Os Trabalhadores do Mar/Parte II/Livro IV

Wikisource, a biblioteca livre
Ir para: navegação, pesquisa
Terceira Parte- Livro Quarto-O FORRO DO OBSTÁCULO

<Os Trabalhadores do Mar

<Autor:Victor Hugo

Tradução: Machado de Assis


QUEM TEM FOME ACHA MAIS QUEM TENHA[editar]

Quando Gilliatt acordou, teve fome.
Acalmava-se o mar. Havia, porém, alguma agitação ao largo, que impedia a partida imediata. Demais, o dia já estava adiantado.
Com o carregamento da pança, para chegar a Guernesey antes da meia-noite, era preciso sair de manhã.
Embora a fome urgisse, Gilliatt começou por despir-se, único meio de aquecer-se.
As roupas estavam molhadas da chuva, mas a água da chuva lavara a água do mar, o que fez com que agora pudessem secar as roupas.
Gilliatt apenas ficou com as calças, que arregaçou até os joelhos.
Estendeu, com pesos em cima, nas saliências do- rochedo, todo o resto da roupa.
Depois pensou em comer.
Gilliatt recorreu à faca que teve o cuidado de afiar e tê-la em bom estado, e arrancou do granito alguns mariscos. Comeu-os crus.
Mas, depois de tantos trabalhos, fraca era a pitança. Já não tinha biscoito. Quanto à água, não lhe faltava. Estava mais que saciado, estava inundado.
Aproveitou a vazante para perlustrar os rochedos à cata de lagostas. Já havia muita rocha descoberta; podia apanhar boa caça.
Somente não refletia ele que já não podia cozer peixe algum. Se tivesse de ir ao depósito, veria tudo derrubado pela chuva. O pau e o carvão estavam encharcados e da provisão de estopa que lhe servia de isca, não tinha um fio que não estivesse molhado. Não havia meio de sacar fogo.
De resto, o fole estava desorganizado; a tempestade saqueou-lhe o laboratório. Com o resto da ferramenta, Gilliatt, a rigor, podia ainda trabalhar de carpinteiro, não de forja. Mas Gilliatt, naquele momento, não pensava na oficina.
Empuxado pelo estômago, sem mais reflexão, entrou a procurar comida. Estava, não na garganta do escolho, mas fora, nas dobras dos cachopos. Foi desse lado que a Durande, dez semanas antes, esbarrara nas pedras.
Para a caça que Gilliatt fazia, o exterior da viela valia mais que o interior. Os caranguejos, nas águas baixas, tem costume de tomar ar. Aquecem-se ao sol. Amam o sol aqueles entes disformes. É uma coisa estranha a saída deles em plena luz. Quase indigna-se a gente com eles. Quando os vemos, com seu aspecto oblíquo, subir pesadamente, um por um, os andares inferiores dos rochedos como degraus de uma escada, acreditamos por força que o oceano também tem os seus piolhos.
Desses piolhos vivia Gilliatt há dois meses.
Contudo nesse dia os caranguejos e as lagostas andavam escondidos. A tempestade empurrara aqueles solitários para os seus esconderijos, e ainda não se animavam a sair. Gilliatt tinha na mão a faca aberta, e arrancava de quando em quando uma concha debaixo do sargaço. Comia andando.
Não devia estar longe do lugar onde se perdera o Sr. Clubin.
Quando Gilliatt já se resignara aos ouriços e castanhas do mar, fez-se um movimento a seus pés. Um grande caranguejo, assustado com a presença dele, tinha pulado na água. O caranguejo não mergulhou tanto que Gilliatt não o visse.
Gilliatt começou a correr atrás do caranguejo no esvazamento da rocha. O caranguejo fugia.
De repente, não viu mais nada.
O caranguejo metera-se por algum buraco debaixo do rochedo.
Gilliatt atracou-se aos relevos da pedra e esticou o pescoço para ver se via alguma coisa.
Havia, com efeito, uma anfratuosidade. O caranguejo devia ter-se refugiado aí.
Era mais que uma fenda, era um pórtico.
O mar entrava por baixo desse pórtico, mas não era profundo. Via-se o fundo coberto de pedrinhas. Essas pedrinhas eram esverdeadas e revestidas de filamentos, o que indicava que nunca estavam a seco. Assemelhavam-se a cabeças de crianças com cabelos verdes.
Gilliatt pôs a faca nos dentes, desceu do alto da rocha e saltou na água. Teve água quase até os ombros. Meteu-se pelo pórtico. Achou-se num corredor gasto, com um esboço de abóbada ogival por cima. As paredes eram polidas e lisas. Já não via o caranguejo. Tomara pé. Caminhava e diminuía-se a luz. Começou a não ver coisa alguma.
Depois de quinze passos, cessou a abóbada. Estava fora do corredor. Havia mais espaço, e por conseqüência mais luz; as pupilas tinham-se-lhe dilatado; via bem. Teve uma surprêsa.
Acabava de entrar naquela cava estranha visitada por ele um mês antes.
Somente, desta vez entrou pelo mar.
Aquela arcaria que ele vira afogada era a mesma por onde agora passou. Em certas marés baixas era praticável.
Os olhos iam-se acostumando ao lugar. Via cada vez melhor. Estava estupefato. Tornava a achar aquele extraordinário palácio da sombra, aquela abóbada, aqueles pilares, aqueles rubros, aquela vegetação de pedras, e no fundo aquela cripta, quase santuária, e aquela pedra, quase altar.
Não se lhe despertava muito os pormenores, mas tinha no espírito a idéia do todo, e reconheceu.
Via diante dele, em certa altura, na rocha, o buraco por onde penetrou a primeira vez, e que, do ponto onde estava agora, parecia inacessível.
Tornara a ver, perto da arcaria ogival, as grotas baixas e obscuras, espécie de cavas na cava, que já observara de longe. A que ficava mais perto dele estava a seco e era fácil de se lhe chegar.
Mais perto ainda que essa descobriu ele, ao alcance da mão, uma fenda horizontal no granito. Provavelmente estava ali o caranguejo. Meteu a mão o mais que pode, e procurou às apalpadelas naquele buraco de revas.
De repente, sentiu que lhe agarravam no braço.
O que ele experimentou, nesse momento, foi o horror indescritível.
Uma coisa que era delgada, áspera, chata, gelada, pegajosa e viva torcia-se na sombra à roda de seu braço nu, e subia-lhe para o peito. Era a pressão de uma correia, e o impulso de uma verruma. Em menos de um segundo, uma espécie de espiral tinha-lhe invadido o punho e o cotovelo e tocava-lhe o ombro. A ponta metia-se-lhe no sovaco.
Gilliatt atirou-se para trás, e mal pode fazê-lo. Estava como que pregado. Com a mão esquerda que ficava livre pegou na faca que tinha entre os dentes, e com essa mão, que segurava a faca, apoiou-se no rochedo com um esforço desesperado para sacar o braço. Só conseguiu inquietar a ligadura, que se apertou mais. Era flexível como o couro, sólida como o aço, fria como a noite.
Outra correia, estreita e pontuda, saiu do buraco da rocha. Era uma espécie de língua saindo de uma goela. Lambeu medonhamente o corpo nu de Gilliatt, e, de repente, esticando-se, desmedida e fina, aplicou-se-lhe na pele e enrolou-se no corpo. Ao mesmo tempo um sofrimento inaudito, sem comparação neste mundo, levantava os músculos de Gilliatt. Sentia que lhe abriam a pele em muitos pontos, de um modo horrível. Parecia-lhe que inúmeros lábios, pregados à carne, procuravam beber-lhe o sangue.
Terceira correia saiu fora do rochedo, apalpou Gilliatt e chicoteou-lhe os lados como uma corda. Afinal fixou-se como as outras.
A angústia, no paroxismo, é muda. Gilliatt não soltou um grito. Havia bastante luz para que ele pudesse ver as formas repelentes aplicadas ao corpo dele.
Quarta ligadura, esta rápida como uma flecha, saltou-lhe a roda do ventre e enrolou-se-lhe.
Era impossível cortar e nem arrancar aquelas correias viscosas que aderiam estreitamente ao corpo de Gilliatt e por muitíssimos pontos. Cada um desses pontos era um fogo de terrível e estranha dor. Era o que sentiria quem fosse engolido ao mesmo tempo por uma porção de bocas pequeninas.
Quinta ligadura rompeu do tronco. Sobrepôs-se às outras e foi enroscar-se no diafragma de Gilliatt. A compressão ajuntava-se à ansiedade. Gilliatt mal podia respirar.
Aquelas ligaduras, pontudas na extremidade iam alargando como lâminas de espada para o punho. Todas cinco pertenciam evidentemente ao mesmo centro. Caminhavam e arrastavam-se para Gilliatt. Ele sentia deslocarem-se essas pressões obscuras que lhe pareciam bocas.
Bruscamente uma larga viscosidade redonda e chata saiu de dentro da rocha. Era o centro; as cinco ligaduras prendiam-se a ele, como raios a um eixo; distinguiam-se do lado oposto daquele disco imundo o começo de outros três tentáculos, presos no fundo do buraco. No meio dessa viscosidade havia dois olhos.
Olhavam eles para Gilliatt.
Gilliatt reconheceu que era uma "pievre"

