lado uma ponta, do outro uma larga cabeça chata, e desse modo fez grandes pregos de palmo e meio. Esses pregos, muito usados em trabalhos marítimos, são úteis para fixar os paus nas pedras.
Por que motivo Gilliatt tomava todo este trabalho? Teve de refazer muitas vezes o fio da machadinha e os dentes da serra. Para a serra fabricou uma lima triangular.
Servia-se também do cabrestante da Durande. Quebrou-se a fateixa da corrente. Gilliatt fez outra.
Com ajuda da pinça e da tenaz e servindo-se da faca como de um virador empreendeu desmontar as duas rodas do navio; conseguiu.
É preciso não esquecer que isso era exeqüível; essa era a particularidade da construção das rodas. As caixas que as tinham coberto serviram-lhes de capas; com as tábuas das caixas, Gilliatt arranjou dois caixotes onde meteu peça por peça, as duas rodas, cuidadosamente numeradas.
O pedaço de giz serviu-lhe para essa numeração.
Arranjou os dois caixotes na parte mais sólida do convés da Durande.
Terminados estes preliminares, Gilliatt achou-se diante da dificuldade suprema. Surgiu a questão da máquina.
Desmontar as rodas foi possível; desmontar a máquina, não.
Primeiramente, Gilliatt conhecia mal aquele mecanismo. Trabalhando ao acaso, podia produzir algum desconserto irreparável. Depois, mesmo para tentar desmontá-la peça por peça, se tivesse esta imprudência, eram-lhe precisas outras ferramentas do que as que ele podia fazer numa caverna por oficina, com o vento por fole, e uma pedra por bigorna. Tentando desmontar a máquina arriscava-se a despedaçá-la.
Aqui podia-se crer que estava diante do impraticável.
Afigurou-se-lhe que estava ao pé deste muro: o impossível.
Que fazer?

DE QUE MODO SHAKESPEARE PODE ENCOSTRAR-SE COM ÉSQUILO[editar]

Gilliatt tinha uma idéia.
Desde aquele carpinteiro de Salbris que, no VI século, na infância da ciência, muito antes que Amontons tivesse achado a primeira fricção, Lahire a segunda, e Coulomb a terceira, sem conselho, sem guia, sem mais auxiliar que um menino, filho dele, com uma ferramenta informe resolveu em massa, arriando o grande relógio da igreja de Charité-surLoire, cinco ou seis problemas de estática e de dinâmica, todos juntos, como as rodas de carros embaraçados; desde esse trabalhador extravagante que achou meio de, sem quebrar um fio de latão e sem desfazer um encaixe, arriar de uma só vez, por uma simplificação prodigiosa, do segundo - andar da torre ao primeiro, aquela maciça gaiola de horas, toda de ferro e cobre, grande como uma guarita, com o seu movimento, cilindros, tambores, ganchos, mostrador, pêndulo horizontal, âncoras de escapamento, meada de corda, pesos de pedra dos quais um pesava 500 libras, tímpano, carrilhão; desde esse homem que fez esse milagre, e cujo nome já se não sabe, jamais houve nada igual à empresa que Gilliatt cometia.
A operação de Gilliatt era talvez pior, isto é, mais bela ainda que a outra.
O peso, a delicadeza, o conjunto das dificuldades, não eram menores na máquina da Durande que no relógio de Charité-surLoire.
O carpinteiro gótico tinha um auxiliar, o filho; Gilliatt era só.
Havia uma população vinda de Menug-sur-Loire, de Nevers, e mesmo de Orleans, a qual podia, em caso de necessidade, ajudar o carpinteiro de Salbris, e animá-lo com os seus rumores benévolos; Gilliatt só tinha à roda de si o rumor do vento e a multidão das ondas.
Nada se compara à timidez da ignorância, a não ser a sua temeridade.
Quando a ignorância começa a ousar é que tem uma bússola consigo. Essa bússola é a intuição da verdade, mais clara às vezes num espírito simples que num espírito complicado.

Tais casos, digamo-lo de passagem, são a exceção, e tudo isto não tira nada à ciência, que fica sendo a regra. O ignorante pode achar, só o sábio inventa.
A pança continuava a estar ancorada na angra do Homem, onde o mar a deixava tranqüila. Gilliatt, como se sabe, arranjou tudo de modo a ficar em livre prática com a barca. Foi ali e mediu-a em diversos pontos. Depois voltou à Durande e mediu o grande diâmetro da máquina. O grande diâmetro, sem as rodas, bem entendido, era mais curto 2 pés que o espaço da pança. Portanto, a máquina podia entrar na barca.
Mas como mete-la aí?


A OBRA-PRIMA DE GILLIATT AJUDA A OBRA-PRIMA DE LETHIERRY[editar]

Alguns dias depois, o pescador que fosse assaz tonto para ir perlustrar aquelas paragens, em semelhante estação, teria pago a sua ousadia com a visão de uma coisa singular entre as Douvres.
Veria isto o pescador: quatro robustas pranchas com espaços iguais entre si, indo de uma Douvre a outra, e como que forçadas entre os rochedos o que é a melhor solidez deste mundo. Do lado da pequena Douvre, as suas extremidades pousavam e fincavam-se nas fendas da rocha; do lado da grande Douvre, essas extremidades deviam ter sido violenta mente espetadas na coluna com um martelo por um robusto trabalhador trepado na própria prancha.
Essas pranchas eram um pouco mais longas que o intervalo das Douvres; daí. a segurança e o plano inclinado em que estavam for Ignorar convida a tentar. A ignorância é um devaneio e o mando uma ladeira. Tocavam a grande Douvre em ângulo devaneio curioso é uma força. Saber, desconcerta às vezes, e agudo e a pequena em ângulo obtuso. Era suave o declive, desaconselha muitas. Se Vasco da Gama soubesse, recuaria irias desigual, o que se tornava defeito. A essas quatro ante o cabo das Tormentas. Se Cristóvão Colombo fosse pranchas prendiam-se quatro polés guarnecidas todas de bom cosmógrafo, não teria descoberto a América.
A essas prendiam-se cabos que de longe pareciam fios, e por baixo desse aparelho aéreo de guindastes e tábuas, o maciço casco da Durande parecia suspenso a esses fios.
Ainda não estava suspensa. Perpendicularmente por baixo das pranchas, oito aberturas foram praticadas no casco, quatro a bombordo e quatro a estibordo da máquina, e mais oito debaixo dessas, na carena. Os cabos desciam verticalmente, entravam no convés, depois saíam pela carena, pelas aberturas de estibordo, passavam por baixo da quilha e da máquina, entravam outra vez no navio pelas aberturas de bombordo e, subindo, atravessando o convés, voltavam a prender-se nos quatro guindastes das pranchas, onde um guincho prendia-os e fazia um rolo de um cabo único podendo ser dirigido por um só braço. Um gancho e um carretel por cujo centro passava e dividia-se o cabo único completavam o aparelho, e em caso de necessidade, continham-no. Esta combinação obrigava as quatro polés a trabalharem juntas, e, verdadeiro freio de forças pendentes, leme de dinâmica na mão do piloto da opera- ção, mantinha a manobra em equilíbrio. O ajustamento engenhoso do guincho tinha alguma das qualidades simplificadoras do guindaste Weson de hoje, e do antigo polipastono de Vitrúvio. Gilliatt descobriu isso, sem conhecer Vitrúvio, que já não existe, nem Weson, que não existia ainda. O comprimento dos cabos variava segundo o desigual declive das pranchas e corrigia um pouco a desigualdade. As cordas eram perigosas, o massame branco podia quebrar; era melhor empregar correntes, finas as correntes não poderiam passar com facilidade nas polés.
Tudo isso, cheio de defeitos, mas feito por um só homem, era surpreendente.
Demais, abreviemos a explicação. Compreender-se-á que omitimos muitos pormenores que tornariam a coisa clara para as pessoas do oficio, e obscura para as outras.
O cimo do cano da máquina passava por entre as duas pranchas do meio.
Gilliatt, sem dar por isso, plagiário inconsciente do desconhecido, refez, a três séculos de distância, o mecanismo do carpinteiro de Salbris, mecanismo rudimentar e incorreto, assustador para quem ousasse manobrá-lo.
Digamos aqui que os defeitos mais grosseiros não impedem que um mecanismo funcione. O obelisco da praça de São Pedro de Roma foi levantado contra todas as regras da estática. O coche do Czar Pedro era construído de tal modo que parecia tombar a cada passo; entretanto, andava. Quantas deformidades na máquina de Marly.
Tudo ali era mal feito. Nem por isso deixou de dar de beber a Luís XIV.
Fosse como fosse, Gilliatt tinha confiança. Contava até com o sucesso ao ponto de fixar na borda da pança, no dia em que lá foi, dois pares de argolas de ferro, diante um do outro, nos dois lados da barca, nos mesmos espaços que as quatro argolas da Durande às quais se prendiam as quatro correntes do cano.
Gilliatt tinha evidentemente um plano muito completo e definitivo.
Tendo contra si todas as probabilidades, queria por todas as precauções do seu lado.
Fazia coisas que pareciam inúteis, sinal de uma premeditação atenta.
A sua maneira de proceder desafiava um observador, e mesmo um conhecedor.
Uma pessoa que o visse, por exemplo, com esforços inauditos e em risco de quebrar o pescoço, pregar com um martelo oito ou dez grandes pregos que ele forjou, no esvazamento das duas Douvres, na entrada da garganta do escolho, compreenderia dificilmente o motivo desses pregos, e perguntaria provavelmente por que razão fazia todo aquele trabalho.
Se visse Gilliatt medir o pedaço da amurada da proa que ficara pendurada, depois prender uma forte corda na borda superior desta peça, cortar com um machado as madeiras descoladas que a retinham, arrastá-las fora da garganta, com auxílio da maré que descia, e enfim prender laboriosamente com a corda essa pesada massa de tábuas e vigas, mais larga que a entrada da garganta, aos pregos metidos na base da pequena Douvre, o observador compreenderia menos ainda, e diria que se Gilliatt quisesse, para facilidade da manobra, desimpedir o intervalo das Douvres, bastava deixar cair aquele pedaço de tábuas na maré que o levaria à flor da água. Gilliatt provavelmente tinha lá as suas razões.
Gilliatt, para fixar os pregos na base das Douvres, tirava partido de todas as fendas do granito, alargava-as quando era preciso, e metia ao princípio tocos de paus, nos quais introduzia depois os pregos. Emboçou a mesma preparação nas duas rochas que se levantavam noutra extremidade do escolho, do lado de leste; guarneceu de cavilhas de pau todos os buracos, como se as quisesse ter prontas para receber ganchos; mas isso pareceu ser uma simples reserva, porque Gilliatt não meteu pregos nessas fendas. Compreende- se que, por prudência na sua penúria, ele não podia gastar materiais senão à proporção que tivesse necessidade, e no momento em que a necessidade se manifestasse. Era mais uma complicação no meio de tantas dificuldades.
Acabado um primeiro trabalho, surgia um segundo. Gilliatt passava sem hesitar de um a outro e dava resolutamente esse pulo de gigante.

