Os Vilhancicos/I

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Os Vilhancicos por Joaquim Mendes dos Remédios
Parte I


DURANTE um século pouco mais ou menos — desde o primeiro quartel do XVII até o primeiro quartel do XVIII — cultivou-se em Portugal com verdadeira paixão, podia mesmo afirmar-se, com absorvente frenesi, um género simultâneamente literário e musical, que pertence hoje e desde há muito aos domínios da arqueologia, estando até prestes a desaparecer sem que dêle fique gravado, como convêm, o registo devido para os efeitos, pelo menos, do mero informe bibliográfico.([1]) Quero referir-me aos Vilhancicos, breves composições destinadas a serem cantadas em solenidades religiosas, particularmente nas matinas do Natal e dos Reis e ainda nas festas de Nossa Senhora ou nas dos Santos a que a devoção popular prestava culto mais intenso e carinhoso — S. Vicente, por exemplo, o padroeiro de Lisboa, Santa Cecília, a advogada dos músicos,([2]) S. Gonçalo, o bom casamenteiro, etc.

Poetas mais ou menos favorecidos — em regra, menos, — das esquivas Musas inspiradoras, compunham em vários metros e complicadas estanças os trechos rebuscados, que algumas vezes êles próprios vestiam de sua música apropriada e que outras, e era o caso mais freqüente, passavam ao compositor, que ali deixaram o registo do seu saber e da sua mestria — fazendo-os cantar quer sòmente a vozes quer com acompanhamento de instrumentos, sendo outros, o menor número, apenas em recitativo.

A nota mais simpática, que hoje conseguimos apreender em tam pequenos trechos, ressequidos pela acção do tempo e reduzidos ao quási total olvido em que se nos deparam, é o tal ou qual perfume rústico, ingénuo, simples, e até de quando em quando gracioso, que dêles se desprende como de pétalas de rosas aromaticas esquecidas numa antiga boceta violada pela nossa curiosidade.

De cunho essencialmente popular na sua estrutura e organização, prendendo-se por um élo longinquo aos mistérios e autos medievos, os Vilhancicos tambem conheceram a sua época de grandeza e se ornaram do nimbo aristocrático e cortesão, sendo de regra ouvirem-se nas festas palacianas, na Capela Real, em tempos de D. Pedro II e de D. João V cantados por artistas famosos nacionais e estrangeiros, escutando-se igualmente nas Catedrais, como na Sé Velha de Coimbra, em tempos dos Bispos D. João de Melo e D. António de Vasconcelos e Sousa, nas Igrejas conventuais, onde primavam organistas e cantochanistas famosos, e vindo, enfim, até às modestas igrejas paroquiais e outras, onde concorria a multidão dos fieis para os ouvir com interêsse bem compreensivel, pois lhes falavam ao sentimento e ao coração.

Como viviam ao calor da alma popular, logo morreram no dia em que letra e música já não satisfaziam os mais exigentes, e em que o teor dramático e teatral os apontou aos dirigentes da Igreja como impróprios dos lugares em que se desempenhavam.

E lentamente fôram morrendo até desaparecerem de todo em tempo ainda de D. João V, há precisamente duzentos anos ([3]), o que nos sugeriu a idéa de fazer acêrca dêles circunstanciada notícia, preenchendo a lacuna da história literária existente e aproveitando o ensejo da fortuna, que nos trouxe à mão nada menos que quatro volumes tam raros, como preciosos, desta espécie.

Aí os temos agora petrificados na, tristeza de pequenos folhetos amarelados e poeirentos sobre que passaram gerações indiferentes. Do carinho de outrora não conhecem hoje senão a indiscreção doentia, não deixará de haver quem diga, fatigante e inutil, anotará por ventura o maior número, de quem ainda sôbre êles se debruça com vária curiosidade nunca saciada.

Raros e pobres papeis tam frageis e tam esquecidos!

Como eu vos estimo sob êste pó de tantos séculos volvidos!

Como eu vos folheio com respeito, sobressaltado sempre que uma sigla despreocupada me indica a proveniência donde viestes, indignado contra quem já vos maltratou, baralhando-vos, truncando-vos, cortando-vos sacrilegamente as vossas páginas fatigantes, meio desfeitas pelo inexoravel dobar dos anos!

 

Raros e pobres papeis tam frageis e tam esquecidos, sois um símbolo da vida. Flores, perfumes, cantos, toda a grandeza, todo o interêsse, reis, grandes, gente humilde — o que vos rodeou e fez amar — tudo passou ao tufão do tempo. Nada do que vos acarinhou subsiste. E foi ainda mercê do desprezo a que fôstes votados que chegastes até nós, perdidos em esconsos e bolorentos escaninhos de velhos armários — pelo que vos posso estudar — profanando-vos, afinal, o silencio e o esquecimento.

  1. Veio-nos o nome de Espanha: «Villancico, de villano, composicion poetica popular con estribillo, y especialmente la de un assunto religioso que se canta en las iglesias en Navidad y otras festividades», lê-se na Encicl. Española. Os mesmos dizeres mutatis mutandis aparecem em todos os dicionários, quando não remetem simplesmente para Vilancete, que deve considerar-se diferente.
  2. Santa Cecília teve Irmandade erecta em Lisboa atribuïndo-se a sua fundação ao célebre Pedro Talesio, primeiro Mestre de Capela na Catedral de Granada e Professor de música na Universidade de Coimbra. Cfr. Sr. Joaquim de Vasconcelos, Músicos Portugueses, II, 192-194, onde escreve que existia uma Colecção completa dos Vilhancicos cantados em honra de Santa Cecília, sendo os primeiros de 1702 indo até 1722, sem interrupção. No mesmo logar transcreve uma pequena amostra dum Vilhancico para dar ao leitor «conhecimento da forma poética dêste género de composição sacra, já que infelizmente não podemos acompanhar o verso com a música correspondente».
  3. Ernesto Vieira, Diccionário Biographico de Musicos portugueses, II, pg. 29, onde afirma que fôram proíbidos em 1723 por ordem dêsse Monarca.