O MONSTRO[editar]

Para acreditar na pieuvre é preciso te-la visto.
Comparadas à pieuvre, as velhas hidras fazem sorrir.
Em certos momentos parece que o elemento fugitivo que flutua em nossos sonhos encontra na realidade ímãs aos quais esses lineamentos se prendem, e dessas obscuras ficções do sonho surgem criaturas. O ignoto dispõe do prodígio e serve-se dele para compor o monstro. Orfeu, Homero e Hesíodo só puderam fazer a quimera; Deus fez a pieuvre.
Quando Deus quer, excede no execrável. A razão desta vontade é o medo do pensador religioso.
Admitidos todos os ideais, se o terror é um fim, a pieuvre é uma obra-prima.
A baleia é enorme, a pieuvre é pequena; o hipopótamo tem uma couraça, a pieuvre é nua; a jararaca tem um silvo, a pieuvre é muda; o rinoceronte tem um chifre, a pieuvre não tem chifre; o escorpião tem um dardo, a pieuvre não tem dardo; o macaco tem uma cauda, a pieuvre não tem cauda; o tubarão tem barbatanas cortantes, a pieuvre não tem barbatanas; o vespertílio-vampiro tem asas com unhas, a pieuvre não tem asas; o porco-espinho tem espinhos, a pieuvre não tem espinho; o espadarte tem um gládio, a pieuvre não tem gládio; o torpedo tem um raio, a pieuvre não tem raio; o sapo tem um vírus, a pieuvre não tem vírus; a víbora tem veneno, a pieuvre não tem veneno; o leão tem garras, a pieuvre não tem garras.o gipaeto tem um bico, a pieuvre não tem bico; o crocodilo tem uma goela, a pieuvre não tem dentes.
A pieuvre não tem massa muscular, nem grito ameaçador, nem couraça, nem chifre, nem dardo, nem cauda, nem barbatanas, nem asas, nem espinhos, nem espada, nem descarga elétrica, nem vírus, nem veneno, nem garras, nem bico, nem dentes. A pieuvre é, de todos os animais, o mais formidavelmente armado.
O que é a pieuvre? É a ventosa.
Nos escolhos em pleno mar, onde a água mostra e esconde todos os seus esplendores, nas cavas de rochedos não visitadas, nas cavas desconhecidas onde abundam as vegetações, os crustáceos e as conchas, debaixo dos profundos pórticos do oceano, o nadador que se arrisca, arrastado pela beleza do lugar, corre o risco de um encontro. Se tiveres esse encontro, não sejas curioso, foge. Entra-se fascinado, sai-se apavorado.
Eis o que é esse encontro sempre possível nas rochas do mar alto.
Uma forma cinzenta oscila na água, da grossura de 1 braça e de meia vara de comprido; é um trapo; essa forma assemelha-se a um guarda-chuva sem capa; a pouco e pouco o trapo caminha para o homem. De repente abre-se, oito raios saem bruscamente da roda de uma face que tem dois olhos; esses raios vivem; flamejam ondeando; é uma espécie de roda desenrolada, tem 4 ou 5 pés de diâmetro. Desenrolamento medonho. Atira-se ao infeliz.
A hidra arpoa o homem.
Este animal aplica-se à sua presa, cobre-a, envolve-a com os seus longos braços. Por baixo é amarelada, por cima é térrea; nada pode imitar esse inexplicável matiz de poeira; dissera-se um animal feito de cinza, e morando na água. É aracnídeo pela forma, é cameleão pelo colorido. Irritada, torna-se roxa. Coisa horrível, é flácida.
Os seus nós garroteiam; o seu contato paralisa.
Tem um aspecto de escorbuto e de gangrena. É a moléstia feita monstruosidade.
Não se pode arrancá-la; agarra-se estreitamente à sua presa.
Como? Pelo vácuo.
As oito antenas, largas na origem, vão estreitando-se e terminam como agulhas; debaixo de cada uma delas alongam-se paralelamente duas filas de pústulas decrescentes, as grossas perto da cabeça, as pequenas na ponta, e cada fila tem 25. Há cinqüenta pústulas em cada antena, e todo o animal tem quatrocentas. Essas pústulas são ventosas.
As ventosas são cartilagens cilíndricas e lívidas. Na grande espécie vão diminuindo de diâmetro - desde uma moeda de 5 francos até a grossura de urna lentilha. Esses pedaços de tubos saem e entram no animal. Podem meter-se no corpo de um homem mais de 1 polegada.
Este aparelho de sucção tem a delicadeza de um teclado. Levanta-se, esconde-se. Obedece à menor intenção do animal. As sensibilidades mais delicadas não igualam à contratibilidade dessas ventosas, sempre proporcionadas aos movimentos internos do bicho e aos incidentes externos. Este dragão é uma sensitiva.
Este monstro é aquele que os marinheiros chamam polvo, que a ciência chama cefalópode e a que a legenda chama kraken. Os marinheiros ingleses chamam-no devil-fish, o peixe-diabo. Chamam-no também blood-sucker, chupador de sangue. Nas ilhas da Mancha chamam-na pieuvre.
É muito rara em Guernesey, muito pequena em Jersey, muito grande e freqüente em Serk.
Uma estampa da edição de Buffon por Sonnini representa um cefalópode estreitando uma fragata. Dionísio Montfort pensa que na verdade o polvo das altas latitudes pode meter um navio a pique. Bory Saint-Vincent nega-o, mas atesta que nas nossas regiões o polvo ataca o homem. Quem for a Serk verá perto de Brecq-Hou, o buraco do rochedo onde uma pieuvre há anos agarrou, reteve e afogou um pescador de lagostas. Peron e Lamarck enganam-se quando duvidam que o polvo, não tendo barbatanas, possa nadar. Aquele que escreve estas linhas viu com seus próprios olhos, em Serk, na cova das Lojas, uma pieuvre perseguir, a nado, um homem que tomava banho. Foi morta e medida; tinha 4 pés ingleses de largura e pode-se contar quatrocentos chupadores.
O bicho agonizante atirava-os para longe de si convulsamente.
Segundo Dionísio Montffort, um desses observadores, cuja alta intuição faz descer ou subir até o magismo, o polvo tem quase as paixões do homem; o polvo odeia. E no absoluto ser hediondo é odiar.
O disforme debate-se debaixo de uma necessidade de eliminação que o torna hostil.
A pieuvre nadando conserva-se, por assim dizer, na bainha. Nada com as antenas fechadas. Imaginem uma manga cosida com um punho dentro. Esse punho, que é a cabeça, impele o líquido e avança com um vago movimento ondulatório; os dois olhos, embora grandes, são pouco distintos por serem da cor da água.
A pieuvre, quando espreita a caça, esquiva-se; diminui-se, condensa-se; reduz-se à mais simples expressão. Confunde-se com a penumbra. Parece uma dobra de vaga. Assemelha-se a tudo, exceto a coisa viva.
A pieuvre é o hipócrita. Não se repara nela; repentinamente, abre-se.
Que há aí de mais medonho que isso: uma viscosidade com uma vontade! O viscoso amassado de ódio.
É no mais belo azul da água límpida que surge essa hedionda estrela voraz do mar. O que é terrível é que não se sente de longe.
Quando a gente a vê, já está agarrada.
Contudo, à noite, e particularmente na estação do desejo, a pieuvre é fosfórica; aquele pavor tem os seus amores. Aguarda o himeneu.
Faz-se bela, ilumina-se, e, do alto de algum rochedo, pode-se vê- la nas profundas trevas aberta numa irradiação, sol espectro.
A pieuvre anda; também nada. É um tanto peixe e um tanto réptil.
Arrasta-se no fundo do mar. Utiliza as suas oito pernas. Roja-se como a lagarta.
Não tem osso, nem sangue e nem carne. É flácida. Não tem nada dentro. É uma pele. Pode-se virar-lhe os tentáculos de dentro para fora, como dedos de uma luva.
Tem um só orifício no centro dos oito raios.
É fria toda ela.
Repelente bicho, é um do mediterrâneo. É um contato hediondo, essa gelatina animada que envolve o nadador, onde as mãos mergulham, onde as unhas trabalham, bicho que se rasga sem matar, e que se puxa sem tirar, espécie de criatura resvaladiça e tenaz, que escorrega entre os dedos; mas nada iguala a súbita aparição da pieuvre, Medusa servida por oito serpentes.
Não há aperto igual ao do cefalópode.
É uma máquina pneumática que ataca. Luta-se com o nada ornado de patas. Nem unhas nem dentes; uma escarificação indizível.
Uma mordedura é temível; é menos ainda que uma sucção. A garra não iguala a ventosa. A garra é o animal que entra na carne; a ventosa é o homem que entra no bicho. Incham-se os músculos, torcem-se as fibras, rebenta a pele, debaixo de um peso imundo, jorra o sangue, e mistura-se horrivelmente à linfa do molusco. O bicho sobrepõe-se ao homem por mil bocas infames; a hidra incorpora-se ao homem; o homem amalgama-se à hidra. Ficam sendo um só. Pesa aquele sonho. O tigre pode antes apenas devorar; o polvo (horror!) aspira. Puxa o homem a si e em si, e, atado, enviscado, impotente, o homem sente-se lentamente esvaziado naquele terrível saco, que é um monstro.
Além do terrível, que é ser comido vivo, há o inexprimível, que é ser bebido vivo.
Essas estranhas animações são ao princípio rejeitadas pela ciência, segundo o hábito de sua excessiva prudência; depois estuda-as, descreve-as, classifica-as, inscreve-as, põe-lhes rótulos, procura exemplares; expõe-nas em museus; elas entram na nomenclatura; ela os qualifica moluscos, invertebrados, raiados; verifica-lhes as fronteiras; um pouco além os calamares, um pouco aquém os depiários; para estas hidras da água salgada acham um análago na água doce, o argironete; divide-as em grande, média e pequena espécie; admite mais facilmente a pequena espécie que a grande, o que é, em todas as regiões, a tendência da ciência, a qual é mais microscópica que telescópica; olha a sua construção e chama-os cefalópodes; conta as suas antenas e chama-os octópodes. Feito isto, deixa-os assim. Onde a ciência os larga, a filosofia os retoma.
A filosofia estuda por sua vez esses entes. Ela vai menos longe e mais longe que a ciência. Não os disseca, medita-os.