SUBRE[editar]

O homem que fazia estas coisas tornara-se medonho.
Gilliatt, naquele trabalho múltiplo, gastava todas as suas forças; dificilmente as refazia.
Privações de uma parte, cansaço de outra. Gilliatt tinha emagrecido.
Cresceram-lhe as barbas e cabelos. Exceto uma camisa, todas as mais estavam em frangalhos. Tinha os pés nus, porque o vento levara-lhe um sapato, e o mar o outro. Pedaços da bigorna rudimentar, e mui perigosa, de que se servia, tinham-lhe feito nas mãos e nos braços pequenas chagas, salpicos de trabalho. Essas chagas, mais esfoladuras que feridas, eram superficiais, mas irritadas pelo ar vivo e pela água salgada.
Tinha fome, tinha sede, tinha frio.
O pichel de água doce estava vazio. A farinha de centeio fora já comida ou empregada no trabalho. Restava-lhe um pouco de biscoito.
Não tendo água para molhá-lo, Gilliatt quebrava-o com os dentes.
Dia a dia iam-lhe escasseando as forças.
Aquele temível rochedo esgotava-lhe a vida.
Beber era uma questão; comer era uma questão; dormir era uma questão.
Gilliatt comia quando apanhava algum marisco ou outro bichinho do mar; bebia quando via um pássaro descer a alguma ponta da rocha. Trepava então e achava numa cava um pouco de água doce. Bebia depois do pássaro, às vezes ao mesmo tempo; porque as gaivotas já estavam acostumadas a ele, e não fugiam quando ele se aproximava. Gilliatt, mesmo na maior fome, não lhes fazia mal. Sabemos que ele tinha a superstição dos pássaros. Os pássaros, como os cabelos de Gilliatt estivessem eriçados e horríveis, e a barba longa, já lhe não cobravam medo; a mudança do aspecto tranqüilizava-os; já não viam naquilo um homem, acreditavam-no bicho.
Os pássaros e Gilliatt eram agora bons amigos. Todos aqueles pobres ajudavam-se uns aos outros. Enquanto Gilliatt teve centeio, deu-lhes algumas migalhas dos bolos que fazia; agora os pássaros indicavam-lhe em que lugar havia água.
Comia as conchas cruas; as conchas, em certa proporção, são refrigerantes. Quanto aos caranguejos, cozia-os; não tendo vasilha própria, cozia-os entre duas pedras abrasadas ao fogo, como os selvagens das ilhas Feroe.
Declarou-se, entretanto, um pouco de equinócio; veio a chuva; mas chuva hostil. Nem ondas, nem aguaceiros, mas longos chuviscos, finos, gelados, que atravessavam-lhe a roupa até a pele, e a pele até os ossos. Era chuva que dava pouco de beber e molhava muito.
Avara de auxílio, pródiga de miséria, tal era aquela chuva, indigna do céu. Gilliatt apanhou-a toda, durante uma semana, de noite e de dia. Era uma má ação lá de cima.
De noite, no seu buraco do rochedo, só dormia por cansaço. Os grandes mosquitos do mar iam morde-lo. Acordava coberto de pústulas.
Tinha febre, que o sustentava; a febre é um amparo, que mata.
Mastigava, por instinto, o musgo, ou chupava as folhas de cocleária selvagem, magras produções das fendas secas do rochedo. Mas ocupava-se bem pouco com o sofrimento. Não tinha tempo de distrair-se do trabalho para cuidar de si. A máquina da Durande estava de saúde. Era o que bastava.
A cada momento, Para as necessidades do trabalho, Gilliatt atirava-se ao mar, depois tomava pé. Entrava na água e saía, como se passa de um quarto a outro.
As roupas já lhe não secavam. Estavam embebidas da água da chuva que não parava, e da água do mar que não seca nunca.
Gilliatt vivia molhado.
Viver molhado é um hábito que se adquire. Os pobres grupos irlandeses, velhos, mães, raparigas, quase nuas, crianças, que passam o inverno debaixo de aguaceiros e neve, apertados uns contra os outros nos ângulos das casas nas ruas de Londres, vivem e morrem molhados.
Estar molhado e ter sede; Gilliatt suportava essa tortura estranha.
De quando em quando mordia a manga da japona.
O fogo que ele acendia não o aquecia; o fogo no meio de um grande espaço arejado é um meio socorro; seca-se de um lado, umedece-se de outro.
Gilliatt suava e tiritava.
Tudo lhe resistia em roda dele numa espécie de silêncio terrível.
Ele sentia o inimigo.
As coisas tem um sombrio Non possumus.
A inércia delas é uma lúgubre advertência.
Imensa má vontade cercava Gilliatt. Estava cheio de queimaduras e tinha arrepios de frio. Queimava-o o fogo, gelava a água, a sede causava-lhe febre, o vento rasgava-lhe a roupa, a fome minava-lhe o estômago. Ele suportava a opressão em um conjunto fatigante.
O obstáculo, tranqüilo, vasto, tendo a irresponsabilidade aparente da fatalidade, mas cheio de uma unanimidade feroz, convergia de todas as partes sobre Gilliatt. Gilliatt sentia-o apoiado inexoravelmente sobre ele. Nenhum meio de escapar-lhe. Era quase uma entidade. Gilliatt tinha a consciência de um desprezo sombrio e de um ódio que fazia esforço por diminuí-lo. Dependia dele fugir, mas, pois que ficava, tinha de lutar com hostilidade impenetrável. Não podendo po-lo fora dali, punham-no debaixo dos pés.
Quem? O Ignoto. Apertavam-no, comprimiam-no, tiravam-lhe lugar e alento. Estava abatido pelo invisível. Cada dia, a misteriosa verruma entrava um pedaço.
A situação de Gilliatt naquele medonho lugar assemelhava-se a um duelo equívoco com um traidor.
Cercava-o a coalizão das forças obscuras. Ele sentia uma resolução de alguém para expulsá-lo dali. É assim que a geleira expele a massa errática.
Quase sem parecer que o tocava, essa coalizão latente punha-o em farrapos, cheio de sangue, falho de recursos, e, por assim dizer, fora de combate antes do combate. Nem- por isso deixava ele de trabalhar, e sem cessar, mas, à proporção que a obra se fazia, ia-se desfazendo o operário. Dissera-se que aquela feroz natureza, receando a alma, resolvera-se a extenuar o homem.
Gilliatt afrontava, e esperava. O abismo começava por cansá-lo.
Que faria depois o abismo?
A dupla Douvres, dragão de granito e emboscado em pleno mar, admitira Gilliatt. Deixou-o entrar e trabalhar. A admissão assemelhava- se à hospitalidade de um sorvedouro aberto.
O deserto, a extensão, o espaço onde há para o homem tantos recursos, a inclemência muda dos fenômenos seguindo o seu curso, a grande lei geral implacável e passiva, o fluxo e o refluxo, o escolho, plêiada negra onde cada ponto é uma estrela de turbilhões, centro de uma irradiação de correntes, a conspiração da indiferença das coisas contra a tenacidade de um ente, o inverno, as nuvens, o mar sitiante, cercavam Gilliatt, apertavam-no lentamente, fechavam-se sobre ele, e o separavam dos vivos, como um cárcere que fosse subindo à roda de um homem. Tudo contra ele, nada a favor dele; estava isolado, abandonado, minado, esquecido.
Gilliatt- tinha esgotado as provisões, as ferramentas já estavam usadas, a sede e a fome de dia, o frio de noite, feridas e andrajos, vestidos rotos cobrindo supurações, buracos nas roupas e na carne, mãos dilaceradas, pés sangrentos, membros magros, rosto lívido, uma flama nos olhos.
Flama soberba essa, era a vontade visível. O Olho do homem é feito de modo que se lhe vê por ele a virtude. A nossa pupila diz que quantidade de homens há dentro de nós. Afirmamo-nos pela luz que fica debaixo da sobrancelha. As pequenas consciências piscam o Olho, as grandes lançam raios. Se não há nada que brilhe debaixo da pálpebra, é que nada há que pense no cérebro, é que nada há que ame no coração. Quem ama quer, e aquele que quer relampeja e cintila. A resolução enche os olhos de fogo; admirável fogo que se compõe da combustão de pensamentos tímidos.
Os teimosos são os sublimes. Quem é apenas bravo tem só um assomo, quem é apenas valente tem só um temperamento, quem é apenas corajoso tem só uma virtude; o obstinado na verdade tem a grandeza. Quase todo o segredo dos grandes corações está nesta palavra: perseverando. A perseverança está para a coragem como a roda para a alavanca; é a renovação perpétua do ponto de apoio. Esteja na terra ou no céu o alvo da vontade, a questão é ir a esse alvo; no primeiro caso, é Colombo, no segundo caso, é Jesus. Insensata é a cruz; vem daí a sua glória. Não deixar discutir a consciência, nem desarmar a vontade, é assim que se obtém o sofrimento e o triunfo. Na ordem dos fatos morais o cair não exclui o pairar. Da queda sai a ascensão. Os medíocres deixam- se perder pelo obstáculo especioso; não assim os fortes.
Parecer é o talvez dos fortes, conquistar é a certeza deles. Podes dar a Estevão todas as boas razões para que ele não se faça apedrejar. O desdém das objeções razoáveis cria a sublime vitória vencida que se chama o martírio.
Todos os esforços de Gilliatt pareciam agarrados ao impossível, o êxito era mesquinho ou lento, e cumpria gastar muito para obter pouco; isso é que o fazia magnânimo, isso é que o fazia patético.
Que para fazer um andaime de quatro pranchas acima de um navio naufragado, para cortar nesse navio a parte que se podia salvar, para ajustar a esse resto dos restos quatro guindastes com os seus cabos, fossem precisos tantos preparativos, tantos trabalhos, tantas apalpadelas, tantas noites mal dormidas, tantos dias afadigados, essa era a miséria do trabalho solitário. Fatalidade na causa, necessidade no efeito. Gilliatt fez mais do que aceitar essa miséria; qui-la. Temendo um concorrente, porque um concorrente poderia ser um rival, não procurou auxiliar. A esmagadora empresa, o risco, o perigo, o trabalho multiplicado por si mesmo, o engolimento possível do salvador no salvamento, a fome, a febre, a nudez, o abandono, tudo isso tomou ele para si só. Teve este egoísmo.
Gilliatt estava debaixo de uma espécie de máquina pneumática. A vitalidade ia-se retirando dele a pouco e pouco. E ele mal o sentia.
A perda das forças não esgota a vontade. Crer é apenas a segunda potência; a primeira é querer; as montanhas proverbiais que a fé transporta nada valem ao lado do que a vontade produz. O que Gilliatt perdia em vigor reavia em tenacidade. A diminuição do homem físico debaixo da ação repelente daquela natureza selvagem produzia o engrandecimento do homem moral.
Gilliatt não sentia a fadiga, ou, para melhor dizer, não consentia nela. O consentimento da alma recusado ao desfalecimento do corpo é uma força imensa.
Gilliatt via os progressos do trabalho, e não via nada mais. Era miserável sem sabe-lo. O seu alvo, que ele tocava quase, alucinava-o, sofria todos os sofrimentos sem ter outra idéia que não fosse esta: Avante! A sua obra subia-lhe à cabeça. Vontade embriagada.
O homem pode embriagar-se corri a própria alma. Essa embriaguez chama-se heroísmo.
Gilliatt era uma espécie de Jó do Oceano.
Mas um Jó que lutava, um Jó que combatia e afrontava os flagelos, um Jó que conquistava, e se tais palavras não são demasiado grandes para um pobre marinheiro pescador de caranguejos e de lagostas, um Jó Prometeu.

"SUB UMBRA"[editar]

