Os Vilhancicos/VII

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Os Vilhancicos por Joaquim Mendes dos Remédios
Parte VII


Sucedeu o que era inevitavel. Os Vilhancicos foram desaparecendo pouco a pouco. O caracter mais que profano, que lhe deixamos assinalado, bem indicava que o seu logar não era já no templo. E com efeito lá acabam, para vir novamente até à fonte donde surgiram. Executados sobretudo nas festividades do Natal e Reis, nestas continuaram entre o povo, nas aldeias, cantados por gente humilde em toadas ingénuas, dialogadas a vozes ou com acompanhamento de instrumentos, numa enscenação de trajos rústicos, tudo farto motivo a alegria e risos inofensivos e, no fim, razoavel colheita de ofertas para os executantes do popular e gracioso auto.

Bons tempos! velhos tempos já!

Enquanto na lareira ardia o grosso madeiro que durava dias e dias quase em perene brazido e em volta parentes e amigos entretinham os serões descansando das fadigas, ou via-se da porta o costumado:

Menino Jesus Nazaré,
Quer que cá cante?

E era um tropel de cachopinhos que aparecia, à frente o rapaz que segurava o cestinho de verga onde, entre palhinhas, estava deitado o Menino. Risos, atenções e, feito o silencio, os moços que principiavam agrupados em córos:

1. Ó meu Menino Jesus,
Ó meu Menino tam belo,
2. Onde vieste a nascer
No rigor do caramelo.
1. A Virgem quando caminha,
Caminha para Belem,
2. Co seu Menino nos braços,
Que lhe pede de comer.
1. Não ha que comer, Menino,
Não ha que comer, meu bem.
2. Lá em cima está uma quinta,
Ó que ricas maçãs que tem!
O quinteiro, que nela assiste,
Cego é, que nada vê.
1. Dá-me uma maçã, quinteiro,
Pró meu Menino comer.
3. Entre a Senhora cá dentro,
Coma mil, quantas quiser.
1. A Senhora como humilde,
Não comeu mais que três:
Uma deu ao seu Menino,
Outra deu a S. José,
Outra ficou no regaço,
Para a Senhora comer.
2. O menino comia a maçã,
E o cego se punha a ver.
1. Quem te deu a vista, cego?
Quem te fez tam grande bem?
1. Foi a Virgem Nossa Senhora,
Mais seu Menino tambem![1].

Fazia-se nesta altura a colheita pelos donos da casa e tudo abalava de roldão, em risadas alegres, em demanda de novo auditório.

Seguiam-se os Reis, de que damos, colhidos na mesma veia popular os cânticos, entoados por córos de vozes em diálogo:

1. Já lá vem (n)a Barca Nova,
Que fizeram (n)os pelingrinos.
2. Vai Nossa Senhora nela,
Toda cheia de cravinhos.
1. Já lá vem (n)a Barca-Nova,
Que fizeram (n)os pastores.
2. Vai Nossa Senhora nela,
Toda cheia de felôres.
1. Já lá vem (n)os tres Cavaleiros,
Que fazem sombra no mar.
2. Sam os tres do Oriente,
Que a Jesus vem buscar.
1. Não o encontraram na vila,
Nem tam pouco no logar,
Fôram dar com ele em Roma
Revestido no altar..

Já não haverá senão vagas reminiscências por alguns recantos perdidos de Portugal destas costumeiras representativas de doces e tranquilas crenças. As cerimónias do Natal, como as da Semana Santa, como tantas outras festas do culto católico, eram sempre pretexto para uma expansão de sentimentos de suave afecto familiar e social. Os que pretendem aniquilá-las ou substitui-las dar-nos ham em compensação a tranquilidade e a alegria, que elas nos proporcionavam?

Damos, em seguida, a título documentário um Vilhancico, integral, desde a portada, que reproduzimos.

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  1. Colhido na tradição oral directamente, em Niza, terra natal do autor. A lingoagem peculiar da localidade, a toada da música, ainda hoje tam divulgada e conhecida, os trajos, a ocasião, tudo ajuntava encanto sui generis à representação ingénua dêstes cânticos do Natal e dos Reis.