Onde o escalpelo trabalhou, imerge a hipótese. Procura a causa final. Profundo tormento de pensador. Essas criaturas o inquietam quase sobre o criador. São as surpresas; hediondas. São os perturbadores, do contemplativo. Ele as verifica desvairado. São as formas intencionais do mal. Que fazer diante dessas blasfemais da criação contra si própria? A quem deve ele queixar-se? O possível é uma matriz formidável. O mistério concentra-se em monstros. Lanhos de sombra saem deste penedo - a iminência -, rasgam-se, destacam-se, rolam, flutuam, condensam-se, enchem-se do negrume ambiente, recebem as polarizações desconhecidas, tomam vida, compõem uma forma com obscuridade e uma alma com o miasma, e vão-se, larvas através da vitalidade. É alguma coisa semelhante às trevas feitas animais. Por que? Para que? Volta a questão eterna.
Esses animais são fantasmas e monstros, a um tempo. São provados e improváveis. Ser é o fato, não ser é o direito. São os anfíbios da morte. A sua inverossimilhança complica a sua existência.
Tocam a fronteira humana e povoam o limite quimérico. Negais o vampiro, aparece a pieuvre. É uma certeza que desconcerta a nossa segurança. O otimismo, que é a verdade, perde-se quase diante deles. São a extremidade visível dos círculos negros. Marcam a transição da nossa realidade a outra. Parecem pertencer a esse começo de entes terríveis que o sonhador entreve confusamente na noite.
Esses prolongamentos de monstros, no invisível ao princípio, no possível depois, foram suspeitados, vistos talvez, pelo êxtase severo, e pelo olhar fixo dos magos e dos filósofos. Daí a conjetura de um inferno. O demônio é o tigre do invisível. A besta feroz das almas foi denunciada ao gênero humano por dois visionários, um que se chama João, outro que se chama Dante.
Se, com efeito, os círculos da sombra continuam indefinidamente, se, depois de um anel há outro, se isto vai em progressão ilimitada, se existe a cadeia, de que estamos resolvidos a duvidar, é certo que a pieuvre numa extremidade prova Satanás na outra.
É certo que o mau num limite prova a maldade no outro.
Todo animal feroz, como toda inteligência perversa, é esfinge.
Esfinge terrível, propondo o enigma terrível. O enigma do mal.
Essa perfeição do mal é que faz inclinar às vezes os grandes espíritos para a crença do Deus duplo, para o tremendo bifronte dos maniqueus.
Uma rede chinesa, roubada na última guerra, no palácio do império da China, representa o tubarão comendo o crocodilo, o qual come a serpente, a qual come a águia, a qual come a andorinha, a qual come a lagarta.
Toda a natureza devora ou é devorada. As presas mastigam-se umas às outras.
Entretanto os sábios que também são filósofos, e por conseqüência benévolos para a criação, acham ou acreditam achar a explica ção disto. O fim destas coisas aparece, entre outros, a Bonnet de Genebra, aquele misterioso espírito exato, que foi oposto a Buffon, como mais tarde Geoffroy Saint-Hilaire o foi a Cuvier. A explicação dizem ser esta: a morte exige a inumação. Esses vorazes são coveiros.
Todas as criaturas entram urnas nas outras. Podridão é alimentação. Assustadora limpeza do globo. O homem, carnívoro, também é coveiro. A nossa vida é feita de morte. Tal é a lei terrífica. Somos sepulcros.
No nosso mundo crepuscular, esta fatalidade da ordem produz monstros. Perguntais: por que? É por isto.
Será isto a explicação? Será esta a resposta? Mas então por que não será outra a ordem? Reaparece a questão.
Vivamos, seja.
Mas façamos com que a morte nos seja progresso. Aspiremos aos mundos menos tenebrosos.
Sigamos a consciência que nos leva para lá.
Porquanto, não o esqueçamos nunca, o preferível só é achado pelo melhor.