Às vezes, alta noite, Gilliatt abria os olhos e olhava para a sombra.
Sentia-se comovido. Olhar aberto sobre trevas. Situação lúgubre; ansiedade. Existe a pressão da sombra.
Inexprimível teto de tenebras; alta obscuridade sem mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? é cinza? milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que parece um bando de faíscas paradas, a desordem do turbilhão e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipício, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição.
Esse amálgama de todos os mistérios a um tempo, do mistério cósmico e do mistério fatal, abate a cabeça humana.
A pressão da sombra atua em sentido inverso nas diferentes espécies de almas. O homem, diante da noite, reconhecesse incompleto.
Vê a obscuridade e sente a enfermidade. O céu negro é o homem cego. Entretanto, com a noite, o homem abate-se, ajoelha- se, prosterna-se, roja-se, arrasta-se para um buraco, ou procura asas. Quase sempre quer fugir a essa presença informe do esconhecido.
Pergunta o que é; treme, curva-se, ignora; às vezes quer ir lá.
Aonde?
Lá.
Lá? O que é? Que há lá? Essa curiosidade é evidentemente a das coisas defesas, porque para aquele lado todas as pontes à roda do homem estão cortadas.
Mas o desejo atrai, porque é golfão. Onde não vai o pé, vai o olhar, onde o olhar pára, pode continuar o espírito. Não há homem que não tente, por mais fraco e insuficiente que seja. O homem, segundo a sua natureza, investiga ou espera diante da noite. Para uns é um rechaçamento, para outros é uma dilatação. O espetáculo 8 sombrio. Mescla-se a ele o indefinível.
Vai a noite serena? É um fundo de sombra. Vai tempestuosa? É um fundo de fumaça. O ilimitado recusa-se e oferece-se ao mesmo tempo, fechado à experiência, aberto à conjetura. Infinitas picadas de luz tornam mais negra a obscuridade sem fundo. Carbúnculos, cintilações, astros. Presenças verificadas no Ignorado; tremendos reptos para ir tocar esses clarões. São estacas da criação no absoluto; são marcos de distância lá onde já não há distância; é uma espécie de numeração impossível, e todavia real, do canal das profundezas. Um ponto microscópico que fulge, depois outro, mais outro; mais outro; é o imperceptível, é o enorme. Essa luz é um foco, esse foco é uma estrela, essa estrela é um sol, esse sol é um universo, esse universo é nada. Todo o número é zero diante do infinito.
Esses universos, que nada são, existem. Verificando-os, sente-se a diferença que vai entre ser nada, e não ser.
O inacessível ligado ao inexplicável, eis o céu.
Dessa contemplação solta-se um fenômeno sublime: o crescimento da alma pelo assombro.
O medo sagrado é próprio do homem; a besta ignora esse medo. A inteligência acha nesse terror augusto o seu eclipse e a sua prova.
A sombra é una: vem daí o seu horror. É, ao mesmo tempo, complexa: vem daí o terror. A sua unidade pesa no nosso espírito e saca-lhe a vontade de resistir.
A complexidade faz com que se olhe para todos os lados; parece que se devem recear assaltos súbitos. O homem rende-se e defende- se. Fica em presença de Tudo, daí vem a submissão, e de Muitos, daí vem a desconfiança. A unidade da sombra contém um múltiplo. Múltiplo misterioso, visível na matéria, sensível no pensamento.
Faz silêncio, razão de mais para espreitar.
A noite - já o disse algures quem escreve estas linhas é o estado próprio, normal da criação especial de que fazemos parte. O dia, breve na duração como no espaço, é apenas uma proximidade de estrela.
O prodígio noturno universal não se realiza sem atritos, e os atritos de uma tal máquina são as contusões da vida. Os atritos da má- quina, é o que chamamos o Mal. Sentimos nessa obscuridade o mal, desmentido latente da ordem divina, blasfêmia implícita do fato rebelde ao ideal. O mal acrescenta uma teratologia de mil cabeças ao vasto conjunto cósmico. O mal está presente em tudo para protestar. É furacão e atormenta a marcha de um navio, é caos e entrava o desabrochar de um mundo. O Bem tem a unidade, o Mal tem a ubiqüidade. O mal desconcerta a vida, que é uma lógica. Faz devorar a mosca pelo pássaro, e o planeta pelo cometa.
O mal é um borrão na natureza.
A obscuridade noturna peja-se de uma vertigem. Quem a aprofunda, submerge-se e debate-se. Não há lugar definitivo para pousar o espírito. Pontos de partida sem ponto de chegada. O cruzamento das soluções contraditórias, todos os ramos da dúvida a um tempo, a ramificação dos fenômenos esfoliando-se sem limite sob uma impulsão indefinida, mistura de todas as leis, uma promiscuidade insondável que faz com que a mineralização vegete, com que a vegetação viva, com que o pensamento pese, com que o amor irradie e a gravitação ame; a imensa frente de ataque de todas as questões desenvolvendo-se na obscuridade sem limites; o entrevisto esboçando o ignorado; a simultaneidade cósmica em plena aparição, não para o olhar, mas para a inteligência, no espaço indistinto; o invisível tornado visão.
É a sombra. O homem está embaixo. Não conhece os pormenores, mas suporta, em qualidade proporcionada ao seu espírito, o peso monstruoso do conjunto. Esta obsessão impelia os passares caldeus à astronomia. Saem dos poros da criação revelações involuntárias; faz-se por si mesma uma transmudação de ciência e invade o ignorante. Debaixo dessa impregnação misteriosa torna-se o solitário, muitas vezes sem ter consciência, um filósofo natural.
A obscuridade é indivisível. É habitada. Habitada sem deslocação pelo absurdo; habitada também com deslocação.
Move-se ali dentro alguma coisa, o que é para assustar. Uma formação sagrada desenvolve ali as suas fases. Premeditações, potências, destinos intencionais laboram, aí em comum uma obra desmedida. Vida terrível e horrível é o que existe ali dentro. Há vastas evoluções de astros, a família estelar, a família planetária, o pólen zodiacal, o Quid divinum das correntes, dos eflúvios, das polarizações e das alterações; há o amplexo e o antagonismo, um magnífico fluxo e refluxo da antítese universal, o imponderável em liberdade no meio dos centros; há a seiva nos globos, a luz fora dos globos, o átomo errante, o germe esparso, curvas de fecunda ção, encontros de ajuntamento e de combate, profusões inauditas, distâncias que parecem sonhos, circulações vertiginosas, mergulhos de mundos no incalculável, prodígios perseguindo-se nas trevas, um maquinismo definitivo, sopro de esferas em fuga, rodas que se sente andarem; é inexpugnável, fora de alcance.
Fica-se convencido até à opressão. Tem-se em si uma evidência negra. Nada se pode agarrar. Esmaga-nos o impalpável.
Por toda a parte o incompreensível: em parte alguma o inteligível.
E a tudo isto acrescentai a terrível questão: esta Imanência é um Ser? Está-se debaixo da sombra. Olha-se. Escuta-se. Entretanto a terra sombria caminha e rola, as flores tem consciência desse movimento enorme; a silena abre-se às 11 horas da noite e o hernerocale às 5 horas da manhã. Imprevisível regularidade.
Em outras profundidades a gota de água faz-se mundo, o infusório pulula, a fecundidade gigante sai do animálculo, o imperceptível ostenta a sua grandeza, o sentido inverso da imensidade manifesta-se; uma diatoméia produz em uma hora 1 milhar e 300 milhões de diatoméias.
Que proposição de todos os enigmas ao mesmo tempo! Está aí o irredutível.
Constrange-se-nos à fé. Crer por força, eis o resultado. Mas para estar tranqüilo não basta ter fé. A fé tem uma estranha necessidade de forma. Daí vem as religiões. Nada é tão opressivo como urna crença sem delineamento.
Qualquer que seja o pensamento e a vontade, qualquer que seja a resistência interior, olhar a sombra não é olhar, é contemplar.
Que fazer desses fenômenos? Como mover-se debaixo de sua convergência? É impossível decompor esta pressão. Que devaneio se deve ajuntar a todos esses confinantes misteriosos? Quantas revela ções abstrusas, simultâneas, obscurecendo-se em sua própria multidão, espécie de balbuciar do verbo! A sombra é um silêncio; mas esse silêncio diz tudo. Surge majestosamente um resultado: Deus. Deus é a noção incompreensível. Essa noção está no homem.
Os silogismos, as querelas, as negações, os sistemas, as religiões passam por cima sem diminuí-la. A sombra inteira afirma aquela noção. Mas turva-se tudo o mais. A inexprimível harmonia das forças manifesta-se pelo equilíbrio dessa obscuridade. O universo pende; nada tomba.
O deslocamento incessante e desmedido opera-se sem acidente e sem fratura. O homem participa deste movimento de translação e à quantidade de oscilação que suporta chama ele destino. Onde começa o destino? Onde acaba a natureza? Que diferença há entre um acontecimento e uma estação, entre um pesar e urna chuva, entre uma virtude e uma estrela? - Uma hora não é uma onda? Continua o movimento da roda, sem responder ao homem, em sua revolução impassível. O céu estrelado é uma visão de rodas, de pêndulas e de contrapesos. É a contemplação suprema forrada da suprema meditação. É toda a realidade e mais a abstração. Nada além daí. O homem sente-se preso. Fica à discrição da sombra. Não há evasão possível. Vê-se ele naquele composto de rodas, é parte integrante de um Todo ignorado, sente o desconhecido que está fora dele. Isto é o anúncio sublime da morte. Que angústia e, ao mesmo tempo, que fascinação! Aderir ao infinito e por essa aderência atribuir-se uma imortalidade necessária, quem sabe? Uma eternidade possível sentir na prodigiosa vaga desse silêncio universal a obstinação insubmersível do eu! Contemplar os astros e dizer: Sou uma alma como vós! Contemplar a obscuridade e dizer: Sou um abismo como tudo.
Essas enormidades são a noite. Tudo isso aumentado, pela solidão, pesava em Gilliatt. Compreendia-o ele? Não. Sentia-o? Sim.
Gilliatt era um grande espírito turvado e um grande coração selvagem.

