Os Trabalhadores do Mar/Parte III/Livro III/IV

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IV.


«PARA TUA MULHER QUANDO TE CASARES.»


Sahindo da igreja viram o Cashmere que começava a apparelhar.

— Chegam a tempo, disse Gilliatt.

Seguiram pelo caminho da Angrazinha.

Os dous iam adiante, Gilliatt agora caminhava atraz.

Eram dous somnambulos. Mudára apenas o atordoamento. Não sabiam nem onde estavam nem o que faziam; apressavam-se machinalmente, não se lembravam da existencia de cousa alguma, sentiam-se um outro, não podiam ligar duas idéas. Não póde pensar quem está em extasis, como não póde nadar quem está n’uma torrente. Pareciam ir penetrando n’um paraiso. Não se fallavam, conversavam com a alma. Deruchette apertava contra si o braço de Ebeneser.

O passo de Gilliatt atraz delles fazia-lhes ver que elle estava presente. Iam profundamente commovidos, mas sem dizer palavra; o excesso da commoção transforma-se em estupefacção. A delles era deliciosa, mas acabrunhava. Estavam casados. Adiavam o resto, esperavam voltar, o que Gilliatt fez era bem feito, eis tudo. O fundo desses dous corações agradecia-lhe ardente e vagamente. Deruchette dizia comsigo que havia alguma cousa para deslindar, mais tarde. Entretanto, aceitavam o facto. Sentiam-se á discrição daquelle homem decisivo e subito, que, por autoridade, fazia a felicidade delles dous. Fazer-lhes perguntas, conversar com elle, era impossivel. Eram de sobejo as impressões que se lhes precipitavam em cima ao mesmo tempo. Estavam engolphados; era perdoavel.

Os factos são ás vezes uma saraiva. Crivam a creatura. Ensurdecem. A precipitação dos incidentes, cahindo em existencias habitualmente calmas, tornam logo inintelligiveis os acontecimentos aos que os soffrem ou delles se aproveitam. Não se póde conhecer a sua propria ventura. Fica-se esmagado sem adivinhar, venturoso sem comprehender. Deruchette, em particular, desde algumas horas recebera todas as commoções; primeiramente a fascinação, Ebeneser no jardim; depois o pesadelo, aquelle monstro declarado seu marido; depois a desolação, o anjo abrindo as azas e prestes a partir; agora era a alegria, uma alegria inaudita, com um fundo indecifravel; o monstro dava-lhe o anjo; o casamento sahia da agonia; o Gilliatt, catastrophe de hontem, salvação de hoje. Deruchette não comprehendia nada. Era evidente que desde manhã Gilliatt não teve outra occupação se não a de casal-os; fez tudo; respondeu por mess Lethierry, fallou ao decano, pedio licença, assignou a declaração necessaria; eis-ahi como se realisou o casamento. Mas Deruchette não comprehendia nada; de mais, mesmo quando ella comprehendesse o como, não comprehenderia o porque.

Fechar os olhos, agradecer mentalmente, esquecer a terra e a vida, deixasse levar para o céo por aquelle bom demonio, eis o que lhe cumprir fazer. Esclarecer seria longo, agradecer não seria bastante. Deruchette calava-se naquelle doce embrutecimento da ventura.

Restava-lhe ainda algum pensamento, sufficiente para guial-a. Debaixo d’agua ha pedaços de esponja que ficam brancos. Elles tinham a somma de lucidez necessaria para distinguir o mar da terra e o Cashmere de qualquer outro navio.

Dentro de poucos minutos estavam elles na Angrazinha.

Ebeneser foi o primeiro a entrar no bote. No momento em que Deruchette ia acompanhal-o, sentio a sua manga docemente puxada. Era Gilliatt que tinha posto um dedo numa dobra do vestido.

— Senhora, disse elle, não esperava partir. Eu cuido que naturalmente ha de precisar de vestidos e roupa. Achará a bordo do Cashmere um caixotinho com objectos de mulher. Foi minha mãe quem m’o deu. Era destinado á mulher com quem eu casasse. Consinta que lh’o offereça.

Deruchette accordou a meio do sonho em que estava. Voltou-se para Gilliatt. Gilliatt, em voz baixa e que mal se ouvia, continuou:

— Agora, não é para demoral-a, mas, olhe, eu creio que devo explicar-lhe uma cousa. No dia em que houve aquella desgraça, a senhora estava assentada na sala baixa, e disse umas palavras. Não se lembra disso, é natural. Ninguem é obrigado a lembrar-se das palavras que diz. Mess Lethierry soffria muito. A verdade é que era um bello navio e prestimoso. O desastre aconteceu; a terra estava alvoroçada e compungida, são cousas que naturalmente se esquecem. Só havia aquelle navio perdido na costa. Não se pode pensar sempre em um accidente. Sómente o que eu queria dizer é que, como se dizia que ninguem era capaz de lá ir, eu fui. Diziam elles que era impossivel; não era impossivel aquillo. Agradeço-lhe o prestar-me attenção por alguns instantes. Comprehende a senhora que se eu lá fui ao escolho, não foi para offendel-a. Demais, a cousa data de longe. Eu sei que está com pressa. Se houvesse tempo, fallariamos, recordariamos, mas isso de nada serve. A cousa data de um dia em que cahio neve. E depois eu passei uma vez, e cuido tel-a visto sorrir. É assim que tudo se explica. Quanto ao que se passou hontem, eu não tive tempo de ir á casa, acabava do trabalho, estava todo rasgado, metti-lhe medo, a senhora desmaiou, fiz mal, não se entra assim na casa dos outros, peço-lhe que me perdôe. É isto mais ou menos o que eu queria dizer-lhe. Vai partir. Tem um bello tempo. Acha justo que eu lhe fallo, não? é o ultimo minuto.

— Penso na caixinha, respondeu Deruchette. Por que não hade guardal-a para sua mulher, quando se casar?

— Senhora, disse Gilliatt, provavelmente eu não me casarei nunca.

— Pois é pena, porque é uma boa alma. Obrigada.

E Deruchette sorrio. Gilliatt retribuio-lhe com outro sorriso.

Depois ajudou Deruchette a entrar no escaler. Menos de um quarto de hora depois, o escaler onde iam Ebeneser e Deruchette atracava ao Cashmere.