OUTRA FORMA DE COMBATE NO ABISMO[editar]

Tal era o animal a quem, desde alguns instantes, Gilliatt pertencia.
Aquele monstro era o habitante daquela grota. Era o medonho gênio do lugar. Espécie de sombrio demônio da água.
Todas essas magnificência tinham por centro o horror.
Um mês antes, no dia que pela primeira vez Gilliatt penetrou na caverna, a forma escura, entrevista por este nas dobras da água secreta, era aquela pieuvre.
Estava ela em sua casa.
Quando Gilliatt, entrando pela segunda vez na caverna, em busca do caranguejo, viu o buraco onde pensou que o caranguejo se tivesse refugiado, a pieuvre estava no seu buraco à espreita.
Pode-se imaginar esta espera?
Nenhum pássaro ousaria chocar, nenhum Ovo ousaria abrir, nenhuma flor ousaria desabrochar, nenhum seio ousaria aleitar, nenhum coração ousaria amar, nenhum espírito ousaria voar, se pensasse nas sinistras emboscadas do abismo.
Gilliatt metera o braço no buraco; a pieuvre agarrou-o.
Gilliatt estava preso.
Era a mosca daquela aranha.
Gilliatt tinha água até a cintura, os pés agarrados nos seixos arredondados e resvaladiços, com o braço direito atado pelas correias da pieuvre, e o tronco do corpo desaparecendo quase debaixo das dobras e cruzamentos daquela atadura horrível.
Dos oitos braços da pieuvre, três aderiam à rocha, cinco aderiam a Gilliatt. Deste modo agarrados ao granito por um lado e ao homem pelo outro, encadeavam Gilliatt ao rochedo. Gilliatt tinha em si chupadores. Complicação de angústia e de enjôo. Estava apertado dentro de uma grande mão, cujos dedos elásticos e do comprimento de 1 metro, são inteiramente cheios de pústulas vivas que lhe fuçavam na carne.
Já o dissemos, não se pode arrancar a pieuvre. Quem o tenta, fica mais fortemente amarrado. Ela aperta-se mais. O seu esforço cresce na razão do esforço do homem. Quanto maior é a sacudidela, maior é a constrição.
Gilliatt só tinha um recurso, a faca.
Tinha a mão esquerda livre; é sabido que ele usava dela poderosamente.
Podia dizer-se que tinha duas mãos direitas.
Nessa mão tinha ele a faca aberta.
Não se cortam as antenas da pieuvre; é um couro impossível de cortar, resvala debaixo da lâmina; demais, a superposição é tal que um corte nessas correias iria até à carne.
O polvo é formidável, há, contudo, uma maneira de vence-o. Os pescadores de Serk o sabem; quem os viu executar no mar certos movimentos bruscos, também o sabe. Os ouriços do mar também conhecem esse modo. O polvo, na verdade, só é vulnerável na cabeça.
Gilliatt não o ignorava.
Nunca tinha visto uma pieuvre daquele tamanho. Logo da primeira vez, achava-se agarrado pela grande espécie. Qualquer outro terse-ia perturbado.
Há um momento para vencer a pieuvre, como o touro; é o instante em que o touro curva o pescoço, é o instante em que a pieuvre estica a cabeça; instante rápido. Quem o deixa escapar está perdido.
Tudo o que acabamos de dizer passou-se em alguns minutos. Gilliatt sentia crescer a sucção das 250 ventosas.
A pieuvre é traidora. Procura apavorar a presa. Agarra e espera o mais que pode.
Gilliatt tinha a faca na mão. As sucções aumentavam.
Ele olhava para a pieuvre, a pieuvre olhava para ele.
De repente, o bicho desprendeu do rochedo e, atirando-a sobre Gilliatt, procurou agarrar-lhe o braço esquerdo.
Ao mesmo tempo esticou vivamente a cabeça. Mais um segundo e a sua boca aplicar-se-ia sobre o peito de Gilliatt. Gilliatt, sangrado no corpo e preso pelos braços, estaria morto.
Mas Gilliatt vigiava. Espreitado, espreitava.
Evitou a antena, e, no momento em que o bicho ia agarrar-lhe o peito, a sua mão armada abateu-se sobre o bicho.
Houve duas convulsões em sentido inverso: a da pieuvre e a de Gilliatt.
Foi luta de dois relâmpagos.
Gilliatt mergulhou a ponta da faca na vistosidade chata e, com um movimento giratório semelhante à torção de uma chicotada, fazendo um círculo à roda dos dois olhos, arrancou a cabeça como quem arranca um dente.
Estava acabado.
O bicho caiu.
Parecia uma roupa que se desprende. Destruída a bomba aspirante, desfez-se o vácuo. As quatrocentas ventosas largaram ao mesmo tempo o rochedo e o homem. Aquele andrajo foi ao fundo da água.
Gilliatt, ofegante da luta, pode ver a seus pés, em cima das pedras do fundo, dois montes gelatinosos e informes, a cabeça de um lado, o resto de outro. Dizemos resto, porque não se poderia dizer corpo.
Gilliatt, contudo, receando algum ataque convulsivo da agonia, colocou-se fora de alcance dos tentáculos.
Mas o animal estava bem morto. Gilliatt fechou a faca.