GILLIATT COLOCA A PANÇA EM POSIÇÃO[editar]

O salvamento da máquina, meditado por Gilliatt, era, como dissemos, uma verdadeira evasão e são conhecidas as pacientais da evasão. Também se conhecem as suas indústrias. A indústria chega ao milagre; a paciência atinge a agonia. Tal prisioneiro, Thomas, por exemplo, no monte São Miguel, achou meio de esconder metade de uma parede dentro da palha em que dormia. Outro, em Tulle, em 1820, cortou chumbo na Plataforma de passeio da prisão, não se sabe com que faca, fundiu-o não se sabe com que fogo, vazou-o numa forma feita de migalhas de pão; com esse chumbo e essa forma fez urna chave e com essa chave abriu unia fechadura que ele apenas conhecia por ter-lhe visto o buraco. Gilliatt tinha essas habilidades inauditas. Era capaz de subir e descer o penedio Boisrosé. Era o Trenk de um destroço e o Latude de uma máquina.
O mar, que era o carcereiro, vigiava-o.
Demais, por ingrata e má que fosse a chuva, Gilliatt aproveitou-a.
Refez com ela a sua provisão de água doce; mas a sede era inextinguível e Gilliatt esvaziava o pincel quase tão rapidamente como o enchia.
Um dia, o último de abril, creio, ou o 1 de maio, tudo estava pronto. O assoalho da máquina estava como que metido entre os oito cabos das polés, quatro de um lado, quatro de outro. As dezesseis aberturas, por onde passavam esses cabos, estavam ligadas ao tombadilho e à carena. A madeira foi cortada com o machado, o ferro com a lima, o forro com a faca e o resto com a serra. A parte da quilha onde estava a máquina foi cortada em quadro e estava pronta para resvalar com a máquina sustentando- a. Todo esse grupo assustador só estava preso por urna corrente, a qual dependia só de um golpe de lima. Tão perto do remate, a pressa era prudência.
A maré estava baixa, o momento era bom. Gilliatt tinha conseguido desmontar a árvore das rodas, cujas extremidades podiam fazer obstáculo e impedir aquele levantar de âncora. Tinha conseguido amarrar verticalmente a pesada peça na própria máquina.
Era tempo de acabar. Gilliatt, como dissemos, não estava cansado porque não queria, mas as suas ferramentas estavam. A forja tornava-se impossível a pouco e pouco. A pedra que servia de bigorna tinha-se quebrado. O fole começava a trabalhar mal. Corno a pequena queda hidráulica era de água marinha, formaram-se depósitos salinos nas junturas do aparelho e impediam-lhe o jogo. Gilliatt foi à angra do Homem, passou revista à pança, assegurou-se de que tudo estava bom, particularmente as quatro argolas pregadas a bombordo e estibordo, levantou a âncora e remando voltou com a pança às duas Douvres.
O intervalo das Douvres podia admitir a pança. Havia bastante fundo e bastante largura. Gilliatt reconheceu, desde o primeiro dia, que podia-se levar a pança até debaixo da Durande.
A manobra era contudo excessiva, exigia uma precisão de joalheiro e esta inserção do barco no escolho era tanto mais delicada quanto que, para o que Gilliatt queria fazer, era necessário entrar pela popa com o leme na proa. Era necessário que o mastro e os aparelhos da pança ficassem aquém do casco do vapor, do lado da entrada.
Este agravo na manobra tornou a operação difícil ao próprio Gilliatt.
Já não era, como na angra do Homem, uma questão de movimento de leme; era preciso ao mesmo tempo entrar, puxar, remar e sondar.
Gilliatt empregou nisso nada menos de um quarto de hora, mas conseguiu.
Em quinze ou vinte minutos a pança ficou colocada debaixo da Durande. Ficou quase atravessada. Gilliatt, por meio de duas âncoras, segurou a pança. A maior ficou colocada de modo a trabalhar com o vento mais forte, que era o vento de oeste, depois, por meio de uma alavanca e de um cabrestante, Gilliatt passou para a pança as duas caixas, contendo as rodas desmontadas, cujos cabos de guindar estavam prontos. As duas caixas fizeram lastro.
Desembaraçado das duas caixas, Gilliatt prendeu ao gancho da corrente do cabrestante o cabo regulador destinado a conter os guindastes.
Para a obra de Gilliatt os defeitos da pança tornavam-se qualidades; não tinha coberta, o carregamento achava mais fundo e podia pousar no porão. Era mastreada na proa, muito na proa talvez, o carregamento achava mais facilidade e,O mastro ficava fora da máquina, de modo que nada impedia a saída; era uma espécie de concha, e nada mais estável e sólido no mar como uma concha.
De repente Gilliatt viu que a maré enchia. Trarou de ver donde soprava o vento.

SURGE UM PERIGO[editar]

