Ouve, Magano, a voz, de quem te canta

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Ao louco desvaneccimento, com que este frade tirando esmollas cantava regaçando o habito por mostrar as pernas, com presunções de gentilhomem, bom mesmo, e boa voz.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsA Nossa Sé da Bahia

Ouve, Magano, a voz, de quem te canta
Em vez de doces passos de garganta
Amargos pardieiros de gasnate:
Ouve, sujo Alparcate,
As aventuras vis de um Dom Quixote
Revestido em remendo de picote.
  
Remendado dos pés até o focinho
Me persuado, que és Frade Antoninho:
Por Frei Basílio sais de São Francisco,
E entras Frei Basilisco,
Pois que deixas à morte as Putas todas,
Ou já pela má vista, ou pelas fodas.
  
Tu tens um membralhaz aventureiro,
Com que sais cada trique ao terreiro
A manter cavalhadas, e fodengas,
Com que as putas derrengas;
Valha-te: e quem cuidara, olhos de alpistre,
Que seria o teu membro o teu enristre!
  
Gabas-te, que se morrem as Mulatas
Por ti, e tens razão, porque as matas
De puro pespegar, e não de amores,
Ou de puros fedores,
Que exalam, porcalhão, as tuas bragas,
Com que matas ao mundo ou as estragas.
  
Dizem-me, que presumes de três partes,
E as de Pedro serão de malas artes:
Boa voz, boa cara, bom badalo,
Que é parte de cavalo:
Que partes podes ter, vilão agreste,
Se não sabes a parte, onde nasceste?
  
Vestido de burel um salvajola
Que partes pode ter? de mariola:
Quando o todo é suor, e porcaria,
A parte que seria?
Cada parte budum, catinga, e lodos,
Que estas as partes são dos Frades todos.
  
Não te desvaneça andar-te a puta ao rabo,
Que Joana Lopes dormirá c’o diabo;
E posto que a Mangá também forniques,
Que é moça de alfiniques,
Supõe, que tinha então faminta a gola,
E que te quis mamar o pão da esmola.
  
Não hão mister as putas gentilezas,
Que arto bonitas são, arto belezas:
O que querem somente, é dinheiro,
E se as cavalgas tu, pobre sendeiro,
É, porque dando esmolas, e ofertório,
Quando as pespegas, geme o refectório.
  
Prezas-te de galã, bonito, e pulcro,
E os fedores da boca é um sepulcro
A cães mortos te fede a dentadura,
E se há puta, que te atura
Tais alentos de boca, ou de traseiro,
É porque tu as incensas com dinheiro.
  
O hábito levantas no passeio,
E cuidas, que está nisso o galanteio,
Mostras a perna mui lavada, e enxuta,
Sendo manha de puta
Erguer a saia por mostrar as pernas,
Com que és hermafrodita nas cavernas.
  
Tu és Filho de um sastre de bainhas,
E botas muito mal as tuas linhas,
Pois quando fidalgão te significas,
A ti mesmo te picas,
E dando pontos em grosseiro pano,
Mostras pela entertela, que és magano.
  
Torna em teu juízo, louco Durandarte,
Se algum dia o tiveste, a quem tornar-te;
Teme a Deus, que em tão louco desatino
De algum celeste signo
Hei medo, que um badalo se despeça,
E te rompa a cabaça, ou a cabeça.
  
Se és Frade, louva ao Santo Patriarca,
Que te sofre calçar-lhe a sua alparca,
Que juro a tal, se ao século tornaras,
Nem ainda te fartaras
De ser um tapanhuno de carretos,
Por não ser mariola, onde há pretos.