NADA SE ESCONDE, NADA SE PERDE[editar]

Era tempo de matar a pieuvre. Gilliatt estava quase sem fôlego; tinha o braço direito e o corpo roxos; esboçavam-se neles mais de duzentos tumores; alguns vertiam sangue. O remédio para essas lesões é a água salgada; Gilliatt mergulhou na água. Ao mesmo tempo esfregava-se com a palma da mão e os tumores desapareciam.
Recuando e mergulhando na água, achou-se ele próximo da espécie de cava que ficava ao pé do buraco onde a pieuvre o agarrou.
A cava prolongava-se obliquamente, e a seco, debaixo das grandes paredes da caverna. Os seixos que ali se tinham ajuntado levantavam o fundo acima das marés ordinárias. Essa anfratuosidade era um largo címbrio abatido, um homem podia entrar curvando-se. A claridade verde da caverna penetrava ali e iluminava-a fracamente.
Aconteceu que, esfregando a pele intumescida, Gilliatt levantou maquinalmente os olhos. Olhou para dentro da cava. Estremeceu.
Pareceu-lhe ver no fundo desse buraco, na sombra, uma espécie de cara rindo.
Gilliatt ignorava a palavra alucinação, mas conhecia a coisa. Os misteriosos encontros com o inverossímil, que chamamos alucinações, existem na natureza. Ilusões ou realidades, as visões aparecem.
Quem está presente vê-as passar. Gilliatt, como dissemos, era um pensativo. Tinha a grandeza de ser às vezes alucinado como um profeta. Não se é impunemente sonhador dos lugares solitários.
Acreditou em uma dessas miragens das quais, homem noturno como era, mais de uma vez teve. medo.
Era um nicho baixo, em forma de asa de cesto, cujas curvaturas abruptas, iam estreitando-se até a extremidade da cripta onde os seixos e a abóbada se juntavam e fechavam.
Gilliatt entrou e, inclinando a cabeça, dirigiu-se para o que estava no fundo.
Era, com efeito, alguma coisa que ria.
Era uma caveira.
Não havia só a caveira, havia também o esqueleto.
Um esqueleto humano estava deitado na cava.
O olhar de um homem audaz, em tais ocasiões, quer saber das coisas a fundo.
Gilliatt olhou em roda de si.
Estava cercado de uma porção de caranguejos.
Não se mexiam eles. Era o aspecto de um formigueiro morto. Todos os caranguejos estavam mortos. Estavam vazios.
Os grupos, semeados, faziam no chão de seixos que enchiam a cava constelações disformes.
Gilliatt, com o olhar fito em outra parte, caminhara por cima sem reparar.
Na extremidade da cripta onde chegara Gilliatt, havia maior espessura.
Era um montão imóvel de antenas, de patas e de mandíbulas.
Pinças abertas conservavam-se direitas, e já se não fechavam.
As caixas de ossos não se mexiam debaixo de sua crosta de espinhos; algumas viradas mostravam o interior lívido. Este amontoado parecia uma multidão de sitiantes e tinha o entravamento de um espinheiro.
Debaixo desse montão estava o esqueleto.
Via-se, debaixo dessa porção de tentáculos e escamas, o crânio com as estrias, as vértebras, os fêmures, as tíbias, os longos dedos nodosos, com unhas. As costelas estavam cheias de caranguejos.
Tinha palpitado ali algum coração. Os buracos dos olhos estavam atapetados de bolor marinho. Algumas conchas tinham deixado a sua baba nas fossas nasais. Não havia nesse recanto da caverna nem sargaços, nem ervas, nem sopro de ar. Nenhum movimento.
Os dentes riam.
O lado assustador do riso é a imitação que faz dele uma caveira.
Aquele maravilhoso palácio do abismo bordado e incrustado de todas as pedrarias do mar revelava por fim o seu segredo. Era um covil, a pieuvre morava aí; e era uma tumba, aí jazia um homem.
A imobilidade espectral do esqueleto e dos moluscos oscilava vagamente, por causa da reverberação das águas subterrâneas que tremia naquela petrificação. Os caranguejos, mistura medonha, pareciam ter acabado a sua refeição. Aquelas cascas pareciam comer aquele esqueleto. Nada mais estranho do que aquela bicharia morta, sobre aquele homem finado. Sombrias continuações da morte.
Gilliatt tinha, diante de si, o armário da pieuvre.
Visão lúgubre, donde surgia o horror profundo das coisas. Os caranguejos tinham comido o homem, a pieuvre tinha comido os caranguejos.
Não havia nenhum resto de roupa ao pé do cadáver. O homem devia ter sido agarrado nu.
Gilliatt, atento e examinando, começou a tirar os caranguejos de cima do homem. Quem era esse homem? O cadáver estava admiravelmente dissecado. Dissera-se uma preparação de anatomia; toda a carne estava eliminada; já não restava nenhum músculo. Se Gilliatt fosse do oficio, reconheceria isso. Os periósteos estavam brancos, polidos e como que lustrados. Sem alguns filamentos verdes que apareciam aqui e ali, seria marfim puro. As divisões cartilaginosas estavam delicadamente afiladas. A tumba faz essas joalherias sinistras.
O cadáver estava como que enterrado debaixo dos caranguejos mortos. Gilliatt desenterrava-o.
De repente, inclinou-se vivamente.
Acabava de ver, à roda da coluna vertebral, uma espécie de atilho.
Era um cinto de couro, que evidentemente fora atado ao ventre do homem antes de morrer.
O couro estava cheio de mofo. A fivela estava enferrujada.
Gilliatt puxou o cinto; as vértebras resistiram, e Gilliatt teve de quebrá-las, para tirar o cinto. O cinto estava intato. Começava a formar-se nele uma crosta de conchas.
Gilliatt apalpou o cinto, e sentiu um objeto duro de forma quadrada no interior. Não era possível abrir a fivela, Gilliatt cortou o couro com a faca.
O cinto continha uma caixinha de ferro e algumas moedas de ouro.
Gilliatt contou 20 guinéus.
A caixinha era uma velha boceta de marinheiro, abrindo-se por mola. Estava muito enferrujada. A mola, completamente oxidada, já não funcionava.
A faca veio em auxílio de Gilliatt. Com a ponta da lâmina, fez ele pular a tampa da boceta.
A boceta abriu-se.
Só havia papel dentro dela.
Um macinho de folhas rinas, dobradas em quatro, estava no fundo da boceta. Estavam úmidas, mas não alteradas. A boceta, hermeticamente fechada, preservou-as. Gilliatt abriu-as.
Eram três notas do banco de 1000 libras esterlinas cada uma, formando uma soma de 75 000 francos.
Gilliatt dobrou-as, Po-las na caixinha, aproveitou o pouco lugar que restava para deitar dentro os 20 guinéus, e fechou a caixinha o melhor que pode.
Depois examinou o cinto.
O couro, outrora envernizado pela parte de fora, não o era no interior. Aí estavam traçadas algumas letras com tinta gordurosa.
Gilliatt decifrou as letras e leu: Sr. Clubin.