Havia pouca brisa, mas vinha do oeste. É um mau costume do vento no equinócio.
A maré enchente, conforme o vento que sopra, comporta-se diversamente no escolho Douvres. Conforme o vento, a onda entra naquele corredor ou por leste ou por oeste. Se o mar entra por leste a água é boa e mole, se entra por oeste é furiosa. A razão disto é que o vento de leste, vindo de terra, tem pouco alento, enquanto que o vento de oeste, que atravessa o Atlântico, traz consigo o sopro da imensidade. Mesmo quando a brisa é fraca assusta quando vem do oeste. Rola largas ondas da extensão ilimitada e cospe grossas vagas no estreito.
A água que se engolfa é sempre terrível. A água é como a multidão; uma multidão é um líquido; quando a quantidade que pode entrar é menor que a quantidade que deseja entrar, a multidão machuca-se e a água convulsiona-se. Enquanto sopra o vento do poente, ainda a mais fraca brisa, há nas Douvres este assalto duas vezes por dia. A maré levanta-se, a rocha resiste, a abertura é pequena, a onda entrando à força, salta e ruge, e um marulho enraivecido bate as duas fachadas internas da viela. De modo que as Douvres, ao menor vento do oeste, oferecem este espetáculo singular: no mar, calma, no escolho, tempestade. Esse tumulto local e circunscrito não é uma tormenta; é apenas uma revolta de vagas, mas terrível. Quanto aos ventos do norte e do sul, esses fazem pouca ressaca na garganta do escolho. A entrada por leste, é preciso lembrá-lo, confina com o rochedo Homem; a abertura temível do oeste fica na extremidade oposta exatamente entre as duas Douvres.
Nessa abertura de oeste é que se achava Gilliatt com a Durande naufragada e a pança ancorada.
Parecia inevitável uma catástrofe, esta catástrofe iminente tinha embora pouco, o vento de que precisava.
Dentro de poucas horas o inchamento do mar que subia, ia naturalmente entrar em grande luta, no estreito das Douvres. As primeiras vagas já começavam a rugir. Inchamento esse, refluxo impetuoso de todo o Atlântico que teria atrás de si a totalidade do mar. Nenhuma borrasca, nenhuma cólera; mas uma simples onda soberana, contendo em si uma força de impulsão que, partindo da América par a chegar à Europa, tinha 2 000 léguas de jato. Essa onda, barra gigantesca do oceano, encontraria o hiato do escolho, e, apertada nas duas Douvres, torres de entrada, pilares do estreito, inchada pela maré, inchada pelo obstáculo, repelida pelo rochedo, castigada pelo vento, faria violência ao escolho, penetraria, com todas as torções do obstáculo encontrado, e todos os frenesis da vaga entravada, entre as duas muralhas, encontraria a pança e a Durande, e as estrangularia.
Era preciso um broquel contra essa eventualidade. Gilliatt tinha-o.
Cumpria impedir que a maré entrasse toda, impedir que esbarrasse embora enchesse, tapar-lhe a passagem sem recusar-lhe a entrada, resistir-lhe e ceder-lhe, prevenir a compressão da onda na boca do rochedo, que era o perigo, substituir a irrupção pela introdução, conter a raiva e a brutalidade da vaga, obrigar aquela fúria a ser tranqüila. Era preciso substituir ao obstáculo que irrita, o obstáculo que aplaca.
Gilliatt, com a destreza que tinha, mais forte que a força, executando uma manobra de cabrito-montes na montanha ou de macaco na floresta, utilizando com saltos oscilantes e vertiginosos a menor saliência de pedra, pulando na água, nadando nos redemoinhos, trepando ao rochedo, com uma corda nos dentes, um martelo na mão, desatou o cabo que prendia à pequena Douvre o pedaço da amurada de proa da Durande, fez com as pontas da maroma uma espécie de gonzos prendendo aquele pedaço de madeira aos grandes pregos metidos no granito, fez voltar naqueles gonzos aquela armadura de tábuas semelhante ao alçapão de um dique, expo-lo em flanco, como se faz com um leme, à onda que impelia, e aplicou essa extremidade à grande Douvre, enquanto os gonzos de cordas retinham na pequena Douvre a outra extremidade; operou na grande Douvre, por meio de pregos, postos de antemão, a mesma fixação que na pequena, amarrou solidamente essa vasta placa de madeira ao duplo pilar da abertura, travou nessa barra uma corrente como um talabarte numa couraça e, em menos de uma hora, levantou-se o obstáculo contra a maré, e a viela do escolho ficou fechada como por uma porta.
Este robusto tapamento, pesada massa de pranchas, que deitado seria uma jangada, e de pé uma parede, foi, com auxílio da vaga, trabalhado por Gilliatt com uma agilidade de saltimbanco. Podia-se dizer quase que a coisa foi feita antes que o mar se apercebesse disso.
Era um desses casos em que Jean Bart dizia o famoso dito que ele dirigia à vaga do mar, cada vez que esquivava um naufrágio: Apanhei- te, inglês! Sabe-se que Jean Bart quando queria insultar o oceano chamava-o inglês.
Tapado o estreito, Gilliatt cuidou da pança. Dividiu o cabo nas duas âncoras para que ela pudesse subir com a maré. Operação análoga a que os antigos marítimos chamavam: mouiller avec des embossures.
Em tudo isso Gilliatt não foi surpreendido, o caso estava previsto; um homem do oficio reconhece-lo-ia vendo as duas roldanas de guindar metidas por trás da pança, nas quais passavam dois pequenos cabos cujas pontas estavam presas às argolas das duas âncoras.
Entretanto, crescia a maré; já subira a metade; é nesse momento que os choques das ondas, mesmo plácidos, podem ser rudes. O que Gilliatt combinara realizou-se. A onda rolava violentamente para a porta, encontrava-a, inchava e passava por cima. Fora era o marulho. Dentro a infiltração. Gilliatt imaginou alguma coisa semelhante às forcas caudinas do mar. A maré estava vencida.

MAIS PERIPÉCIA QUE DESENLACE[editar]

Chegara o tremendo instante.
Tratava-se agora de por a máquina na pança.