HÁ LUGAR PARA ALOJAR-SE A MORTE NO INTERVALO QUE SEPARA 6 POLEGADAS DE 2 PÉS[editar]

Gilliatt meteu outra vez a caixinha no cinto, e pós o cinto na algibeira da calça.
Deixou o esqueleto aos caranguejos com a pieuvre morta ao pé.
Enquanto Gilliatt esteve com a pieuvre e o esqueleto, a maré enchente tinha tapado o bocal da entrada. Gilliatt só pode sair mergulhando por baixo do arco. Foi-lhe fácil; conhecia a saída, e era mestre nessas ginásticas do mar.
Adivinhava-se o drama que se passara ali dez semanas antes. Um monstro agarrara o outro. A pieuvre agarrara Clubin.
Foi isso, na sombra inexorável, o que se poderia chamar o encontro das hipocrisias. Houve, no fundo do abismo, um embate dessas duas existências feitas de emboscada e de trevas, e uma, que era a besta, executou a outra, que era a alma. Sinistras justiças.
O caranguejo alimenta-se da carne morta, a pieuvre alimenta-se de caranguejos. A pieuvre apanha um animal que nada, uma lontra, um cão, um homem se pode, bebe-lhe o sangue, e deixa no fundo da água o corpo morto. Os caranguejos são escaravelhos necróforos do mar. Atrai-os a carne pútrida; eles aproximam-se, comem o cadáver; a pieuvre os come depois. As coisas mortas desaparecem no caranguejo, o caranguejo desaparece na pieuvre. Já indicamos esta lei.
Clubin foi o engôdo da pieuvre.
A pieuvre reteve-o e afogou-o; os caranguejos o devoraram. Alguma vaga o levou para aquela cava, no fundo da anfratuosidade onde Gilliatt o achou.
Gilliatt voltou, procurando nos rochedos outra coisa que não fosse caranguejos. Parecer-lhe-ia comer carne humana.
Demais, ele tratava de cear o melhor possível antes de partir. Já nada o retinha no rochedo. As grandes tempestades são sempre seguidas de uma calma que dura muitos dias às vezes. Nenhum perigo havia ainda quanto ao mar. Gilliatt estava resolvido a partir no dia seguinte de manhã. Era conveniente conservar durante a noite, por causa da maré, o tapamento ajustado entre as Douvres; mas Gilliatt contava desfazer de madrugada essa tapagem, empurrar a pança para fora, e abrir vela para Saint-Sampson. A brisa de calma que soprava, e que era sudoeste, era exatamente o vento que lhe era preciso.
Entrava o primeiro quarto de lua de maio; os dias eram longos.
Quando Gilliatt, terminada a pesquisa dos rochedos e mais ou menos satisfeito do estômago, voltou para a garganta das Douvres, onde estava a pança, já o sol caíra no poente, e o crepúsculo redobrava com aquele meio luar que se pode chamar o luar do crescente; a maré, que tinha enchido completamente, começava a vazar. O cano da máquina, de pé acima da pança, estava coberto pela espuma da tempestade de uma camada de sal que a lua embranquecia.
Isto lembrou a Gilliatt que a tempestade deitara, dentro da pança, muita água de chuva e do mar, e que, se quisesse partir no dia seguinte, era preciso esvaziar a barca.
Tinha verificado, ao deixar a pança para ir procurar caranguejos, que havia cerca de 6 polegadas de água no porão. A pá de esgoto bastaria para deitar essa água fora.
Chegando à pança, Gilliatt teve um movimento de terror. Havia na pança perto de 2 pés de água.
Incidente terrível, a pança fazia água.
Enchera-se pouco a pouco durante a ausência de Gilliatt. Carregada como estava, 20 polegadas de água eram sobreposse. Mais um pouco e a pança iria a pique. Se Gilliatt chegasse uma hora mais tarde, só acharia fora da água o casco e o mastro.
Não podia perder um minuto em deliberação.
Era preciso procurar o buraco, tapá-lo, depois esvaziar a barca, ou ao menos aliviá-la. As bombas da Durande tinham-se perdido no naufrágio; Gilliatt estava reduzido à pá de esgoto.
Procurar o buraco, antes de tudo. Era o mais urgente.
Gilliatt pós mãos à obra, sem mesmo dar-se tempo de vestir, e todo trêmulo. Já não sentia fome, nem frio.
A pança continuava a encher. Felizmente não havia vento. O menor abalo da onda meteria a pança a pique.
A lua desaparecera.
Gilliatt, às apalpadelas, curvado, mergulhado mais de metade na água, levou muito tempo na pesquisa. Afinal encontrou a avaria.
Durante a tempestade, no momento crítico em que a pança se arqueava, a robusta barca tinha batido violentamente contra o rochedo. Um dos relevos da pequena Douvre fizera-lhe uma fratura no casco, a estibordo.
Este buraco estava infelizmente, podia-se quase dizer perfidamente, situado perto do ponto do encontro das duas porcas, o que, junto ao aturdimento da tempestade, impedia Gilliatt, na revista obscura e rápida que fizera, com o temporal, de descobrir o estrago.
A fratura assustava porque era larga, e tranqüilizava porque, embora imersa neste momento pela enchente interna da água, ficava acima do lume da água.
No momento em que rompeu o buraco, a vaga era loucamente sacudida no estreito, e já não havia nível de flutuação, a onda penetrara pela refração na pança; a pança, com mais essa carga, mergulhou algumas polegadas, e, mesmo depois do apaziguamento das vagas, o peso do líquido filtrado, fazendo levantar a linha de flutuação, manteve o buraco debaixo da água. Daí vinha a iminência do perigo. A cheia aumentara de 6 polegadas a 20. Mas, conseguindo tapar o buraco, podia-se esvaziar a pança; esvaziada a pança, voltaria à flutuação normal, a fratura sairia da água, e a seco, a reparação seria fácil, ou ao menos possível. Gilliatt, como dissemos, tinha ainda a ferramenta de carpintaria em bom estado.
Mas quantas incertezas antes de chegar a isso! Quantos perigos! Quantas más probabilidades! Gilliatt ouviu a água correr inexoravelmente. Um empuxão e tudo iria a pique. Que desgraça! Talvez já não fosse tempo.
Gilliatt acusou-se amargamente. Deveria ter visto a avaria. As 6 polegadas de água no porão deviam te-lo advertido. Foi estupidez atribuir as 6 polegadas de água à chuva e à espuma. Exprobrou-se o ter dormido e o ter comido; exprobrou-se a fadiga, e quase também a tempestade e a noite. Tudo era culpa dele.
Essas coisas duras, que ele dizia a si próprio, iam de envolta com o vaivém do trabalho e não o impediam de observar.
Achar o buraco era o primeiro passo; tapá-lo era o segundo. Não se podia mais agora. Não se faz carpintaria debaixo da água.
Havia uma circunstância favorável, era que o buraco do casco foi aberto no espaço compreendido entre as duas correntes que prendiam a estibordo o cano da máquina. A estopa podia prender-se a essas correntes.
Entretanto, a água subia. Já passava de 2 pés.
Gilliatt tinha água acima dos joelhos.

"DE PROFUNDIS AD ALTUM"[editar]

Gilliatt tinha à sua disposição, na reserva do aparelho da pança um grande pano alcatroado com as competentes cordas longas nas quatro pontas.
Pegou nesse pano, amarrou dois cantos pelos cabos às duas argolas das correntes do cano do lado do buraco, e atirou o pano por cima da borda. O pano caiu como uma toalha entre a pequena Douvre e a barca, e mergulhou. A água, querendo entrar na pança, aplicou-o ao casco sobre o buraco. Quanto mais a água batia, mais aderia o pano. Foi colocado pela vaga sobre a fratura. A chaga da barca estava pensada.
A lona alcatroada interpunha-se entre o interior do porão e as vagas de fora. Já não entrava nem gota de água sequer.
O buraco estava tapado, mas não estopado.
Era uma espera.
Gilliatt começou a esvaziar a pança. Era tempo de aliviá-la. O trabalho aqueceu-o um pouco, mas extrema era a fadiga. Gilliatt confessava que não iria ao fim e não chegaria a estancar o porão.
Gilliatt comera muito pouco, e tinha a humilhação de sentir-se extenuado.
Media o progresso dos trabalhos pela baixa do nível da água nos seus joelhos. A descida era lenta.
Além disso a entrada da água estava apenas interrompida. O mal estava paliado, mas não reparado. O pano, empurrado na fratura pela vaga, começava a fazer um tumor pelo lado de dentro. Parecia que havia uma mão fechada debaixo do pano, procurando romper o buraco. A lona, sólida e alcatroada, resistia; mas o inchamento e a tensão iam aumentando; não era certo que o pano não cedesse, e, de um momento para outro, o tumor poderia romper. Recomeçaria então a irrupção da água.
Em tal caso, as equipagens em perigo o sabem, não há outro recurso mais que um batoque. Apanham-se trapos de toda a espécie, o que se acha àmão, tudo quanto a língua especial chama forro e mete-se o mais que pode na fenda do tumor da lona.
Desse forro Gilliatt não tinha nenhum. Todos os panos e estopas armazenados foram empregados no trabalho ou dispersos pelo vento.
Podia achar alguns restos no rochedo, quando muito. A pança já estava bastante aliviada, e ele podia ausentar-se um quarto de hora; mas como procurar sem luz? Completa era a escuridão. Já não havia lua; apenas o sombrio céu estrelado. Gilliatt não tinha fios secos para fazer uma mecha, nem sebo para fazer uma vela, nem fogo para acende-la, nem lanterna para abrigá-la. Tudo estava confuso e indistinto na barca e no escolho. Ouvia a água rumorejar à roda do casco ferido, nem sequer podia ver o buraco; foi com as mãos que Gilliatt pode averiguar a tensão crescente do pano. Era impossível fazer naquela obscuridade uma pesquisa útil de pedaços de lona e massame esparços nos cachopos. Como colher esses andrajos sem luz? Gilliatt contemplava tristemente a noite. Todas as estrelas e nem uma vela.
A massa líquida diminuíra na barca, a pressão externa aumentara.
Crescia o inchamento do pano. Intumescia-se cada vez mais. Era um abscesso prestes a abrir. A situação, um momento melhorada, tornava-se ameaçadora.
Era imperiosamente necessário um batoque.
Gilliatt apenas tinha as suas roupas.
Tinha-as posto a secar nas saliências do rochedo da pequena Douvre.
Foi buscá-las, e depositou-as na borda da pança.
Pegou no capote alcatroado e, ajoelhando-se na água, meteu-o no buraco, empurrando o tumor do pano para fora, e portanto esvaziando-o. Depois meteu a pele de carneiro, depois a camisa de lã, depois a japona. Tudo.
Tinha apenas uma roupa, tirou-a, e com a calça engrossou e apertou o batoque. Estava pronto e não parecia insuficiente.
O batoque saía pelo buraco, tendo o pano por invólucro.
A água querendo entrar, apertava o obstáculo, alargava-o utilmente na fratura, e consolidava-o. Era uma espécie de compressa exterior.
Nó interior, tendo sido empurrado apenas o centro da lona, ficava à roda do buraco e do batoque em rolete circular do pano tanto mais aderente quanto que as desigualdades da fratura o retinham.
A via da água estava tapada.
Mas nada mais precário do que aquilo. Os relevos agudos da fratura que fixavam o pano pediam furá-lo e, por esses buracos, entraria a água. Gilliatt, na obscuridade, não descobria isso. Era pouco provável que o batoque durasse até de manhã. A ansiedade de Gilliatt mudou de forma, mas ele sentia-a crescer ao mesmo tempo que sentia quebrarem-se-lhe as forças.
Continuou a esvaziar o porão, mas os seus braços, no extremo esforço apenas podiam levantar a pá da água. Estava nu e tremia.
Gilliatt sentia a aproximação sinistra da extremidade. Talvez houvesse uma vela ao largo, um pescador que por acaso passasse nas águas de Douvres podia ajudá-lo. Era chegado o momento em que se tornava necessário um colaborador. Um homem e uma lanterna, e tudo estaria salvo. Sendo dois, esvaziava-se facilmente a barca; uma vez estancada, sem aquela sobrecarga líquida, voltaria ao nível de flutuação, o buraco sairia da água, o reparo seria exeqüível, podia-se imediatamente substituir o batoque por uma peça de madeira, e o aparelho provisório por um conserto definitivo.
Senão, era preciso esperar até de manhã, esperar a noite toda! Funesta demora que podia ser a perdição. Gilliatt tinha a febre da urgência. Se por acaso algum farol de navio estava à vista, Gilliatt poderia fazer sinais do alto da grande Douvre. O tempo estava calmo, não havia vento, não havia mar, um homem agitando-se no fundo estrelado do céu tinha a possibilidade de ser visto. Um capitão de navio, e mesmo um patrão de lancha, não anda de noite nas águas das Douvres sem por o óculo no escolho; é a precaução.
Gilliatt esperava que o vissem.
Escalou o casco da Durande, empunhou a corda e subiu à grande Douvre.
Nenhuma vela no horizonte. Nenhum farol.
A água estava deserta a perder de vista.
Nenhuma assistência possível e nenhuma resistência possível. Gilliatt, coisa que até então não sentira, sentiu-se desarmado.
A fatalidade obscura assenhoreara-se dele. Ele, com a barca, com a máquina da Durande, com o trabalho, com o bom êxito, com a coragem, tudo isso pertencia ao golfão. Já não tinha recurso de luta; tornava-se passivo. Como impedir a maré e a noite? O batoque era o único ponto de apoio. Gilliatt exaurira-se em compo-lo e completá-lo; fortificá-lo é que já não podia; o batoque devia ficar assim e fatalmente tinha acabado todo o esforço. O mar tinha à sua discrição aquele aparelho prematuro aplicado ao buraco. Como resistiria aquele obstáculo inerte? Chegara-lhe a vez de combater, depois de Gilliatt. Entrava o trapo, retirava-se o espírito. O intumescimento de uma onda bastava para abrir a fratura. Maior ou menor pressão, a questão era essa.
O desfecho ia nascer por uma luta maquinal entre duas quantidades mecânicas. Gilliatt não podia, agora, nem ajudar o auxiliar, nem impedir o inimigo. Era apenas o espectador da sua vida ou da sua morte. Aquele Gilliatt que tinha sido uma providência foi substituído no supremo instante por uma resistência inconsciente.
Nenhuma das provas e dos pavores que Gilliatt atravessara era igual a esta.
Chegando ao escolho Douvres, viu-se cercado, como que agarrado pela solidão. A solidão fazia mais que cercá-lo, envolvia-o. A um tempo mais de mil ameaças o desaflavam. O vento estava ali, prestes a soprar; ali estava o mar, prestes a rugir. Era impossível amordaçar a goela ao vento, era impossível desarmar a boca do mar. E contudo tinha ele combatido; homem, lutara corpo a corpo com o oceano, engalfinhara-se com a tempestade.
Tinha afrontado outras ansiedades e necessidades. Pelejou contra outros perigos. Foi-lhe preciso trabalhar sem ferramenta, carregar fardos sem auxílio, resolver problemas sem ciência, comer e beber sem provisões, dormir sem leito e sem teto.
Naquele rochedo, ecúleo trágico, puseram-lhe a questão as diversas fatalidades iníquas da natureza, mãe quando quer, algoz quando lhe apraz.
Venceu o isolamento, venceu a fome, venceu a sede, venceu o frio, venceu a febre, venceu o trabalho, venceu o sono. Encontrou no caminho os obstáculos coalizados. Depois da nudez, o elemento; depois da maré, a tempestade; depois da tempestade, a pieuvre; depois do monstro, o espectro.
Lúgubre ironia final. Naquele escolho donde Gilliatt contava sair triunfante, Clubin morto olhara rindo para ele.
Tinha razão o riso do espectro. Gilliatt via-se perdido. Via-se tão morto como Clubin.
O inverno, a fome, a fadiga, o desaparelhar do casco, o transporte da máquina, o equinócio, o vento, o trovão, a pieuvre, tudo isso nada era ao pé do arrombamento da pança. Podia-se ter, e Gilliatt os teve, contra o frio, o fogo; contra a fome, as conchas; contra a sede, a chuva; contra as dificuldades, a indústria e a energia; contra a maré e a tempestade, o quebra-mar; contra a pieuvre, a faca. Contra o arrombamento, nada.
O furacão deixava-lhe aquele adeus sinistro. Última repetição, pérfida estocada, ataque sorrateiro do vencido ao vencedor. A tempestade fugitiva lançava-lhe aquela flecha. A derrota olhava para trás e feria. Era o coup de Jarnac do abismo.
Combate-se a tempestade; mas como combater um esgoto?
Se o batoque cedesse, nada podia impedir que a pança fosse a pique. Era a ligadura da artéria que se rompe. E apenas fosse ao fundo da água, com a máquina dentro, não havia meio de arrancá-la.
O magnânimo esforço de dois meses titânicos acabava por um aniquilamento. Recomeçar era impossível. Gilliatt já não tinha nem forja, nem materiais. Talvez tivesse ele de ver, ao romper do dia, mergulhar-se lentamente. e irremediavelmente toda a sua obra no golfão.
Coisa assustadora é sentir debaixo de si a força sombria.
O golfão atraía-o.
Engolida a barca, restava-lhe morrer de fome e de frio como o náufrago do rochedo Homem.
Durante dois longos meses, as consciências e as providências que existem no invisível tinham assistido a isto: de um lado a extensão, as vagas, os ventos, os relâmpagos, os meteoros, do outro lado um homem; de um lado o mar, do outro uma alma; de um lado o infinito, do outro um átomo.
E houve batalha.
E abortava talvez aquele prodígio.
Assim chegou à impotência o inaudito heroísmo, acabava-se pelo desespero aquele formidável combate, aquela luta de Nada contra Tudo, aquela Ilíada de um.
Gilliatt, desvairado, contemplava o espaço.
Nem mesmo tinha roupa, estava nu diante da imensidade.
Então, no acabrunhamento de toda aquela enormidade desconhecida, não sabendo já o que queriam dele, confrontando-se com a sombra, em presença daquela obscuridade irredutível, no rumor das águas, das ondas, dos marulhos, das espumas, das lufadas, debaixo das nuvens, debaixo dos ventos, debaixo da vasta força esparsa, debaixo daquele misterioso firmamento das asas, dos astros e das tumbas, debaixo da intenção possível das coisas desmesuradas, tendo à roda de si e em baixo de si o oceano, e acima as constelações, debaixo do insondável, Gilliatt abateu-se, desistiu, deitou-se ao comprido sobre a rocha, voltado para as estrelas, vencido, e pondo as mãos diante da profundeza terrível, bradou ao infinito: Piedade!
Abatido pela imensidade, Gilliatt implorou.
Estava só naquela noite, em cima daquele rochedo, no meio daquele mar, caído de cansaço, nu como o gladiador no circo, tendo em vez do circo o abismo, em vez das feras as trevas, em vez dos olhos do povo o olhar do ignoto, em vez das vestais as estrelas, em vez de César, Deus.
Pareceu-lhe que se dissolvia no frio, no cansaço, na impotência, na oração, na sombra e fecharam-se-lhe os olhos.