Gilliatt ficou pensativo alguns momentos, tendo o cotovelo do braço esquerdo na mão direita, e a fronte na mão esquerda. Depois subiu à Durande, cuja metade, que era a máquina, devia sair e cujo casco devia ficar.
Cortou os quatro cabos que prendiam a estibordo e a bombordo as quatro correntes do cano. Como era corda, bastou-lhe a faca.
As quatro correntes, livres, ficaram pendentes ao longo do cano.
Do navio subiu ele ao aparelho que construíra, bateu com o pé em todas as pranchas, examinou as roldanas, viu as polés, apalpou os cabos, verificou as emendas, assegurou-se de que o massame não estava profundamente molhado, certificou-se de que nada faltava, nem estava bambo, depois, pulando do alto das peças sobre o tombadilho, tomou posição, ao pé do cabrestante, na parte da Durande que devia ficar nas Douvres. Era esse o seu posto de trabalho.
Grave, sentindo somente a comoção útil, lançou um último olhar ao aparelho, depois tomou uma lima e pôs-se a cortar a corrente que sustentava tudo.
Ouvia-se o ranger da lima no meio do murmúrio do mar.
A corrente do cabrestante, presa ao cabo regulador, ficava ao alcance da mão de Gilliatt.
De repente, houve um estalo. A argola que a lima cortava, já limada por metade, tinha-se quebrado; todo o aparelho estava solto. Gilliatt teve apenas tempo de agarrar o grande cabo.
A corrente quebrada bateu no rochedo, os oito cabos retesaram-se, toda a massa cerrada e cortada desprendeu-se do navio, abriu-se o ventre da Durande, o assoalho de ferro da máquina, pesando sobre os cabos, apareceu debaixo da quilha.
Se Gilliatt não tivesse chegado a tempo ao cabo regulador, havia uma queda. Mas a sua mão terrível estava lá; foi apenas uma descida.
Quando o irmão de Jean Bart, Pierre Bart, aquele bêbado possante e sagaz, aquele pobre pescador de Dunquerque que tratava o grande almirante por tu, salvou a galera Langeron, perdida na baía de Ambleteuse, quando, para tirar aquela pesada massa flutuante dos cachopos da baía furiosa, amarrou a vela grande com juncos marinhos, quando ele quis que os juncos, quebrando-se por si, abrissem a vela ao vento, fiou-se na rotura dos juncos, como Gilliatt na fratura da corrente, foi a mesma estranha audácia coroada pela mesma vitória surpreendente. A corda motora, segura por Gilliatt, operou admiravelmente. Devem lembrar-se de que essa corda tinha por fim diminuir as forças convertidas em uma só e reduzidas a um movimento de conjunto. Aquela corda tinha alguma relação com uma bolina; somente em vez de orientar uma vela, equilibrava um maquinismo.
Gilliatt, de pé e com a mão no cabrestante, tinha por assim dizer a mão no pulso do aparelho. Aqui a invenção de Gilliatt manifestou-se toda. Produziu-se uma notável coincidência de forças. Enquanto a máquina da Durande separada em massa, descia para a pança, a pança subia para a máquina. O navio naufragado e o barco salvador, ajudando-se em sentido inverso, iam encontrando-se.
Poupava-se, deste modo, metade do trabalho.
A maré, enchendo sem rumor entre as duas Douvres, levantava a embarcação e aproximava-a da Durande. A maré estava mais que vencida, estava domesticada. O oceano fazia parte do maquinismo.
A vaga subindo, levantava a pança sem choque, brandamente, quase com precaução e como se ela fosse de porcelana.
Gilliatt combinava e proporcionava os dois trabalhos, o da água e do aparelho, e, imóvel, no cabrestante, espécie de estátua temí- vel, obedecida por todos os movimentos ao mesmo tempo, regulava a lentidão da descida pela lentidão da subida.
Nenhum abalo na água, nenhum balanço nas pranchas. Era uma estranha colaboração de todas as forças naturais dominadas. De um lado a gravitação levava a máquina; do outro a maré trazia o barco. A atração dos astros, que é o fluxo, e a atração do globo, que é a gravidade, pareciam harmonizar-se para servir a Gilliatt. A sua subordinação não tinha hesitação nem parada, e, debaixo da pressão de uma alma, aquelas duas potências passivas tornavam-se ativas auxiliares. A obra caminhava de minuto a minuto; o intervalo entre a pança e a Durande diminuía insensivelmente. Fazia-se a aproximação em silêncio e com uma espécie de terror pelo homem que estava ali. O elemento recebia uma ordem e executava-a.
Quase no momento em que a maré cessou de subir, os cabos cessaram de correr subitamente, mas sem comoção; as roldanas pararam. A máquina, como se fosse colocada a mão, assentou-se no fundo da pança. Estava direita, de pé, imóvel, sólida. A placa que a sustentava apoiava-se com os seus quatro ângulos e a prumo no porão.
Estava pronto.
Gilliatt olhou atônito.
A pobre criatura não tinha tido muitas alegrias em sua vida. Sentiu o alquebramento de uma imensa felicidade. Dobravam-se-lhe os membros; e diante do seu triunfo, ele que não se perturbara até então, começou a tremer.
Contemplou a pança debaixo do navio e a máquina dentro da pança. Parecia não acreditar. Dissera-se que ele não contava com aquilo. Saíra-lhe um prodígio das mãos, e ele contemplava-o com espanto.
Mas esse espanto durou pouco.
Gilliatt teve o movimento de um homem que desperta, travou da serra, cortou os oito cabos, depois, separado agora da pança apenas uns 10 pés, deu um salto, caiu dentro, pegou em um rolo de fio, fez quatro cabos, passou-os nas argolas preparadas de antemão e prendeu-se por ambos os lados da pança as quatro correntes do cano que uma hora antes ainda estavam presas na armirada da Durande.
Amarrada ao cano, Gilliatt desembaraçou a parte superior da máquina. Um pedaço do tombadilho da Durande ainda ali estava preso.
Gilliatt despregou-o e limpou a pança daquela porção de tábuas e vergas que atirou sobre os rochedos. útil alívio.
Demais, como é de prever, a pança sustentou com firmeza a carga da máquina. Mergulhou muito pouca coisa. A máquina da Durande, embora maciça, era menos pesada que o montão de pedras e o canhão trazido outrora de Herin pela pança.
Tudo estava acabado. Só restava ir-se embora.