HÁ UM OUVIDO NO IGNOTO[editar]

Correram algumas horas.
O sol levantava-se deslumbrante.
O seu primeiro raio iluminou na plataforma da grande Douvre uma forma imóvel. Era Gilliatt.
Continuava estendido em cima do rochedo.
Já não estremecia aquela nudez gelada e endurecida. Estavam lívidas as pálpebras fechadas. Era difícil dizer que não era um cadáver.
O sol parecia contemplá-lo.
Se aquele homem nu não estava morto, devia estar tão perto disso que bastaria o menor vento frio para acabá-lo.
Começou a soprar o vento, tépido e vivificante; era o hálito vernal de maio.
Entretanto, o sol subia no profundo céu azul; o seu raio menos horizontal ia-se purpureando. A luz fez-se calor. Cingiu Gilliatt.
Gilliatt não se mexia. Se respirava, era uma respiração quase extinta que mal poderia embaciar um espelho.
O sol continuava a sua ascensão cada vez menos oblíqua sobre Gilliatt. O vento, que era tépido ao princípio, tornou-se cálido.
Aquele corpo rígido e nu- continuava sem movimento; entretanto a pele parecia menos lívida.
O sol, acercando-se do zênite, caía a prumo sobre a plataforma da Douvre. Vertia do alto do céu uma prodigalidade de luz; juntava-se a ela a vasta reverberação do mar tranqüilo, o rochedo começava a ficar tépido e aquecia o homem.
O peito de Gilliatt levantou-se com um suspiro.
Vivia.
O sol continuava as suas carícias, quase ardentes. O vento, que já era o vento do meio-dia, e o vento de verão, aproximava-se de Gilliatt como uma boca, soprando molemente.
Gilliatt fez um movimento.
Era inexprimível a tranqüilidade do mar, tinha um murmúrio de ama ao pé do filho. As vagas pareciam embalar o escolho.
As aves marinhas que conheciam Gilliatt voavam inquietas por sobre ele. Já não era o medo selvagem do princípio. Era um que de terno e fraternal. Soltavam pequenos guinchos. Pareciam chamá-lo; uma gaivota que o amava, sem dúvida, teve a familiaridade de descer para junto dele. Começou a falar-lhe. Ele não parecia ouvi-la.
Ela saltou-lhe sobre o ombro e começou a brincar docemente com o bico nos seus lábios.
Gilliatt abriu os olhos.
Os pássaros, alegres e ariscos, voaram.
Gilliatt levantou-se e espreguiçou-se como o leão acordando, correu a bordo da plataforma e olhou para o intervalo das Douvres.
A pança estava intata. O batoque resistira; provavelmente o mar maltratara-o pouco.
Tudo estava salvo.
Gilliatt já não estava cansado. Refizeram-se-lhe as forças. O desmaio foi um sono.
Esvaziou a pança, pás a avaria fora da flutuação, vestiu-se, bebeu, comeu, tornou-se alegre.
O buraco, examinado de dia, demandava mais trabalho do que Gilliatt pensou. Era uma grande avaria. Gilliatt gastou o dia inteiro em repará-lo.
No dia seguinte, de madrugada, depois de desfazer a tapagem e abrir a saída do estreito, vestido com os andrajos que tinham vencido a avaria, tendo consigo o cinto de Clubin e os 75 000 francos, em pé na pança consertada, ao lado da máquina salva, com um vento de feição e mar admirável, Gilliatt: saiu do escolho Douvres.
Aproou sobre Guernesey.
No momento em que se afastava do escolho, alguém que lá estivesse ter-lo-ia ouvido entoar a meia voz a canção "Bonny Dundee".