INTERROMPE-SE O ÊXITO[editar]

Nem tudo estava acabado.
Abrir a entrada das Douvres, fechada pelo pedaço da armirada da Durande, e levar imediatamente a pança para fora do .
escolho, nada mais claro do que isto.
No mar todos os minutos são urgentes. Pouco vento, apenas uma ruga ao longe; a bela tarde prometia uma bela noite. O mar era de rosas, mas o refluxo começava; excelente momento para partir.
Gilliatt teria a vazante para sair das Douvres, e a enchente para entrar em Guernesey. Podia estar em Saint-Sampson de madrugada.
Mas apresentou-se um obstáculo inesperado. Houve uma lacuna na previdência de Gilliatt.
A máquina estava livre, o cano estava preso.
A maré, aproximando a pança da Durande, tinha diminuído os perigos da descida; mas essa diminuição do intervalo deixou a parte superior do cano metida na espécie de quadro que apresentava o bojo aberto da Durande. O cano estava preso como entre quatro paredes.
O serviço prestado pelo mar complicava-se com esta dissimulação.
Parece que o mar, obrigado a obedecer, teve uma segunda tenção.
É verdade que aquilo que a enchente fizera ia desfaze-lo a vazante.
O cano, tendo mais de 3 toesas, de altura, tinha uns 8 pés metidos na Durande; o nível da água aí baixaria 12 pés; o cano, descendo com a pança, teria 4 pés de espaço acima de si, e poderia sair.
Mas quanto tempo era preciso para isto? Seis horas.
Daí a seis horas seria meia-noite. Que meio tentaria Gilliatt para sair àquela hora, que canal tomaria através daqueles cachopos, já tão inextricáveis de dia, e como arriscar-se no meio da noite em semelhante emboscada de bancos de pedras?
Era força esperar até o dia seguinte. Aquelas seis horas perdidas faziam perder ao menos doze horas.
Era mesmo necessário não adiantar trabalho abrindo a entrada ao cachopo. O tapamento era preciso até a maré próxima.
Gilliatt devia repousar.
Cruzar os braços era a única coisa que ele não tinha feito desde que estava no escolho Douvres.
Irritou-o, indignou-o quase, como se fosse culpa dele, aquele descanso.
Disse consigo: Que pensaria de mim Déruchette se me visse aqui sem fazer nada?
Contudo, não lhe era inútil refazer as forças.
Estando a pança à sua disposição, Gilliatt resolveu passar a noite a bordo.
Foi buscar a pele de carneiro no alto da grande Douvre, desceu, comeu algumas conchas e duas ou três castanhas do mar, bebeu por ter muita sede os últimos goles da água doce do pichel quase vazio, embrulhou-se na pele cuja lã deu-lhe prazer ao corpo, deitou-se como um cão de guarda ao pé da máquina, abaixou o chapéu sobre os olhos e adormeceu.
Dormiu profundamente. Tem-se daqueles sonos depois das obras acabadas.

AS ADVERTÊNCIAS DO MAR[editar]

No meio da noite, bruscamente, e como por mola, Gilliatt acordou.
Abriu os olhos.
As Douvres, acima da cabeça dele, estavam iluminadas como pela reverberação de uma grande brasa branca. Havia em toda a fachada negra do escolho um reflexo de fogo.
Donde vinha o fogo?
Da água.
O mar estava extraordinário.
Parecia que a água incendiava-se. Onde os olhos alcançavam, no escolho e fora do escolho, flamejava o oceano. Não era uma flama vermelha; não se parecia com a grande flama viva das crateras e das fornalhas. Nenhuma crepitação, nenhum ardor, nenhum avermelhado, nenhum ruído. Rastilhos azulados imitavam na água as dobras de uma mortalha. Um grande clarão lívido estremecia na água. Não era incêndio; era o espectro dele.
Era uma coisa semelhante ao abrasamento lívido do interior de um sepulcro por uma chama ideal.
Imaginai trevas acesas.
A noite, a vasta noite turva e difusa, parecia ser um combustível daquele fogo gelado. Era uma claridade feita de cegueira. A sombra entrava como elemento naquela luz fantasma.
Os marinheiros da Mancha conhecem todas essas indescritíveis fosforescência, que advertem o navegante. Em parte alguma são mais surpreendentes do que no Grande V, perto de Isigny.
Diante desta luz as coisas perdem a realidade. Uma penetração fantástica torna-as como que transparentes. Os rochedos são apenas lineamentos. Os cabos das âncoras parecem barras de ferro ardentes. As redes dos pescadores parecem um crivo de fogo debaixo da água. Metade do remo é de ébano, a outra metade debaixo da água é de prata. Os pingos da água que caem dos remos fazem estrelas no mar. Todos os barcos arrastam um cometa.
Os marinheiros molhados e luminosos parecem homens que ardem. Mergulha-se a mão no mar e sai calçada de chama: é uma chama morta, não se sente. O braço parece um tição aceso. Vêemse as formas que estão no mar rolarem debaixo das vagas alumiadas.
A espuma cintila. Os peixes são línguas de fogo e uns peda- ços de relâmpago serpenteiam naquela pálida profundidade.
Gilliatt acordou porque o clarão atravessou-lhe as pálpebras fechadas.
Acordou a tempo.
A maré tinha descido; começava a encher de novo.
O cano da máquina, solto durante o sono de Gilliatt, ficou outra vez preso no casco do navio.
Subia lentamente.
Mais palmo e meio, e o cano estaria dentro da Durande.
Para isso ainda havia meia hora. Gilliatt, se quisesse aproveitar a ocasião, tinha essa meia hora diante de si.
Levantou-se sobressaltado.
Por mais urgente que fosse a situação, ele não pode deixar de ficar alguns instantes de pé, contemplando a fosforescência e meditando.
Gilliatt conhecia o mar a fundo. Embora tivesse sido muito maltratado por ele, o mar era já de muito tempo companheiro de Gilliatt.
Aquele ente misterioso que se chama oceano não podia ter nenhuma idéia que Gilliatt não a adivinhasse. Gilliatt, à força de observação, de cisma e de solidão, tornara-se um vidente do tempo, aquilo que se chama, em inglês, um wheater wise.
Gilliatt correu às amarras e guindou-as; depois, já não estando retido pelas âncoras, travou do croque da pança e, apoiando-se nas rochas, afastou-a para fora algumas braças distante da Durande perto do tapamento de tábuas. Havia rang, como dizem os marítimos de Guernesey. Em menos de dez minutos a pança estava fora do casco. Já não havia receio de que o cano pudesse ficar preso.
Entretanto, Gilliatt não se mostrava disposto a partir.
Contemplou ainda a fosforescência e levantou as âncoras; mas não era para navegar, era para ancorar de novo a pança, e muito solidamente; é verdade que o barco ficou junto da porta.
Até então só tinha usado das duas âncoras da pança, e não tinha ainda empregado a pequena âncora da Durande, achada, como se sabe, nos cachopos. Essa colocou-a ele, pronta para as urgências, num canto da pança entre marramos e polés, e juntamente o cabo guarnecido de boças. Gilliatt deitou ao mar essa terceira âncora, tendo cuidado de prender o cabo a outro cabo pequeno, cuja ponta passava na argola da âncora, ficando a outra ponta no ferro de guindar. Deste modo amarrou a pança com três âncoras, o que era mui forte. Indicava isto uma viva preocupação e um redobrar de cautelas. Qualquer marinheiro reconheceria, nessa opera- ção, alguma coisa semelhante a um deitar ferros obrigado, quando há a requeira uma corrente que possa fazer garrar o navio.

A fosforescência sobre a qual Gilliatt tinha os olhos fixos ameaçava-o talvez, mas ao mesmo tempo, servia-o. Se não fosse ela, Gilliatt era prisioneiro do sono e vítima da morte. Ela não só o despertou, senão que o alumiava também.
Havia no escolho uma luz opaca. Mas esse clarão, por mais assustador que parecesse a Gilliatt, foi-lhe útil porque tornou-lhe o perigo visível e a manobra possível.
Agora, quando Gilliatt quisesse abrir vela, a pança, carregando a máquina, estava livre.
Somente, Gilliatt parecia pensar cada vez menos em partir. Ancorada a pança, foi ele buscar a mais forte corrente que tinha no depósito e prendeu-a nos pregos metidos nas duas Douvres, fortificou com ela o baluarte de vergas e barrotes já protegido pelo lado de fora pela outra corrente. Longe de abrir caminho, Gilliatt tapava-o.
A fosforescência ainda iluminava, mas ia diminuindo. É verdade que o dia começava a romper.
De repente, Gilliatt prestou ouvidos.

PARA UM BOM ENTENDEDOR, MEIA PALAVRA BASTA[editar]

Pareceu-lhe ouvir, imensamente longe, um que de fraco e indistinto.
As profundezas, em certas horas, tem um certo rugido.
Gilliatt atentou pela segunda vez. O rumor longínquo recomeçou.
Gilliatt sacudiu a cabeça como quem sabia o que era.
Momentos depois, estava ele na outra extremidade da viela do escolho, na entrada de leste, livre até ali, e com grandes marteladas meteu grossos pregos no granito dos portais daquela abertura vizinha do rochedo Homem.
Os buracos desses rochedos estavam preparados e guarnecidos de cavilhas de madeira, quase tudo carvalho. O escolho desse lado estava escalavrado, tinha muitas fendas, e Gilliatt pode meter aí mais pregos ainda que no esvazamento das Douvres.
Num momento dado, e como se lhe soprassem de cima, a fosforescência apagou-se; o crepúsculo, cada vez mais luminoso, substituía-a.
Metidos os pregos, Gilliatt arrastou umas pranchas, depois cordas, depois correntes, e, sem desviar os olhos do trabalho, sem se distrair um momento, começou a construir na abertura do Homem, com tábuas fixadas horizontalmente e presas por cabos, um desses tapamentos de clarabóia, que a ciência já adotou, e qualifica de quebra-mar.
Os que viram, por exemplo, na Rocquaine em Guernesey, ou no Boury-deau na França, o efeito que fazem algumas estacas pregadas no rochedo, compreendem a força desses trabalhos símplices.
O quebra-mar é a combinação daquilo que na França se chama épico e daquilo que na Inglaterra se chama dick. O quebra-mar são os cavalos de frisa das fortificações contra as tempestades. Não se pode lutar contra o mar senão aproveitando a divisibilidade dessa força.
Entretanto, levantara-se o sol, perfeitamente puro. O dia estava claro, o mar calmo.
Gilliatt apressava o trabalho. Também ele estava calmo, mas na sua pressa havia ansiedade.
Passava, em grandes pulos, de rocha em rocha, do tapamento ao depósito e do depósito ao tapamento. Voltava puxando apressadamente, ora um gancho, ora um cabo. Manifestou-se então a necessidade daquele depósito de destroços. Era evidente que Gilliatt estava diante de uma eventualidade prevista.
Uma forte barra de ferro servia-lhe de alavanca para mover os barrotes.
O trabalho executava-se tão depressa que mais parecia um crescimento que uma construção. Quem não viu trabalhar um portageiro militar não pode fazer idéia daquela rapidez.
A abertura de leste era ainda mais estreita que a de oeste. Tinha apenas 5 ou 6 pés de largura. A estreiteza ajudava Gilliatt. Sendo estreito o espaço que tinha de fortificar e fechar, a armadura seria mais sólida e podia ser mais simples. Bastavam, pois, vigas horizontais; as peças verticais eram inúteis.
Postos os primeiros travessões do quebra-mar, Gilliatt trepou em cima e escutou.
O rugido tornava-se expressivo.
Gilliatt continuou a construção. Acrescentou-lhe dois cepos da Durande ligados às pontas das vigas com driças passadas nas três rodas das polés. Ligou tudo com correntes.
Essa construção era nada menos que uma espécie de grade colossal; as pranchas eram as tenazes e as correntes eram os vimes.
Parecia entrançado como parecia construído.
Gilliatt multiplicou os laços e pós mais pregos on preciso.
Tendo muito ferro redondo na Durande, pode faze grande provisão desses pregos.
Ao mesmo tempo que trabalhava ia mastigando. Tinha sede, mas não podia beber, por já não ter água Esgotara o pichel na noite anterior.
Acrescentou ainda quatro ou cinco tábuas, depois em cima de tudo. Escutou.
Cessou o rumor ao longe e calava-se tudo.
O mar estava manso e soberbo; merecia todos os madrigais que lhe dirigem os burgueses quando estão contentes com ele - um espelho, um mar de rosas, um tanque, um mar de leite. O azul profundo do céu correspondia ao verde profundo do oceano. Aquela safira e aquela esmeralda podiam admirar-se ambas. Não tinham de que exprobrar-se. Nenhuma nuvem em cima, nenhuma espuma embaixo. No meio desse esplendor subia magnificamente o sol de abril. Era impossível ver mais belo dia.
No extremo horizonte uma fila negra de aves que atravessavam o céu. Iam depressa. Dirigiam-se para a terra. Parecia uma fuga.
Gilliatt continuou a levantar o quebra-mar.
Levantou-o o mais alto que pôde, tão alto como lhe permitiu a curvatura dos rochedos.
Ao meio-dia, o sol pareceu-lhe mais quente do que estar. Meio-dia é a hora crítica do dia. Gilliatt, de pé na robusta clarabóia que acabava de construir, entrou a contemplar a extensão.
O mar estava mais que tranqüilo, estava estagnado. Não se via uma vela. O céu estava límpido; somente o azul tornara-se mais branco. Era um branco singular. No horizonte, a oeste, havia uma manchazinha de aparência ruim. Essa mancha estava imóvel, mas crescia. Junto dos cachopos o mar palpitava brandamente.
Gilliatt fizera bem em construir o quebra-mar.
Aproximava-se uma tempestade.
O abismo resolvera dar batalha.